quarta-feira, 29 de março de 2017

Produtos financeiros

Hoje inseri o meu cartão de débito já fora da validade num terminal multibanco e a máquina comeu-o. Ao que parece, as máquinas de multibanco não têm restrições a comerem cartões de débito fora da validade. Aliás, parece-me que são mesmo esses os únicos que comem, pois até agora, todos os cartões que eu tinha inserido ainda dentro da validade voltavam sempre regurgitados. Não me restou outra alternativa que não fosse entrar no banco. Para ser honesto — e porque não sê-lo? —, devo dizer que já não me lembrava da última vez que tinha entrado num banco. Entrei e fiquei perdido: não havia balcão nem ninguém do outro lado para me atender. Naquele espaço havia uns taipais e uns fulanos sentados do outro lado, cada um à sua secretária. O típico lugar onde se entra e se fica logo com a sensação de estar no meio — e eu que detesto essa sensação de estar no meio, especialmente em terreno desconhecido. Senti-me tão perdido que dei meia volta e me coloquei novamente em marcha, tentando lembrar-me de como era o tempo em que eu era feliz mesmo sem dinheiro. Já me aproximava da porta de saída — que coincidente e afortunadamente era a mesma de entrada — quando um dos fulanos, saindo nem sei de onde, me perguntou o que eu queria. Quase respondi "nada, desculpe foi engano" e saí daquele meio. Mas não, ganhei coragem e disse que queria dinheiro. "Dinheiro?", perguntou o fulano com cara de espanto. "Sim, dinheiro", respondi eu também espantado pela cara de espanto do fulano. "Aqui não é um banco?", pensei eu sem dizer. "Para dinheiro é melhor o multibanco", disse o fulano, provavelmente sem pensar. Não o disse de forma explícita, mas o que eu entendi do que disse a seguir é que agora os bancos (sem multi) estão mais vocacionados para vender produtos. Produtos financeiros, ao que parece. Nos tempos que correm, o dinheiro ao balcão — ou à secretária, para ser mais preciso —  também tem o seu preço. Em rigor, agora não se vai a um banco para levantar dinheiro, mas sim para comprar dinheiro. Mesmo que o dinheiro seja de quem o quer levantar!

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