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quarta-feira, 21 de março de 2012

Foi bom?

(Texto motivado pelo passatempo promovido por Cristina Torrão no blogue Andanças Medievais, a propósito dos 865 anos da conquista de Santarém aos mouros por D. Afonso Henriques)

Talvez fruto de uma maturidade conferida pelos seus já quase 40 anos de idade, o mesmo Afonso que em tempos tivera o descaramento de lutar contra a sua própria mãe, começava agora a dar mostras de uma sensibilidade — ou insegurança, quem sabe — que anos antes teria sido difícil de se lhe reconhecer.

Depois de conquistado o castelo escalabitano, Afonso tomou para si a moura mais encantadora do imenso grupo de jovens desamparadas e recolheu com ela aos seus improvisados aposentos. Seria natural que, após uma noite na qual saciou a seu bel-prazer as mais profundas necessidades de homem no ativo, Afonso recompusesse as vestes, colocasse a espada à cintura e saísse para reunir as tropas. Os preparativos com vista à grande conquista de Lisboa, já a poucas dezenas de léguas de distância, assim o exigiam.

No entanto, na hora de se afastar do circunstancial leito de conquistas íntimas, Afonso hesitava. Contemplava a bela moura ainda deitada, qual troféu arrebatado pelo lado pessoal deste multifacetado e bem-sucedido conquistador. Mas para Afonso não bastava. Precisava de saciar no íntimo aquela que ultimamente se tornara uma dúvida tão frequente quanto a sua necessidade de satisfação corporal.

Os seus parcos conhecimentos em língua árabe nem por sombras lhe permitiam questionar a jovem moura — e menos ainda entender o que quer que ela lhe pudesse responder. Por gestos, tornava-se ainda mais difícil. Restava-lhe uma única possibilidade. Mandou chamar o entendido em língua árabe e transmitiu-lhe a pergunta que deveria ser feita. De imediato, o tradutor, sem grandes rodeios, inquiriu-a: كان من الجيد؟

Afonso nem precisou de esperar pela tradução da resposta. O afirmativo menear de cabeça da jovem e o generoso sorriso que lhe acompanhou o gesto foram mais do que suficientes para o seu necessário esclarecimento. Afonso sentiu-se mais confiante do que nunca!

(O resultado foi bom!)

sábado, 22 de janeiro de 2011

Entre as brumas da memória

Não precisei das recomendações do New York Times para, desde há vários anos, ter feito de Guimarães uma das minhas cidades de eleição. O enquadramento numa região de grande beleza natural, a riqueza histórica, a população maioritariamente jovem e a cultura palpitante, projetam-na, justa e merecidamente, a um lugar de destaque entre as cidades peninsulares. Centro histórico, Paço Ducal, Igreja de S. Miguel, Castelo e estátua de Afonso Henriques são pontos de visita quase obrigatória. Por lá passo com alguma regularidade, muitas vezes em jeito de guia turístico de amigos estrangeiros que me visitam. Assim aconteceu na semana passada.

Suponho que por causa do momento crítico que a nação atravessa, detive-me mais tempo do que o normal em frente à estátua do Fundador. Mais tempo do que o normal e, agora constato, mais tempo do que o recomendável. Uma série de pensamentos profundos e contraditórios (muitos deles inconfessáveis) passaram-me pela memória nesses instantes. A imprudência foi paga na noite seguinte com um sonho estranho: eu morria e, acabado de chegar ao paraíso, dava de caras com Afonso Henriques. Encontrava-o vestido a preceito, não faltando elmo, espada nem escudo. Indumentária um pouco estranha para quem se encontra no paraíso, mas como é bem sabido, os sonhos são criações da mente com estranhas associações de ideias.

Vendo chegar um português (tenho uma vaga ideia de uma etiquetagem à entrada que me deixou com uma bandeirinha portuguesa na lapela), Afonso Henriques apressou-se em minha direção, ávido de notícias sobre Portugal. Mostrei -lhe a minha estranheza pela falta de portugueses que lhe tivessem levado notícias recentes, ao que ele me respondeu:
 Estou na ala dos ilustres. Ultimamente não aparecem por cá muito portugueses. Há uns meses conversei algumas horas com o José Saramago, mas logo ele foi chamado para o grupo dos mais íntimos do Filho.
 Íntimos do Filho?! Jesus?
 Sim, o Todo-Poderoso.
 Não é o Pai quem manda?
 Não, o Pai aposentou-se há séculos, cansado de enviar sinais sobre a terra e ver o seu povo continuar tão pecador. Cedeu a liderança ao Filho, que a exerce de maneira bastante mais suave, deixando ao cuidado do povo a interpretação dos muitos sinais já enviados ao longo dos tempos.
 Ah, interessante sinal de maturidade conferido ao povo. Mas voltando a Saramago...
 Sim...
 Espanta-me que esteja aqui. Ele era profunda e convictamente comunista.
 Pois, por isso mesmo, o Filho adora comunistas. Diz que são os que melhor interpretaram a mensagem que deixou na terra. Uma mensagem de partilha e igualdade acima de tudo. Além do mais, adorou um livro escrito por Saramago, por fazer jus ao seu lado humano. Ao que consta, estava farto que lhe reconhecessem apenas o lado divino.
 A sério?
 Sim.Veja bem: dignar-se descer à terra, tornar-se homem entre os homens, aceitar ser sacrificado e, depois, não lhe valorizarem o lado humano é indecente, não acha?
 Sim, de facto... .
 Mas conte-me, conte-me como anda o país.
 Bom, já deve saber que nos tornamos numa república há cerca de um século.
 Sim, sim, essas coisas eu sei, quero notícias recentes.
 Então indo direto ao assunto: o país encontra-se numa profunda crise financeira e debate-se com sérios problemas de subsistência.
 Ai sim? A república democrática não consegue passar incólume a esse tipo de problemas?
A pergunta, em tom irónico, vinda de alguém seguramente pró monárquico absolutista, causou-me alguma irritação. Contrapus:
 No fundo, no fundo a culpa de tudo isto é sua.
 Minha?!
 Sim, não foi o senhor quem fundou o país?
 Ah... sob esse ponto de vista. Mas, meu caro, em oito séculos podiam ter avançado muito.
 E tentamos. Chegamos a dominar meio mundo. Mas o império desmoronou-se e, no final, pouco ficou. Continuamos com a velha sina de povo relegado ao abandono pela Europa.
 E por que não se aliam a essa Europa?
 Já nos aliamos...
 E então?
 Nada. Uns fundos comunitários, umas estradas e uma série de maus vícios de novo-riquismo foi o que restou. Neste momento estamos completamente à mercê dos mercados.
 Mercados?! Fruta, legumes, carne...?
 Não, não!... Mercados financeiros. Especuladores...
 Mas não é presidente Cavaco Silva, um grande especialista na área?
 Hum, vejo que anda muito bem informado.
 É, sobre esse Cavaco falou-me bastante o Saramago.
 Pois, imagino...
 E que tem feito Cavaco?
 Neste momento anda em campanha eleitoral para a reeleição. Mas nos cinco anos de mandato exerceu uma magistratura de influência.
 Exerceu o quê?!
 Uma magistratura de influência.
 Que é isso?
 Ao certo não sei, mas a julgar pelo que tem vindo a público, creio referir-se à influência que Cavaco tem exercido para salvar a pele de uma quadrilha de amigos encapuçados de banqueiros que, com um gigantesco roubo, ajudaram a aumentar o buraco financeiro do país.
 Então vai ser complicado ser reeleito...
 Não sei, ele já assegurou que no próximo mandato exercerá uma magistratura ativa.
 Ai sim? Deve querer dizer que da próxima será ele o ladrão...

Quadrilha, roubo, ladrão... esses termos associados ao representante das mais altas instâncias da nação causaram-me um grande mal-estar que, de imediato, me fez despertar desse sonho tão incomum. É bom salientar que tudo isto se passou ao nível do subconsciente. De forma consciente, eu jamais ousaria dizer (ou até pensar) essas coisas sobre o presidente e seus amigos. Aliás, repare-se na megalomania do meu subconsciente, que não só ousa entrar no céu, como ainda se guinda à ala dos ilustres. Devo confessar que não é nada fácil conviver com um subconsciente como o meu...