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quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Exercício especulativo sobre a ociosidade divina


Na minha modesta e pouco fundamentada opinião, a grande riqueza bíblica não reside propriamente nas belas histórias que o texto sagrado conta, mas sim na parte dessas histórias que o texto não conta. Portento de provocação à inteligência humana, as suas inúmeras lacunas são um manancial de pretextos para os amigos da sabedoria especulativa.

Exemplifiquemos.

Parece-me de todo razoável especular que Deus, com a omnipotência que o caracteriza, na sua conceção de mundo tenha gizado um plano bastante diferente daquele que é costume ser contado na transmissão do pensamento religioso — vulgo fé. E faço esta afirmação sem qualquer tipo de contradição com o texto sagrado, obviamente. Faço-o entre as lacunas do texto.

O plano inicial de Deus não teria sido propriamente trabalhar seis dias e descansar ao sétimo — repetindo-se daí em diante o ciclo com periodicidade semanal —, mas sim trabalhar seis dias e descansar para todo o sempre. Ao sétimo, ao oitavo, ao nono... Deus todo-poderoso e perfeito teria pensado, para a infindável sequência dos dias, em algo muito melhor do que a eterna azáfama de ter que voltar ao trabalho a cada segunda-feira. No pior dos casos, teria reservado os dias a partir do sétimo para a atividade que mais frutos colhe da ociosidade: a arte.

O problema de Deus foi ter criado um animal chamado Homem — por vezes com h minúsculo. Não só criou um macho manhoso, como ainda lhe arranjou uma companheira que trouxe — ao Homem e a Deus — problemas constantes. Esse o grande erro. Daí em diante tudo foi consequência desse passo mal medido que obrigou Deus a voltar ao trabalho na segunda-feira seguinte para tentar consertar o erro. Milhares de milhões de anos depois ainda tenta consertá-lo sem jamais conseguir. Descansa apenas um dia por semana e quando dá.

É sabido que Deus está em todo lado. Onde houver multiplicação humana, aparece Deus a tentar consertar. Mas em alguns lugares a sua presença é mais visível do que noutros — não nos esqueçamos que Deus, como ser perfeito que é, tem bom gosto e, por conseguinte, prefere frequentar os melhores lugares.

Despertou em mim a ideia de um Deus com vocação ociosa quando há uns anos morei em Salvador da Bahia. Ali, onde o tempo flui mais devagar e os sabores são mais intensos. Ocorreu-me esta conceção divina num momento — felizmente não único — em que, deitado numa rede, saboreava a brisa marinha e observava uma linda morena — ou talvez ao contrário, já não me lembro. Nesse preciso momento, pela primeira vez na vida senti-me impelido a especular que um Deus que deixou espalhados pelo mundo verdadeiros hinos à ociosidade, só pode ter uma profunda inspiração ociosa.

Outra vez em que voltei, de forma mais intensa que o normal, à atividade especulativa sobre a inspiração ociosa de Deus — veja-se a coincidência — foi numa visita ao Alentejo — a Bahia lusitana. Também aí, onde o tempo flui mais devagar e os sabores são mais intensos, constatei com clareza uma maior presença de Deus. Mais concretamente em Arronches, depois de me lambuzar nuns maravilhosos pezinhos de coentrada, regados com um excelente tinto da terra, excelentemente rematados por uma sericaia. Depois desse manjar divino, recostei-me numa árvore e entrei em profunda atividade especulativa sobre a natureza ociosa de Deus. Já mais do que especulação: praticamente com a certeza de que é em lugares como esse que Deus mais tempo passa! Para dar largas ao seu desejo oculto de ociosidade, obviamente.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

A origem


Talvez para tentar cumprir recomendações pedagógicas que apelam a um ensino mais centrado no aluno, a professora resolveu começar por perguntar aos seus alunos que ideia tinham sobre a origem da espécie humana. O primeiro a intervir foi o Pedro Afonso:
— O meu pai disse-me que descendemos do macaco.
— Fala pela tua família! — contrapôs imediatamente o Carlitos.
— A tua não?! Se calhar descendem das galinhas... — ripostou o Pedro Afonso.
Perante isto, a professora sentiu necessidade de intervir:
— Parem, meninos! — e dirigiu-se novamente à turma: — Alguém concorda com o Pedro Afonso?
— Se calhar são só as pessoas mais peludas... — observou a Tânia.
— É... só os homens... — interveio novamente o Carlitos, em tom de escárnio.
— Os homens e as mulheres! — acrescentou o Pedro Afonso.
— As mulheres?! — perguntou admirada a Tânia.
— Sim, as mulheres depilam-se! — esclareceu o Pedro Afonso.
— Pois pois... mas é só em certas partes... — acrescentou o Carlitos.
Temendo que a conversa entrasse em maiores detalhes sobre temas pouco recomendáveis, a professora resolveu pôr cobro ao diálogo:
— Está bom, já basta desta conversa!
A professora preparava-se para falar-lhes sobre o darwinismo quando reparou que ao fundo da sala se encontrava a Verinha com o braço no ar.
— Fala, Verinha.
— A bíblia diz que descendemos de Adão e Eva.
A professora sabia que esta teoria iria surgir — achou até estranho que não tivesse surgido antes —, e tentou avançar com uma explicação para a verdade dogmática incutida na aluna:
— Trata-se apenas de uma imagem para o poder de Deus sobre a espécie humana.
— Mas não é assim que diz a bíblia!
— Eu sei, Verinha. Mas a bíblia não é para ser interpretada à letra.
— Então é para ser interpretada como?
Pressentindo que não iria ser fácil levar a Verinha a uma leitura menos estrita da bíblia, a professora tentou então convencê-la através da inconsistência:
— Vê bem, Verinha: Adão e Eva tiveram dois filhos.
— Sim.
— Dois meninos.
— Caim e Abel.
— E depois?
— Depois o quê, professora?
— Meninos não casavam com meninos...
— Pois não.
— Então como tiveram filhos?
— Ah... se calhar casavam com macacas!