Na minha modesta e pouco
fundamentada opinião, a grande riqueza bíblica não reside propriamente nas
belas histórias que o texto sagrado conta, mas sim na parte dessas histórias
que o texto não conta. Portento de provocação à inteligência humana, as suas
inúmeras lacunas são um manancial de pretextos para os amigos da sabedoria
especulativa.
Exemplifiquemos.
Parece-me de todo razoável especular que Deus, com a
omnipotência que o caracteriza, na sua conceção de mundo tenha gizado um plano
bastante diferente daquele que é costume ser contado na transmissão do
pensamento religioso — vulgo fé. E faço esta afirmação sem qualquer tipo de
contradição com o texto sagrado, obviamente. Faço-o entre as lacunas do texto.
O plano inicial de Deus não teria sido propriamente
trabalhar seis dias e descansar ao sétimo — repetindo-se daí em diante o ciclo
com periodicidade semanal —, mas sim trabalhar seis dias e descansar para todo
o sempre. Ao sétimo, ao oitavo, ao nono... Deus todo-poderoso e perfeito teria
pensado, para a infindável sequência dos dias, em algo muito melhor do que a eterna
azáfama de ter que voltar ao trabalho a cada segunda-feira. No pior dos casos,
teria reservado os dias a partir do sétimo para a atividade que mais frutos
colhe da ociosidade: a arte.
O problema de Deus foi ter criado um animal chamado Homem —
por vezes com h minúsculo. Não só criou um macho manhoso, como ainda lhe
arranjou uma companheira que trouxe — ao Homem e a Deus — problemas constantes.
Esse o grande erro. Daí em diante tudo foi consequência desse passo
mal medido que obrigou Deus a voltar ao trabalho na segunda-feira seguinte para
tentar consertar o erro. Milhares de milhões de anos depois ainda tenta
consertá-lo sem jamais conseguir. Descansa apenas um dia por semana e quando
dá.
É sabido que Deus está em todo lado. Onde houver
multiplicação humana, aparece Deus a tentar consertar. Mas em alguns lugares a
sua presença é mais visível do que noutros — não nos esqueçamos que Deus,
como ser perfeito que é, tem bom gosto e, por conseguinte, prefere frequentar
os melhores lugares.
Despertou em mim a ideia de um Deus com vocação ociosa quando
há uns anos morei em Salvador da Bahia. Ali, onde o tempo flui mais devagar e
os sabores são mais intensos. Ocorreu-me esta conceção divina num momento —
felizmente não único — em que, deitado numa rede, saboreava a brisa marinha e
observava uma linda morena — ou talvez ao contrário, já não me lembro. Nesse
preciso momento, pela primeira vez na vida senti-me impelido a especular que um
Deus que deixou espalhados pelo mundo verdadeiros hinos à ociosidade, só pode
ter uma profunda inspiração ociosa.
Outra vez em que voltei, de forma mais intensa que o normal,
à atividade especulativa sobre a inspiração ociosa de Deus — veja-se a
coincidência — foi numa visita ao Alentejo — a Bahia lusitana. Também aí, onde
o tempo flui mais devagar e os sabores são mais intensos, constatei com clareza
uma maior presença de Deus. Mais concretamente em Arronches, depois de me
lambuzar nuns maravilhosos pezinhos de coentrada, regados com um excelente
tinto da terra, excelentemente rematados por uma sericaia. Depois desse manjar
divino, recostei-me numa árvore e entrei em profunda atividade especulativa
sobre a natureza ociosa de Deus. Já mais do que especulação: praticamente com a
certeza de que é em lugares como esse que Deus mais tempo passa! Para dar
largas ao seu desejo oculto de ociosidade, obviamente.

