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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O Beaujolais Novo chegou!

Que os franceses têm uma relação muito especial com o vinho eu já sabia. Não tinha era noção de algumas variantes nas manifestações dessa relação afetuosa. E não se pense que a afetuosidade é dedicada apenas às castas mais nobres, pois até o Beaujolais, vinho produzido numa região com o mesmo nome, situada ao norte de Lyon, em geral sem qualidades que o guindem a patamares muito elevados, tem direito a honrarias. Por ser um vinho que deve ser bebido jovem, tem a seu favor a primazia na chegada às lojas, escassos dois meses após a colheita. E manda a tradição que a sua chegada seja anunciada com a frase «le Beaujolais Noveau est arrivée!». Desconhecendo o ritual em torno do Beaujolais Novo, há dias fui vítima da minha própria ignorância, primeiro metendo os pés pelas mãos e depois tendo que meter a mão no bolso.

Cena 1: os pés pelas mãos.
Quarta-feira, 16 de Novembro.
Passando por um pequeno supermercado próximo da minha residência marselhesa já perto da hora do fecho, noto uma mesa estrategicamente colocada junto à entrada, onde alguém arrumava cuidadosamente sobre essa mesa garrafas de várias marcas de Beaujolais Novo. Notando que se tratava da colheita de 2011, pareceu-me boa ideia levar uma ou duas garrafas para casa. Como a nível de preços não havia muita variedade, deixei-me levar pelo poder de atração de um dos rótulos e peguei (erro 1) uma das garrafas. Prontamente, fui repreendido pelo sujeito que arrumava essas garrafas sobre a mesa: só podia comprar desse vinho no dia seguinte. Saí de lá conjeturando que as garrafas não estavam ainda catalogadas para venda (erro 2). Mais tarde vim a saber que a comercialização do Beaujolais Novo começa religiosamente na terceira quinta-feira de novembro. Que profano tentei ser!

Cena 2: a mão no bolso.
Quinta-feira, 17 de novembro.
Saindo com uns amigos (não franceses) para jantar num restaurante, aprecebemo-nos de um movimento anormal em frente a algumas lojas de vinhos na cidade, com mesas sobre a calçada e taças para degustação. Degustação de quê? Do Beaujolais Novo, bien sûr! Chegando ao restaurante, um folheto sobre cada mesa anunciava a presença do ansiado Beaujolais Novo naquele restaurante. Gerada a expectativa, perante a sugestão do empregado para tomarmos daquele vinho, nem paramos para perguntar o preço (erro 3). Sabendo que o Beaujolais não era normalmente vinho para preços muitos elevados (erro 4), a imprudência não podia ter sido muito grande (erro 5). Felizmente, antes de pedirmos a terceira garrafa alguém teve  a sensatez de perguntar o preço. Devo dizer que após termos sido informados dos 27 euros que custava cada garrafa saboreei com outro respeito um último trago que restava no meu copo. Saímos do restaurante com a conta significativamente afetada pelo preço do vinho, mas com a boa sensação de termos tomado um Beaujolais Novo muito especial. Se há prazeres que não se explicam, este foi provavelmente um deles!

Epílogo.
Sexta-feira, 18 de novembro.
Sabendo que, agora sim, estava autorizado a levar para casa o Beaujolais Novo, no fim do dia passei novamente pelo pequeno supermercado perto de casa. Dada a pouca sofisticação do local, nem por sombras muito otimistas esperava ver lá (erro 6) um Beaujolais Novo tão especial quanto o tomado na véspera (a 27 euros a garrafa, é bom lembrar). Mas, para meu grande espanto (entre outras sensações...), nem precisei de procurar muito para facilmente notar a mesmíssima garrafa do vinho tomado no restaurante, agora pela módica quantia de aproximadamente cinco euros! Considero normal tomar vinho num restaurante a duas ou três vezes o seu custo nas lojas, mas esse Beaujolais Novo foi multiplicado por um fator muito próximo dos 5.5. Levando apenas em conta a valorização entre o supermercado e o restaurante, é seguramente o vinho mais fantástico que alguma vez tomei!