Num texto com este título, seria impossível não me referir à Greve Geral desta semana. Na lavagem dos cestos, o que mais se discute são percentagens, infiltrações e quem deu tareia em quem. Infelizmente sinto que, à distância a que me encontro, não posso dar contribuição de valor para o esclarecimento de nenhuma dessas grandes questões. Assim sendo, prefiro dedicar-me a outra não menos importante e vezes sem conta repetida: «greve para quê se não tem efeito prático?»
Convenhamos, dificilmente uma greve terá outro efeito que não seja o de conferir força à luta dos trabalhadores descontentes. O efeito prático de uma greve é quase sempre indireto, e esta não poderia deixar de fugir à regra. Serviria, especificamente, para aquilatar o grau de descontentamento dos trabalhadores em relação às medidas que estão a ser tomadas pelo governo.
Mas talvez a maioria não esteja ainda muito descontente; ou então, acredite piamente no discurso oficial do caminho inevitável; ou então, esteja sem capacidade de prever os efeitos secundários destas medidas austeritárias; ou então, já não se sinta suficientemente protegida pela fraca democracia que temos hoje para ousar fazer greve.
Acresce que os funcionários públicos estão a ser apontados pelos detentores do poder como o grande problema do país e os seus sacrifícios a nível salarial a tábua de salvação. Sem mais. Claro que, sendo por enquanto um problema essencialmente dos funcionários públicos, os outros ainda assobiam para o lado.
O que não sabem é que lá bem no fundo já é um problema de todos. Tanto à escala europeia, como à escala nacional, a similaridade com a situação retratada no poema de Martin Niemöller (muitas vezes erradamente atribuído a Bertold Brecht) já me parece grande:
«Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei-me,
porque, afinal, eu não era comunista.
Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me,
porque, afinal, eu não era social-democrata.
Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei,
porque, afinal, eu não era sindicalista.
Quando levaram os judeus, eu não protestei,
porque, afinal, eu não era judeu.
Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse.»
E para que consigamos fazer «da nossa falência uma vitória, uma coisa positiva e erguida, com colunas, majestade e aquiescência espiritual», como bem recomendou o desassossegado Bernardo Soares, nada melhor do que deixar aqui referência para aquelas que me pareceram ser as melhores notas desta semana, através voz desse maravilhoso cantor, músico e poeta dos nossos tempos, de seu nome Leonard Cohen: Show Me The Place. Sim, alguém que nos mostre outro lugar, porque a coisa por estes lados está cada vez mais complicada.
