Atendeu-me um senhor de idade já avançada. Seria perfeitamente razoável que ainda fosse de uma geração de formação escolar — se a teve — predominantemente analfabeta. Se não de ignorância total nas letras, pelo menos com pouca agilidade para absorver a informação das legendas que habitualmente complementam o som e as imagens televisivas. Especialmente, quando a junção de letras conduz a uma palavra em língua estrangeira. Bin Laden, por exemplo.
Notei junto ao balcão desse café um prender de atenções dos clientes locais pelo aparelho televisivo. Na esplanada onde me encontrava não podia ver nem ouvir que notícia lhes cativava a atenção, mas foi para mim claro que algo de importante se passava. Quando o senhor me trouxe o tal café com leite e torrada, aproveitei para tentar obter algum esclarecimento. A resposta veio pronta e ligeiramente evasiva:
— Dizem que mataram esse tal de Bilada.
Não pude deixar de notar esse detalhe interessante na forma como me esclareceu com o "dizem que". Inteligentemente, toma o conteúdo da informação televisiva como mera informação, não como comprovativo de um facto. E o delicioso pormenor do Bilada? Comentários para quê? Ninguém duvide que uma certa dose de analfabetismo por vezes ajuda na criatividade para uma adaptação linguística.
Soube depois que noutras latitudes houve festa da brava até altas horas da madrugada para celebrar a morte desse tal de Bilada, como se da conquista de um campeonato do mundo se tratasse. Devo confessar que ao ser informado dessa morte não levantei nem o punho direito para festejar, como se de um mero golo se tratasse. Encarei sempre esse tal de Bilada tanto como produtor quanto como produto do mal. Morre este homem, mas ninguém duvide que o génio do mal continuará com personificações por esse mundo à solta.
