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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Alguma coisa acontece no meu coração

Uma das mais emblemáticas canções dedicadas à cidade de São Paulo foi escrita e composta pelo baiano Caetano Veloso, em finais da década de 70. Intitulada pela forma como carinhosa e abreviadamente é denominada a cidade, Sampa, começa com as palavras «alguma coisa acontece no meu coração, que só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João. É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi, da dura poesia concreta de tuas esquinas, da deselegância discreta de tuas meninas». Pese embora um certo exagero poético — simultaneamente pouco generoso para com muitas paulistanas de elegância indiscreta e lisonjeiro para com muitas outras de deselegância também indiscreta —, Caetano, com estas palavras, descreve aquelas que serão certamente as primeiras impressões de muitos forasteiros que começam a aventurar-se nesta enorme selva de pedra.

Eu já tinha passado duas vezes por São Paulo, ambas de forma muito fugaz. Em nenhuma delas com tempo suficiente para cruzar a tal Ipiranga com a Avenida São João. Agora, com uma estadia de duas semanas, tive finalmente tempo suficiente para calcorrear algumas das avenidas do centro da cidade e avaliar o que acontece no meu coração. Talvez eu também nada tenha entendido sobre este novo Brasil, mas de um país que é apontado como um dos exemplos de sucesso do nosso descompensado mundo, esperava ver no coração da sua maior cidade menos gente a dormir pela manhã num coreto da Praça da República — também cruzada pela tal Ipiranga —, menos gente a viver debaixo de viadutos em pleno centro, menos gente a viver das sobras mendigadas de quem passa.

Sou suficientemente bom conhecedor da realidade brasileira — desde os primeiros anos da década de 90 — e sei que mudar a fisionomia das suas principais cidades leva o seu tempo. Mas também sou suficientemente bom conhecedor de cidades americanas como Chicago, Nova Iorque, São Francisco ou Washington DC para saber que nesse sistema que orienta os passos do Brasil o comboio do desenvolvimento também deixa para trás um enorme contingente de excluídos. Um sistema com excelentes sistemas de saúde e de educação para quem tem dinheiro, mas que deixa muito a desejar ao nível do investimento público nessas áreas. Diria mesmo que é um sistema demasiado darwiniano: muito pouco complacente para com os mais fracos.

Não pude deixar de refletir sobre a realidade portuguesa. Em particular, sobre as recomendações de alguns desgovernados governantes que exortam os portugueses a buscarem este novo eldorado. Não se ignore que a realidade brasileira ainda comporta várias realidades. Trata-se de um país que cresce a nível macroeconómico, onde a classe alta colhe os seus dividendos, mas a classe média continua a ter que fazer muitas contas à vida para conseguir ter um padrão de vida minimamente decente com planos de saúde, escola privada para os filhos, transportes privados para o trabalho e créditos a juros altos para a casa, o carro e o LCD na sala de estar.

No momento que em Portugal tentam impingir-nos como inevitável o desmantelamento do sistema público de saúde, tal como o temos, antes de aceitar essa suposta inevitabilidade, gostaria de ver este autoproclamado governo de corajosos com coragem suficiente para estancar certas parcerias com privados, que à sombra de contratos ruinosos para o estado cavam a sepultura da saúde pública e abrem alas para futuros negócios ainda mais rentáveis. Este primeiro-ministro, que faz alarde de ter ido muito além da troika no que concerne aos cortes salariais da função pública e ajuste das leis laborais, neste particular perde a coragem e deixa-se ficar aquém das recomendações troikianas. E aquém de algumas das suas próprias promessas. Que Caetano me perdoe a deturpada usurpação, mas alguma coisa acontece no meu coração, que só quando cruza as promessas com os atos de algum aldrabão.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A normalidade

Caetano Veloso

O Teixeira era um fulano que com elevada frequência (mais do que o normal) se auto-definia como normal. Assumia-se até como um dos poucos normais de que ele próprio tinha conhecimento. Enquanto os outros viviam de forma mais ou menos intensa frequentes dramatizações de situações quotidianas e eventuais espirais de loucura, o Teixeira planava como águia altaneira sobre o vale de todos esses males.

O Teixeira tinha crescido num ambiente familiar complicado: mãe alcoólica, pai incógnito, padrastos toxicodependentes e quatro meio-irmãos numa casa de apenas dois quartos. Tudo a favor de uma personalidade carregada de traumas. Mas não. O Teixeira teve logo desde tenra idade um sentido de auto-orientação suficientemente forte para não se deixar contaminar pelos fatores adversos do meio que o rodeava. Cresceu fidelizando-se ao lema «mente sã em corpo são» e ia fazendo disso cavalo de batalha.

Por força dessa postura, tinha muito pouca paciência para qualquer manifestação de drama pessoal não devidamente fundamentado da parte dos que com ele conviviam. Sabia quem melhor o conhecia que o Teixeira encarava qualquer problema do foro psicológico como doença contagiosa. Não foram poucas as vezes em que abandonou cervejadas com amigos só para não ter que ouvir lamúrias sentimentais. Abria apenas uma pequena exceção para a tristeza e, mesmo assim, só convivia com a tristeza alheia por mais de um dia quando essa era provocada pela morte de parente próximo (não mais do que parente em primeiro grau, entenda-se).

Como designar uma mulher que entra na vida de um homem de forma intensa e íntima por escassas duas tardes e sete noites? Namorada? Pois bem, o Teixeira teve uma namorada nessas circunstâncias, pela qual deu indícios de estar profundamente apaixonado. Dizia ser ela a mulher com a cabeça mais limpa que encontrara em toda a sua vida. Cabeça limpa, pele limpa, casa limpa, tudo limpo, uma perfeição! Nesses dias de intensa proximidade não lhe notou qualquer tipo de distúrbio na vertente psicológica, excetuando uma relativa preocupação com a pele (especialmente a pele do rosto). Algo normal, pensou o Teixeira.

Contudo, ao cabo das tais duas tardes e sete noites, notou que essa preocupação com a pele do rosto se manifestava com uma frequência muito maior do que inicialmente lhe tinha parecido. E, por vezes, nos momentos mais inoportunos. O caso entre eles deu para o torto quando o Teixeira  tomou consciência de que sempre na hora H, quando a noite aquecia e ele começava a segredar-lhe ao ouvido coisas que só ao ouvido é costume segredar, ela invariavelmente lhe pedia: «Vai fazer a barba». Hipocondria dermatológica o Teixeira não podia tolerar!