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sexta-feira, 6 de maio de 2011

Esse tal de Bilada

Coincidiu estar eu no Alentejo na manhã em que foi anunciada a morte do Bin Laden. Acabava de pedir o meu café com leite e torrada  de pão alentejano, claro  para o dejejum na esplanada de um café. Em condições normais, teria aproveitado o entrementes  gosto especialmente desta palavra, apesar de só agora a desvirginar por escrito   para sacar do meu telefone esperto e cavalgar em 3G por esse mundo virtual afora em busca das notícias matinais. Contudo, perante o cenário que me era oferecido, simplesmente detive-me a contemplar a beleza do imenso matiz verde-claro — típico da época na planície alentejana — aqui e ali salpicado pelo verde-escuro das oliveiras.

Atendeu-me um senhor de idade já avançada. Seria perfeitamente razoável que ainda fosse de uma geração de formação escolar  se a teve  predominantemente analfabeta. Se não de ignorância total nas letras, pelo menos com pouca agilidade para absorver a informação das legendas que habitualmente complementam o som e as imagens televisivas. Especialmente, quando a junção de letras conduz a uma palavra em língua estrangeira. Bin Laden, por exemplo.

Notei junto ao balcão desse café um prender de atenções dos clientes locais pelo aparelho televisivo. Na esplanada onde me encontrava não podia ver nem ouvir que notícia lhes cativava a atenção, mas foi para mim claro que algo de importante se passava. Quando o senhor me trouxe o tal café com leite e torrada, aproveitei para tentar obter algum esclarecimento. A resposta veio pronta e ligeiramente evasiva:
 Dizem que mataram esse tal de Bilada.
Não pude deixar de notar esse detalhe interessante na forma como me esclareceu com o "dizem que". Inteligentemente, toma o conteúdo da informação televisiva como mera informação, não como comprovativo de um facto. E o delicioso pormenor do Bilada? Comentários para quê? Ninguém duvide que uma certa dose de analfabetismo por vezes ajuda na criatividade para uma adaptação linguística.

Soube depois que noutras latitudes houve festa da brava até altas horas da madrugada para celebrar a morte desse tal de Bilada, como se da conquista de um campeonato do mundo se tratasse. Devo confessar que ao ser informado dessa morte não levantei nem o punho direito para festejar, como se de um mero golo se tratasse. Encarei sempre esse tal de Bilada tanto como produtor quanto como produto do mal. Morre este homem, mas ninguém duvide que o génio do mal continuará com personificações por esse mundo à solta.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O cafeteiro Mr. Clooney

Aquém e além fronteiras nunca me canso de enaltecer os méritos do café expresso que se pode tomar em Portugal. A par da Itália, o país onde mais facilmente se encontra (quase ao virar de cada esquina) um excelente café com notas altas em sabor, aroma, concentração, temperatura e preço. Sendo certo que não temos o mérito de produzir o grão, nem de ter inventado a máquina, temos o grande mérito de saber utilizar o que outros produzem de bom. Pode parecer fácil, mas, a grande verdade, é que muitos tentam e só poucos conseguem.

No entanto, há algum tempo que sinto pairar no ar uma forte ameaça a essa nossa excelente tradição: um número significativo de portugueses, quiçá com sede de modernidade, têm resolvido dar protagonismo desmesurado a um americano que por aí apareceu a apregoar um tal de nespresso, ameaçando colocar em risco a verdadeira arte do café que tão bem aprimorámos. Se se tratasse de uma mulata tropical, até entendia que tivesse chegado para dar um sabor mais apimentado ao grão, mas um americano? Esses americanos lá sabem o que é um bom café? Nos Estados Unidos, pede-se um café e recebe-se em troca um balde de água quente, onde, na melhor das hipóteses, pode ter sido lavada uma chávena de café.

Custa-me a entender o sucesso desse nescafé expresso em pastilhas coloridas e máquinas futuristas. Estarão os portugueses e as portuguesas assim tão rendidos ao charme e à presunção de Mr. Clooney? Confesso que só encontro essa explicação para que, Natal após Natal, continuem a formar-se extensas filas de sedentos do produto que o americano apregoa no interior de templos nespressados. Caramba, se fazem isso para poderem continuar a ver com frequência o grisalho em campanhas publicitárias de TVs e painéis publicitários, contratem-no para vender muffins... Ou donuts.  Disso os americanos entendem! E, no caso dos donuts, até os sabem confecionar com suficientes variantes para, de igual forma, conferirem um belo colorido às prateleiras.

Há quem alegue, em defesa desse tal nespresso, a forma prática e higiénica como tudo se processa. Veja-se o ponto que isto chegou: ameaça-se dar cabo de uma excelente tradição de longa data só para se economizar no trabalho de colocar o pó, deitar fora a borra e lavar o filtro de uma tradicional máquina de café expresso. Continuando a enveredar por esse caminho abstruso, temo muito que, a breve trecho, tenhamos, na boa tradição da mesa portuguesa, a alheira de Mirandela substituída por alguma barra de cereais!