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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A arte imita a vida

«Há três coisas que os homens podem fazer com as mulheres: amá-las, sofrer por elas ou transformá-las em literatura»
S. Stills

Há homens extremamente simples cujo supremo ideal de vida – e de morte, quem sabe... – se resume a muito pouco: uma boa cama e uma mulher nela deitada – de preferência já sem roupa – é tudo quanto de mais profundo almejam.

Devo confessar que não me lembro de alguma vez ter conhecido algum homem com este grau de simplicidade, mas como homens deste tipo abundam por aí na literatura e nos filmes, deduzo que, possivelmente, também existam na vida real. É que a arte imita a vida...

Provavelmente era o caso do Pires. Um belo dia o Pires sentiu-se despertar num lugar muito incomum: um lugar claro, amplo, sem paredes laterais visíveis, nem teto. Apesar da sua vasta experiência de despertares em lugares inusitados, nunca tinha acontecido ao Pires de se sentir tão desnorteado como no despertar daquele dia. A primeira impressão que teve foi de ter despertado no meio das nuvens. E com a sensação de ter dormido um sono de vários dias consecutivos.

Quando o Pires se virou, viu deitada a seu lado uma mulher serena, bela e nua, que parecia dormir um sono profundo. Uma mulher que o Pires não se lembrava de ter visto antes — não pensou que fosse caso fortuito de véspera, pois continuava com a sensação de ter dormido vários dias seguidos. Apesar de tanta estranheza, o Pires sentiu o cenário como idílico.

Pouco depois o Pires viu surgir um homem ao longe que, lentamente, se foi aproximando. Já mais perto, reconheceu nesse homem a figura relativamente familiar de alguém com vestes longas e uma grande chave na mão. O Pires foi invadido por uma sensação muito estranha. Começou a temer o pior. Logo que o homem chegou a uma distância razoável, o Pires interpelou-o:
— Quem és tu?
— Pedro.
— Pedro?... Pedro quê?
— Pedro, simplesmente. A História nunca me deu mais do que um nome próprio.
— Que lugar é este?
— O purgatório.
— Morri?!
— Morreste.
— Ai caramba!
— Exageraste nas pastilhas do amor, o teu coração não aguentou.
— E que faz aqui esta mulher?
— Dorme um sono que pode ser eterno.
— Assim, nua...
— É uma tentação, não é?
— Sem dúvida!
— Podes tocá-la enquanto dorme.
— Posso mesmo?!
— Podes fazer tudo o que quiseres com ela. Esse será o teu céu!
— Ena!
— Porém...
— Há um porém?
— Deves ter cuidado para não despertá-la, pois ela é do tipo que fala sem parar, alega frequentes dores de cabeça e reclama de tudo que um homem faz. Esse será o teu inferno!

Devo dizer que tampouco conheço pessoalmente mulheres com estas caraterísticas, mas como é frequente vê-las por aí na literatura e nos filmes, deduzo que possivelmente também existam na vida real. Como já disse, a arte imita a vida...

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Ronaldo & Irina

"A imaginação é a única arma 
na guerra contra a realidade"
Jules de Gaultier

Primeiro ato: casal — homem e mulher — ao sol da tarde na praia. Ele alto e troncudo — ligeiramente para o gordo — com tatuagem no braço, ela relativamente deselegante no aspeto físico, mas cuidada na maquiagem e na bijuteria. Ele com um boné de pala para trás, ela com uma pala na frente. Ele sentado numa cadeira, ela deitada numa toalha. Ele lê A Bola, ela lê a revista Maria. Em ambos uma certa intenção — falhada — de fazer passar uma aura de sensualidade que só com muito boa vontade — e algum mau gosto — se lhes poderia reconhecer.

Alguns metros acima um homem sozinho. Baixo, magro, de pele clara e aspeto frágil. Sentado numa cadeira, virado na direção do casal — que coincide com a direção do mar... a mais natural — lê absortamente um livro à sombra do seu guarda-sol. O primeiro homem levanta-se e aproxima-se do segundo homem, dizendo-lhe com certa rudeza:
— Se não parar de olhar para a minha mulher estamos mal!
— Como?!
— Não, não come nada que eu não deixo!
— Deve estar a brincar...
— Acha mesmo?!
— Não vejo outra possibilidade.
— Não se faça de desentendido, pois sabe muito bem do que estou a falar!
— Não me faço nada de desentendido, só não estou a entender nada.
— Bom, só vim avisá-lo: se continuar a olhar para a minha mulher rebento consigo, entendeu?!
A última frase foi dita em crescendo — tanto em volume de voz como em rubor na face do primeiro homem — e com um ligeiro pender de corpo na direção do segundo homem. Era óbvio que o segundo homem não estava a entender praticamente nada. Apenas o suficiente para que tivesse ficado claro que, dada a diferença de envergadura física — e aparentemente também psíquica — o melhor seria calar-se. Minutos depois pegou nas suas coisas e saiu tocado pela prudência.

Segundo ato: o mesmo casal da praia, agora no quarto. Ele deitado na cama, ela sentada. Corpos ruborizados e esquentados, não apenas pelo sol que apanharam poucas horas antes.
— A minha Irina gostou?
— Adorou!
— Viu a virilidade do seu Ronaldo?
— Uma força da natureza!
— Viu como preservo a minha Irina?
— Fê-la sentir-se uma estrela!
— Da próxima ameaço um voyeur ainda mais forte.
— Ai que homem potente!
— Isso excita a minha Irina?
— Deixa-a em brasa!
— Chama o Ro-Ro, chama o Ro-Ro!
— Ro-Ro, Ro-Ro...
— Chama de novo, chama!
— Ro-Ro, Ro-Ro...
— Ai que loucura!
...