Há dias fiz uma viagem de carro do Porto a Lisboa e vice-versa. Durante o percurso lembrei-me de uma pergunta — em jeito de anedota — que ouvi há uns anos: quais os dois países da Europa cujas autoestradas não têm limite de velocidade? Sendo a resposta — também em jeito de anedota — a Alemanha e Portugal. A Alemanha, porque efetivamente em grande parte das suas autoestradas não há lei que estabeleça limites para a velocidade; Portugal, porque praticamente ninguém cumpre os limites estabelecidos por lei.
Sobre o que a anedota contém de verdade em relação aos restantes países da Europa nada posso atestar, pois não conheço os hábitos de cada povo nas autoestradas de todos os países europeus. No que toca aos portugueses, ninguém duvide que a anedota é puro reflexo da nossa realidade: na tal viagem do Porto a Lisboa e vice-versa coloquei o cruise control do meu carro no limite de 120km/h e não exagero muito se disser que, nos cerca de 600km percorridos, ultrapassei uma meia dúzia de veículos pesados — não eram muitos, pois tratava-se de um fim de semana — e fui ultrapassado por um sem número de veículos ligeiros. Muito ligeiros. Poderia até jurar que alguns deles passaram por mim a uma velocidade — relativa à minha, obviamente — muito próxima dos 120km/h!
Numa primeira tentativa de explicar o fenómeno, poderia avançar com a teoria de que os portugueses correm apressados para tirar o país da crise. Infelizmente, tal não me parece verdade, pois os automobilistas portugueses já conduziam assim quando Portugal era um país próspero. Ou então, que os portugueses, quais parisienses ou novaiorquinos, vivem num frenesim constante. Teoria respeitável, mas, feliz ou infelizmente — ainda não me decidi —, facilmente refutável. Para tal, basta colocar os pés numa escada ou tapete rolante de um qualquer aeroporto ou shopping center. Esse mesmo povo que circula a altíssima velocidade nas autoestradas, chega a uma escada ou tapete rolante e estaca. Mais do que isso, bloqueia a passagem de quem necessita de caminhar mais apressado ou quer aproveitar para se deleitar por breves instantes com passadas de gigante. O que deveria servir para aumentar a velocidade, transforma-se assim num veículo de culto à pasmaceira.
Acima de tudo, fica evidente que o gosto dos portugueses pela velocidade é muito relativo. Bipolar. Oscila entre o ronceiro que se deixa levar à velocidade natural das escadas e tapetes rolantes e o apressado que circula nas autoestradas no limite de velocidade do seu próprio carro. Quiçá o problema do excesso de velocidade nas autoestradas nem seja culpa dos condutores, mas sim um capricho congénito dos veículos. É que, apesar de agora estarmos na pindaíba, grande parte dos carros que circulam nas estradas portuguesas ainda é de alta cilindrada e de origem alemã. Esperemos pelo previsível ajuste no parque automóvel para ver no que isto dá.
Um olhar crítico sobre a realidade, assente numa visão relativamente tendenciosa e numa mente algo imaginativa
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quarta-feira, 22 de agosto de 2012
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Só no trânsito...
— Pai.
— Que foi?
— Por que é que levantaste aquele dedo?
— Aquele dedo? Qual dedo?!
— O dedo do meio.
— O dedo do meio? Eu levantei o dedo do meio?!
— Sim.
— Não. Eu levantei a mão toda!
— Hum...
— Verdade!
— Sim, mas mais o dedo do meio.
— Mero acaso.
— Então por que é que levantaste a mão toda mais o dedo do meio?
— Ora, porque conhecia o senhor do outro carro.
— Ah... então foi por isso que ele buzinou!
— Estás a ver?
— Hoje estás a encontrar muitos senhores conhecidos.
— É verdade.
— Logo hoje que vais com mais pressa...
— É... muita gente conhecida só atrapalha.
— E por que é que disseste aquela palavra?
— Aquela palavra? Qual palavra? Eu disse alguma palavra?!
— Disseste. Duas... aliás... três!
— Ia a cantar, não?
— Não. Disseste só três palavras!
— Se calhar só sabia o refrão.
— Hum...
— Alguma dessas canções minimalistas.
— Não me venhas com cantigas, tá?
— Tá, tá bom.
— Então por que é que disseste aquelas três palavras?
— Mas quais palavras?
— Uma delas eu não posso dizer.
— Um palavrão?!
— Sim!
— Qual?
— Aquele sobre a mãe do senhor do outro carro.
— Ah, meu filho, o pai não diz dessas coisas!
— Não, não...
— Diz?!
— Só no trânsito...
— Que foi?
— Por que é que levantaste aquele dedo?
— Aquele dedo? Qual dedo?!
— O dedo do meio.
— O dedo do meio? Eu levantei o dedo do meio?!
— Sim.
— Não. Eu levantei a mão toda!
— Hum...
— Verdade!
— Sim, mas mais o dedo do meio.
— Mero acaso.
— Então por que é que levantaste a mão toda mais o dedo do meio?
— Ora, porque conhecia o senhor do outro carro.
— Ah... então foi por isso que ele buzinou!
— Estás a ver?
— Hoje estás a encontrar muitos senhores conhecidos.
— É verdade.
— Logo hoje que vais com mais pressa...
— É... muita gente conhecida só atrapalha.
— E por que é que disseste aquela palavra?
— Aquela palavra? Qual palavra? Eu disse alguma palavra?!
— Disseste. Duas... aliás... três!
— Ia a cantar, não?
— Não. Disseste só três palavras!
— Se calhar só sabia o refrão.
— Hum...
— Alguma dessas canções minimalistas.
— Não me venhas com cantigas, tá?
— Tá, tá bom.
— Então por que é que disseste aquelas três palavras?
— Mas quais palavras?
— Uma delas eu não posso dizer.
— Um palavrão?!
— Sim!
— Qual?
— Aquele sobre a mãe do senhor do outro carro.
— Ah, meu filho, o pai não diz dessas coisas!
— Não, não...
— Diz?!
— Só no trânsito...
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Alto plano de autoajuda
Tenho um plano (quase) infalível para que consiga ser superior a praticamente tudo que o apoquenta: vizinha, mulher, filhos, prestação da casa, leasing do carro, resultados do Benfica e tudo mais no plano da sua vida. Deixe-se de lamentações e suba ao telhado — só não o faça num dia de chuva, sob pena de este alto plano de superação pessoal poder redundar num fatal descanso eterno, em plano inferior; fora esse detalhe, o plano é infalível. Verá lá de cima o entra e sai da vizinha, a mulher e os filhos saírem de sua casa no tal carro a leasing e o vizinho a fumar, perturbado pelo resultado do Benfica. E você lá em cima, superior a tudo. Se gosta de fumar, fume. Mas descontraído. Não conhece o resultado do jogo, porquê preocupar-se com algo que não conhece?Aproveite para pensar na vida, mas não na realidade comezinha que o apoquenta, como (o advérbio, não o verbo) vizinha, mulher, filhos, prestação da casa, leasing do carro, resultados do Benfica e tudo mais no plano da sua vida. Agora está num plano superior. Pode dedicar-se a meditar sobre questões muito mais relevantes para a humanidade: «Qual a origem do universo?», «Deus existe?» ou «O que pensam os mercados?», por exemplo. Diga-me uma coisa: há quanto tempo não para para pensar nessas questões realmente importantes? Tudo o resto é supérfluo. Pense na idade do universo. A sua vida dura menos do que um infinitesimal grão de areia nessa imensa praia do tempo e os seus problemas quase sempre duram menos do que a sua vida.
Leve mantimentos para uns dias e cobertores para umas noites. Vai poder apreciar, lá de cima, as preocupações de alguns que o amam (e provavelmente não sabia) e as de outros que não o amam (e provavelmente também não sabia) e lhe causam muitos problemas. Esqueça que este é um plano relativamente egoísta, pois é só por uns dias. Quando descer, será internado para avaliarem o seu estado de saúde e curarem a sua gripe ou pneumonia. No pior dos casos vai passar uns dias num hospital psiquiátrico para averiguarem a sua sanidade mental. Mas, acima de tudo, vai sentir o amor, o carinho e a preocupação de todos aqueles que gostam de si. Vai sentir-se novamente amado. Vizinha, mulher e filhos vão fazer questão de demonstrarem um amor infinito e incondicional.
Acha que não? Por mais paradoxal que possa parecer, teme receber confirmação da falta de amor da parte de alguns que julga que o amam? Então não leve comida nem cobertores e suba só por uns breves minutinhos. Leve apenas as questões «Qual a origem do universo?», «Deus existe?» ou «O que pensam os mercados?» para meditar. Depois desça e verá como volta mais leve. Resolver problemas relacionados com vizinha, mulher, filhos, prestação da casa, leasing do carro, resultados do Benfica e tudo mais vai parecer-lhe muito simples.
Detalhe importante: o plano só resultará se subir ao telhado de forma convicta e realmente empenhado em responder às questões «Qual a origem do universo?», «Deus existe?» ou «O que pensam os mercados?». Ou questões similares que já lhe tenham passado pela mente em momento especialmente filosófico. «Onde deixei o meu telemóvel?» não serve.
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