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domingo, 16 de fevereiro de 2014

Dia dos namorados

O Américo ainda não tinha entrado em casa quando começou a sentir um suave odor a incenso. Já na sala de jantar, o Américo viu a mesa posta com pompa e circunstância — com velas e tudo! Não fosse ter visto apenas dois pratos sobre a mesa e juraria que nessa noite iriam receber visitantes ilustres.

Aniversário dele não era, dela não era, de casados ainda só tinham quatro meses, o começo namoro foi no verão... Não ocorreu ao Américo motivo para ambiente tão especial em casa. Aproximando-se da Detinha para o beijo de boas-vindas, o Américo fez a inevitável pergunta:
— Jantar especial?
— Datas especiais merecem jantares especiais.
— Data especial?
— Ora, não sabes que dia é hoje?
— ...
— Dia dos namorados, esqueceste-te?
Não era bem o caso de se ter esquecido, mas como podia o Américo lembrar-se que a Detinha queria celebrar esse dia? O Américo tentou justificar-se:
— Mas agora já somos casados, querida!
— E daí?
— Daí que este é o dia dos namorados, não o dia dos casados...
Começando a sentir que a Detinha não estava para brincadeiras, o Américo tentou aproximar-se dela para mais um beijo, mas ela prontamente repeliu-o. E perguntou-lhe:
— Significa isso que não pensaste em nada para hoje?
O Américo abanou a cabeça em sinal negativo. A Detinha continuou:
— Não compraste nada para mim?
O Américo abanou a cabeça em sinal negativo. A Detinha insistiu:
— Bombons, lingerie, flores... nada?
Sinal negativo.

O ambiente ficou pesado e jantaram praticamente sem se falarem. O Américo ainda tentou, mas nas três abordagens da noite a Detinha só respondeu por monossílabos. E foi dormir com a cara fechada. Com a cara fechada, com o corpo fechado, com tudo fechado!

Só voltou a esboçar um ligeiro sorriso no dia 17 de fevereiro. Desse mesmo ano, felizmente.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Não é nada do que você está a pensar!

É certo, sabido e quase universalmente aceite que o sofisticado sistema de desconfiança feminino não necessita de muitos indícios — por vezes nem de indícios necessita — para lançar os seus primeiros sinais de alerta. No caso da Laurinda, bastaram duas perdizes depenadas. Viu-as nas mãos do Rolando, chegando de mais um fim de semana de caça no Alentejo, que lhe disse enquanto as exibia:
— Não é nada do que você está a pensar!
(Convém aqui assinalar que o Rolando e a Laurinda formavam um desses casais requintados da capital que se tratam por você). Nem a Laurinda sabia ainda ao certo o que estava a pensar e já o seu sistema de desconfiança dava um primeiro sinal de alerta.

Todavia, o Rolando tinha uma explicação para as perdizes que daquela vez apareciam já depenadas: a dona Ilda, proprietária da casa onde costumavam pernoitar ele e o Pina — eterno companheiro dos fins de semana de caça —, prontificara-se para depenar as perdizes que ambos tinham caçado, e eles, por cortesia, aceitaram. Com esta explicação o índice de desconfiança da Laurinda baixou um pouco, mas nem por isso voltou ao desejável nível zero. Obviamente.

Tempos depois sugiram novos indícios: espetadas nas perdizes — que nunca mais voltaram a chegar com penas em casa — a Laurinda detetou as chapinhas metálicas de algum controlo de qualidade. Sem ter reparado nesse detalhe — e, por conseguinte, sem ter pensado numa explicação —, e antes que a Laurinda pensasse coisas, o Rolando mais uma vez se adiantou:
— Não é nada do que você está a pensar!
— Que explicação tem para isto? — questionou a Laurinda em evidente tom de desagrado.
O Rolando hesitou por breves instantes e, ainda que de forma insegura, avançou com uma possível explicação:
— Isso deve ser coisa dos ecologistas!
— Dos ecologistas?!
— Sim! Não andam por aí a catalogar tudo que é animal selvagem?
— E a dona Ilda?
— A dona Ilda o quê?
— Não tirou as chapinhas?
— Se calhar teve receio de desrespeitar a catalogação ecológica.
— Rolando, Rolando, não tente enganar-me!
— Não tento enganar nada, estou apenas a tentar encontrar uma explicação.

No fim-de-semana seguinte a Laurinda agiu. Quando na sexta-feira, ao fim do dia, o Rolando saía da garagem do prédio onde moravam, ausentado-se para mais um fim de semana de caça, a Laurinda entrava num táxi que já a esperava em frente à porta principal do prédio, e pedia ao taxista para seguir o carro do seu marido. O sentido de orientação nunca foi um ponto forte da Laurinda, mas ela jurava que se o destino era o Alentejo, no nó de Sacavém deviam tomar a direção da ponte Vasco da Gama, nunca a direção oposta!

Cerca de meia hora depois o Rolando parava o seu carro em frente à casa de praia do Pina, na Ericeira. E o táxi que transportara a Laurinda parava umas dezenas de metros atrás. Depois que o Rolando entrou na casa, a Laurinda saiu do táxi.

Finalmente tudo ficara claro para a Laurinda: era aqui, na casa de praia do Pina, que o Rolando passava os fins-de-semana; era aqui, na casa de praia do Pina, que certamente se davam encontros íntimos de elevado grau, sabe deus com que espécie de mulheres! A Laurinda devia ter desconfiado — o sistema de desconfiança feminino é sofisticado, mas não é infalível — que, depois de divorciado, o Pina podia tornar-se uma má influência para o Rolando.

A Laurinda conhecia bem aquela casa dos tempos em que ela e o Rolando passavam fins de semana com o Pina e a sua ex-mulher. Entrou no jardim e foi, pelas traseiras, espreitar à janela da cozinha. Lá viu, de costas, uma mulher com longos cabelos loiros e sapatos de tacão alto. E junto a essa mulher, em clara situação de comprometedora proximidade íntima, o Rolando. A Laurinda respirou fundo e entrou na cozinha. Ao aperceber-se da inesperada aparição da mulher, o Rolando imediatamente disse:
— Não é nada do que você está a pensar!
E não era, de facto. Só uns segundos depois a Laurinda se apercebeu que debaixo dos longos cabelos loiros e em cima dos sapatos de tacão alto se encontrava o Pina.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O Juvenal está mal

O Juvenal é um típico português de classe média. Típico de um certo tipo de típica classe média, numa idade já algo acima da média.

Casou-se cedo, para ajudar a Adelina a libertar-se das amarras de um pai tirano. É certo que o salário da Adelina como professora primária também ajudou o Juvenal a libertar-se de alguns apertos financeiros, mas não mais do que as vezes em que o azar ao jogo ou algum mau investimento o deixaram de mãos a abanar. Em geral, o Juvenal ganhava o suficiente para as suas despesas. Mas tinha uma atividade de alto risco: era negociante.

Tratou sempre bem a Adelina. Em mais de trinta anos de casados nunca lhe levantou a mão. Nem o pé. Mesmo a voz, não a levantava mais do que uma ou duas vezes por semana. E quanto à falta de levantamentos ficamos aqui, pois nunca a Adelina se queixou da falta de quaisquer levantamentos, apesar de uma certa escassez de tempo, decorrente da atividade profissional do Juvenal: era negociante.

Colaborava nas tarefas domésticas. Descia com certa frequência mensal para despejar o lixo e, enquanto a Adelina não tirou a carta de condução, apanhava-a com as compras na porta do supermercado. Não tinha tempo para outras tarefas: era negociante.

Preocupava-se com a saúde da família. Apesar de nunca ter tido tempo para acompanhar ninguém a consultas médicas. O tempo que se perdia em consultórios não era compatível com a sua atividade profissional: era negociante.

Participou ativamente na criação dos três filhos. Chegou ao ponto de ir a uma reunião de encarregados de educação por causa de um deles. Para ajudá-los nos trabalhos de casa recomendava a Adelina: era professora.

O Juvenal afundava no velho sofá em frente à televisão, onde passara parte significativa do seu tempo em casa — que obviamente nunca fora muito: era negociante —, enquanto afogava as mágoas num copo de verde branco e revia em pensamento estes e outros aspetos da sua vida conjugal. Não conseguia entender. Como podia a Adelina querer a separação após trinta anos de um casamento onde lhe parecia que tinham sido tão felizes? O Juvenal está mal. E invade-o um dúvida cruel: terá ele direito a pensão de alimentos?

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Magret de pato


Os jantares entre os dois casais iam acontecendo com certa regularidade ao longo dos anos, ora numa casa ora na outra. De todas as vezes, os anfitriões esforçavam-se para que não houvesse repetição do prato principal de algum dos jantares anteriores. Uma mera questão de orgulho e vaidade que, obsessivamente, tinha sido elevada ao patamar de uma questão de honra!

Desta vez tocava ao Faria e à Maria Alice receberem o Basílio e a Sandrinha em casa. Com a colaboração do Faria, a Maria Alice tentava escolher um prato principal — diferente de todos os anteriores, evidentemente — para o jantar do dia seguinte. O Faria, que era bastante metódico e não suportava ver a Maria Alice tensa, tinha passado a apontar as ementas de jantares anteriores num velho bloco de apontamentos. Após alguns pratos excluídos, por constarem da providencial lista de anotações do Faria, a Maria Alice avançou com mais este:
— Magret de pato.
O Faria olhou a lista de cima a baixo e de baixo a cima e sentenciou:
— Esse nunca fizeste para eles!
— Tens a certeza? — questionou a Maria Alice.
Desconfiar da memória do Faria era uma constante na Maria Alice. Mas desconfiar daquilo que o Faria tinha acabado de ler — ou de não ler, para ser mais exato —, também já era demais!
— Certeza absoluta! — respondeu o Faria.
— Vê bem — ripostou a Maria Alice.
— Já vi e revi: não consta da lista! — contrapôs o Faria com irritação.
Se o Faria era metódico, a Maria Alice era, por método, desconfiada. E a combinação de um com o outro nem sempre resultava num ambiente de saudável harmonia conjugal.

Quando, no dia seguinte, a Maria Alice colocou em cima da mesa de jantar a travessa com o magret de pato acabado de confecionar, o Basílio e a Sandrinha — imediatamente e em simultâneo — proferiram um expressivo «hum, que delícia!». A Maria Alice olhou-os e disse:
— Espero que gosteis de magret de pato.
— Muito — afirmou a Sandrinha.
— E esse que tu fazes é uma delícia! — complementou o Basílio.
O complemento do Basílio caiu sobre a Maria Alice como balde de água fria.
— Já fiz este prato para vós? — perguntou a Maria Alice visivelmente desagradada.
— Sim — respondeu a Sandrinha.
— E estava maravilhoso! — acrescentou o Basílio.
O elogio ao prato da Maria Alice, que numa situação normal teria servido para deixá-la agradada, serviu, em vez disso, para deixá-la bastante agastada. De imediato, a Maria Alice lançou um olhar fulminante sobre o Faria e abanou a cabeça num jeito de quem diz «seu inútil, nem para isso serves». O Faria apenas encolheu os ombros. Sabia que esta história não iria ficar por aqui!

O resto do jantar decorreu com indisfarçável desconforto para os da casa: a Maria Alice sem esconder a frustração pelo prato principal repetido e o Faria sem entender como tinha esquecido de apontar esse prato na sua lista. Enquanto isso, o Basílio e a Sandrinha, alheios ao mau ambiente entre os anfitriões, deliciavam-se com o magret de pato excelentemente confecionado — e as ótimas sobremesas que lhe sucederam. A Maria Alice era, inquestionavelmente, uma cozinheira de eleição!

Logo que entraram no elevador, a Sandrinha beijou o Basílio com satisfação. E exclamou:
— O nosso plano saiu perfeito!
— Acreditaram mesmo que estavam a repetir o prato — acrescentou o Basílio.
— Vais ver: da próxima vez que a Maria Alice for jantar em nossa casa, vai chegar com o nariz menos empinado — rematou a Sandrinha.
Beijaram-se mais uma vez. Celebravam dessa forma a execução irrepreensível de um plano muito bem gizado.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Intervenção divina

O casal debatia-se acesamente na cama, numa peleja simultaneamente oral e corporal:
— Jesus!
— Jesuus!
— Jesuuus!
— Jesuuuus!
...

Já oralmente soltavam para cima de uma vintena de u's e corporalmente se contorciam em alfabetos completos, quando um enorme clarão invadiu o quarto. Não fosse tão profunda a compenetração de ambos e nesse momento podiam ter visto materializar-se na frente da cama aquela figura de olho claro, olhar sereno, barba e cabelo comprido, perguntando:
— Chamaram?
Quando se aperceberam da inesperada presença divina, pararam com tudo o que estavam a fazer. Subitamente, o rubor do cansaço deu lugar ao rubor da vergonha. E, não tendo a possibilidade de cumprirem o ritual bíblico de cobrir as zonas mais pecaminosas com folhas de videira, trataram de cobri-las mesmo com o lençol. Ela ainda tentou tapar a cara com as mãos e os seios com os cotovelos. Com cara de incrédulo e voz trémula ele exclamou:
— Jesus?!
— Eu mesmo!
— Apareces assim, enquanto nós...
— Apareço quando me invocam! Não me invocaram?
— Sim, mas...
— Precisam de ajuda?
— Não! Nisto somos autossuficientes...
— Então por que me chamaram?
— Era apenas força de expressão...
— Pois então, da próxima vez, mais cuidado com a força das expressões!
— Nunca nos tinha acontecido.
— Pois não. Mas com a atual crise de fieis resolvemos voltar a ter uma postura mais interventiva.
— Como assim?
— Sempre que possível, iremos aparecer quando nos invocarem.
— Não fazíamos ideia...
— Acabam de ativar o serviço. 
— Serviço? Qual serviço?!
— O serviço de intervenção divina, ora!
— Mas nós não precisamos de intervenção nenhuma!

Jesus nada acrescentou. Sacou de um pequeno bloco de apontamentos de dentro das suas vestes e começou a tirar algumas notas. Dirigiu-se novamente a ele:
— Preciso de saber se são praticantes.
— Praticantes de quê?
— Da fé cristã, naturalmente.
— Ah, sim! Sempre que possível...
— Têm os sacramentos todos em dia?
— Todos. Até o casamento!
— Um com o outro?
— Claro!
— Assim sendo, e dado que não precisam da intervenção, pagam apenas a deslocação.
— Como?!
— São 25 euros.
— Ahn?
— Por pessoa.
— ...
Cash.

 



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Light my fire

Miro Costa era o nome de um grande artista. Faltava-lhe o CD para a merecida consagração a nível nacional, é certo, mas, como é sabido, nessas coisas os apadrinhamentos nem sempre brindam os mais talentosos. Festas de santos populares, romarias e, principalmente, festas de casamento na região eram os locais onde o Miro Costa, acompanhado dos seus sintetizadores, exibia os dotes vocais e o talento de um músico de eleição. Ao bom estilo do one man show.

O Miro Costa tinha gosto e clarividência suficientes para tocar conforme o baile. E sabia escolher os hits certos para cada ambiente. Chegava a arriscar uma ou outra composição própria, mas era com hits consagrados pelos seus pares internacionais que levava o seu público à loucura. Em casamentos da alta sociedade, quando o álcool já produzia os devidos efeitos, Light my fire, dos Doors, era tiro certo. A apoteose acontecia depois do solo em acordes menores, quando o Miro Costa voltava à carga com a sua potente voz no refrão em tom maior. Era a loucura total.

O Miro Costa nunca soube a mão que efetuara o lançamento, mas num desses momentos chegou a cair-lhe no teclado um sutiã. Talvez tenha sido mesmo esse o momento de sucesso mais explícito para um observador externo, mas vezes sem conta sentia o calor de um público que, além de o apreciar como artista, o desejava pelo seu sex appeal. Os assédios eram frequentes   mais da parte do público feminino  , sendo muito o proveito que daí retirava, por vezes com a terrível missão da escolha   e nem sempre o género era fator decisivo. Em suma: um verdadeiro artista!

Episódio digno de registo aconteceu-lhe num casamento da alta sociedade. Começou precisamente no momento do tal crescendo de menor para maior do Light my Fire. O êxtase dos dançantes na sua frente foi de tal forma generalizado que até a noiva lhe fez um gesto depravado. Com a língua.

No dia seguinte o Miro Costa recebeu um telefonema:
— Miro?
— Sim... eu mesmo.
— Come on baby, light my fire...
 Quem é?
 A Paula.
 Paula?
 A noiva de ontem...
 Ah, sim... então onde está?
— Em casa...
Em casa?! Não viajou em lua-de-mel?
 Não, Miro, já morávamos juntos há anos. O casamento foi só para agradar à família.
 Ah...
 Come on baby, light my fire...
 Vejo que gostou...
 Não, Miro... quer dizer... sim... mas come on baby, light my fire...
 Como?!
 O Roberto saiu e só volta à noite... come on baby, light my fire...
 Não estou a entender!
 Não está mesmo?!
 Quer dizer, estou, mas...
 Ai Miro, Miro, não se deixe inibir pelas convenções da classe média! Alta sociedade é diferente, funciona noutros moldes!

O Miro Costa  ficou calado por uns instantes. Refletiu  a referência a uma particularidade da alta sociedade fez o seu lado de artista entrar em reflexão. Sabendo que o marido estaria ausente até ao final do dia, decidiu comparecer para acender  e apagar, obviamente — o fogo à carente recém casada.

Pouco tempo mediou até ao comparecimento. Já se encontrava de joelhos em frente a ela quando inesperadamente — para o Miro, apenas — irrompeu no quarto o recém casado, com o seu enorme corpo másculo — mas andar e trejeitos de nem tanto — cantando come on baby light my fire. E, num tom de voz ao mesmo tempo seguro e insinuante, afirmou:
— Meu caro, parece-me que só tem uma saída...
E não se referia à porta. Nem à janela.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O grissino

Havia já alguns minutos que ambos permaneciam em silêncio naquele restaurante italiano. Ela observava-o atentamente, enquanto ele, com o olhar distante, se entretinha com os aperitivos.

Não foi o facto de ele ter esquecido a data do aniversário de casamento que a fez desconfiar que algo não estava a funcionar bem entre eles. Afinal, ela sabia perfeitamente que os homens esquecem com facilidade datas importantes. Mesmo as datas inesquecíveis.

Não foi o facto de já só muito esporadicamente — cada vez mais esporadicamente — ele lhe dar a possibilidade de sentir o seu vulcão em erupção que a fez desconfiar que algo não estava a  funcionar bem entre eles. Afinal, ela sabia perfeitamente que a caldeira vulcânica masculina por vezes pode perder vapor. Mesmo na presença de uma mulher como ela.

Não foi o facto de ele, ultimamente, ter tido algumas saídas imprevistas e chegadas tardias — relativamente mal explicadas — que a fez desconfiar que algo não estava a funcionar bem entre eles. Afinal, ela confiava cegamente no seu olfato e sabia que, se houvesse encontros com outra mulher, ela sentiria o odor da traição. Mesmo que nesse odor não houvesse perfume de marca com fixador potente.

O que realmente a fez desconfiar — ou talvez mais do que isso — que algo não estava a funcionar bem entre eles foi a forma comprometedora como ele, com o pensamento sabe deus onde e expressão de quem recordava um momento de profundo prazer, acariciou na boca aquele grissino.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Pensamento é fogo (que arde sem ceder)

Pensamento é coisa deveras difícil de controlar. Tanto pode crescer de forma desgovernada até ao limite do absurdo, como estacar num pequeno detalhe e não deixar que nada mais de valor brote do cérebro que o produz. E, por contraditório que possa parecer — tratando-se de pensamento não é —, é facilmente sugestionável: vamos supor que lhe digo para pensar em flores vermelhas. Pensou, não é? E lhe disser para não pensar em flores vermelhas? Também pensou, não é? Em suma, facilmente sugestionável mas dificilmente controlável.

Uma das tarefas mais árduas que conheço é, seguramente, a de tentar adivinhar pensamento — esqueça todos os números de circo que já viu, porque aquilo é tudo combinado. Pior mesmo, só tentar adivinhar pensamento de mulher. Quantas vezes, meu caro amigo, em meio a uma conversa com a sua cara metade — ou lá quanto ela vale —, lhe apeteceu perguntar: «como diabo te foste lembrar agora disso?». Não pergunte, pois parecerá que está — e estará mesmo — a desvalorizar o assunto por ela despoletado em favor do processo lógico que o desencadeou. Por mais interessante que isso lhe pareça, ela não vai apreciar. Nem, tão pouco, tente entender essas coisas por si só: na complicada e singular lógica feminina há um encadeamento de ideias quase inacessível mesmo aos mais dotados cérebros masculinos — homossexuais incluídos. No universo masculino, os objetivos são sempre muito mais claros, os processos são sempre muito mais simples e os temas andam quase sempre à volta dos mesmos (dois ou três) tópicos.

O Francisco, que era um sujeito pouco avisado para essas coisas, conduzia o carro a alta velocidade — praticamente à mesma velocidade com que se espalhava em pensamento... —, enquanto a Glorinha seguia calada a seu lado. E por que motivo se espalhava em pensamento o desavisado Francisco? Ora, sentindo a Glorinha estranhamente calada durante largos minutos, resolveu tentar adivinhar-lhe o pensamento. Pior do que isso: tentou adivinhar a causa e o pensamento. Recuou às últimas palavras que trocaram e, rapidamente, achou que tinha descoberto: «está assim por causa de uma palavrinha azeda que me escapou... é óbvio que só pode ser isso... mas não pode ser isso... que mal tem isso de uma palavrinha azeda aqui ou ali?... um homem não é propriamente uma refinaria de açúcar!... estas reações dela por palavrinha de nada são cada vez mais irritantes!!... estão a tornar-se insuportáveis!!!... como é que a Glorinha pode agir assim comigo?!!!...»

Tudo isto e muito mais foi produzido numa súbita enxurrada de pensamentos pelo Francisco. Quando o crescendo de pensamentos — espiralando em torno do mesmo tema — já o levava perto da situação absurda de pensar pedir o divórcio da mulher que amava, surge uma inesperada interpelação:
— Chico?
— Sim.
— Vinha aqui a pensar...
— Sim?
— Sobre aquele problema que te falei ontem: acho que vou fazer como sugeriste.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Entre a loucura do telefone e os encantos da powerbox

«Insanidade: fazer a mesma coisa repetidas vezes 
e esperar resultados distintos»
A. Einstein

O casal encontra-se confortavelmente instalado no sofá da sala a explorar os inúmeros encantos da powerbox, quando o telefone toca. Ele levanta-se e vai atender. Regressando ao sofá – e aos encantos da powerbox – é interrogado por ela:
– Quem era?
– Ninguém... foi engano.
Volvidos alguns minutos o telefone volta a tocar. Ele levanta-se e, mais uma vez, vai atender. No retorno ao sofá – e aos encantos da powerbox – é novamente questionado por ela:
– Quem era?
– O mesmo de há pouco. Procura um tal de Dr. Amorim.
– Perguntaste-lhe para que número estava a ligar?
– Sim.
– E então?
– Disse o nosso.
– Estranho...
Não demorou muito para o telefone voltar a tocar. Ele levanta-se pela terceira vez e, com cara de poucos amigos, vai atender. Quando regressa ao sofá, nem espera que ela o questione para lhe dizer com visível irritação:
– Que fulano louco! Insiste em ligar para cá à procura do tal Dr. Amorim.
– Muito louco...
Já sem ambiente para explorarem os encantos da powerbox, a atenção do casal fica agora centrada nos enigmáticos telefonemas. E o telefone toca pela quarta vez. Desta feita, ela levanta-se primeiro e vai atender. Na volta confirma:
– O mesmo. Procurando o Dr. Amorim.
– Que loucura! Melhor desligar o telefone.
– Deixa, pode ser que agora não ligue mais.
– OK.
Os minutos passam, o telefone não volta a tocar e eles podem de novo desfrutar dos encantos da powerbox. Aos poucos, a serenidade do casal começa a ser ameçada por uma certa inquietação dele. Notando-o inquieto, ela pergunta:
– Que tens tu?
– Estou intrigado...
– Com quê?
– Com a história dos telefonemas.
– Imaginei...
– Como é que conseguiste despachá-lo?
– Fácil: já atendi dizendo que era do consultório do Dr. Amorim, especialista em psiquiatria.
– Que disse ele?
– Que precisava de falar com o Dr. Amorim.
– E como é que o despachaste?
– Disse que o Dr. Amorim tinha ido de férias e só regressa no final do mês.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Dia D

Era inquestionável. Ambos tinham perfeita consciência de que, volvidos quase dois anos sobre a primeira vez em que se tinham encontrado, o passo mais importante nessa ainda relativamente curta história de vida a dois iria finalmente ser dado.

A Aurora acordou a pensar precisamente nesse dia em que se conheceram. O incidente da garrafa de água com gás — Frize, salvo erro — caída a seus pés no supermercado e o Neves tentando de um jeito muito desajeitado evitar o inevitável — inequivocamente, um traço marcante da personalidade do Neves. Por mais que ele lhe tivesse garantido que sim, até hoje ela não acreditava que a queda da garrafa tivesse sido meramente acidental. E não podia negar que aquela dúvida tinha funcionado como rastilho para uma curiosidade que lhe condicionara os passos seguintes. Sem também menosprezar o agradável cheiro a homem naquele levantar estratégico — quase violando a distância mínima exigida por lei — depois de ter apanhado os vidros estilhaçados a seus pés. A Aurora achou curioso que lhe tivessem ocorrido estes pensamentos hoje ao despertar. Mas tinha que se apressar, pois dentro de duas horas a Florbela estaria a bater-lhe à porta. Seguiriam juntas para cartório.

O Neves acordou a pensar na primeira noite na qual a Aurora concordou que estava demasiado calor para a roupa que traziam vestida, mas quanto mais roupa tiravam mais a temperatura aumentava. Como lhe pareceu bela naquele trajar de Eva sem folha de videira. Bela e nervosa. Nunca entendeu o motivo pelo qual estava tão nervosa. Afinal, não era a primeira vez da Aurora. E nem duvidava que nesse aspeto até fosse ela a mais experiente dos dois. O Neves até hoje denotava sérias dificuldades para entender determinadas idiossincrasias femininas. Tinham decorrido apenas algumas semanas desde que se tinham conhecido na loja de conveniência do posto de gasolina. Ou teria sido no supermercado? O Neves achou interessante que lhe tivessem ocorrido estes pensamentos hoje ao despertar. Mas tinha que se despachar, pois em menos de uma hora deveria estar no cartório. 

Poucos minutos depois da hora marcada, lá estavam a Aurora e o Neves, lado a lado, sendo confrontados com a inevitável pergunta:
— Por certo, pensaram muito bem no ato que aqui vão realizar. Digam-me: é realmente da vossa vontade consumarem este divórcio?
— Sim! — Responderam ambos em simultâneo.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O GPS na relação conjugal

Não sei se já há dados estatísticos que o comprovem, mas acredito que um dos efeitos secundários do uso generalizado do GPS tenha sido uma valiosa contribuição para o decréscimo das situações de conflito entre casais que gostam de viajar (e utilizar o GPS).

Casal que tenha ultrapassado a lua-de-mel rapidamente começa a aperceber-se que não é por terem passado a formar um só corpo que daí em diante tudo funcionará na perfeição. A mulher, de um modo geral, atinge esse estado de consciência muito antes do homem. Muitas vezes, na própria lua-de-mel. Principalmente se essa envolver viagem de carro na qual se torne necessário recorrer a um mapa. Facilmente a mulher descobre que a sugestão de ignorarem o mapa e pedirem indicações a alguém é uma das ofensas graves para o homem: o verdadeiro macho sabe como tratar sozinho da orientação familiar e não precisa da ajuda de estranhos. Sugerir que se abdique deste princípio básico pode ser (e quase sempre é) interpretado como ofensa grave. Respeitado esse princípio, a viagem passa depois por várias fases.

Na fase 1, o homem coloca o mapa nas mãos da mulher e escuta a inevitável pergunta: «onde é que estamos?» Respostas objetivas do tipo «devias saber tanto quanto eu», além de dificilmente saírem no tom e volume certos para não parecerem ofensivas, também não vão contribuir em nada para a resolução do problema. Nessa fase, o mais recomendável é parar o carro e assinalar sobre o mapa (de preferência com uma cruzinha) o local onde se encontram nesse momento. Ainda com o carro parado, o homem deve colocar o mapa com a orientação certa nas mãos da sua companheira. Se o estado de espírito ainda permitir, pode também aproveitar para lhe dar um beijo e assim transmitir a ideia (falsa) de que não está tenso.

A fase 2 é um pouco mais demorada e, normalmente, envolve instruções do tipo «vira para lá» (com o correspondente acompanhamento de sinalética manual, claro está). Nesta fase o homem deve aumentar o mais que puder o alcance da sua visão radial. O ideal seria colocar a mulher no capô (e ela até agradeceria, mais não fosse para se livrar do sujeito mal-humorado que tem ao lado), mas isso não é permitido por lei (pelo menos nos países por onde tenho andado). Esta é a fase em que a tensão aumenta significativamente e deixa de ser possível disfarçá-la com um beijo. Aumentar o volume do rádio pode ajudar. Mesmo que isso faça com que as instruções deixem de ser escutadas, o efeito será praticamente o mesmo. E o volume alto sempre permite libertar alguma da tensão acumulada praguejando um pouco sem que se note a indelicadeza.

Entre as fases 2 e 3 há a tentação para uma fase 2.5, que envolve o mapa colocado sobre o volante e o acumular das funções de piloto e co-piloto. O homem jamais deve cair nessa tentação! Além de ser proibido por lei e contribuir de forma significativa para aumentar o risco de acidente (por vezes há sintonia entre as proibições e o perigo iminente), não costuma trazer resultados práticos: o desempenho de mais do que uma tarefa em simultâneo é qualidade exclusiva da mulher!

A fase 3 depende dos casais:

Nos casais onde o homem tem alguma inteligência prática (ou menos testosterona, dá no mesmo), chegando a esta fase (mas só nesta fase!), o problema já se resolve facilmente com o renovar da sensata sugestão feminina «vamos perguntar a alguém». No entanto, nesta fase de cedência à sensatez feminina, evitem-se os exageros: perguntando a grupos exclusivamente femininos, e sendo elas pelo menos quatro, com probabilidade alta se corre o risco de obter indicações com mãozinhas delicadas a apontar nas direções de (no mínimo) os quatro pontos cardeais.

Nos casais mais radicais, a mulher sai do carro e apanha um táxi. Muito tempo depois o homem chega ao destino visivelmente cansado e, com um sorriso idiota e ar triunfal, acrescenta: «estás a ver que consegui?»

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Um novo passo evolutivo


Quem não confia na bíblia — e tem um nível cultural minimamente razoável — muito provavelmente sabe que a vida na terra tem estado sujeita à evolução das espécies. Sabe também que pequenos avanços ao nível da postura contribuíram de forma significativa para o desenvolvimento da espécie humana. A separação do polegar ou a posição ereta, por exemplo, foram decisivas para atingirmos o grau de sofisticação e desenvolvimento que temos — nem todos, admito — hoje em dia.

No entanto, apesar das constantes reclamações do ser humano fêmea, há uma postura que o ser humano macho tem sentido algumas dificuldades em adquirir. O macho contribui, com tal falta de postura, para uma vida caseira em condições menos saudáveis, tanto na perspectiva higiénica como, principalmente, na perspectiva do relacionamento conjugal.

Segundo as minhas estatísticas baseadas num inquérito a cerca de uma dúzia de famílias portuguesas — e acredito que famílias de outras nacionalidades não sejam diferentes neste aspeto —, cerca de 88% dos homens — ser humano macho — demonstram dificuldades em sentar-se para fazer determinado tipo de necessidade fisiológica. Esse mesmo macho que já conseguiu separar o polegar dos outros dedos, reluta ainda em separar a mão de certo órgão no momento em que alivia a bexiga.

Sabendo eu que esse é um problema que afeta seriamente alguns relacionamentos, andei anos a meditar sobre o problema. Há cerca de três meses, enquanto via um jogo de futebol na SportTV, pareceu-me finalmente ter chegado a uma solução. A solução pareceu-me tão brilhante que resolvi tentar capitalizá-la: escrevi para a Associação Portuguesa de Terapeutas do Relacionamento Conjugal (APTRC) informando-os sobre o perigo — para eles — da ideia genial que eu acabava de ter. Não tenho dúvidas de que, posta a minha ideia em prática, um rude golpe nos proventos dos afiliados da APTRC será quase inevitável. A capitalização da minha ideia consistiria, simplesmente, num acordo sobre o montante a receber — de preferência percentual sobre o volume de negócios — para que eu mantivesse o meu silêncio. Por outras palavras, uma espécie de chantagem.

Não tendo até agora obtido qualquer tipo de resposta da parte da APTRC e como até tento, a cada dia que passa, tornar-me num ser cada vez mais altruísta — poderia ter havido retrocesso, cara APTRC! —, decidi tornar agora pública a minha ideia, dando dessa forma uma contribuição para a evolução do ser humano macho na conquista de uma nova postura. Se Colombo teve uma ideia brilhante ao ver um ovo e Newton teve uma ideia ainda mais brilhante ao ver cair uma maçã, porque não poderia eu ter uma ideia brilhante ao ver um jogo de futebol na SportTV?

Assim como grande parte das ideias brilhantes que têm despontado na mente humana, esta também é muito simples: colocar em cada casa de banho um pequeno LCD — a acender em simultâneo com a lâmpada —, aproximadamente à altura da cintura e exatamente em frente ao vaso sanitário. Dependendo do gosto do(s) elemento(s) masculino(s) do agregado familiar, canais como Caça & Pesca, SportTV ou SIC Notícias poderão revelar-se bastante eficientes rumo à conquista desse novo passo evolutivo. Canais como Playboy, Venus ou Hustler, apesar de muito apreciados pelo ser humano macho, não são recomendáveis para este efeito.