O Miro Costa tinha gosto e clarividência suficientes para tocar conforme o baile. E sabia escolher os hits certos para cada ambiente. Chegava a arriscar uma ou outra composição própria, mas era com hits consagrados pelos seus pares internacionais que levava o seu público à loucura. Em casamentos da alta sociedade, quando o álcool já produzia os devidos efeitos, Light my fire, dos Doors, era tiro certo. A apoteose acontecia depois do solo em acordes menores, quando o Miro Costa voltava à carga com a sua potente voz no refrão em tom maior. Era a loucura total.
O Miro Costa nunca soube a mão que efetuara o lançamento, mas num desses momentos chegou a cair-lhe no teclado um sutiã. Talvez tenha sido mesmo esse o momento de sucesso mais explícito para um observador externo, mas vezes sem conta sentia o calor de um público que, além de o apreciar como artista, o desejava pelo seu sex appeal. Os assédios eram frequentes — mais da parte do público feminino —, sendo muito o proveito que daí retirava, por vezes com a terrível missão da escolha — e nem sempre o género era fator decisivo. Em suma: um verdadeiro artista!
Episódio digno de registo aconteceu-lhe num casamento da alta sociedade. Começou precisamente no momento do tal crescendo de menor para maior do Light my Fire. O êxtase dos dançantes na sua frente foi de tal forma generalizado que até a noiva lhe fez um gesto depravado. Com a língua.
No dia seguinte o Miro Costa recebeu um telefonema:
— Miro?
— Sim... eu mesmo.
— Come on baby, light my fire...
— Quem é?
— A Paula.
— Paula?
— A noiva de ontem...
— Ah, sim... então onde está?
— Em casa...
— Em casa?! Não viajou em lua-de-mel?
— Não, Miro, já morávamos juntos há anos. O casamento foi só para agradar à família.
— Ah...
— Come on baby, light my fire...
— Vejo que gostou...
— Não, Miro... quer dizer... sim... mas come on baby, light my fire...
— Como?!
— O Roberto saiu e só volta à noite... come on baby, light my fire...
— Não estou a entender!
— Não está mesmo?!
— Quer dizer, estou, mas...
— Ai Miro, Miro, não se deixe inibir pelas convenções da classe média! Alta sociedade é diferente, funciona noutros moldes!
O Miro Costa ficou calado por uns instantes. Refletiu — a referência a uma particularidade da alta sociedade fez o seu lado de artista entrar em reflexão. Sabendo que o marido estaria ausente até ao final do dia, decidiu comparecer para acender — e apagar, obviamente — o fogo à carente recém casada.
Pouco tempo mediou até ao comparecimento. Já se encontrava de joelhos em frente a ela quando inesperadamente — para o Miro, apenas — irrompeu no quarto o recém casado, com o seu enorme corpo másculo — mas andar e trejeitos de nem tanto — cantando come on baby light my fire. E, num tom de voz ao mesmo tempo seguro e insinuante, afirmou:
— Meu caro, parece-me que só tem uma saída...
E não se referia à porta. Nem à janela.



