Nos primeiros anos um quarto e sala era suficiente. Depois da peregrinação noturna pelos bares sagrados, o calor da noite acontecia já ao amanhecer no recesso do apartamento. Poder-se-ia pensar na competição interna pelo quarto, mas estranhamente era a sala o aposento mais requisitado. O acesso privilegiado à cozinha era fator decisivo. Chantilly e morangos eram ingredientes indispensáveis no frigorífico. Morangos que, ocasionalmente, eram também chamados de fresas ou strawberries e, numa das vezes, até de aardbeien. Chantilly era uma palavra mais universal. Com exceção de uma ocasião, quando uma camone mais embriagada teimou em chamar aquilo de cheivim foume. Estava o Alfredo nessa noite com o acesso privilegiado à cozinha — e à camone — e, apesar de não ser grande especialista em língua inglesa, pelo uso dado ao creme deduziu que chevim foume fosse expressão para algo como espuma de barbear — não exatamente para a barba naquele caso.
Alguns anos depois o Alfredo e o Delfim casaram — não um com o outro, é claro. Mas a sintonia entre eles era tanta que até no ano do casamento fizeram questão de coincidir: o Alfredo em Abril e o Delfim em Maio. E a tradição do apartamento em Albufeira no verão manteve-se. O quarto e sala deu naturalmente lugar a um sala e dois quartos. As peregrinações noturnas mudaram de local e as esposas tornaram-se presença habitual. Alfredo e Delfim trocavam por vezes toques de cotovelo e olhares nostálgicos nas passagens em frente aos templos sagrados de outros tempos. As noites eram agora mais comedidas e o amanhecer passou a ser, para o Alfredo e o Delfim — e as respetivas esposas —, a hora do sono profundo. Morangos e chantilly agora só esporadicamente. E como sobremesa.
Anos mais tarde os filhos. Hábitos quase todos alterados. Exceto a tradição de um apartamento em Albufeira no verão. O quarto e sala que dera lugar ao sala e dois quartos evoluía agora para um sala e três quartos — o Bruno César e o César Bruno passaram a dividir o quarto extra. As saídas noturnas tornaram-se incompatíveis com a necessidade do sol da manhã para os pequenos. A proposta masculina de tomarem conta deles no horário da sesta — por troca com alguma liberdade noturna e um bom sono matinal — foi simultânea e liminarmente vetada por ambas as esposas — a sintonia entre o Alfredo e o Delfim prolongava-se também às esposas. Morangos e chantilly voltaram a ser presença habitual no frigorífico. Agora para as crianças.
Mais de dez anos depois, a sintonia daquela já longa amizade sofreu um abalo. Há um passo no qual o Alfredo não acompanha o Delfim: o divórcio. Com esse divórcio o Alfredo sofreu quase tanto como o Delfim. A incerteza sobre a tradição de um apartamento em Albufeira no verão deixou-o apreensivo. Chegou a temer o pior. Mas o próprio Delfim fez questão de lhe assegurar que a tradição se manteria. O Alfredo suspirou de alívio. Ocorreu-lhe depois que a situação voltava a permitir saídas noturnas e amanheceres mais animados para o Delfim. Não pode conter o despontar de uma nova dose de algum sofrimento — agora provocado pela inveja. Chegou a pensar no seu próprio divórcio, mas infelizmente não via ainda motivos suficientemente fortes que o justificassem. Mas teria de explicar ao Delfim que em nome dos valores familiares continuaria a ser um apartamento de sala e três quartos. E, para prevenir tentações, morangos e chantilly estariam proibidos naquele frigorífico.
