
Não sei se proveniente de algum traço específico na carga genética dos portugueses, mas parece-me inquestionável haver na idiossincrasia deste nosso povo algo que nos caracteriza como invulgarmente viciados em palmas. Isso mesmo: clap, clap, clap...
As palmas
são, provavelmente, a forma mais universal de demonstrar apreço por uma boa execução em diversas áreas de expressão artística. Muito em particular, na área musical. Mas
podem também as palmas ser um excelente instrumento de percussão numa execução musical.
No flamenco ou na rumba, por exemplo, são batidas de forma intercalada, no tempo
e no contratempo, para conferir maior vivacidade ao ritmo. No samba de roda do
recôncavo baiano são batidas de forma sincopada para acrescentar
maior complexidade ao ritmo. Em Portugal, surgem frequentemente nas salas de espetáculo para acrescentar monotonia ao ritmo, sendo batidas pelo público no tempo forte de cada compasso, muitas vezes abafando o som dos artistas ou atrapalhando-lhes a execução.
Se
dúvidas houver, escute-se a gravação da Deolinda ao
vivo no Coliseu do Recreios. Não há por lá uma só música mais ritmada que a
plateia — camarotes, balcão e galeria incluídos
— não faça acompanhar com as
suas inestimáveis e ruidosas palmas. Em
alguns temas torna-se difícil descobrir se as palmas
surgem para demonstrar apreço pelos executantes ou para os testarem na introdução de variações rítmicas ao
longo de uma mesma canção. A gravação é de 2011, o Coliseu é o de Lisboa, mas há vários anos que tenho detetado esse vício também nas salas de
espetáculo do Porto. E quase sempre com desagrado.
O vício dos portugueses pelas palmas é de tal forma acentuado que passaram também elas a ser a forma predileta de assinalar o minuto de silêncio — note-se o detalhe irónico
da terminologia — nos estádios
de futebol por este país fora. Minuto
de silêncio esse que, quando muito, dura uns dez segundos. Ao décimo primeiro já todos os presentes no estádio, em pé, rendem a sua estrondosa salva de palmas ao homenageado. Não soubesse eu que os
portugueses têm, por natureza, uma certa tendência para o culto da tristeza e acharia que o
objetivo de tal ato era transformar em alegre um pretenso minuto de pesar. Mas
a verdade é que se trata apenas de vício. Vício por palmas. Não é de admirar
que as proíbam no fado.