Fez-se silêncio no velho café do Tónio da Bininha. A euforia que tinha percorrido as expressões daqueles homens desde a vitória na meia-final do torneio inter-freguesias dava agora lugar à preocupação. Grande preocupação.
Se fosse outro qualquer, ainda se arranjava subsitituto, mas o Miguel Prodome? O Prodome era insubstituível! Era ele o garante da inviolabilidade das redes, a pedra angular, a base sobre a qual assentava toda a estratégia daquela equipa que tão boa conta de si tinha dado no imaculado percurso até à final.
Do lado de lá do balcão, o Tónio da Bininha — beneficiário maior das celebrações vitoriosas da equipa da freguesia — ainda ousou perguntar:
«Tens mesmo que ir?»
Ao que o Miguel Prodome prontamente respondeu:
«Tenho... tenho... Já tive que aturar a Guida por ter faltado a algumas missas!»
«Então lá terá que ser...» — disse aparentemente resignado o Tónio da Bininha.
No dia da comunhão solene, de manhã bem cedo, a Guida recebeu um telefonema. A comunhão iria ter que ser adiada, pois o padre não estava bem de saúde: passara a noite com as calças na mão por causa de um desarranjo intestinal. Pelos vistos, caiu-lhe mal uma francesinha que comeu de véspera no café da Bininha.
O Miguel Prodome estava liberado para a grande final! Deus escreve direito por linhas tortas, pensaram alguns dos seus companheiros de equipa. Mas sem muita convicção da intervenção divina.
