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quarta-feira, 23 de maio de 2012

Cotovelos

Não tenho dúvidas de que os cotovelos são uma das partes mais injustiçadas do corpo humano. Trabalham que se fartam o tempo todo (podendo chegar ao ponto de serem revestidos por uma pele que mais parece de paquiderme), dão trombadas com elevada frequência (que lhes causam dores terríveis) e depois são utilizados numa metáfora para um sentimento tão vil como o da inveja. Ou numa outra para a tagarelice.

Em nome de alguma justiça corporal, os cotovelos mereceriam de todos nós maior consideração (além de lubrificações regulares com creme para diminuir a aspereza da pele). Enaltece-se o aspeto e desempenho de olhos, boca, mãos, pernas e outras partes que nem preciso mencionar, mas que valor se dá aos cotovelos? Eu contra mim escrevo: em toda a minha vida não tive mais do que três momentos de ponderação sobre a importância dessas articulações. E o terceiro deles foi agora mesmo para escrever este texto.

O primeiro momento de consciência sobre o valor dos cotovelos tive-o numa idade compreendida entre a suficiente para já saber o que queria e a insuficiente para ter o que gostaria. Estudava com uma colega relativamente desenvolvida para a idade (e particularmente avantajada quanto a determinado atributo físico). No momento em que ela, do meu lado direito, se debruçou para entender melhor algo que eu escrevera no meu caderno (talvez a solução de uma equação de grau elevado para a época...), o meu cotovelo direito experimentou uma das sensações de contacto interpessoal mais excitantes até essa idade. Não foi muito, mas por vezes é em pequenos detalhes inesperados que residem os maiores prazeres. E este obtive-o através do cotovelo. O direito.

A história anterior não é das melhores, mas enaltece o valor do cotovelo no despertar para as sensações de prazer num adolescente. E já que chegou até este ponto (muito obrigado!) merece ser recompensado com uma história mais edificante. 

O segundo momento em que fui levado a meditar sobre a importância dos cotovelos foi na minha primeira visita ao Brasil. Decorria uma campanha televisiva sobre algo que, julgo eu, andaria em torno da solidariedade. Algumas personalidades apareciam esporadicamente na televisão a contar pequenas histórias que tocassem (sentido figurado!) o telespectador. Uma dessas histórias foi contada por Tom Jobim. Versava sobre um homem que, tendo morrido, antes de seguir a merecida trajetória, foi conduzido (por S. Pedro, suponho) a visitar o inferno e o céu. Chegado ao inferno, viu uma enorme mesa cheia de comida e de bebida, tudo do bom e do melhor, e muita gente à volta da mesa a olhar a comida sem poder tocá-la, apesar do ar faminto de todos eles. Motivo? Todos tinham os cotovelos ao contrário. Um inferno! Posteriormente o homem foi levado ao céu. Aí observou aquela que, num primeiro relance, lhe pareceu ser uma cena igual à do inferno: uma enorme mesa, comida e bebida à farta sobre uma enorme mesa e muita gente ao redor da mesa com os cotovelos ao contrário. Não escondendo o espanto pela semelhança com o que acabara de observar no inferno, foi alertado para um detalhe que lhe escapara: cada um utilizava os seus braços para alimentar o vizinho do lado.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Relato de um episódio não ocorrido

Não tenho por hábito abordar aqui temas relacionados com as minhas aulas, nem com o comportamento dos meus alunos — nem alunas. Não porque que não surja nada digno de registo, mas porque não pretendo dar azo a que se notem nos meus relatos detalhes que comprometam a reputação de quem quer que seja — especialmente a minha. Não vá o diabo tecê-las!

Não posso relatar nada de verídico sobre o caso de uma aluna que veio ao meu gabinete ver a correção de um exame de Álgebra, pelo simples motivo de que nunca lecionei essa disciplina. Por conseguinte, não me comprometerei se disser o que quer que seja sobre o hipotético comportamento de uma aluna que não veio à minha sala ver a correção do exame de uma disciplina que nunca lecionei. Nem a aluna chegou perguntando:
— Professor, posso ver a correção do meu exame?
Como ela não perguntou, eu também não respondi:
— Pode sim, claro — e nem acrescentei: — qual o seu nome?
Como eu não perguntei, ela também não respondeu:
— Maria do Céu Formosinho.
Nem eu lhe disse:
— Aqui tem o seu exame.
E, neste ponto, ela não comentou:
— Não sei o que se passa comigo. Tento, tento, mas não consigo fazer esta disciplina!
Nem eu respondi:
— Talvez não esteja a tentar do jeito certo.
Não teria dito isto, é óbvio, pois não cometeria a imprudência de deixar ao critério da aluna a possibilidade de uma interpretação maliciosa que me comprometesse a reputação. Como eu não disse, ela também não perguntou:
— De que forma, professor?
Nem eu tive que responder:
— Não há uma forma universal. Reveja bem o seu método de estudo.
Como esta conversa não aconteceu, também não passei depois pelo embaraço de vê-la tomar uma postura mais ousada na minha frente, de saia curta e perna trançada, a lamentar-se:
— Estes grupos e corpos estão a tirar-me do sério!
Nem eu senti necessidade de acrescentar:
— Não esqueça os domínios de integridade.
Não tendo a conversa chegado a este ponto, a aluna não teve também a ousadia de se inclinar ligeiramente sobre a minha mesa, com a generosa dianteira em riste, sussurrando-me em tom de proposta:
— Faço tudo que o professor quiser para resolver isto de uma vez por todas!
Não foi embaraçoso, porque não aconteceu. E nem eu tive que refrear os ímpetos da aluna:
— Não precisa de chegar a tanto. Só com estudo chegará lá!

Nunca será demais recordar que nada disto aconteceu. E se é verdade que o desfecho da história poderia deixar em evidência os meus bons valores éticos e morais, não é menos verdade que poderia também deixar em causa outro tipo de valores. Repito: trata-se do relato de um episódio não ocorrido!