Em nome de alguma justiça corporal, os cotovelos mereceriam de todos nós maior consideração (além de lubrificações regulares com creme para diminuir a aspereza da pele). Enaltece-se o aspeto e desempenho de olhos, boca, mãos, pernas e outras partes que nem preciso mencionar, mas que valor se dá aos cotovelos? Eu contra mim escrevo: em toda a minha vida não tive mais do que três momentos de ponderação sobre a importância dessas articulações. E o terceiro deles foi agora mesmo para escrever este texto.
O primeiro momento de consciência sobre o valor dos cotovelos tive-o numa idade compreendida entre a suficiente para já saber o que queria e a insuficiente para ter o que gostaria. Estudava com uma colega relativamente desenvolvida para a idade (e particularmente avantajada quanto a determinado atributo físico). No momento em que ela, do meu lado direito, se debruçou para entender melhor algo que eu escrevera no meu caderno (talvez a solução de uma equação de grau elevado para a época...), o meu cotovelo direito experimentou uma das sensações de contacto interpessoal mais excitantes até essa idade. Não foi muito, mas por vezes é em pequenos detalhes inesperados que residem os maiores prazeres. E este obtive-o através do cotovelo. O direito.
A história anterior não é das melhores, mas enaltece o valor do cotovelo no despertar para as sensações de prazer num adolescente. E já que chegou até este ponto (muito obrigado!) merece ser recompensado com uma história mais edificante.
O segundo momento em que fui levado a meditar sobre a importância dos cotovelos foi na minha primeira visita ao Brasil. Decorria uma campanha televisiva sobre algo que, julgo eu, andaria em torno da solidariedade. Algumas personalidades apareciam esporadicamente na televisão a contar pequenas histórias que tocassem (sentido figurado!) o telespectador. Uma dessas histórias foi contada por Tom Jobim. Versava sobre um homem que, tendo morrido, antes de seguir a merecida trajetória, foi conduzido (por S. Pedro, suponho) a visitar o inferno e o céu. Chegado ao inferno, viu uma enorme mesa cheia de comida e de bebida, tudo do bom e do melhor, e muita gente à volta da mesa a olhar a comida sem poder tocá-la, apesar do ar faminto de todos eles. Motivo? Todos tinham os cotovelos ao contrário. Um inferno! Posteriormente o homem foi levado ao céu. Aí observou aquela que, num primeiro relance, lhe pareceu ser uma cena igual à do inferno: uma enorme mesa, comida e bebida à farta sobre uma enorme mesa e muita gente ao redor da mesa com os cotovelos ao contrário. Não escondendo o espanto pela semelhança com o que acabara de observar no inferno, foi alertado para um detalhe que lhe escapara: cada um utilizava os seus braços para alimentar o vizinho do lado.
