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quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Três príncipes tristes

Durante a semana passada estive na província espanhola que dá nome ao título do príncipe herdeiro da coroa real — as Astúrias. Apesar de lá, como cá, a crise e as medidas de austeridade estarem na ordem do dia, grande destaque noticioso nos média espanhóis estava a ser dado ao nosso príncipe. Não, não estou aqui como português em estado de orfandade monárquica ansiando por uma coroa, num assomo de patriotismo transibérico, a referir-me ao Príncipe das Astúrias. Refiro-me, isso sim, ao Príncipe de Madrid, aquele que vende os pontapés que dá numa bola a peso de ouro e anda triste. Serviu a tristeza do Príncipe de Madrid para que amigos espanhóis, num momento de alguma erudição literária e bom humor, me tivessem dado a conhecer (parte de) um poema de Rubén Darío:
«La princesa está triste..., ¿qué tendrá la princesa?
Los suspiros se escapan de su boca de fresa,
Que ha perdido la risa, que ha perdido el color.
La princesa está pálida en su silla de oro».
Na viagem de volta ao Porto, já em território nacional, tive a oportunidade de seguir, via rádio, o discurso de outro príncipe português: o de Massamá. Esse discurso — horas mais tarde complementado com umas notas tristes na sua página do Facebook — provocou-me também uma associação literária: «O Príncipe Sapo», dos irmãos Grimm. Não duvido nada que, volvido pouco mais de um ano sobre a eleição do aperaltado e bem-falante Príncipe de Massamá, muitos dos seus eleitores o vejam agora como uma espécie de personagem dos irmãos Grimm, mas evoluindo ao contrário: se no famoso conto de fadas é o sapo que se transforma príncipe, neste nosso triste conto de fadas — ou de fados, quem sabe, talvez até com as vogais trocadas — é o Príncipe de Massamá que se transforma em sapo.

Num pequeno aparte, o meu pedido de desculpas a todos os sapos por esta infame associação, pois não vi até hoje na literatura científica nenhum relato sobre a existência de sapo aldrabão, prepotente ou cínico.

Voltando ao conto dos irmãos Grimm. Tanto quanto sei, a versão atual está um pouco polida em relação à original. Na versão original o sapo não se transformava em príncipe quando a princesa lhe dava um beijo, mas sim quando o atirava contra uma parede. Penso que no caso do Príncipe de Massamá, e para que se dê sequência ao triste conto de fadas ao contrário, é chegada a hora dos seus eleitores o atirarem contra alguma parede para que ele encarne na sua condição de sapo. E, para que de futuro não tenhamos que engolir muitos sapos, que se guarde como lição deste conto de fadas ao contrário, que por debaixo de um príncipe de falas mansas, sorrisos simpáticos e cabelos bem pinteados pode estar um tremendo sapo.

Nestas minhas alusões a príncipes, ilusões e tristezas do Portugal contemporâneo, não podia deixar de fazer uma breve referência ao Príncipe de Paris. Aquele que, após seis anos nos quais nos enredou em complexas teias de engenharia civil e financeira, resolveu recolher-se para estudos filosóficos em Paris. Tem estado adormecido, mas imagino que também esteja triste. E já que o momento é de associações literárias, o que me ocorre quando penso no Príncipe de Paris é «A Bela Adormecida Vai à Escola», de Torrente Ballester.


quarta-feira, 22 de junho de 2011

Ronaldo & Irina

"A imaginação é a única arma 
na guerra contra a realidade"
Jules de Gaultier

Primeiro ato: casal — homem e mulher — ao sol da tarde na praia. Ele alto e troncudo — ligeiramente para o gordo — com tatuagem no braço, ela relativamente deselegante no aspeto físico, mas cuidada na maquiagem e na bijuteria. Ele com um boné de pala para trás, ela com uma pala na frente. Ele sentado numa cadeira, ela deitada numa toalha. Ele lê A Bola, ela lê a revista Maria. Em ambos uma certa intenção — falhada — de fazer passar uma aura de sensualidade que só com muito boa vontade — e algum mau gosto — se lhes poderia reconhecer.

Alguns metros acima um homem sozinho. Baixo, magro, de pele clara e aspeto frágil. Sentado numa cadeira, virado na direção do casal — que coincide com a direção do mar... a mais natural — lê absortamente um livro à sombra do seu guarda-sol. O primeiro homem levanta-se e aproxima-se do segundo homem, dizendo-lhe com certa rudeza:
— Se não parar de olhar para a minha mulher estamos mal!
— Como?!
— Não, não come nada que eu não deixo!
— Deve estar a brincar...
— Acha mesmo?!
— Não vejo outra possibilidade.
— Não se faça de desentendido, pois sabe muito bem do que estou a falar!
— Não me faço nada de desentendido, só não estou a entender nada.
— Bom, só vim avisá-lo: se continuar a olhar para a minha mulher rebento consigo, entendeu?!
A última frase foi dita em crescendo — tanto em volume de voz como em rubor na face do primeiro homem — e com um ligeiro pender de corpo na direção do segundo homem. Era óbvio que o segundo homem não estava a entender praticamente nada. Apenas o suficiente para que tivesse ficado claro que, dada a diferença de envergadura física — e aparentemente também psíquica — o melhor seria calar-se. Minutos depois pegou nas suas coisas e saiu tocado pela prudência.

Segundo ato: o mesmo casal da praia, agora no quarto. Ele deitado na cama, ela sentada. Corpos ruborizados e esquentados, não apenas pelo sol que apanharam poucas horas antes.
— A minha Irina gostou?
— Adorou!
— Viu a virilidade do seu Ronaldo?
— Uma força da natureza!
— Viu como preservo a minha Irina?
— Fê-la sentir-se uma estrela!
— Da próxima ameaço um voyeur ainda mais forte.
— Ai que homem potente!
— Isso excita a minha Irina?
— Deixa-a em brasa!
— Chama o Ro-Ro, chama o Ro-Ro!
— Ro-Ro, Ro-Ro...
— Chama de novo, chama!
— Ro-Ro, Ro-Ro...
— Ai que loucura!
...