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quarta-feira, 2 de maio de 2012

Magret de pato


Os jantares entre os dois casais iam acontecendo com certa regularidade ao longo dos anos, ora numa casa ora na outra. De todas as vezes, os anfitriões esforçavam-se para que não houvesse repetição do prato principal de algum dos jantares anteriores. Uma mera questão de orgulho e vaidade que, obsessivamente, tinha sido elevada ao patamar de uma questão de honra!

Desta vez tocava ao Faria e à Maria Alice receberem o Basílio e a Sandrinha em casa. Com a colaboração do Faria, a Maria Alice tentava escolher um prato principal — diferente de todos os anteriores, evidentemente — para o jantar do dia seguinte. O Faria, que era bastante metódico e não suportava ver a Maria Alice tensa, tinha passado a apontar as ementas de jantares anteriores num velho bloco de apontamentos. Após alguns pratos excluídos, por constarem da providencial lista de anotações do Faria, a Maria Alice avançou com mais este:
— Magret de pato.
O Faria olhou a lista de cima a baixo e de baixo a cima e sentenciou:
— Esse nunca fizeste para eles!
— Tens a certeza? — questionou a Maria Alice.
Desconfiar da memória do Faria era uma constante na Maria Alice. Mas desconfiar daquilo que o Faria tinha acabado de ler — ou de não ler, para ser mais exato —, também já era demais!
— Certeza absoluta! — respondeu o Faria.
— Vê bem — ripostou a Maria Alice.
— Já vi e revi: não consta da lista! — contrapôs o Faria com irritação.
Se o Faria era metódico, a Maria Alice era, por método, desconfiada. E a combinação de um com o outro nem sempre resultava num ambiente de saudável harmonia conjugal.

Quando, no dia seguinte, a Maria Alice colocou em cima da mesa de jantar a travessa com o magret de pato acabado de confecionar, o Basílio e a Sandrinha — imediatamente e em simultâneo — proferiram um expressivo «hum, que delícia!». A Maria Alice olhou-os e disse:
— Espero que gosteis de magret de pato.
— Muito — afirmou a Sandrinha.
— E esse que tu fazes é uma delícia! — complementou o Basílio.
O complemento do Basílio caiu sobre a Maria Alice como balde de água fria.
— Já fiz este prato para vós? — perguntou a Maria Alice visivelmente desagradada.
— Sim — respondeu a Sandrinha.
— E estava maravilhoso! — acrescentou o Basílio.
O elogio ao prato da Maria Alice, que numa situação normal teria servido para deixá-la agradada, serviu, em vez disso, para deixá-la bastante agastada. De imediato, a Maria Alice lançou um olhar fulminante sobre o Faria e abanou a cabeça num jeito de quem diz «seu inútil, nem para isso serves». O Faria apenas encolheu os ombros. Sabia que esta história não iria ficar por aqui!

O resto do jantar decorreu com indisfarçável desconforto para os da casa: a Maria Alice sem esconder a frustração pelo prato principal repetido e o Faria sem entender como tinha esquecido de apontar esse prato na sua lista. Enquanto isso, o Basílio e a Sandrinha, alheios ao mau ambiente entre os anfitriões, deliciavam-se com o magret de pato excelentemente confecionado — e as ótimas sobremesas que lhe sucederam. A Maria Alice era, inquestionavelmente, uma cozinheira de eleição!

Logo que entraram no elevador, a Sandrinha beijou o Basílio com satisfação. E exclamou:
— O nosso plano saiu perfeito!
— Acreditaram mesmo que estavam a repetir o prato — acrescentou o Basílio.
— Vais ver: da próxima vez que a Maria Alice for jantar em nossa casa, vai chegar com o nariz menos empinado — rematou a Sandrinha.
Beijaram-se mais uma vez. Celebravam dessa forma a execução irrepreensível de um plano muito bem gizado.

domingo, 3 de abril de 2011

A cozinha do chefe

O Portugal que eu admiro e prezo é um país de cozinha saborosa, barata, farta e com uma personalidade muito própria. A cozinha tradicional portuguesa é, dentre as que conheço, uma daquelas onde melhor se extrai o verdadeiro sabor dos alimentos, havendo pouco espaço para molhos dissimuladores. Fica o envolvimento harmonioso dos alimentos quase exclusivamente a cargo de um azeite de muito boa qualidade. Contudo, nos últimos anos a modernidade tem colocado em causa algumas dessas boas características da cozinha portuguesa, muito particularmente nas componentes personalidade própria e preço. Na base disso têm estado fatores de ordem diversa, entre eles:

Fator matemático: a passagem do escudo ao euro exigiu a conversão dos preços. Dada a reconhecida e assumida inépcia dos portugueses para a matemática — especialmente detetável nos proprietários de restaurantes —, optou-se pelos arredondamentos simplificados: 1000 escudos passaram a 10 euros, 1500 escudos passaram a 15, 2000 a 20, e por aí adiante.

Fator social: é sabido que a cozinha moderna não se faz com mulheres na retaguarda — longe vão os tempos em que o lugar delas era na cozinha. A cozinheira cedeu o lugar ao chefe — dizem que o chique é chef, mas eu continuo a preferir português correto — que, como homem que é, ganha mais. Ou seja, a evolução ainda é parcial: a mulher já foi retirada da cozinha — dos restaurantes —, mas continua-se a pagar mais aos homens. Claro que essa meia modernidade tem o seu preço.

Fator geográfico: dantes os alimentos eram genuinamente portugueses, normalmente regionais ou até locais. Agora (por enquanto...) os alimentos têm origem à escala planetária. Entre outros agravantes, o transporte em boas condições de higiene e conservação, a taxa de câmbio e a taxa de importação têm o seu reflexo no preço final.

Fator tempo: os pratos tradicionais tinham nomes curtos que indicavam conteúdos bem definidos. Passava-se os olhos pelo cardápio e, num ápice, o estômago dava indicações da preferência no momento. Agora os pratos não têm nomes, mas sim descrições. O que dantes funcionava em duas ou três palavras, agora tem que ser descrito em duas ou três linhas — quase invariavelmente utilizando a preposição "com". Claro que o maior tempo de permanência num espaço de qualidade tem o seu preço.

Fator material: dantes um restaurante era composto de pratos (louça) de tamanho normal e comida farta. Agora a quantidade de comida diminuiu significativamente, mas o tamanho dos pratos aumentou. Sendo certo que vivemos numa sociedade onde o preço dos bens essenciais é bastante inferior ao dos bens supérfluos, é natural que isso se reflita no preço final.

Fator linguístico: já prestou a devida atenção ao cardápido de um restaurante moderno que se preze? Quantos especialistas em línguas serão necessários para elaborar algo minimamente decente? Um serviço especializado como esse tem forçosamente os seus custos e o inevitável reflexo no preço final.

Claro que todas estas inovações conferem um toque de classe à nossa cozinha. E fazem com que, aos nossos próprios olhos, pareçamos um povo muito mais sofisticado. Eu já evoluí na minha condição de gourmet. Diria que fiz uma evolução parcial, pois os pratos continuam a ser os mesmos da cozinha tradicional — aí não faço concessões —, mas os nomes já foram todos adaptados. Especialmente quando tenho convidados em casa, o impacto é outro. Só a título de exemplo: lascas de torsk da Noruega salteadas em bolbo de allium cepa com tubérculo de solanácea peruana ao suco e fruto de oliva, mesclado em ovos galináceos e aromatizado ao vin blanc. Bacalhau à Brás? Não, que nome mais antiquado!