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quarta-feira, 9 de maio de 2012

Viciados em palmas


Não sei se proveniente de algum traço específico na carga genética dos portugueses, mas parece-me inquestionável haver na idiossincrasia deste nosso povo algo que nos caracteriza como invulgarmente viciados em palmas. Isso mesmo: clap, clap, clap...

As palmas são, provavelmente, a forma mais universal de demonstrar apreço por uma boa execução em diversas áreas de expressão artística. Muito em particular, na área musical. Mas podem também as palmas ser um excelente instrumento de percussão numa execução musical. No flamenco ou na rumba, por exemplo, são batidas de forma intercalada, no tempo e no contratempo, para conferir maior vivacidade ao ritmo. No samba de roda do recôncavo baiano são batidas de forma sincopada para acrescentar maior complexidade ao ritmo. Em Portugal, surgem frequentemente nas salas de espetáculo para acrescentar monotonia ao ritmo, sendo batidas pelo público no tempo forte de cada compasso, muitas vezes abafando o som dos artistas ou atrapalhando-lhes a execução.

Se dúvidas houver, escute-se a gravação da Deolinda ao vivo no Coliseu do Recreios. Não há por lá uma só música mais ritmada que a plateia — camarotes, balcão e galeria incluídos — não faça acompanhar com as suas inestimáveis e ruidosas palmas. Em alguns temas torna-se difícil descobrir se as palmas surgem para demonstrar apreço pelos executantes ou para os testarem na introdução de variações rítmicas ao longo de uma mesma canção. A gravação é de 2011, o Coliseu é o de Lisboa, mas há vários anos que tenho detetado esse vício também nas salas de espetáculo do Porto. E quase sempre com desagrado.

O vício dos portugueses pelas palmas é de tal forma acentuado que passaram também elas a ser a forma predileta de assinalar o minuto de silêncio — note-se o detalhe irónico da terminologia — nos estádios de futebol por este país fora. Minuto de silêncio esse que, quando muito, dura uns dez segundos. Ao décimo primeiro já todos os presentes no estádio, em pé, rendem a sua estrondosa salva de palmas ao homenageado. Não soubesse eu que os portugueses têm, por natureza, uma certa tendência para o culto da tristeza e acharia que o objetivo de tal ato era transformar em alegre um pretenso minuto de pesar. Mas a verdade é que se trata apenas de vício. Vício por palmas. Não é de admirar que as proíbam no fado.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Imprecisas impressões musicais nacionais

com uma melodia pouco inspirada e uma letra nada de mais os deolinda deixaram a nu a superficialidade da atual música portuguesa, o momento crítico devia inspirar, mas o mais profundo e atual continua ser o zeca a lembrar que eles comem tudo e não deixam nada, que o pão sabe a merda, que o que faz falta é avisar a malta, que falta também o fausto a alertar a rapariguinha para que cosa a saia velha de cambraia, ou a rosalinda para que o pé não lhe descaia, o godinho a anunciar primeiros dos últimos dias do resto das nossas vidas e baladas da rita, o mário branco contra o charlatão e contra a força do fmi, o rui veloso, o carlos tê e o chico fininho sem máquina zero, a café e bagaço num bairro do oriente, o palma a passar em bairros do amor ou em santa apolónia a abarrotar de gente, a pedir que o deixem rir, perdemos a irreverência do variações, nem para hoje nem para amanhã, não o temos aqui nem além, temos um represas desinspirado, um gil sem ala de namorados, perdemos o trovante na xácara das bruxas dançando, o tordo não diz nada sem o ary, o paco entrou na ternura dos quarenta e ficou-se por aí, o carvalho já não fala de ninis, do mendes nem rock em stock, o cid perdeu a alma pop, adio, adieu, aufwiedersehen, goodbye, as doce provocadoras deram lugar à pimbérica ágata, até os pimbas são piores que o marco paulo de antes ou o meira dos emigrantes, o tony carreira é o maior, o mais banal e o mais pobre, apesar do dinheiro que anda a ganhar, ninguém tem nada para cantar, e quando cantam não contam nada, perdem-se em emaranhados de palavras que nada dizem, nada acrescentam, nem mexem o fundo à panela, amália partiu sem deixar rasto para novos poetas que falem do povo que lava no rio, que dêem de beber à dor e cantem malhoa, mas os malhoas que não cantem, a inspiração da mafalda ficou-se pelos pássaros do sul, joão afonso, toranja, ornatos violeta foram artistas de um disco só, mesmo quando lançaram mais, as do xaile eram boas mas arrefeceram, os da mesa esmoreceram, o donna maria perdeu a voz, a dulce pontes parou no primeiro canto, o madredeus morreu em lenta agonia e partiu com a banda cósmica, o carlos do carmo não traz novos homens das castanhas, nem cacilheiros para a lisboa menina e moça, ana moura, camané, joana amendoeira, katia guerreiro, mafalda arnauth, mariza, tantos fadistas, todos cantam bem mas de novo nada dizem, o sardet ainda não sabe que não existe, o pedro pais não devia mas insiste, a sara tavares perdeu o gingado, o abrunhosa é chato, pretensioso, ouvi-lo é um enfado, o gonzo já disse quase tudo, agora há ídolos, talentos, chuvas de estrelas, vozes e mais vozes, falta quem escreva, quem escreva e diga, quem use a palavra para alertar, cantar em inglês é o que está a dar, não querem saber dos de cá e ninguém os ouve de lá, melhor um intuitivo blá blá blá, as bandas debandaram, não há táxi para o cairo, nem chicletes para mascar, nem patchouly para cheirar, amor e paixão dos heróis do mar, uhf na rua do carmo, gnr com pronúncia do norte, trabalhadores do comércio que chamem a polícia, xutos não pontapeiam nada, o tim enfia letras à martelada, os delfins definharam, o clã eterniza dificuldades de expressão, a resistência não resistiu, o vitorino, o janita, a filipa pais e outros mais cantam o que já cantaram e voltam a cantar, reinterpretam amália, ouro negro, variações, revisitam-lhes sempre as mesmas canções, falta alma na novidade e novidade na alma, melodias com novas roupagens, letras com mensagens, venha um novo zeca, venham mais cinco, mais seis, mais sete, venham ajudar-nos a pintar o sete