Quis o destino — e também eu — que aos 20 e poucos anos de idade cruzasse o Atlântico em direção ao Rio de Janeiro, e viesse a instalar-me num apartamento na rua onde anos antes passeava a famosa garota de Ipanema. Já pouco garota era naquela altura, mas outras não faltavam que lhe seguiam as pisadas no doce balanço a caminho do mar. Nos quatro anos de exílio carioca pude, por diversas vezes, comprovar a ira divina através dos seus tenebrosos recados sobre a cidade de inúmeros pecadores. Na época, já a Paulinha deixara de fazer parte do meu círculo de amizades. Entretanto, conhecera a Ana Lúcia, desinibida moradora do 407, com papel análogo ao que tivera outrora a Paulinha na atribuição de culpas pela ira divina.
Alguns anos de afastamento do Rio, tempo mais do que suficiente para várias alterações nos hábitos da cidade, especialmente no que à atividade turística diz respeito. Nesse particular, registo com estupefação o encerramento da boate Help. Não posso acreditar que tenham posto termo à atividade da mais emblemática casa de acasalamento noturno, último refúgio do turista cuja atividade diurna não lhe correra de feição. Uma espécie de fast food no ramo. Em compensação — no Rio funciona muito bem a lei da compensação, especialmente nestas matérias —, e para gáudio de turistas e cariocas, tornou-se agora mais fácil encontrar em diversos bairros da cidade os préstimos de uma devassa, cuja atividade, a julgar pela campanha publicitária, se afigura por demais convidativa: «Bem loura, bem devassa. Finalmente ela chegou, pegando você pelo colarinho, segurando você pelo aroma, fazendo você se apaixonar pelo sabor».
No preciso momento em que decidia sair para conferir os dotes dessa tal devassa, o deus bíblico — que comunica através de raios e trovões — decide enviar uma tempestade sobre o Rio de Janeiro. Quem conhece a cidade sabe — e nunca duvida — que num ápice o Rio se transformará num imenso rio, podendo deixar vítimas isoladas nos locais mais inusitados. A mim, tocou-me ficar no décimo sexto andar de uma das recém formadas ilhas da zona sul, com uma garrafa de cachaça, limões, gelo e açúcar. Nem sei como interpretar esta mensagem divina.
