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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A sangria ibérica

Por estes dias fiquei a saber que, de acordo com uma decisão recente do Parlamento Europeu, a sangria só poderá ser denominada como tal se for produzida em Portugal ou na Espanha. Acho essa uma excelente decisão, mas gostaria de saber qual o verdadeiro alcance desta medida: aplica-se àquelas bebidas empacotadas ou engarrafadas (que eu não compro nem a tiro!) denominadas de sangria que se podem ver em supermercados por essa Europa fora? Ou visa punir os restaurantes e bares europeus que imitam a bebida ibérica e depois até nos desgastam a palavra sem pagarem os devidos royalties?

Julgo até que esta decisão constituirá uma excelente alavanca para a rastejante economia ibérica, mas, antes de mais, gostaria que me esclarecessem sobre o que verdadeiramente me preocupa: quando voltar a exilar-me (temporária ou definitivamente, o tempo o dirá...) em algum país não ibérico da União Europeia, poderei convidar amigos para tomar uma sangria na minha casa de lá? Ou só poderei fazer isso se levar a bebida já preparada de cá? Poderei continuar a chamar-lhe sangria, se levar fruta, vinho, espirituosa e gaseificada de cá e depois misturar tudo lá? E se preparar a bebida fora da União Europeia, já poderei denominá-la de sangria sem que esteja sujeito a algum tipo de sanção por cá? Urge que estas e muitas outras dúvidas de primordial importância sejam rapidamente esclarecidas para que eu não viole o que quer que seja desta nossa bela Europa!

Há meses tivemos uma decisão sobre a qualidade dos autoclismos, há uns anos uma decisão sobre a qualidade de vida das galinhas, agora uma decisão sobre a nossa tão querida sangria. Pelo andar da carruagem, não tardará muito para que o Parlamento Europeu legisle sobre o sexo dos anjos e resolva, de uma vez por todas, um problema que apoquenta a humanidade há séculos (ou milénios, muito provavelmente).

E já que entramos num registo mais religioso, louvemos esta maravilhosa harmonia europeia: enquanto os deputados vivem na doce ilusão de que têm algum poder (até aprovam leis!), os verdadeiros chefões (e a chefona) desta pseudo-democracia impõem aquilo que muito bem lhes apraz, sem que o Parlamento Europeu seja sequer chamado a opinar. Convenhamos, se é para ter um sistema como o português, onde o parlamento toma decisões realmente importantes, mas os deputados deixam as consciências (quiçá, outras coisas mais) penduradas à entrada e votam de acordo que o que manda o líder partidário, melhor mesmo um sistema como o europeu no qual os deputados ficam entretidos com leis como esta, mas podem entrar para o parlamento com a consciência no seu devido lugar.

Já agora, por uma questão de coerência e respeito para com a vizinhança mundial, aproveito para recomendar que o Parlamento Europeu aprove regras mais rígidas sobre a utilização de determinados nomes de outras bebidas. Como sugestão, para começar: caipirinhas só no Brasil, margaritas só no México, piscos sour só no Chile ou Perú!

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Carta aberta ao mago Gaspar

Escrevo estas palavras com o intuito de lhe pedir um favor. Não mais do que um singelo favor. É muito provável que pense que não me deve favores nenhuns, mas analisando bem a situação, facilmente chegaremos à conclusão de que já tenho algum crédito quanto a isso. Ora vejamos: por um lado, desde que o senhor encabeçou este governo de devotos do confisco e passou a ditar as suas impiedosas leis fiscais, já me tomou (confiscado ou roubado, o senhor dirá) um respeitável quinhão de rendimentos; por outro lado, nas altas esferas financeiras que o senhor tão bem conhece e venera, dinheiro e favores são duas faces da mesma moeda. Confio na sua prodigiosa inteligência para que chegue à conclusão certa...

Desde já esclareço que não escrevo estas linhas com o intuito de lhe pedir que me devolva — ora aí está um verbo que o senhor muito gosta de deturpar — o dinheiro que me tomou (confiscado ou roubado, o senhor dirá), porque do jeito que a realidade que nos quer impor perdeu qualquer sentido de verdade, acredito mais que um rei Gaspar apareça no dia 6 de Janeiro no Palácio de Belém montado num camelo carregado de ouro, incenso e mirra do que o senhor, mago Gaspar, montado no seu coelho, sequer pense deixar de tomar (confiscado ou roubado, o senhor dirá) aquilo que me é devido. São apenas rendimentos do trabalho que o senhor veementemente despreza — os rendimentos, não trabalho, claro —, não são fruto de sagazes jogadas de alta finança, daí a minha descrença.

Fazendo uma pequena análise da sua atuação ministerial, facilmente constatamos que o senhor entrou na lide como o grande mago que chegava para nos salvar do descalabro financeiro. Contudo, à medida que as suas receitas e a realidade se foram mostrando inconciliáveis — algo que muitos desde cedo previram e o senhor provavelmente também, mas nunca disse —, o senhor foi paulatinamente dirigindo a sua atuação para o campo da política.

Atuação política fraca e profundamente demagógica, diga-se de passagem. Primeiro, querendo pintar-nos como um rebanho de ovelhas bem comportadas, depois querendo o senhor mesmo colocar-se no papel de cordeiro em dívida para com as outras ovelhas do rebanho e, ultimamente, querendo pintar de negro as ovelhas com voz dissonante da sua. É verdade, da sua miserável atuação política faz parte essa tentativa recente de fazer passar uma visão maniqueísta da cena política nacional — com os bons à direita e os maus à esquerda, obviamente. Se for para pintarmos uma visão maniqueísta da cena, o que melhor distingue os políticos portugueses da atualidade não é a tendência de direita ou de esquerda, mas sim o caráter: os que o têm e os que o não têm! E, para nosso grande mal, os da bancada da maioria estão todos — talvez com uma honrosa exceção — do lado do não!

Simultaneamente com as medidas de austeridade que o senhor impiedosamente nos tem imposto vem sempre, ao jeito de banda sonora no seu tom pausado e monocórdico, essa lengalenga de que é necessário cortar nos benefícios sociais para corrigir o défice da república. Poderia ser. Mas não é. Já toda a gente — o senhor incluído — se apercebeu de que, do jeito que a situação evolui, a correção do défice vai ficar para as calendas gregas. E qualquer pessoa minimamente atenta se apercebe que o caso não é o corte no estado social ser o meio inevitável para atingir o objetivo do défice, mas sim o défice ser uma ótima desculpa para atingir os cortes no estado social. Ninguém duvide que os seus fiéis amigos do investimento anseiam pelo momento em que o estado social seja desmantelado e servido em bandejas de ouro para eles se banquetearem.

Posto que o seu mago conhecimento técnico se está a revelar ineficiente, a sua desastrosa atuação política cada vez mais nos desconcerta e entramos em quadra natalícia — época em que sentimentos nobres por vezes falam mais alto —, acalento a esperança de vê-lo aceder ao favor que lhe peço. Tão singelo quanto isto: bata com as portas, largue o inqualificável coelho a pastar nas suas desqualificadas relvas e deixe-nos em paz!

Pode esquecer a sua dívida de gratidão para com Portugal, pois este bom povo também facilmente a esquecerá. Pode até partir montado no tacão alto da sua altivez, seguro de que não foram os gráficos e as folhas de Excel que não se adaptaram à nossa realidade, mas sim a realidade que não teve um mínimo de capacidade para adaptar aos seus excelentes gráficos e folhas de Excel. O importante é que vá... que parta! E não tenha problemas de consciência por nos deixar ao Deus dará. Com a matriz católica que nos caracteriza, depois que nos virmos livres da tragédia grega que nos impõe o senhor e a sua legião do confisco, facilmente acreditaremos que Deus novamente algo de bom nos dará — quase nove séculos de existência já dão algum conforto quanto à sobrevivência mesmo sem magos. Talvez mais uma breve ilusão, pouco importa. Afinal, o que seria da vida sem ilusões? É que já não são só os rendimentos que nos toma (confiscados ou roubados, o senhor dirá) que me preocupam: com o senhor por muito mais tempo no poder serão as últimas réstias de esperança que se esvaem. E sem esperança não há futuro!

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Tamanhos

Os benefícios em termos psíquicos decorrentes da prática de qualquer atividade artística são sobejamente conhecidos e cientificamente reconhecidos, podendo esses benefícios ser obtidos de modo direto, através da libertação psíquica do indivíduo no processo de criação, ou de modo indireto, aproveitando a criação artística como veículo para o autor desabafar sobre os seus vícios/prazeres menos confessáveis, sem que daí advenha grande comprometimento para si.

Na arte da escrita, o aproveitamento de forma indireta é bastante frequente. Um dos subterfúgios mais utilizados nessa arte ficcionada — por vezes só aparentemente — consiste na criação de personagens: querendo o autor abordar um tema delicado sem qualquer tipo de comprometimento para a sua postura, inventa um personagem para dar o corpo ao manifesto e manchar o seu — do personagem — bom nome com posições menos recomendáveis — que, no fundo, são as do autor.

Não me parecendo verdade que os textos que aqui tenho vindo a publicar possam ser considerados arte, também não me parece menos verdade que se tratam de escrita. E mesmo sem arte, os efeitos psicoterapêuticos têm sido evidentes. Sinto-os.

É isso que aqui farei mais uma vez, com variante de que desta vez o confesso.

Avancemos então com um nome para o nosso personagem: Amâncio. Para começo de conversa, coloquemos o Amâncio a meditar sobre um dos seus maiores vícios/prazeres. E dêmos um indício sobre o rumo que a exposição pode levar, deixando o nosso personagem a recordar uma velha máxima brasileira que assegura que «tamanho não é documento». E talvez nem seja.

Mesmo sem acesso a dados estatísticos que o confirmem, o Amâncio sabe que em Portugal sempre houve grande moderação quanto à preferência pelo tamanho. E, pese embora, desde tempos imemoriais as grandes andarem por aí, tem sido nas de tamanho médio que tem recaído a massiva preferência nacional.

O Amâncio, homem muito dado a experimentar dessas coisas pelo mundo fora, recorda-se que parecido com Portugal lhe pareceu ser o Chile — embora com ligeira preferência pelas grandes, especialmente quando partilhadas entre a população estudantil. Mas é bom ressalvar que o Amâncio não teve no Chile uma experiência tão vasta quanto isso para poder tirar grandes conclusões sobre esse país.

Experiência vasta e grandemente prazerosa teve o Amâncio no Brasil, onde em média elas são maiores do que em Portugal — sem, no entanto, chegarem a ser tão grandes quanto as maiores portuguesas.

O que ultimamente tem deixado o Amâncio bastante apreensivo é a constatação de que, tanto no Brasil como em Portugal, há uma acentuada tendência para a proliferação das de tamanho reduzido. Se ainda fosse como na Bélgica, onde as mais pequenas são normalmente compensadas com maior potência e qualidade, ainda menos mal. Mas não, tanto em Portugal como no Brasil, reduzem-lhes o tamanho sem nada lhes acrescentarem em compensação.

Abaixo as minis! Defende o Amâncio, obviamente.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Bem-vindo ao Faroeste


No domingo passado ouvi o Professor Marcelo propor a realização de um filme, dirigido à opinião pública alemã, sobre os enormes sacrifícios que estão a ser exigidos aos portugueses — abaixo o eufemismo mediático dos «sacrifícios pedidos aos portugueses», pois a mim ninguém me pediu nada!

Suponho que o objetivo de um tal filme é provocar nos alemães a compaixão por este desafortunado povo no extremo mais ocidental da Europa. A ideia não é original e já teve uma primeira tentativa — não sei se muito bem sucedida — com um pequeno filme, contendo alguns chavões e imprecisões históricas, dirigido ao distante povo finlandês. Se é para enveredar novamente por esse caminho, desta vez faça-se a coisa bem feita: lance-se um repto a Brancos, Canijos, Oliveiras, Vasconcelos — e a sua inefável amiga dos peitos — e outros cineastas renomados deste país e realize-se um filme como deve ser! Julgo que a tragicomédia será o género que melhor se adequará ao objetivo, pois terá o mérito de conseguir despertar a atenção dos alemães para os nossos problemas e, simultaneamente, deixá-los bem dispostos — algo recomendável...

Nessa linha, um filme que pode ser levado em conta como inspiração para a obra cinematográfica de resgate da imagem do povo português é a comédia francesa de 2008, Bienvenue Chez les Ch'tis — Bem-vindo ao Norte, em Portugal —, realizada por Dany Boon. Trata-se de um filme que lida muito bem com a questão do deslumbramento do francês típico em relação o sul e o simultâneo preconceito com o norte. Norte e sul de França, no caso. Como seria de esperar, o desdém do personagem principal — e dos espectadores, acredito — pelo norte vai, ao longo do filme, dando lugar a um certo encanto e no final... bom, não quer que lhe conte o final, pois não?

Só a título de curiosidade, refira-se que o filme se tornou a produção francesa com maior sucesso de bilheteira e o segundo filme de sempre mais visto em França. O primeiro continua a ser o Titanic, mas nem queria mencioná-lo neste texto — longe de mim qualquer acusação de mau presságio sobre a realidade portuguesa!

Bienvenue Chez les Ch'tis inspirou já a versão italiana Benvenutti al Sud (Bem-vindo ao Sul). Na Itália, por comparação com a França, há uma generalizada simetria de opiniões quanto a norte e sul. Penso que no caso do nosso filme para os alemães, será fundamental que nos demarquemos da típica imagem de sul da Europa boémia e gastadora. Como também é verdade que geograficamente nos encontramos no extremo mais ocidental da Europa, «Bem-vindo ao Faroeste» será um título que assenta que nem uma luva!

Que alemão poderia sentir compaixão de nós se lhes mostrássemos como imagem portuguesa um Algarve cheio de sol, praia, campos de golfe, mariscadas e boa vida noturna? Praticamente nenhum. Que me perdoem as gentes trabalhadoras do Algarve, mas proponho até que no filme incluamos um algarvio no papel de vilão da história. Por exemplo, um sujeito com aura de político sério, mas que, eleito primeiro ministro, esbanje recursos europeus sem grande critério, dizime a agricultura e as pescas e se rodeie de um bando de amigos banqueiros que lhe deem grandes retornos financeiros e criem um monstro bancário capaz de deixar o país atolado. Para acentuar o tom de tragicomédia da película — e ilustrar a má sorte dos portugueses —, pode-se até fazer com que tal personagem algarvio ascenda ao lugar de figura maior do estado português.

Demasiado ficcionado? Talvez. Mas não esqueçamos que o objetivo de um tal roteiro cinematográfico é tentar convencer os alemães que somos um povo trabalhador, apenas muito mal governado. Como num passado não muito distante eles elegeram presidente um tal de Adolf Hitler, não será difícil aceitarem essa nossa história mirabolante e desafortunada como verosímil.


quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Velocidade relativa

Há dias fiz uma viagem de carro do Porto a Lisboa e vice-versa. Durante o percurso lembrei-me de uma pergunta — em jeito de anedota — que ouvi há uns anos: quais os dois países da Europa cujas autoestradas não têm limite de velocidade? Sendo a resposta — também em jeito de anedota — a Alemanha e Portugal. A Alemanha, porque efetivamente em grande parte das suas autoestradas não há lei que estabeleça limites para a velocidade; Portugal, porque praticamente ninguém cumpre os limites estabelecidos por lei.

Sobre o que a anedota contém de verdade em relação aos restantes países da Europa nada posso atestar, pois não conheço os hábitos de cada povo nas autoestradas de todos os países europeus. No que toca aos portugueses, ninguém duvide que a anedota é puro reflexo da nossa realidade: na tal viagem do Porto a Lisboa e vice-versa coloquei o cruise control do meu carro no limite de 120km/h e não exagero muito se disser que, nos cerca de 600km percorridos, ultrapassei uma meia dúzia de veículos pesados — não eram muitos, pois tratava-se de um fim de semana — e fui ultrapassado por um sem número de veículos ligeiros. Muito ligeiros. Poderia até jurar que alguns deles passaram por mim a uma velocidade — relativa à minha, obviamente — muito próxima dos 120km/h!

Numa primeira tentativa de explicar o fenómeno, poderia avançar com a teoria de que os portugueses correm apressados para tirar o país da crise. Infelizmente, tal não me parece verdade, pois os automobilistas portugueses já conduziam assim quando Portugal era um país próspero. Ou então, que os portugueses, quais parisienses ou novaiorquinos, vivem num frenesim constante. Teoria respeitável, mas, feliz ou infelizmente — ainda não me decidi —, facilmente refutável. Para tal, basta colocar os pés numa escada ou tapete rolante de um qualquer aeroporto ou shopping center. Esse mesmo povo que circula a altíssima velocidade nas autoestradas, chega a uma escada ou tapete rolante e estaca. Mais do que isso, bloqueia a passagem de quem necessita de caminhar mais apressado ou quer aproveitar para se deleitar por breves instantes com passadas de gigante. O que deveria servir para aumentar a velocidade, transforma-se assim num veículo de culto à pasmaceira.

Acima de tudo, fica evidente que o gosto dos portugueses pela velocidade é muito relativo. Bipolar. Oscila entre o ronceiro que se deixa levar à velocidade natural das escadas e tapetes rolantes e o apressado que circula nas autoestradas no limite de velocidade do seu próprio carro. Quiçá o problema do excesso de velocidade nas autoestradas nem seja culpa dos condutores, mas sim um capricho congénito dos veículos. É que, apesar de agora estarmos na pindaíba, grande parte dos carros que circulam nas estradas portuguesas ainda é de alta cilindrada e de origem alemã. Esperemos pelo previsível ajuste no parque automóvel para ver no que isto dá.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Aquilo

Em 1977, a vida quotidiana dos portugueses era muito distinta da que temos hoje em dia. Por vezes é difícil acreditar que determinadas coisas que agora acontecem naturalmente, há 35 anos aconteciam ainda de forma bastante condicionada. É certo que Portugal já emergia do longo período de trevas, mas as restrições eram ainda de tal ordem que só no dia do casamento — no final de Julho do referido ano — tanto ele como ela puderam pela primeira vez experimentar aquilo. Estranharam um pouco no começo — ela mais do que ele —, mas rapidamente entranharam. Depois não queriam outra coisa. O calor do verão deixava-os bastante predispostos para aquilo. De manhã, de tarde, de noite, queriam tanto aquilo que já nem conseguiam dormir direito. Chegaram a um estado tal, que só com intervenção médica conseguiram libertar-se da dependência.

Assim como este casal, muitas pessoas em todo o mundo desenvolveram verdadeira dependência por aquilo, apesar de nem sempre terem uma boa experiência inicial. Eu, por exemplo, tive a minha primeira experiência por volta dos 10 anos de idade e devo confessar que na primeira vez não achei aquilo lá grande coisa. Depois, aos poucos, fui-me acostumando e hoje em dia até aprecio bastante. Mas sem exageros. Nunca com dependência.

O que provavelmente os mais jovens não sabem é que aquilo começou a ser desfrutado em Portugal com várias décadas de atraso em relação a muitos outros países. Após uma tentativa frustrada de trazer aquilo para Portugal no final dos anos 20, só em Julho de 1977 começou a entrar no hábito regular dos portugueses. Na tal tentativa frustrada chegou a haver uma campanha publicitária com o slogan concebido por Fernando Pessoa «primeiro estranha-se, depois entranha-se». A proibição surgiu na sequência dessa campanha com base no seguinte raciocínio: se se entranha, tem características de estupefaciente, e portanto aquilo não pode ser permitido em Portugal; se não se entranha, a campanha é enganosa, e portanto aquilo não pode ser permitido em Portugal. Raciocínio do ponto de vista lógico — não mais do que esse, parece-me — perfeitamente inatacável!

Adenda: por manifesta falta de tempo para negociar um contrato publicitário — férias são férias! —, deixei todas as referências àquilo como «aquilo». Se ainda não descobriu do que se trata, pergunte-me em privado (exiladonomundo@gmail.com) que eu terei muito gosto em esclarecer. Apesar da tal falta de tempo, não deixarei nenhuma mensagem sem resposta. Em princípio.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Doutor sem U

Não tenhamos ilusões. Com maior ou menor intensidade, aqueles que exercem a atividade política no planeta que habitamos — refiro-me ao planeta Terra, caros leitores marcianos — praticam o descaramento de forma tão generalizada que não acredito que haja região que se possa considerar imune a essa prática. Isso é o que penso claramente agora, depois de exílios em lugares tão distintos como as Américas do Sul e Norte, Europas do Sul e Norte e Ásia — só do Sul — e, consequentemente, depois de perdidas todas as minhas ilusões quanto à natureza do ser humano nesse aspeto. Mas nem sempre pensei desta forma.

Há quase duas décadas, no meu primeiro exílio brasileiro, tive um dos grandes choques culturais precisamente quando observava o descaramento de muitos atores políticos nas mais altas instâncias do Brasil. Chegava eu de um país onde era primeiro-ministro um homem que cultuava a imagem de sério, bem preparado e íntegro e que, imaginava eu, se fazia rodear por gente do mais elevado quilate moral e intelectual. A imagem que me passava(m) era de tal forma extraordinária a esses níveis que, ao deparar-me com a degradada realidade política brasileira, não conseguia entender como era possível aqueles sujeitos exercerem essa atividade regularmente supervisionada pelo povo sem que se regessem por padrões morais no mínimo semelhantes aos da realidade portuguesa. Realidade essa que era até ao momento essencialmente a única que eu conhecia bem. Bem mal, para ser mais exato.

No Brasil, com um parlamento mais numeroso — em termos absolutos, não relativamente ao número de habitantes — e com parlamentares provenientes de alguns estados com um nível sócio-económico-cultural muito baixo, por vezes surgem personagens muito ricos em vários capítulos, exceto naquele específico para o qual foram eleitos. Atentos à grande diversidade da proveniência e, por vezes, à falta de condições para uma boa formação académica, no Brasil tornou-se corrente titular o sujeito pelo seu relevo na sociedade: doutor — ou dotô, para ser foneticamente mais preciso — é qualquer cidadão que atinge patamar elevado na sociedade, seja por via do bom desempenho económico, do bom desempenho político ou da arte de bem roubar — frequentemente em pelo menos duas das três vias em simultâneo, tanto lá como cá.

Claro que isso tem um reverso da medalha. Especialmente nos meios mais eruditos, onde conseguem fazer a distinção entre um dotô e um verdadeiro doutor, a generalização por vezes pode dar azo a alguma ambiguidade. Eu tive a felicidade de ter estado na origem de uma interessante adenda de esclarecimento. Por razões do foro sentimental, há uns anos circulei com alguma regularidade no meio jurídico — um meio onde geralmente conseguem fazer a tal distinção — de uma grande cidade do nordeste brasileiro e, numa das vezes em que me apresentaram, resolveram fazê-lo com a alusão ao meu grau académico. Doutor com U, esclareceu quase de imediato quem me apresentou, para que não restassem dúvidas.

Atendendo ao valor que a questão ganhou em Portugal, acho que está na hora de introduzirmos também por cá o grau de dotô. E ao senhor Relvas atribua-se desde logo o título — talvez por equivalência aos mais descarados políticos brasileiros— de dotô honoris causa!




quarta-feira, 11 de abril de 2012

Processo de chinificação lusitana

«A maior desgraça de uma nação pobre é que, 
em vez de produzir riqueza, produz ricos»
Mia Couto

Matemáticos são, como toda a gente sabe, uma espécie de indivíduos relativamente alucinados. Normalmente sem grande capacidade de interligação com o mundo real. Caricaturando isso há até uma piada — de muito mau gosto, diga-se de passagem — sobre o matemático que, instado a pronunciar-se sobre a sua preferência entre mulher ou amante, confessa preferir a existência de ambas: diz à mulher que vai encontrar-se com a amante, diz à amante que vai encontrar-se com a mulher e aproveita para ir trabalhar na biblioteca.

Eu já fui assim — mas sem ter tido a necessidade de perder tempo a arranjar uma amante, pois a minha mulher rapidamente descobriu que eu estava de caso com a biblioteca e aceitou-me mesmo assim. Contudo, depois que nos últimos tempos começaram a cortar aos 10% e 20% nos meus rendimentos, deu-se um clique em algum botão que ativava o meu sistema de desligamento do mundo real e descobri que andava a trabalhar acima das minhas possibilidades. Resolvi então dedicar algum do tempo que passou a sobrar-me a questões mais quotidianas e a inteirar-me melhor sobre os grandes males que afetam o país.

Descobri, por exemplo, que em Portugal há um governo formado por doze indivíduos. E a julgar pelas principais medidas que esses doze têm implementado — ou tentado implementar — nos últimos tempos, os grandes males que afetam o progresso de Portugal estão, essencialmente, na classe (pouco) trabalhadora: escassez de horas de trabalho, excessivo número de feriados, baixa contribuição em impostos, acesso fácil a saúde e educação, entre outros, eram os defeitos que, na opinião do governo, se tornava urgente corrigir.

Não creio ter o conhecimento do mundo de nenhum dos membros do governo, menos ainda a formação em gestão, economia, finanças e sociologia que eles possuem. Mas juraria que, a enveredar-se por esses caminhos para corrigir os problemas nacionais, as medidas só começarão a surtir efeito quando estivermos com condições de trabalho e remunerações ao nível das da China. E, mesmo admitindo que o modelo chinês é coisa que se recomende, só desconhecendo por completo o povo chinês e o povo português se poderá pensar que, sob as mesmas condições, os resultados virão a ser os mesmos.

Talvez numa ou noutra coisa nos aproximemos. Eu, por exemplo, apesar do muito que tenho tentado resistir a que me transformem em mais um boneco neste processo de chinificação lusitana, devo reconhecer que algumas das medidas tomadas pelos doze magníficos já me deixaram com os olhos em bico!

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Brassica napus

Há pouco mais de um ano a crise do açúcar quase comprometeu a qualidade das minhas iguarias natalinas. De tempos a tempos a crise dos cereais compromete o preço do meu pão de cada dia. E atualmente só não estou mais preocupado com a crise da chuva em Portugal porque aqueles que nas últimas décadas desgovernaram o país (alô alô senhor presidente!) resolveram acabar com boa parte da nossa dependência da agricultura nacional. Ele ainda há males que vêm por bem...

Estas vicissitudes agrícolas trazem-me por vezes ao pensamento uma conjunção interessante: uma viagem de carro pela Alemanha e uma canção do Fausto Bordalo Dias. Nessa tal viagem (primaveril) realizada há alguns anos pude constatar como era notório o contraste entre o aproveitamento dos campos alemães e dos baldios portugueses. Relegando questões de soberania, saúde democrática e brio patriótico para segundo plano, arriscaria até afirmar que se o atual tutorado germânico sobre os inimputáveis governantes lusitanos tivesse sido implementado antes mesmo do começo do desmantelamento da nossa agricultura (e pescas, por que não), talvez a pouco enobrecedora supervisão financeira de hoje em dia não impusesse um garrote tão apertado sobre estes desgovernados portugueses. Outro mal que teria vindo por bem...

No meu périplo pela Alemanha foi grande o deslumbramento com o colorido dos campos nessa época do ano, num tom de amarelo vivo, em vasta área do território por mim percorrido. Não sendo eu um grande especialista em assuntos agrícolas, também não sou propriamente aquilo a que se possa chamar de um nabo. E das culturas de grande escala por mim conhecidas, não via nenhuma com o dom de conferir tamanho colorido amarelo à paisagem. A curiosidade foi aguçando o espírito. Aguçou tanto que se tornou insustentável: tive que parar o carro e acercar-me para inspecionar de perto a planta.

Dentre o rol de plantas catalogadas na minha (nem tão reduzida) memória agrícola, a que mais se assemelhava ao que eu acabava de observar era a couve-nabiça. Não pude conter uma interjeição de espanto, pois dos meus (também nem tão reduzidos) conhecimentos em culinária germânica não constava uma especial predileção dos alemães por uma das preciosidades da cozinha portuguesa: os grelos. Se curioso parei o carro, mais curioso arranquei.

Só uns dias mais tarde, já com a ajuda de amigos mais cultos do que eu em agricultura, vim a saber que o que conferia aquele tom de amarelo vivo aos campos alemães era efetivamente uma planta chamada brassica napus, também designada por colza ou couve-nabiça! De acordo com fonte de conhecimento wikipédico, trata-se de «uma planta de cujas sementes se extrai o azeite de colza, utilizado também na produção de biodiesel. As folhas da planta servem também de forragem para o gado (pelo que é cultivada em muitos países) por seu alto conteúdo em lípidos e conteúdo médio em proteínas».

Ah, já me esquecia: a canção do Fausto é aquela onde a dado trecho ele canta «se não há grelos no mercado, há bons nabos no hemiciclo».

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Alguma coisa acontece no meu coração

Uma das mais emblemáticas canções dedicadas à cidade de São Paulo foi escrita e composta pelo baiano Caetano Veloso, em finais da década de 70. Intitulada pela forma como carinhosa e abreviadamente é denominada a cidade, Sampa, começa com as palavras «alguma coisa acontece no meu coração, que só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João. É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi, da dura poesia concreta de tuas esquinas, da deselegância discreta de tuas meninas». Pese embora um certo exagero poético — simultaneamente pouco generoso para com muitas paulistanas de elegância indiscreta e lisonjeiro para com muitas outras de deselegância também indiscreta —, Caetano, com estas palavras, descreve aquelas que serão certamente as primeiras impressões de muitos forasteiros que começam a aventurar-se nesta enorme selva de pedra.

Eu já tinha passado duas vezes por São Paulo, ambas de forma muito fugaz. Em nenhuma delas com tempo suficiente para cruzar a tal Ipiranga com a Avenida São João. Agora, com uma estadia de duas semanas, tive finalmente tempo suficiente para calcorrear algumas das avenidas do centro da cidade e avaliar o que acontece no meu coração. Talvez eu também nada tenha entendido sobre este novo Brasil, mas de um país que é apontado como um dos exemplos de sucesso do nosso descompensado mundo, esperava ver no coração da sua maior cidade menos gente a dormir pela manhã num coreto da Praça da República — também cruzada pela tal Ipiranga —, menos gente a viver debaixo de viadutos em pleno centro, menos gente a viver das sobras mendigadas de quem passa.

Sou suficientemente bom conhecedor da realidade brasileira — desde os primeiros anos da década de 90 — e sei que mudar a fisionomia das suas principais cidades leva o seu tempo. Mas também sou suficientemente bom conhecedor de cidades americanas como Chicago, Nova Iorque, São Francisco ou Washington DC para saber que nesse sistema que orienta os passos do Brasil o comboio do desenvolvimento também deixa para trás um enorme contingente de excluídos. Um sistema com excelentes sistemas de saúde e de educação para quem tem dinheiro, mas que deixa muito a desejar ao nível do investimento público nessas áreas. Diria mesmo que é um sistema demasiado darwiniano: muito pouco complacente para com os mais fracos.

Não pude deixar de refletir sobre a realidade portuguesa. Em particular, sobre as recomendações de alguns desgovernados governantes que exortam os portugueses a buscarem este novo eldorado. Não se ignore que a realidade brasileira ainda comporta várias realidades. Trata-se de um país que cresce a nível macroeconómico, onde a classe alta colhe os seus dividendos, mas a classe média continua a ter que fazer muitas contas à vida para conseguir ter um padrão de vida minimamente decente com planos de saúde, escola privada para os filhos, transportes privados para o trabalho e créditos a juros altos para a casa, o carro e o LCD na sala de estar.

No momento que em Portugal tentam impingir-nos como inevitável o desmantelamento do sistema público de saúde, tal como o temos, antes de aceitar essa suposta inevitabilidade, gostaria de ver este autoproclamado governo de corajosos com coragem suficiente para estancar certas parcerias com privados, que à sombra de contratos ruinosos para o estado cavam a sepultura da saúde pública e abrem alas para futuros negócios ainda mais rentáveis. Este primeiro-ministro, que faz alarde de ter ido muito além da troika no que concerne aos cortes salariais da função pública e ajuste das leis laborais, neste particular perde a coragem e deixa-se ficar aquém das recomendações troikianas. E aquém de algumas das suas próprias promessas. Que Caetano me perdoe a deturpada usurpação, mas alguma coisa acontece no meu coração, que só quando cruza as promessas com os atos de algum aldrabão.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Estudos de equilíbrio

Os estudos são como tudo: valem o que valem (e utilizo aqui um recurso lapalissiano por não ter encontrado maneira mais interessante de começar este texto). Dependendo de quem os realiza, da forma como os realiza ou das conclusões que deles são extraídas, tanto podem surgir para acrescentar informação de valor, como redundar num desastre total.

Para ilustrar o que pretendo dizer com desastre total, podia aqui referir as recentes conclusões de João Duque e seu naipe de ases na sequência de um suposto estudo sobre a RTP. Contudo, aquilo pareceu-me mais um documento produzido com segundas intenções para agradar a terceiros do que um estudo sobre a RTP. Por conseguinte, não merece ser aqui citado, nem na categoria de estudo que redundou num desastre total.

Nessa categoria, prefiro recordar um estudo feito há uns anos — não sei onde, nem por quem, mas talvez até seja melhor assim —, cuja conclusão ditava algo como: «descafeinado faz mal ao coração». O estudo foi divulgado nos media e, como a conclusão era surpreendente, o estudo foi repensado — nem sei até que ponto já tinha sido pensado antes, mas concedo aqui o benefício da dúvida aos seus autores. Repensamento feito, concluiu-se que, afinal, não era bem assim: o que sucedia é que pessoas com problemas do coração — e não me refiro aos mal de amores — tinham já, à partida, uma certa tendência para substituir o café pelo descafeinado. É evidente que uma inversão entre causa e efeito pode desvirtuar um pouco o valor de um estudo.

Exemplos inequívocos — pelo menos para mim — de estudos com valor são regularmente levados a cabo pela CareerCast.com sobre as melhores profissões nos Estados Unidos. Nesses estudos são tidas em conta as características de cada profissão, entrando em consideração fatores como a remuneração, a responsabilidade e o stress. O estudo de 2011 revelou a profissão de matemático como a segunda melhor do ranking, apenas atrás da de engenheiro de software. Surpresa? Só para quem não tem estado a par dos resultados desses estudos, pois a profissão de matemático já tinha ocupado a sexta posição em 2010 e a primeira em 2009!

Trabalho num país muito diferente dos Estados Unidos, onde a valorização profissional não é necessariamente a mesma — em Portugal a coisa funciona mais a sério e não se dá valor por aí além a esses alucinados matemáticos —, mas nos tempos que correm não posso deixar de considerar como excelente um estudo que revela resultado tão animador. E manda o meu manual de equilíbrio psíquico e emocional que encare tal estudo como bem pensado, bem realizado e bem concluído! Mais não seja, para ter o conforto de saber que quando a situação por aqui apertar para valer, ainda há lugares neste belo mundo onde um exílio pode compensar.

sábado, 26 de novembro de 2011

Notas da semana

Num texto com este título, seria impossível não me referir à Greve Geral desta semana. Na lavagem dos cestos, o que mais se discute são percentagens, infiltrações e quem deu tareia em quem. Infelizmente sinto que, à distância a que me encontro, não posso dar contribuição de valor para o esclarecimento de nenhuma dessas grandes questões. Assim sendo, prefiro dedicar-me a outra não menos importante e vezes sem conta repetida: «greve para quê se não tem efeito prático?»

Convenhamos, dificilmente uma greve terá outro efeito que não seja o de conferir força à luta dos trabalhadores descontentes. O efeito prático de uma greve é quase sempre indireto, e esta não poderia deixar de fugir à regra. Serviria, especificamente, para aquilatar o grau de descontentamento dos trabalhadores em relação às medidas que estão a ser tomadas pelo governo.

Mas talvez a maioria não esteja ainda muito descontente; ou então, acredite piamente no discurso oficial do caminho inevitável; ou então, esteja sem capacidade de prever os efeitos secundários destas medidas austeritárias; ou então, já não se sinta suficientemente protegida pela fraca democracia que temos hoje para ousar fazer greve.

Acresce que os funcionários públicos estão a ser apontados pelos detentores do poder como o grande problema do país e os seus sacrifícios a nível salarial a tábua de salvação. Sem mais. Claro que, sendo por enquanto um problema essencialmente dos funcionários públicos, os outros ainda assobiam para o lado.

O que não sabem é que lá bem no fundo já é um problema de todos. Tanto à escala europeia, como à escala nacional, a similaridade com a situação retratada no poema de Martin Niemöller (muitas vezes erradamente atribuído a Bertold Brecht) já me parece grande:

«Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei-me,
porque, afinal, eu não era comunista.
Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, 
porque, afinal, eu não era social-democrata. 
Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, 
porque, afinal, eu não era sindicalista. 
Quando levaram os judeus, eu não protestei, 
porque, afinal, eu não era judeu. 
Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse.»

E para que consigamos fazer «da nossa falência uma vitória, uma coisa positiva e erguida, com colunas, majestade e aquiescência espiritual», como bem recomendou o desassossegado Bernardo Soares, nada melhor do que deixar aqui referência para aquelas que me pareceram ser as melhores notas desta semana, através voz desse maravilhoso cantor, músico e poeta dos nossos tempos, de seu nome Leonard Cohen: Show Me The Place. Sim, alguém que nos mostre outro lugar, porque a coisa por estes lados está cada vez mais complicada.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Sintomas de dislexia nacional

Há determinadas práticas que nos entram nos hábitos sem que por vezes se vislumbre motivo suficientemente forte que as justifique. Invade-me inevitavelmente uma certa impressão de estranheza quando para tais práticas não encontro explicação razoável ou, num caso mais extremo, nelas deteto alguma falta de lógica.

Uma das tradições portuguesas que aqui merece a minha ponderação está relacionada com a atividade imobiliária. Especificamente, na identificação dos apartamentos por andar. Para que fique claro o que aqui pretendo ponderar, pensemos num apartamento situado no oitavo andar de um determinado prédio. O mais comum em Portugal será talvez esse apartamento ser designado por 8º Direito ou 8º Esquerdo. Contudo, se o prédio tiver mais do que dois apartamentos por andar, já se podem ver designações como 8º Centro, 8º Centro Traseiro ou até 8º Centro Traseiro Direito. Essas são as designações por extenso, porque no intercomunicador do prédio podem surgir abreviaturas como 8º Dir, 8º Esq, 8º Ctr Trs ou até 8º Ctr Trs Dir — já para não falar na possibilidade de se baixar ao caso extremo de um R/C Ctr Trs Dir.

Quem, como eu, tiver o hábito de receber amigos estrangeiros em casa, sentirá por vezes a necessidade de lhes ministrar um curso prévio de português — com abreviaturas — para que os sinta perfeitamente capacitados de executarem um gesto tão simples como chamar no intercomunicador. No entanto, será justo ressalvar que já detetei em Portugal alguns prédios nos quais foi adotada a terminologia vigente em muitos outros países, nos quais se designam os apartamentos por 8A, 8B, etc. No Brasil, a preferência aponta para 801, 802, etc. Poder-se-ia pensar que bastaria 81, 82 e por aí fora, mas note-se a preocupação da terminologia brasileira ter ficado preparada para prédios com mais de 10 apartamentos por andar. Conhecendo o parque habitacional de Copacabana, acredito que a opção brasileira tenha ganho força com a urbanização desse bairro.

Até há cerca de 10 anos, altura em que troquei de apartamento pela primeira vez, pensava eu que a designação de Direito ou Esquerdo estava imbuída de uma certa lógica. Julgava eu que, olhando um prédio de frente, facilmente se saberia de que lado ficava um e outro — não via grande necessidade de tal conhecimento, mas digamos que essa correlação justificaria a terminologia. Na época morava eu num 3º Direito. Talvez por uma questão de orientação política que começava a despontar em mim, decidi que no novo prédio escolheria a minha fração no lado oposto. Como o prédio estava ainda mal começado — e mal vendido — eu podia dar-me a esse luxo. No dia em que escolhi o novo apartamento assim fiz: levei em conta a posição do apartamento em relação à frente do prédio e, por analogia com o prédio antigo, escolhi a minha fração no extremo oposto. Estava certo que iria morar no 8º Esquerdo.

Na minha primeira visita ao novo apartamento, que placa vejo eu por cima da porta? 8º Direito! A minha tentativa de explicação lógica para este hábito nacional foi irremediavelmente por água abaixo. E nem precisei de esperar pela governação de José Sócrates para me aperceber de que em Portugal uma suposta esquerda pode não passar de uma direita travestida.

segunda-feira, 14 de março de 2011

José no divã

No Egito Antigo viveu um José que gozou de excelente reputação como interpretador de sonhos. A sua fama chegou a tal ponto que um dia foi levado para interpretar um enigmático sonho do faraó, no qual apareciam sete vacas magras e sete vacas gordas, as primeiras das quais comiam tudo que podiam — inclusive as vacas gordas — mas continuavam sempre magras. O José, que era perito na arte dos sonhos, não teve dúvidas: o Egito passaria por sete anos de fartura seguidos de sete anos de seca. Por causa dessa visão profética, puderam aforrar nos sete anos de fartura e assim sobreviver nos sete anos que lhes sucederam. Muito naturalmente, o José caiu nas graças do faraó e passou a ocupar lugar de destaque entre o seu povo.

No Portugal Moderno há também um José que foi guindado a lugar de destaque entre o seu povo. Contudo, ao invés do José do Egito, o José de Portugal denotou sempre imensas dificuldades para interpretar sinais, viessem eles sob a forma de sonho, ou saltassem à vista como a mais evidente realidade. O José de Portugal olhava para vacas magras e vacas gordas e só conseguia enxergar as gordas. Ou, se enxergava as vacas todas, pareciam-lhe todas gordas. O que à partida poderia ser visto como uma preocupante limitação, aliada a um grande dom de iludir, veio a tornar-se numa enorme vantagem. O seu otimismo era contagiante!

No entanto, não há mal que dure sempre nem bem que nunca acabe. Esse dom que gerou enormes proventos para o José e os seus correligionários, começava agora a dar mostras de entrar em declínio. Com uma imensa manada de «vacas magras» a berrar e uma oposição impiedosa a amplificar-lhes a voz, os dons do José de Portugal começaram a não ser suficientes para dar a volta á situação. Os conselheiros não perderam tempo. Para analisar o problema reuniram-se com os melhores especialistas das mais diversas áreas e chegaram a uma inevitável conclusão: o José está a precisar de psicanálise. Se, aquela que era a sua grande virtude, agora começava a tornar-se num empecilho, tornava-se imperioso dar um jeito nisso. O quanto antes.

Houve muita resistência inicial do próprio José, mas aos poucos foi-se apercebendo que as sessões de psicanálise o deixavam fortalecido. Ao cabo de algumas sessões começou a dar mostras de alguma abertura para um trabalho mais profundo do psicanalista. Era evidente para o psicanalista (bons psicanalistas têm um dom especial para detetar evidências e até são muito bem pagos por isso) que o José chegava hoje ao seu consultório profundamente agastado. Sentiu que, pela primeira vez, teria oportunidade de realizar uma viagem profunda ao interior do José, sempre tão mascarado e protegido por elmos internos e externos. O psicanalista usou de todos os poderes e conhecimentos que tinha para deixá-lo num estado quase hipnótico, e provocou-o para falar:
— Está muito difícil aguentar esta oposição injusta e difamadora que concentra a sua ação no insulto e no ataque pessoal. Uma oposição que não consegue reconhecer nada de positivo neste país que, com muita abnegação, tenho conduzido de forma exemplar. Dou o máximo, busco as melhores opções, encontro soluções fantásticas e os resultados estão aí: são os indicadores de inovação, os indicadores de educação, relatórios da OCDE, planos tecnológicos, planos energéticos e planos de mobilidade. Somos um caso sério no mundo e um exemplo para a Europa. Desdobro-me, multiplico-me, adiciono riqueza, corrijo o défice, faço crescer a economia, aumento o PIB...
— Calma, José. Vamos por partes.
— José?!
— Sim, José... não é o seu nome?
— Não!
— Não?!
— O meu nome é Angela!
Só nesse momento o psicanalista teve noção de que tinha chegado a um nível demasiado profundo no íntimo do José. Custou-lhe um pouco a trazê-lo de volta à realidade do país que efetivamente governava.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Carta aberta a Mira Amaral

Ex.º Senhor
Dr. Eng.º Mira Amaral,

Sabendo de antemão que o senhor tem habilitações académicas em Engenharia e Economia, e na dúvida sobre qual o título onde recai a sua preferência, optei por brindá-lo com os dois. Estamos em época natalícia e não devemos poupar na generosidade para com os outros, não é mesmo assim?

Mas é precisamente devido a uma certa falta de generosidade da parte do Sr. Dr. Eng.º que resolvi escrever-lhe. São já diversas as vezes que o ouço nos meios de comunicação social apregoando as suas doutas verdades, de forma genérica e abstrata, sobre o mau comportamento profissional dos portugueses. Hoje de manhã foi na Antena 1. Chamado a pronunciar-se sobre os feriados (e algumas prováveis pontes) de 2011 e os mais do que previsíveis malefícios desses ociosos dias para a nação, afirmava o Sr. Dr. Eng.º, em tom de mandamento do dia, que os portugueses devem "trabalhar mais e melhor", ao invés de continuarem numa vida "calma" e "doce". Assim, sem meias palavras nem exceções, a frio (como o tempo).

Coincidiu estar eu, nesse preciso momento, na padaria da esquina a comprar o pão da manhã. Em simultâneo, observava o Sr. Silva, padeiro em torno dos seus 50 anos, por detrás do vidro que separava a área de produção da área de venda. Era segunda-feira, manhã cedo, e ele acabava de passar mais uma noite amassando e cozendo o pão que muitos como eu iriam comer. Tinha o ar de alguém profundamente cansado. As palavras do Sr. Dr. Eng.º fizeram-me pensar na vida profissional daquele homem que eu observava do outro lado do vidro, num local confinado e quente, suando abundantemente, apesar do rigoroso inverno que se fazia sentir lá fora. Pensei em como, seguindo a sua douta opinião, poderia resgatá-lo daquela vida "calma" e doce" e fazê-lo "trabalhar mais e melhor". Confesso que, nas condições em que vi o Sr. Silva, não vislumbrei até agora outra forma de seguir o mandamento do Sr. Dr. Eng.º sem que tivesse que o sujeitar a algo mais do que humanamente razoável. E, da mesma forma que aqui  refiro o caso específico do Sr. Silva da padaria, poderia também referir muitíssimos outros casos de profissionais sérios e competentes a quem, sem exceção, acabam sendo dirigidas as suas palavras.

Perdoe-me se, na minha modesta posição, respondo a uma afirmação genérica, resultante de ato ponderado de alguém tão bem recompensado financeiramente pela nação, com o caso específico de um profissional remunerativamente tão insignificante como o padeiro. Mas, convenhamos, na mesma medida em que peco pela especificidade do exemplo que contraponho a uma afirmação genérica e abstrata, peca também o Sr. Dr. Eng.º pela leviandade com que atesta a malandrice e incompetência de muitos casos como o que aqui especifico. A grande verdade é que pouco importa quem mais peca, pois estamos em época de Natal e ambos seremos facilmente perdoados.

Mas vamos ao que considero realmente importante e me motivou a escrever esta carta. Dado o à vontade com que o Sr. Dr. Eng.º se movimenta em Portugal, tanto no meio económico-financeiro como no meio político (perdoe-me a redundância, trata-se apenas de uma figura de estilo para reforçar a direção do meu apelo), rogo-lhe, encarecidamente, que se reúna com alguns dos seus amigos mais competentes para redigirem umas diretivas mais precisas sobre o sentido em que devemos avançar: setores improdutivos, profissionais incompetentes, malandros de cada setor e terapia específica. Uma espécie de tábua da lei para o avanço de Portugal. Há-de convir que afirmações genéricas sobre a malandrice e a incompetência de um povo têm o sério defeito de desmotivar quem já trabalha a preceito (o Sr. Silva da padaria, por exemplo). Numa primeira fase, não precisam de ser muito exaustivos, basta uma meia dúzia de setores. Depois, seguindo o saudável hábito dos meios onde o Sr. Dr. Eng.º tão facilmente se movimenta, cria-se um instituto específico, nomeia-se uma boa dúzia de gestores públicos com horário leve e principesca remuneração (estímulo necessário para a boa execução das suas tarefas) e a coisa fluirá.

Escusado será pedir-lhes que cumpram a tarefa com honestidade e competência, pois sei perfeitamente que o Sr. Dr. Eng.º e os seus pares colocam sempre esses atributos em tudo que fazem e dizem, principalmente quando é em prol do bem público. Contudo, não ficaria de bem comigo mesmo se não lhes pedisse para, nas muitas variáveis que serão forçados a considerar num estudo sério deste tipo, levarem em consideração que as capacidades de trabalho deste malandro e incompetente povo (refiro-me à arraia-miúda, não às elites, claro) são frequentemente apreciadas pelos gestores das empresas nos sete cantos do mundo para onde costumam emigrar.

A todos um bom Natal!

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Passo em frente e pé atrás

Portugal é um país com enormes dificuldades para abraçar a modernidade. Quando se vislumbra um passo em frente, há sempre alguém com responsabilidade nos desígnios da nação que teima em ficar de pé atrás. Não é por acaso que Chico Buarque e Ruy Guerra, num magistral soneto de 1972/73, onde melhor do que ninguém caracterizam o sentir-agir português, referem num dos versos que "há distância entre intenção e gesto".

Nos tempos que correm, um facto e dois episódios confirmam esta ambígua natureza lusitana que tanto nos impede de um lançamento arrojado e definitivo na vanguarda do mundo moderno. O facto que constitui o passo em frente é, indubitavelmente, a introdução no código civil português da possibilidade de casamento entre pessoas do mesmo sexo. Sendo certo que o número de sexos tem vindo a aumentar, nada melhor do que criar um quadro legal que contemple todas as variantes possíveis como juridicamente naturais. Em sentido contrário, dois episódios lamentáveis materializam o tal pé atrás, um proveniente do mundo do desporto e o outro do da política.

No que ao desporto diz respeito e indo direto à questão: havia necessidade do treinador Paulo Sérgio vir esclarecer que não se passou nada entre Liedson e Djaló no balneário do Sporting? O simples esclarecimento denota preconceito! O que acontece entre eles no balneário pode importar, no máximo, à Floribela — para quem não sabe, Djaló é o nome de um jogador de futebol do sexo masculino, casado com uma celebridade chamada Floribela. Se alguma vez não se passar nada entre Djaló e Floribela no balneário do Sporting também haverá um esclarecimento do Paulo Sérgio? É certo que o Sporting já não representa assim tanto no panorama futebolístico nacional, mas enquanto contarem com o marido da Floribela nas suas fileiras é bom que não se esqueçam das responsabilidades que têm, principalmente entre o público infanto-juvenil.

Já na esfera política, a questão é mais séria, pois envolve o presente e o mais que provável futuro primeiro-ministro (deus nos salve!) deste país, respectivamente José Sócrates e Pedro Passos Coelho de suas graças. A minha crítica é dirigida exclusivamente a este último, pois o primeiro até foi quem viabilizou legalmente as ligações entre pessoas de sexos alternativos — não foi só nos fatos Hermès e nos computadores Magalhães que trouxe a modernidade ao país!  Havia necessidade de Passos Coelho referir que nunca mais se encontrará a sós com José Sócrates? Tentará convencer-nos, com aquela pinta de galã, de que nunca ouviu um piropo em privado? Alguma vez se queixou? Se tivesse vindo da Joana Amaral Dias também se queixava?

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Monarquia vs. República

Há por aí uns saudosistas a tentar impingir a ideia de que a solução para Portugal passa por um retorno à monarquia como se constata, ainda há quem se preocupe com o futuro da nação! Não sei praticamente nada sobre esses, mas se me deixarem recuar aproximadamente um século, talvez consiga dizer alguma coisa sobre uns parentes mais ou menos próximos. 

Muito honestamente  — às vezes tenho disto  , acho a questão monarquia vs. república completamente irrelevante. Pode ser monarquia, república, teocracia ou outra cia qualquer que o fado não mudará facilmente para este eternamente adiado projeto de país. O problema é crónico e está nas elites despudoradamente sugadoras e no povo eternamente pasmado.

Pese embora a falta de relevância da questão, e apesar de nem sempre nutrir especial simpatia por presidentes da república
podia deixar no singular, mas prefiro que não se desconfie que não gosto do atual, continuo com uma vincada preferência pela república. Em termos de funcionamento das instituições é tudo mais ou menos a mesma coisa; contudo, salvo casos em que a produção de candidatos seja muito fraca, há sempre a oportunidade de renovar a esperança a cada cinco anos. 

Contra a monarquia tenho ainda duas embirrações: uma em abstrato, outra em concreto. Uma delas  — embirração em abstrato  — é a questão do sangue azul que me provoca urticária clubística. Mas, mesmo ignorando essa tal cor de sangue, conjeturar a possibilidade de Duarte Pio  — embirração em concreto  — entrar em cena e deixar descendentes ao leme do país durante gerações deixa-me com um certo sentimento de culpa, achando que podia ter a nobreza  — salvo seja  — de fazer algo em prol das gerações vindouras. Especializar-me em regicídio não está nos meus planos...

Só um pequeno aparte final: há muito quem utilize o "dom" precedendo o Duarte Pio  — ditará a etiqueta? 
 —, mas sendo eu um anti-monárquico convicto, recuso-me a utilizar a palavra para outra coisa que não seja o vinho da região de Viseu. Bem sei que as palavras não têm a mesma ortografia, mas aqui no Porto a fonética é praticamente igual e, em qualquer dos casos, diferente do resto do país. Há até quem assegure que o Porto é uma "naçom".

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Superstições

De um modo sucinto, eu definiria a superstição como o estranho hábito de aumentar a complexidade de coisas que são, por natureza, simples. Quase sempre assentando em dados muito pouco credíveis, principalmente do ponto de vista estatístico.

Superstições são um mal da humanidade, havendo pessoas mais ou menos supersticiosas, consoante o grau de esoterismo que as carateriza. Tenho uma amiga que engravidou e se encontra com sérios problemas para escolher um nome para a criança. Simplesmente, porque desenvolveu uma disparatada superstição com nomes. Segundo ela, nomes determinam a personalidade e, em muitos casos, até características físicas da pessoa. Começou por exemplificar:
— Nome masculino: pessoa calma, chegada a um bom copo e que faz pelo menos um grande disparate na vida.
— Não faço ideia.
— Pinho, Vilarinho...
— Manuel?
— Ora, nem mais!
— Até entendo que isso do Pinho ter colocado os cornos no parlamento foi um grande disparate, mas qual foi o disparate do Vilarinho?
— Mandar o José Mourinho embora do Benfica, não achas?
— Sem dúvida!

Claro que não me mostrei convencido com este exemplo. Ela prosseguiu:
— Nome feminino: tendência para acentuada feiura, especialmente com o avançar da idade.
— Hum... não vejo qual.
— Ferreira Leite, Moura Guedes...
— Ah, Manuela!
— Aí está.

Além de supersticiosa, essa minha amiga revelava-se também muito pouco generosa com a beleza de pessoas provavelmente belas. Obviamente, eu continuava sem me mostrar convencido, e menos fiquei ainda com o ignóbil exemplo que a minha amiga apresentou depois. Digo eu:
— Mas isso é alguma superstição com nomes em geral, ou apenas com Manéis e Manelas?
— Com nomes, claro — disse ela. E prosseguiu: —Masculino: arrogante, com o ego do tamanho do mundo.
— Não estou a ver.
— Não?
— Não mesmo!
— Mourinho, Saramago, Sócrates...
— Estás maluca?!

Eu não tinha dito que era uma superstição disparatada? Não faz o menor sentido! Essa minha amiga precisa de um tratamento urgente. Superstições levadas ao extremo podem colocar em causa valores tão fundamentais como o da amizade.

quarta-feira, 3 de março de 2010

O desconforto ortográfico

Tenho um especial apreço pela criatividade linguística do povo brasileiro. Têm por vezes com exageros e despropósitos, é certo, mas não consigo imaginar uma língua que perdure sem a capacidade de inovar. Devo confessar que nos primeiros tempos de contacto com o português escrito no Brasil senti algum desconforto, mas nada que a leitura de uns quantos jornais e livros não tivesse facilmente resolvido. Ninguém melhor do que Caetano Veloso para sintetizar esse normal processo de estranhamento: «Narciso acha feio o que não é espelho e à mente apavora o que ainda não é mesmo velho».

Decorridos alguns anos sobre esse ligeiro desconforto nos primeiros contactos com o português escrito no Brasil, deparo-me agora com compatriotas também desconfortáveis, desta feita em desacordo com o novo acordo ortográfico. Ergue-se do lado lusitano uma onda de contestação, com origem no Twitter e no Facebook (admitirão os reacionários que se utilize estas palavras em bom português?), que conta já com milhares de assinaturas.

Posso estar enganado (por vezes acontece...), mas se não tivesse nada mais interessante a que me dedicar, vasculharia as páginas de alguns signatários da petição reacionária em busca de maus tratos à língua por esses que tão acerrimamente defendem a sua imutabilidade. E aposto que não seria em vão. Alguém me estimula financeiramente com uma apostazinha?

Sou por vezes presunçoso (a ponto de colocar nuvens negras pairando sobre opiniões sustentadas por ilustres especialistas nas mais variadas matérias), mas neste caso, reconheço que, entre as mais do que prováveis jantaradas e viagens transatlânticas, os estudiosos da língua acabaram por chegar a boa conclusão e dar valiosa contribuição para um futuro duradouro do Português como língua à escala mundial. Poderá ter sido uma decisão difícil, mas nem por isso terá constituído grande golpe de génio concluir que não vale muito a pena remar contra a maré.

Não se pense que na desconfiança pela modernidade descaracterizadora da língua estão apenas os saudosistas lusitanos. Do lado brasileiro já pude ver despontar indícios de preocupação em diversas pessoas, a última das quais o meu amigo Luiz Cláudio, quando foi informado de que voo deixara de ter acento. Foi preocupação de pouca dura, pois o meu alerta sobre algumas armadilhas da língua portuguesa, em particular sobre a existência de palavras homófonas, deixou-o mais tranquilo. Acima de tudo, despreocupado quanto à viagem de regresso a São Paulo.


segunda-feira, 1 de março de 2010

O saudosismo ortográfico

Essa enorme capacidade portuguesa de mobilização pelas grandes causas é algo que por vezes ainda me surpreende. Não será característica exclusiva deste povo, mas será, certamente, traço fundamental da nossa identidade.

Especialmente numa época em que a democracia atinge o seu apogeu e as instituições democráticas funcionam na plenitude, corríamos o sério risco de entrar numa espiral de tédio democrático, com deputados a ocuparem-se de questões menores e o povo de costas voltadas para a política. Para evitar um tal estado de pasmaceira, nada melhor do que uma grande causa, uma força aglutinadora para fazer chegar aos representantes parlamentares uma mensagem inequívoca de que o povo está atento: um movimento de imutabilidade da língua! Como mentores desse movimento há um tradutor fulano-de-tal, uns advogados sempre prontos a conduzir a parte legal das grandes causas e uns quantos jornalistas dispostos a dar-lhes voz.

Se é para fazer jus ao epíteto de povo mais saudosista da Europa, único que há uns séculos teve a audácia de introduzir um neologismo para traduzir esse sentimento, façamos a coisa a sério. Não restrinjamos a causa aos c's e p's mudos e às palavras mais ou menos hifenizadas. Deixemo-nos de meias palavras e vamos fundo no grito de revolta. Ignoremos esse revolucionário que deu pelo nome de Luís de Camões, recuemos ainda mais no tempo e readotemos a língua latina, essa sim, imutável e eterna. Utilizemos todo o potencial do mundo globalizado e projetemos uma enorme revogação das modernizações linguísticas efetuadas durante mais de 15 séculos nas regiões hoje conhecidas como Portugal, Espanha, França, Itália e Roménia. Enfim, devolvamos ao mundo esse magnífico império unificado pelo latim.

Aproveito desde já o ensejo para sugerir que, caso esta minha proposta avance, se entronize César Berlusconi Augusto como imperador. Na falta de melhor critério, entroniza-se um líder latino que já tem alguma experiência na organização de bacanais.

Não sei se vem muito a propósito, mas não posso deixar de registar alguma coincidência: sempre atenta às grandes causas e engajada em movimentos pouco evolutivos, a igreja católica cogita voltar às missas em latim. Prometo que se me abordar algum emissário de Roma com uma petição em prol do latim como língua oficial, deixo nela a minha cruz!