sábado, 20 de fevereiro de 2010

Suecas


Estocolmo é, indubitavelmente, a cidade com maior número de suecas por metro quadrado. E antes que frequentadores assíduos de algum jardim público da cidade do Porto lancem dúvidas sobre as minhas asserções indubitáveis, esclareço que a palavra sueca não é aqui utilizada para designar o homónimo jogo de cartas muito popular em Portugal.

Sempre me pergunto que motivo estapafúrdio poderá ter feito com que dessem o mesmo nome ao jogo maioritariamente praticado por aposentados do sul e às jovens — e não jovens também — habitantes da Suécia. De comum encontro apenas esse pequeno detalhe de que também elas gostam de ficar em jardins públicos, mas em tardes soalheiras de verão a arejar os corpos massacrados pelo inverno longo e rigoroso. A semelhança é mesmo muito ténue, como se constata.

Sem recurso a qualquer tipo de confirmação de fonte segura — nem insegura —, utilizando apenas a lógica e os meus parcos conhecimentos em história sueca anterior a 1998, se me fosse pedida uma explicação para o nome do tal jogo de cartas, arriscaria que o jogo foi introduzido na Península Ibérica, por volta do século X, quando marinheiros vikings esqueceram um baralho de cartas — e o respectivo manual de instruções — em alguma praia lusitana. Talvez cartas com suecas nuas. Quem sabe. Mas, friso, a minha teoria não é mais do que um mero exercício de especulação.

Voltemos às suecas. Às mulheres, claro. Esqueçamos o jogo de cartas de uma vez por todas. Quis deus — só pode ser obra divina — que a mulher que habita este país do norte e os sonhos dos rapazes do sul viesse a transformar-se numa espécie de mito. Não é verdade? Qual o rapaz do sul em plenas condições de funcionamento heterossexual que nunca sonhou com suecas? Quantos lograram alcançar alguma? Que me lembre, apenas o Luís Figo.

Devo confessar que na minha primeira viagem à Suécia cheguei um pouco receoso, temendo que a realidade pudesse não corresponder à mitologia. Contudo, para grande felicidade do meu olhar — e outros sentidos — pude confirmar in loco que o receio era profundamente infundado. A fama não é, de forma alguma, consequência de um maketing enganador muito bem urdido, pois a elegância passeia-se alegre e solta de forma generalizada pelas ruas de Estocolmo. E, pela amostra, acredito que noutras cidades o panorama não seja muito diferente.

Motivo para tanta elegância? Por enquanto só a leve suspeita de que possa existir no arenque ou no pão crocante — ou na combinação de ambos — substância que produza efeitos na formação e manutenção de tais corpos, e ainda os previna da deformação precoce. Não acredito nos poderes milagrosos das academias de ginástica — ou health clubs, como agora é de bom tom designá-las. Conjeturo até que a única que existiu em Estocolmo pertenceu a uma multinacional norte-americana e não esteve aberta por mais do que dois ou três meses. A escassez de clientes terá feito a multinacional dos corpos artificialmente sãos desistir do investimento. É bom salientar que não passa também isto da mais pura especulação.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Qual é maior?

Desde já desiludo quem do título desta crónica possa ter deduzido que viria aqui algum depoimento sobre manifestação de tendência homossexual masculina entre amigos de infância na época das grandes descobertas. Desenganem-se, tratarei aqui de teoria dos números, pura e abstrata, em perfeita sintonia com esse viril desporto chamado futebol. Mas garanto que, imbuído de um espírito universalista, tentarei abordar os temas de modo a não assustar quem detesta futebol, nem quem detesta Matemática, nem quem detesta ambas as coisas.

Dos que detestam a Matemática, conheço muitos e de longa data. O primeiro no qual detectei a tendência foi o António Carlos, colega de liceu, que ainda em plena adolescência descobriu uma profunda paixão pelo Direito para evitar a Matemática a partir do 10º ano. De lá para cá, com maior ou menor frequência, constato manifestações mais ou menos explícitas de advogados que lhe seguiram (ou anteciparam) as pisadas, o último dos quais José Guilherme Aguiar, comentador desportivo do programa Dia Seguinte na SIC Notícias. Não se empertiguem os advogados, pois bem sei que nem todos encaixam neste estereótipo. Assim de repente não me lembro de nenhum, pero que los hay, los hay.

Mas voltemos aos números. Melhor, ao futebol. Aliás, ao José Guilherme Aguiar. O sujeito anda desde o Natal a implicar com o golo que o Saviola marcou ao FCP. Não perde uma oportunidade para exibir o anti-benfiquismo primário em todo o seu esplendor, bem secundado pelo acólito verde — não me refiro a nenhum marciano —, afirmando que o golo é ilegal, porque surge na sequência de um fora-de-jogo do Urreta.

Insistiu tanto na história que já pensava dar-lhe algum crédito e adotar para a teoria futebolística de análise à arbitragem a teoria matemática do caos, teoria essa que tem como pilar fundamental o princípio da sensibilidade nas condições iniciais. Num pequeno parêntesis, e para elucidar os mais mal informados, adianto que numa visão extrema  — existe maneira mais elucidativa para exemplificar algo? —, podemos deduzir que está ferido de ilegalidade um golo limpo no último minuto, só porque o árbitro no primeiro minuto não assinalou uma falta banal. Com base em quê? Ora, no facto de que se tivesse assinalado essa falta todo o jogo teria sido diferente. A coisa não é disparatada de todo. Nem nada sensata.

Já pensava adotar essa ideia peregrina da teoria do caos para o futebol português — como se precisasse de mais —, quando entrou em cena a discussão sobre a validade do segundo golo que o Braga — grande rival do SLB esta época — marcou no domingo passado aos verde-rubros da Madeira, golo esse precedido de bola fora do campo nas barbas (se as tivesse) do bandeirinha — não entro em eufemismos vanguardistas de futebolês, bandeirinha é bandeirinha! — e não sancionada por este.  Instado a comentar o lance, José Guilherme Aguiar afirma perentoriamente não haver mácula que possa ser detectada no referido golo. Justificação? Entre a bola fora do campo e o golo passou tempo suficiente para que não faça sentido apelar-se a qualquer tipo de correlação entre a ilegalidade da bola fora e a legalidade do golo dentro. Onde é que eu já vi algo parecido mas sem a mesma conclusão?

Hoje em dia não há dúvida futebolística que subsista por muito tempo. Quase sempre subsiste o tempo que demora até alguém colocar o vídeo do respectivo lance no YouTube. No caso em concreto, dois vídeos: o do Saviola — que já lá estava desde a época natalícia para reanimar portistas amargurados — e o do Luís Aguiar (mais carnavalesco). Podia ter acontecido de, entre a ilegalidade do fora-de-jogo e o golo do Saviola mediar menos tempo do que entre a ilegalidade da bola fora de campo e o golo do Luís Aguiar. Aposto até que, em tal caso, num critério auto-denominado de nada tendencioso e no fair-play que o caracteriza , José Guilherme Aguiar argumentasse que é em algum momento entre os dois tempos (tempo médio?) que a teoria do caos aplicada ao futebol deixa de ter validade. Contudo, a medição do tempo nos vídeos do YouTube demonstra que se tratou de parcialidade descarada e do mais puro veneno anti-benfiquista, pois no tal lance do Saviola transcorreram 14 segundos, enquanto que no do Aguiar (o jogador) apenas 10 segundos.

Consigo imaginar uma das primeiras aulas com algum conteúdo matemático, muito provavelmente um dos momentos mais marcantes na vida do referido comentador que teima em não permitir que eu simpatize com ele. Pergunta o professor: «Qual é maior, Zezinho, 10 ou 14?». Na reação do professor à sua resposta deve ter descoberto Zezinho, aos 6 anos de idade, a paixão pelo Direito.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Abel Carleson

Hoje sentei-me ao lado do Abel Carleson. Dito assim, parece que vim num voo do Brasil sentado ao lado de um jogador de futebol. Mas não, ainda estou na Suécia e, melhor dizendo, sentei-me ao lado de Lennart Carleson, prémio Abel. Prémio instituído em 2002, atribuído pela Academia Norueguesa de Ciências e Letras em homenagem ao matemático norueguês Niels Henrik Abel; uma espécie de prémio Nobel para matemáticos.

Lennart Carleson, já acima dos 80 anos de idade, é uma daquelas figuras simpáticas que nem precisa dizer nada para que logo se perceba que só pode ser simpático; aliás, presença assídua nos seminários do Instituto Mittag-Leffler, prima pela discrição e silêncio. Talvez por na audiência marcar presença outra figura (grande, mas menor) que não perde uma oportunidade para se pavonear, dir-lhe-á o bom senso que não abra muitas brechas para o pavoneamento alheio.

Coincidiu de numa das palestras de hoje eu ter ficado sentado precisamente ao lado direito de Carleson. Não sei bem porquê, mas faço questão de mencionar que me encontrava à sua direita. Sendo isso bem frisado em textos litúrgicos, alguma vantagem deve advir de se estar em tal posição relativamente às divindades (nada tem a ver com política, graças a deus, e passe a redundância, pois isso de direita e esquerda em política é coisa bem mais recente que a bíblia). Lá pelo meio do seminário, aproveitei a parte mais técnica de um assunto que não me dizia muito para desligar da palestra e confirmar numa folha que tinha em frente uma trivialidade sobre espacos Lp — mesmo as trivialidades, ou principalmente estas, é bom testá-las bem para que não se transformem em areias movediças sobre as quais assentam edifícios matemáticos.

Agora vejo que devia ter tido mais cuidado com os meus rabiscos, principalmente estando sentado ao lado de quem estava. Mas prognósticos a posteriori são sempre fáceis de fazer. Da fisionomia simpática de Carleson fazem parte um sobrolho espesso e franzido, característica que nem sempre abona muito em favor do ser simpático, mas ele será certamente uma das exceções à regra. No final notei-lhe o tal olho com sobrolho franzido levemente desviado para cima da folha onde eu rabiscara a tal trivialidade. Certamente pensou (em sueco, claro), «agora já temos visitantes cujas contas andam em torno destas trivialidades?». Cogitei esconder a folha, virar a página, tentar desviar-lhe o olhar, mas já de nada valeria: brilhante como é, deve ter um implacável olho fotográfico e uma memória de elefante.

Dia de muito azar, pois em momentos similares de palestras anteriores até tinha aproveitado para umas continhas com espaços BMO, tópico muito mais condizente com a nobreza do instituto. Rabiscos ainda distantes do que se espera de alguém que visita o Mittag-Leffler, mas acredito que já desse para enganar um pouco; ou, pelo menos, deixar o Carleson na dúvida. Enfim, um azar tremendo. Tão improvável quanto sair de carro numa manhã fria de inverno, o sujeito da frente parar no sinal laranja e seguir no passeio ao lado uma jovem de minissaia muito curta. Muito pouco provável a conjugação dos acontecimentos, mas previsível o resultado.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Kubismen

Não escrevo esta crónica com o intuito de tecer elogios a mim mesmo, mas se no discorrer da escrita, uma vez por outra, um vestígio de auto-elogio despontar, não será porventura também muito despropositado.

Na quarta visita à terra de sua majestade — a sueca — sinto que começo a entender algo da língua sueca. Não a língua falada ou ouvida, mas a lida. Foi seguramente durante o dia de hoje que o passo evolutivo aconteceu, pois ainda ontem alguém me perguntava no Messenger como dizer «obrigado» em sueco e eu dava como resposta um bonequinho com o sobrolho franzido. Foi preguiça disfarçada de honestidade, é certo, pois hoje em dia é muito fácil encontrar tradutor online para palavras de línguas muito mais complicadas.

Era fim de tarde e o sol já ia baixo há horas. E, a julgar pelo que vi à hora do almoço, suspeito que em Fevereiro, nas raras vezes em que o sol desperta, praticamente nem se levanta. Mas isso pouco importa para o caso, apesar de se tratar de nota sobre brilhantismo. Adiante. Não tenho, nem nunca tive medo de fantasmas — aposto que nem existem , mas o Mittag-Leffler (instituto) num começo de noite de sexta-feira, em época na qual os visitantes não abundam, transmite uma vaga ideia de que talvez valha a pena pelo menos equacionar a existência dos tais entes que aposto que nem existem. Pelo menos o do Mittag-Leffler (homem). Antes mesmo de começar a pensar elaborar grandes teorias sobre crenças e descrenças, resolvi descer até ao meu apartamento. Os apartamentos situam-se numa construção mais moderna, distando do instituto uma escassa centena metros e abundante ar gélido no rosto.

Chegado ao apartamento, ato contínuo, pousar a mochila, despir o grosso casaco, descalçar as botas, pegar uma cerveja no frigorífico — para aquecer  e ligar a televisão. Havia alguns canais acessíveis, como a Eurosport ou a CNN, mas parei o meu zapping num que transmitia a versão sueca do concurso «Quem quer ser milionário». A primeira pergunta surgiu longa e as respostas eram quatro: Van Gogh, Picasso e dois outros pintores cujos nomes já não me recordo — mas recordo-me de qual não é a tendência pictórica desses pintores. Rapidamente volto ao emaranhado de letras aglutinadas na pergunta com acentos para tudo quanto é gosto e, lá bem no fim, descortino a palavra «kubismen». This reminds me something, pensei — ainda vinha com o inglês na cabeça, depois de uma tarde bem passada em amena cavaqueira com suecos. A resposta só podia ser uma: Picasso. Momento de suspense.

Do lado de lá do ecrã o concorrente pensa um pouco, volta a pensar — tinha mais palavras do que eu para digerir  e, finalmente, avança com a sua resposta:Van Gogh. Não digo que senti um banho de água fria, pois não ousaria tomar disso por aqui, mas senti-me muito desiludido. «Não sei patavina de sueco», pensei. Pensei até que Picasso, Van Gogh e os outros que agora não me lembro pudessem nem ser nomes de pintores em sueco — sei, por exemplo, que Tiago em francês é Jacques e tenho um vizinho que diz que Picasso é apenas um carro. Ciente de que excesso de cultura por vezes atrapalha, achei por bem desconfiar um pouco de mim mesmo.

Volvido o momento de suspense e a desilusão por achar que a língua sueca continuava para mim tão redonda quanto um cubo, surge a resposta sob a forma de luz cintilante na televisão: Picasso!

Olhando em retrospectiva só posso acreditar que as 10 ou 15 palavras antes da tal «kubismen» só estavam lá como rasteira para o pobre concorrente sueco. Apesar do sucesso inicial, não posso ainda garantir o significado de nenhuma das outras palavras na frase — tratou-se de um primeiro exercício e não de uma questão de valorização em exame final , mas asseguro que a tal «kubismen» significa cubista. Ou será cubismo?