Será obrigatório que me manifeste através do voto em 2011 para nova eleição presidencial. O termo "obrigatório" não foi aqui deixado por acaso, apesar de no país dos eufemismos haver quem afirme que o voto é apenas dever cívico. Convém salientar que quem não se desloca a uma mesa de voto está a engrossar o percentual dos abstencionistas. Essa é, inequivocamente, uma bela forma de votar, principalmente quando a confiança não aponta para nenhum dos antigos membros de associação de estudantes transformados em homens de gravata, bem falantes, com nome no boletim de escrutínio ou sigla a mascarar o nome. Atento ao futuro do planeta, Portugal está, no que à reciclagem humana diz respeito, na vanguarda da postura ecologicamente correta: autarca condenado à prisão é reempossado na autarquia — para não cair no submundo da droga —; estudante sem jeito para a atividade enfia-se em associação de estudantes e é conduzido para político; político com atuação desastrosa demite-se e é reciclado para cargo europeu ou gestor de empresa do sistema; Carlos Queiroz refugia-se como adjunto de Sir Alex Ferguson e é chamado para selecionador nacional. Julgo que não seria de todo disparatado se se mandassem colocar enormes cartazes em cada fronteira com o dizer: Welcome to Portugall, Country of Human Recycling.Voltando à questão presidencial. Há uns tempos apresentou a sua candidatura Fernando Nobre. Essa candidatura deixa-me de sobrolho franzido, pulga atrás da orelha e pé atrás. Niguém me engana: isso é coisa de monarquia! Pensarão eles que não somos um povo com memória? A Nobreza está para os regimes monárquicos como os gestores que fizeram estágio na política (com apadrinhamento familiar) estão para a república. A Burguesia também é do tipo gestor com estágio na política, mas sem o apadrinhamento familiar (talvez via associação de estudantes). Já agora, para completar o cenário monárquico e enaltecer o meu nível cultural, acrescento o Clero. Esse continua igual, com a única exceção do papa, que agora tem um iPod e ouve Michael Jackson. Será que canta "I'm bad" e faz gestos obscenos? E deus perdoa?
Num momento Nuno Rogeiro, surge a pergunta inevitável: quem nos garante que a candidatura de Nobre não é apenas uma jogada tática de Duarte Pio (será suficientemente astuto para tanto?), auto-proclamado legítimo herdeiro da coroa, para colocar Nobre no poder e este, posteriormente, perpetrar um golpe de estado contra si mesmo, deixando caminho aberto para que Duarte entre em cena? E que cena! Mesmo levando em conta todas as democracias pouco saudáveis da África, Ásia e América Latina, seríamos o primeiro país do mundo com um presidente da república a dar um golpe de estado em si mesmo. Já somos um país do mundo primeiro em muitas coisas, mas, pelo sim pelo não, gostaria que pudéssemos evitar este título durante mais algum tempo. É que eu viajo muito e nem sempre tenho paciência para aguentar a chacota, principalmente dos oriundos de países que não são primeiros em nada.




