No início do século XXI, arquitetos
ilustres que gravitam em torno da cidade do Porto, baseados em estudos aturados
sobre a história arquitetónica da cidade, chegaram à conclusão de que a popular
calçada portuguesa, em basalto e calcário, nada tinha a ver com o Porto. E um suposto amor
pela verdade histórica levou-os a aproveitar uns quantos fundos culturais
europeus para requalificarem os pavimentos, deixando-os num generalizado tom
cinzento-escuro de pedras graníticas. Menos mal que a requalificação — devo
confessar que ganhei aversão à palavra — com base na verdade histórica não
recuou demasiado no tempo, sob pena de termos hoje as ruas do Porto em terra
batida.
A requalificação dos espaços públicos não se limitou ao piso
das ruas e passeios. Algumas das praças mais emblemáticas da cidade sofreram
também intervenção especializada, tendo passado sobre elas, sem pejo, um pesado
manto granítico, mesmo em canteiros onde dantes brotavam flores. No máximo da
tolerância para com o colorido, os requalificadores — ou lá como devem ser designados os tipos em bom português — permitiram que se mesclasse o cinzento da pedra com os tons
esverdeados da relva e das árvores — que sobraram. Bancos de jardim que dantes
eram vermelhos — que cor aberrante! — foram pintados de verde-escuro. Os
que sobraram de madeira, porque o mais frequente é que os bancos de jardim sejam
agora frias pedras de granito — neste ponto recuaram à idade da pedra. Terão pensado
nos idosos, assíduos frequentadores das praças? Pensarão que sofrem de
sobreaquecimento?
A monotonia do tom acinzentado no piso não se restringiu à
parte mais antiga da cidade. Na zona da Boavista, o alcatrão foi o material
escolhido para pavimentar alguns dos passeios. Terão aqui negligenciado a
história e antecipado um futuro de estacionamento desenfreado em tudo quanto é
espaço livre? Registo nesta zona uma exceção no que ao colorido diz respeito:
em certa época do ano sobram tons de vermelho e branco nas camélias que
ornamentam a rotunda. Acredito que esta exceção seja mais fruto da ignorância
do arquiteto, desconhecedor das ousadias florais dessas plantas, do que de ato
piedoso para com elas. Lembrando teoria que recomenda conversa com as plantas,
em muitas das vezes que por lá passo, peço-lhes que não ousem demasiado no
esbanjamento de cores. Acredito que, dessa forma, poderão escapar mais
facilmente ao instinto requalificador de novos projetistas monocromáticos.










