segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O arquiteto Costa

Ao contrário do que diz o povo, em Portugal, o hábito faz o monge. A comprová-lo estão as recentes medidas anunciadas pelo diretor desportivo do Sporting Clube de Portugal. Segundo notícias veiculadas na comunicação social, os funcionários do Sporting estão agora proibidos de usar calças de ganga no seu posto de trabalho, desaconselhando-se ainda o uso de calções, bermudas, ténis e chinelos, e privilegiado-se o uso do blazer. Para quem não sabe, o Sporting é uma agremiação desportiva que, segundo consta, tem como funcionários alguns jogadores de futebol.

Das notícias vindas a lume não ficava claro se a medida devia ser seguida à risca (ou ao quadrado, pelo que se conhece do tal diretor desportivo) por todos os funcionários. Em caso afirmativo, teremos na próxima jornada da Liga Portuguesa uma sui generis equipa de futebol em blazer. No posto de trabalho, é claro, mais conhecido como relvado. Sendo o Sporting um clube vincadamente da aristocracia, o disparate deve estar na minha cabeça.

O episódio traz-me à memória o registo fonográfico de um encontro histórico, em 1968, entre Vinícius de Moraes e Amália Rodrigues, em Lisboa. Presentes nesse encontro, na casa de Amália, estavam também Natália Correia e Ary dos Santos, entre outros, tendo a conversa e a música fluído naturalmente até altas horas da madrugada. Em dado momento, Vinicius é convidado a pronunciar-se sobre a impressão que leva dos portugueses. Entre muitas palavras amáveis, aproveita também para apontar-nos um aspeto negativo: uma exagerada tendência para o formalismo! É interessante constatar que, volvidos mais de 40 anos, a sua impressão dos portugueses continua tão atual.

Relativamente à agremiação desportiva, causa-me ainda alguma perplexidade que, pese embora o acentuar do bom e velho formalismo lusitano, continuem a chamar o seu diretor desportivo singelamente de Costinha. Não combina. Valeria a pena comprarem-lhe um título. E não me refiro a título desportivo, pois compras dessas são especialidade de outra agremiação mais a Norte. Um título académico, como doutor, engenheiro ou arquiteto. E, estando para ele reservado o papel de obreiro-mor na construção deste novo Sporting, julgo que Arq.º Costa seria o ideal.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Superstições

De um modo sucinto, eu definiria a superstição como o estranho hábito de aumentar a complexidade de coisas que são, por natureza, simples. Quase sempre assentando em dados muito pouco credíveis, principalmente do ponto de vista estatístico.

Superstições são um mal da humanidade, havendo pessoas mais ou menos supersticiosas, consoante o grau de esoterismo que as carateriza. Tenho uma amiga que engravidou e se encontra com sérios problemas para escolher um nome para a criança. Simplesmente, porque desenvolveu uma disparatada superstição com nomes. Segundo ela, nomes determinam a personalidade e, em muitos casos, até características físicas da pessoa. Começou por exemplificar:
— Nome masculino: pessoa calma, chegada a um bom copo e que faz pelo menos um grande disparate na vida.
— Não faço ideia.
— Pinho, Vilarinho...
— Manuel?
— Ora, nem mais!
— Até entendo que isso do Pinho ter colocado os cornos no parlamento foi um grande disparate, mas qual foi o disparate do Vilarinho?
— Mandar o José Mourinho embora do Benfica, não achas?
— Sem dúvida!

Claro que não me mostrei convencido com este exemplo. Ela prosseguiu:
— Nome feminino: tendência para acentuada feiura, especialmente com o avançar da idade.
— Hum... não vejo qual.
— Ferreira Leite, Moura Guedes...
— Ah, Manuela!
— Aí está.

Além de supersticiosa, essa minha amiga revelava-se também muito pouco generosa com a beleza de pessoas provavelmente belas. Obviamente, eu continuava sem me mostrar convencido, e menos fiquei ainda com o ignóbil exemplo que a minha amiga apresentou depois. Digo eu:
— Mas isso é alguma superstição com nomes em geral, ou apenas com Manéis e Manelas?
— Com nomes, claro — disse ela. E prosseguiu: —Masculino: arrogante, com o ego do tamanho do mundo.
— Não estou a ver.
— Não?
— Não mesmo!
— Mourinho, Saramago, Sócrates...
— Estás maluca?!

Eu não tinha dito que era uma superstição disparatada? Não faz o menor sentido! Essa minha amiga precisa de um tratamento urgente. Superstições levadas ao extremo podem colocar em causa valores tão fundamentais como o da amizade.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Bares de tapas


Viagens que tenham por destino cidades latino-americanas não brasileiras são normalmente mais cómodas com uma escala em Madrid. Mesmo para as cidades brasileiras, se por comodismo entendermos economizar umas dezenas de euros, poderá também ser mais cómodo fazer a tal escala em Madrid. Estranha e misteriosamente, é por vezes mais barato viajar em voo TAP (via Lisboa, claro) a partir de uma cidade europeia do que começar a viagem em Lisboa ou no Porto.

No caso de Madrid, até consigo entender que os aviões da TAP aproveitem para abastecer os depósitos a preços muito mais convidativos, mas para outras cidades europeias onde os combustíveis possam ser mais caros (se as houver) não consigo encontrar justificação plausível. A aviação comercial é decididamente uma área difícil de entender. Por vezes fico com a sensação de que, suportadas nas ajudas financeiras dos diversos estados, as principais companhias aéreas (as de bandeira, como sói dizer-se) existem mais com o propósito de se aniquilarem umas às outras do que propriamente para tratarem da sobrevivência.

Mas voltando a Madrid. Ao tema de conversa, claro. Trocar uma escala em Lisboa por outra em Madrid é normalmente um prazer. Se o tempo der (e quase sempre dá), significa também trocar as diversas viagens nos autocarros da Groundforce (parte da TAP subespecializada em maltratar clientes, disfarçada de outra empresa para não prejudicar o bom nome da companhia aérea) por um cómodo e eficiente metro até ao centro de Madrid e aproveitar o muito de bom que a cidade tem para oferecer (Sara Carbonero não incluída). Se para mais não der, uma ligeira peregrinação por uns bares de tapas já justifica a viagem. Muitos crêem que de Espanha nem bom vento nem bom casamento, mas sem receio da acusação de traição à pátria, acrescento também que de menos bom é praticamente só isso: vento (no inverno) e casamento (o ano todo). E no que ao casamento diz respeito, confesso que tempos houve em que cheguei a duvidar.

Um dos setores no qual os bons hábitos espanhóis deviam servir de modelo aos portugueses é o da restauração. Não o da refeição formal, com mesa, talheres, sopa, prato principal, sobremesa, café e conta que não serve de fatura (um traço de informalidade!), mas o das tapas ao balcão, vinho a copo e sobras no chão. Que diós me perdoe a heresia, mas o que de similar se poderia considerar por cá seriam os snack-bares. Em termos de quantidade, não tenho a mínima dúvida, pois estou absolutamente seguro de que Portugal é o país do mundo com mais cafés/restaurantes com a designação de snack-bar por quilómetro quadrado. O mau uso da palavra é tanto que até dicionários respeitáveis (como o Google Tradutor, por exemplo) já consideram a palavra como bom português. Infelizmente, na maioria desses tais snack-bares entende-se por snack uma torrada, um prego em pão ou uma sande mista. Que pobreza lusitana!

Finalizo com um pequeno aparte: há muitos que dizem sandes em vez de sande, mas confesso que nunca entendi se são exatamente a mesma coisa. Será que a sandes mista tem mais fatias de queijo e fiambre?


quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Colaboradores

Poderá parecer presunção minha, mas não deixarei de referir que, muito antes da tanga do Durão Barroso ou do ataque das agências de reitingue (uma pequena contribuição minha para a modernidade em economês), eu já tinha previsto uma terrível crise económica para Portugal. Não sou minimamente entendido em macroeconomia e desconfio de praticamente todos os que se dizem entendidos, mas indícios fortes me mostravam que a tal crise se aproximava. E não me baseava em crença ou superstição, pois a única que tenho é a de achar que não as tenho.

A história começa com um telefonema anunciando a oferta de um ano de assinatura de uma revista chamada Exame e que, nas palavras de quem me tentava aliciar, era praticamente irrecusável. Desde tenra idade me instruíram a não aceitar ofertas de estranhos, mas daquela vez, talvez por no meu subconsciente pairar a ideia de que Exame era o nome de uma revista dedicada aos problemas da avaliação no Ensino Superior, aceitei a oferta de um ano de assinatura gratuita dessa tal revista. Devo aqui abrir um parêntesis para justificar o aparente delírio do meu subconsciente, deixando claro que, à data, a faculdade onde eu trabalhava permitia tantas variantes para épocas de exame que a existência de uma revista especializada no assunto não era, em si, uma ideia completamente estapafúrdia. De acordo com o meu subconsciente, é claro.

Quando mais tarde tomei conhecimento de qual era a especialidade da revista, imediata e levianamente concluí que, na melhor das hipóteses, a revista não me interessava — cheguei até a pensar anular a generosa oferta. Claro que estava equivocado. Com o tempo fui-me apercebendo de que o meu linguajar economês aumentava em flecha e a minha intuição sobre o futuro económico da nação aprimorava significativamente. Foi precisamente a questão linguística que mais me impressionou — até porque da minha evolução intuitiva só mais tarde tive consciência. Para ultrapassar barreiras de linguagem, recorro normalmente a um dicionário. No caso dessa revista, e apesar de se chamar Exame — e não Exam — e os textos virem supostamente escritos em português, precisava de uns dois ou três: o de inglês, o de inglês-português e, nos casos mais intrincados, o de português. Desde a adolescência que não sentia tanta evolução no nível do meu inglês.

No que ao linguajar diz respeito, e ignorando a pertinente questão do idioma, duas ideias fundamentais me chamaram a atenção. Em primeiro lugar, surpreendeu-me a ousadia dos gestores e administradores portugueses que agora se dizem CEOs. Tanto relógio Rolex, tanto carro topo de gama e vida faustosa num país à beira da penumbra — já na época... — e ainda se autoproclamam de CEOs? Não encontram na língua portuguesa palavra mais adequada do que essa homófona daquela que logo lembra ao comum dos mortais viverem os gestores em algo muito parecido com o paraíso? Recomendaria mais discrição nessa designação, pois não é necessário — nem prudente — imbuírem a terminologia da ideia de que levam uma vida celestial. Para o povo — sempre invejoso para com os bem-sucedidos — já basta saber que a elite económica tem fantásticos rendimentos em salários, prémios, cartões de crédito, fugas ao fisco e ajudas do estado.

Mas o que mais me surpreendeu — e decisivamente contribuiu para eu desenvolver a percepção de que a terrível crise se aproximava — foi, edição após edição, ir constatando que as nossas empresas atualmente se dividem tão-somente em CEOs e colaboradores. Agora não há funcionários nem trabalhadores. No máximo do mais trabalhoso, presta-se colaboração em alguma empresa. Em part-time, imagino eu, ou quando sobra tempo entre passatempos. Seria necessária muita genialidade para intuir que a economia do país inevitavelmente entraria em colapso?

quinta-feira, 18 de março de 2010

A calçada portuense


No início do século XXI, arquitetos ilustres que gravitam em torno da cidade do Porto, baseados em estudos aturados sobre a história arquitetónica da cidade, chegaram à conclusão de que a popular calçada portuguesa, em basalto e calcário, nada tinha a ver com o Porto. E um suposto amor pela verdade histórica levou-os a aproveitar uns quantos fundos culturais europeus para requalificarem os pavimentos, deixando-os num generalizado tom cinzento-escuro de pedras graníticas. Menos mal que a requalificação — devo confessar que ganhei aversão à palavra — com base na verdade histórica não recuou demasiado no tempo, sob pena de termos hoje as ruas do Porto em terra batida.

A requalificação dos espaços públicos não se limitou ao piso das ruas e passeios. Algumas das praças mais emblemáticas da cidade sofreram também intervenção especializada, tendo passado sobre elas, sem pejo, um pesado manto granítico, mesmo em canteiros onde dantes brotavam flores. No máximo da tolerância para com o colorido, os requalificadores — ou lá como devem ser designados os tipos em bom português — permitiram que se mesclasse o cinzento da pedra com os tons esverdeados da relva e das árvores — que sobraram. Bancos de jardim que dantes eram vermelhos — que cor aberrante! — foram pintados de verde-escuro. Os que sobraram de madeira, porque o mais frequente é que os bancos de jardim sejam agora frias pedras de granito — neste ponto recuaram à idade da pedra. Terão pensado nos idosos, assíduos frequentadores das praças? Pensarão que sofrem de sobreaquecimento?

A monotonia do tom acinzentado no piso não se restringiu à parte mais antiga da cidade. Na zona da Boavista, o alcatrão foi o material escolhido para pavimentar alguns dos passeios. Terão aqui negligenciado a história e antecipado um futuro de estacionamento desenfreado em tudo quanto é espaço livre? Registo nesta zona uma exceção no que ao colorido diz respeito: em certa época do ano sobram tons de vermelho e branco nas camélias que ornamentam a rotunda. Acredito que esta exceção seja mais fruto da ignorância do arquiteto, desconhecedor das ousadias florais dessas plantas, do que de ato piedoso para com elas. Lembrando teoria que recomenda conversa com as plantas, em muitas das vezes que por lá passo, peço-lhes que não ousem demasiado no esbanjamento de cores. Acredito que, dessa forma, poderão escapar mais facilmente ao instinto requalificador de novos projetistas monocromáticos.

terça-feira, 9 de março de 2010

A Devassa

Nascido no seio de família com tendência religiosa vincadamente católica, desde tenra idade foi-me transmitida a ideia de que o deus infinitamente bom e generoso tem também os seus momentos de ira e castiga. Uma das mais evidentes manifestações da ira divina surgia em noites de tempestade, sob a forma de raios e trovões. A oportunidade era aproveitada para me incutirem os ideais do deus bíblico, associando a tão assustador espetáculo a existência do pecado sobre a terra, mais ou menos original. A princípio estranhando pecado que pudesse despoletar tão desmesurada ira, comecei aos poucos a detetar justificação — para pelo menos parte dessa ira ­­— nos comportamentos da Paulinha, amiga de infância com muita curiosidade sobre as variações da anatomia humana.

Quis o destino ­— e também eu — que aos 20 e poucos anos de idade cruzasse o Atlântico em direção ao Rio de Janeiro, e viesse a instalar-me num apartamento na rua onde anos antes passeava a famosa garota de Ipanema. Já pouco garota era naquela altura, mas outras não faltavam que lhe seguiam as pisadas no doce balanço a caminho do mar. Nos quatro anos de exílio carioca pude, por diversas vezes, comprovar a ira divina através dos seus tenebrosos recados sobre a cidade de inúmeros pecadores. Na época, já a Paulinha deixara de fazer parte do meu círculo de amizades. Entretanto, conhecera a Ana Lúcia, desinibida moradora do 407, com papel análogo ao que tivera outrora a Paulinha na atribuição de culpas pela ira divina. 

Alguns anos de afastamento do Rio, tempo mais do que suficiente para várias alterações nos hábitos da cidade, especialmente no que à atividade turística diz respeito. Nesse particular, registo com estupefação o encerramento da boate Help. Não posso acreditar que tenham posto termo à atividade da mais emblemática casa de acasalamento noturno, último refúgio do turista cuja atividade diurna não lhe correra de feição. Uma espécie de fast food no ramo. Em compensação — no Rio funciona muito bem a lei da compensação, especialmente nestas matérias —, e para gáudio de turistas e cariocas, tornou-se agora mais fácil encontrar em diversos bairros da cidade os préstimos de uma devassa, cuja atividade, a julgar pela campanha publicitária, se afigura por demais convidativa: «Bem loura, bem devassa. Finalmente ela chegou, pegando você pelo colarinho, segurando você pelo aroma, fazendo você se apaixonar pelo sabor». 

No preciso momento em que decidia sair para conferir os dotes dessa tal devassa, o deus bíblico — que comunica através de raios e trovões — decide enviar uma tempestade sobre o Rio de Janeiro. Quem conhece a cidade sabe — e nunca duvida — que num ápice o Rio se transformará num imenso rio, podendo deixar vítimas isoladas nos locais mais inusitados. A mim, tocou-me ficar no décimo sexto andar de uma das recém formadas ilhas da zona sul, com uma garrafa de cachaça, limões, gelo e açúcar. Nem sei como interpretar esta mensagem divina.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Cidade maravilhosa

O Rio de Janeiro é uma cidade onde a primeira impressão para quem chega da Europa (por via aérea) dificilmente poderá ser favorável. Exceptuaria os casos em que o cansaço da viagem transatlântica possa ter provocado o sono no traslado até à zona Sul. Quando se fala em Rio de Janeiro, pensa-se, quase sempre, nesta zona mais nobre da cidade, mas para dicas interessantes sobre outras zonas, recomendo uma consulta ao Dr. Duarte Lima, profundo conhecedor do grande Rio.

O cheiro nauseabundo da baía de Guanabara e o visual desordenado e pobre das favelas na Linha Vermelha constituem um péssimo cartão-de-visita para a cidade que merecidamente ostenta o epíteto de maravilhosa. A quem for ao Rio pela primeira vez e quiser uma excelente primeira impressão, recomendo que se deixe levar pelo sono assim que saia do aeroporto (a longa espera pelas malas costuma provocar sonolência), um despertar lá pelo bairro da Tijuca, um espreguiçar no escuro do túnel Rebouças e um mergulho de olhos bem abertos na paisagem deslumbrante que lhe reserva a luz ao fundo do túnel.

O Rio de Janeiro é, acima tudo, uma cidade de inúmeras contradições. Cidade onde o neguinho desce da favela para se apossar, sem aviso prévio, de relógio, câmara e carteira do turista desavisado, mas também onde o neguinho desce com pandeiro, violão e mulata para levantar o astral do turista desanimado. Cidade onde o pecado passeia livre e solto nas ruas (ou fica parado à noite na Av. Atlântica), sobe elevadores e entra nos quartos, mas também cidade que tem num dos seus morros um enorme Cristo Redentor com os braços abertos sobre a baía de Guanabara e que, como será fácil de prever, redime.

Só posso conceber que Chico Buarque e Ruy Guerra tenham criado a canção Não Existe Pecado ao Sul do Equador a pedido de alguma agência responsável por uma campanha publicitária com vista a atrair o turista cristão. Campanha enganadora, como será fácil de imaginar. E eficaz, especialmente se tinha como alvo o cristão a ponto de converter-se em pecador.

quarta-feira, 3 de março de 2010

O desconforto ortográfico

Tenho um especial apreço pela criatividade linguística do povo brasileiro. Têm por vezes com exageros e despropósitos, é certo, mas não consigo imaginar uma língua que perdure sem a capacidade de inovar. Devo confessar que nos primeiros tempos de contacto com o português escrito no Brasil senti algum desconforto, mas nada que a leitura de uns quantos jornais e livros não tivesse facilmente resolvido. Ninguém melhor do que Caetano Veloso para sintetizar esse normal processo de estranhamento: «Narciso acha feio o que não é espelho e à mente apavora o que ainda não é mesmo velho».

Decorridos alguns anos sobre esse ligeiro desconforto nos primeiros contactos com o português escrito no Brasil, deparo-me agora com compatriotas também desconfortáveis, desta feita em desacordo com o novo acordo ortográfico. Ergue-se do lado lusitano uma onda de contestação, com origem no Twitter e no Facebook (admitirão os reacionários que se utilize estas palavras em bom português?), que conta já com milhares de assinaturas.

Posso estar enganado (por vezes acontece...), mas se não tivesse nada mais interessante a que me dedicar, vasculharia as páginas de alguns signatários da petição reacionária em busca de maus tratos à língua por esses que tão acerrimamente defendem a sua imutabilidade. E aposto que não seria em vão. Alguém me estimula financeiramente com uma apostazinha?

Sou por vezes presunçoso (a ponto de colocar nuvens negras pairando sobre opiniões sustentadas por ilustres especialistas nas mais variadas matérias), mas neste caso, reconheço que, entre as mais do que prováveis jantaradas e viagens transatlânticas, os estudiosos da língua acabaram por chegar a boa conclusão e dar valiosa contribuição para um futuro duradouro do Português como língua à escala mundial. Poderá ter sido uma decisão difícil, mas nem por isso terá constituído grande golpe de génio concluir que não vale muito a pena remar contra a maré.

Não se pense que na desconfiança pela modernidade descaracterizadora da língua estão apenas os saudosistas lusitanos. Do lado brasileiro já pude ver despontar indícios de preocupação em diversas pessoas, a última das quais o meu amigo Luiz Cláudio, quando foi informado de que voo deixara de ter acento. Foi preocupação de pouca dura, pois o meu alerta sobre algumas armadilhas da língua portuguesa, em particular sobre a existência de palavras homófonas, deixou-o mais tranquilo. Acima de tudo, despreocupado quanto à viagem de regresso a São Paulo.


segunda-feira, 1 de março de 2010

O saudosismo ortográfico

Essa enorme capacidade portuguesa de mobilização pelas grandes causas é algo que por vezes ainda me surpreende. Não será característica exclusiva deste povo, mas será, certamente, traço fundamental da nossa identidade.

Especialmente numa época em que a democracia atinge o seu apogeu e as instituições democráticas funcionam na plenitude, corríamos o sério risco de entrar numa espiral de tédio democrático, com deputados a ocuparem-se de questões menores e o povo de costas voltadas para a política. Para evitar um tal estado de pasmaceira, nada melhor do que uma grande causa, uma força aglutinadora para fazer chegar aos representantes parlamentares uma mensagem inequívoca de que o povo está atento: um movimento de imutabilidade da língua! Como mentores desse movimento há um tradutor fulano-de-tal, uns advogados sempre prontos a conduzir a parte legal das grandes causas e uns quantos jornalistas dispostos a dar-lhes voz.

Se é para fazer jus ao epíteto de povo mais saudosista da Europa, único que há uns séculos teve a audácia de introduzir um neologismo para traduzir esse sentimento, façamos a coisa a sério. Não restrinjamos a causa aos c's e p's mudos e às palavras mais ou menos hifenizadas. Deixemo-nos de meias palavras e vamos fundo no grito de revolta. Ignoremos esse revolucionário que deu pelo nome de Luís de Camões, recuemos ainda mais no tempo e readotemos a língua latina, essa sim, imutável e eterna. Utilizemos todo o potencial do mundo globalizado e projetemos uma enorme revogação das modernizações linguísticas efetuadas durante mais de 15 séculos nas regiões hoje conhecidas como Portugal, Espanha, França, Itália e Roménia. Enfim, devolvamos ao mundo esse magnífico império unificado pelo latim.

Aproveito desde já o ensejo para sugerir que, caso esta minha proposta avance, se entronize César Berlusconi Augusto como imperador. Na falta de melhor critério, entroniza-se um líder latino que já tem alguma experiência na organização de bacanais.

Não sei se vem muito a propósito, mas não posso deixar de registar alguma coincidência: sempre atenta às grandes causas e engajada em movimentos pouco evolutivos, a igreja católica cogita voltar às missas em latim. Prometo que se me abordar algum emissário de Roma com uma petição em prol do latim como língua oficial, deixo nela a minha cruz!

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Ana

Mais uma viagem para o Brasil e, coincidência das coincidências, mais uma passagem pelo Aeroporto da Portela. Asseguram-me que a TAP tem voos diretos do Porto para o Brasil, mas, se realmente os tem, serão provavelmente para uso exclusivo de árbitros de futebol. Hei-de investigar melhor essa possibilidade, pois, fazendo parte da minha atividade profissional arbitrar artigos submetidos para publicação em revistas científicas, poderei, com alguma propriedade, também considerar-me um árbitro. Passarei até a comprar os bilhetes na agência Cosmos que, segundo consta, costuma ser generosa com quem exerce essa atividade profissional, mandando a fatura para clientes mais abastados com a contabilidade desorganizada. Uma espécie de Robin dos Bosques a operar na área das viagens.

De todas as vezes que passo pela Portela fico com a sensação de que as pontes telescópicas (ou mangas, como sói dizer-se) do terminal principal estão lá para inglês ver (ou será que os passageiros britânicos as utilizam?), pois não acredito que seja apenas uma fatalidade estatística que nunca me queiram enfiar nas ditas mangas. Se na ida é desagradável, na volta a coisa é ainda pior: descer do avião, pegar um autocarro para o Terminal 1, passar no Posto de Fronteira, pegar novo autocarro para o Terminal 2 e, finalmente, pegar um autocarro para o avião que me levará até ao Porto. Tudo isso, mesclado com muitas subidas e descidas de escadas nem sempre rolantes.

Não sei porque sujeitam os nortenhos a tanto desconforto, mas a empresa com nome de mulher (já lá vou) que administra o aeroporto devia repensar a situação. Será que a ideia é sacrificar os passageiros adeptos de algum clube nortenho suspeito? Se assim for, não é má ideia de todo, mas advirto que no norte também há clubes honestos. Sugiro que, por exemplo, passem a fazer uma triagem pelo cartão de sócio. O meu é do Paços de Ferreira e está sempre com as cotas em dia. Por outro lado, mora em Lisboa tipos como o Miguel Sousa Tavares, adepto do tal clube nortenho suspeito que até se opõe à construção de um novo aeroporto em Lisboa. Talvez esteja na hora de o obrigarem a passar pelo aeroporto do Porto nas suas viagens para o Brasil (dizem que são muitas) e, na volta, deixá-lo a ver mangas em três autocarros.

Não sei o nome da instituição que permite o registo de marcas em Portugal, mas também pouco interessa para o caso. O que realmente interessa é que tenho tia, sobrinhas, várias amigas e uma musa chamada Ana Ivanovic, todas acima de qualquer suspeita sobre a conduta de mulher séria (especialmente a tia e as sobrinhas) e revolta-me que tenham permitido registar como Ana uma empresa que trata o viajante com tamanho desconforto. Uma espécie de prostituta de beira de estrada. Não vou perder tempo a medir as minhas palavras, pois sei bem que essa é a designação apropriada para aquela que se aproveita do viajante que passa sem alternativa, cobra caro e não oferece um mínimo de conforto. Para esse ramo de atividade há nomes muito mais apropriados. Shirley ou Vanessa Alberta, por exemplo. Mas Ana não, por favor!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Presidente Nobre?

Será obrigatório que me manifeste através do voto em 2011 para nova eleição presidencial. O termo "obrigatório" não foi aqui deixado por acaso, apesar de no país dos eufemismos haver quem afirme que o voto é apenas dever cívico. Convém salientar que quem não se desloca a uma mesa de voto está a engrossar o percentual dos abstencionistas. Essa é, inequivocamente, uma bela forma de votar, principalmente quando a confiança não aponta para nenhum dos antigos membros de associação de estudantes transformados em homens de gravata, bem falantes, com nome no boletim de escrutínio ou sigla a mascarar o nome. Atento ao futuro do planeta, Portugal está, no que à reciclagem humana diz respeito, na vanguarda da postura ecologicamente correta: autarca condenado à prisão é reempossado na autarquia — para não cair no submundo da droga ; estudante sem jeito para a atividade enfia-se em associação de estudantes e é conduzido para político; político com atuação desastrosa demite-se e é reciclado para cargo europeu ou gestor de empresa do sistema; Carlos Queiroz refugia-se como adjunto de Sir Alex Ferguson e é chamado para selecionador nacional.  Julgo que não seria de todo disparatado se se mandassem colocar enormes cartazes em cada fronteira com o dizer: Welcome to Portugall, Country of Human Recycling.

Voltando à questão presidencial. Há uns tempos apresentou a sua candidatura Fernando Nobre. Essa candidatura deixa-me de sobrolho franzido, pulga atrás da orelha e pé atrás. Niguém me engana: isso é coisa de monarquia! Pensarão eles que não somos um povo com memória? A Nobreza está para os regimes monárquicos como os gestores que fizeram estágio na política (com apadrinhamento familiar) estão para a república. A Burguesia também é do tipo gestor com estágio na política, mas sem o apadrinhamento familiar (talvez via associação de estudantes). Já agora, para completar o cenário monárquico e enaltecer o meu nível cultural,  acrescento o Clero. Esse continua igual, com a única exceção do papa, que agora tem um iPod e ouve Michael Jackson. Será que canta "I'm bad" e faz gestos obscenos? E deus perdoa?

Num momento Nuno Rogeiro, surge a pergunta inevitável: quem nos garante que a candidatura de Nobre não é apenas uma jogada tática de Duarte Pio (será suficientemente astuto para tanto?), auto-proclamado legítimo herdeiro da coroa, para colocar Nobre no poder e este, posteriormente, perpetrar um golpe de estado contra si mesmo, deixando caminho aberto para que Duarte entre em cena? E que cena! Mesmo levando em conta todas as democracias pouco saudáveis da África, Ásia e América Latina, seríamos o primeiro país do mundo com um presidente da república a dar um golpe de estado em si mesmo. Já somos um país do mundo primeiro em muitas coisas, mas, pelo sim pelo não, gostaria que pudéssemos evitar este título durante mais algum tempo. É que eu viajo muito e nem sempre tenho paciência para aguentar a chacota, principalmente dos oriundos de países que não são primeiros em nada.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Os tiques do Senhor Presidente

Quem me conhece, sabe que não tenho opinião muito favorável sobre o atual presidente da república portuguesa. Quem me conhece melhor, sabe até que preferia ver outro a ocupar o lugar dele. Reconheço que, além de ser eu um sujeito deliberada e assumidamente parcial, não consigo outro motivo forte que permita sustentar a minha opinião. Cavaco Silva até tem pose de estadista, fala sempre na terceira pessoa quando se refere a si mesmo e, quando sorri, fá-lo com um tique nervoso que faz qualquer um ficar tenso (inequívoca qualidade de estadista).

Porém, há a questão da empatia, barreira difícil de transpor; principalmente quando lhe noto esse vício de mandar anunciar, de manhã, que o presidente vai fazer uma comunicação ao país à hora do Telejornal — ainda dizem que não há manipulação dos media! Esses episódios algo frequentes deixam-me o dia todo ansioso. «Irá dar a independência à Madeira?» «Terá decidido invadir a Espanha?» «Estará o palácio presidencial sob escuta?» Matemático nenhum tem condições para exercer a sua atividade neste estado de ansiedade.

Em abono de Cavaco Silva — afinal não sou tão deliberadamente parcial —, devo mencionar aquele episódio natalício no qual câmaras indiscretas o apanharam a comer bolo-rei. Foi relativamente parodiado pela ligeira deselegância com que o fez, mas o que ninguém entendeu é que o gesto foi intencional e até com uma certa subtileza humorística. Tomo a ousadia de recomendar que o presidente entre mais no reino — salvo seja! — da piada, pois quem não tem por hábito (nem jeito) fazê-la, quase sempre acaba mal interpretado no momento em que resolve arriscar.

Até hoje, não houve comentador político, blogger ou frequentador do Manuel Luís Goucha — o programa, em princípio — que tivesse mencionado, em abono do presidente, o que para mim foi óbvio desde o primeiro instante. Admito que eu possa ter um grau de perspicácia muito acima da média, mas não era claro que Cavaco comia o bolo numa atitude de escárnio, tentando achincalhar a monarquia? Tratava-se de bolo-rei, se fosse pastel de Belém a postura teria sido outra, certamente. O resultado foi desastroso, mas a subtileza foi de mestre!

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Menos encanto na hora da despedida

Termino aqui os meus relatos sobre mais uma estadia em Estocolmo. Normalmente, o encanto com a cidade começa mesmo antes da chegada e prolonga-se até à hora da partida, mas infelizmente desta visita tenho a registar um pequeno detalhe desagradável. Comecemos pela parte agradável. Especialmente para alguém como eu, acostumado a nomes como Sá Carneiro (Pedras Rubras, para os mais saudosistas), Portela ou Aeródromo de Espinho, deparar-se com um aeroporto chamado Arlanda tem o seu quê de surpresa para o lado positivo. Lembro-me perfeitamente da primeira vez que fiz reserva de voo para Estocolmo. Quando na agência de viagens me disseram que iria para Arlanda, quase respondi que não dava, o meu centro de investigação só cobria despesas de viagem para Estocolmo, extras não podiam ser incluídos na factura.

Sobre a mulher sueca já me pronunciei anteriormente e não me quero repetir, apesar da sua perfeição merecer odes extra. A perfeição sueca prolonga-se pelas casas, que mais parecem versões aumentadas daquelas que a Ikea monta em 35 m2 e nos fazem querer mandar todos os visitantes para fora, bloquear a porta e ficar a morar lá (especialmente se a assistente daquele sector for sueca). Mas, sabendo de antemão que no melhor pano cai a nódoa, nunca excluí a possibilidade de a qualquer momento surgir detalhe que me fizesse sentir menos em terra alheia. Na existência de mulher sueca com modos de peixeira saída da lota tinha eu deixado de acreditar há muito. Quis o destino que o desencanto surgisse no metro de Estocolmo e já na viagem de volta.

O ser humano nasce com uma certa tendência mais ou menos universal para o mal, tendência essa que vai diminuindo à medida que educação vem ao de cima. Se há coisa que o ser pouco educado gosta de fazer é riscar carruagens de metro. Não sei qual o prazer nessa manifestação espontânea de atraso no processo evolutivo, mas os efeitos conheço-os eu muito bem: por exemplo, a empresa que administra o metro do Porto quer ainda que, além dos riscos nas carruagens, tenhamos que aguentar com um enorme dístico ao lado da parte riscada chamando a atenção para o ato vândalo. Como se os riscos não fossem perceptíveis sem o tal dístico! No caso do metro de Estocolmo, tratou-se apenas da corriqueira imagem com um coração a unir os nomes de dois jovens que se amam e não têm dinheiro para enviar uma SMS. A julgar pelos nomes, deduzo que sejam suecos do sul.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Suecas


Estocolmo é, indubitavelmente, a cidade com maior número de suecas por metro quadrado. E antes que frequentadores assíduos de algum jardim público da cidade do Porto lancem dúvidas sobre as minhas asserções indubitáveis, esclareço que a palavra sueca não é aqui utilizada para designar o homónimo jogo de cartas muito popular em Portugal.

Sempre me pergunto que motivo estapafúrdio poderá ter feito com que dessem o mesmo nome ao jogo maioritariamente praticado por aposentados do sul e às jovens — e não jovens também — habitantes da Suécia. De comum encontro apenas esse pequeno detalhe de que também elas gostam de ficar em jardins públicos, mas em tardes soalheiras de verão a arejar os corpos massacrados pelo inverno longo e rigoroso. A semelhança é mesmo muito ténue, como se constata.

Sem recurso a qualquer tipo de confirmação de fonte segura — nem insegura —, utilizando apenas a lógica e os meus parcos conhecimentos em história sueca anterior a 1998, se me fosse pedida uma explicação para o nome do tal jogo de cartas, arriscaria que o jogo foi introduzido na Península Ibérica, por volta do século X, quando marinheiros vikings esqueceram um baralho de cartas — e o respectivo manual de instruções — em alguma praia lusitana. Talvez cartas com suecas nuas. Quem sabe. Mas, friso, a minha teoria não é mais do que um mero exercício de especulação.

Voltemos às suecas. Às mulheres, claro. Esqueçamos o jogo de cartas de uma vez por todas. Quis deus — só pode ser obra divina — que a mulher que habita este país do norte e os sonhos dos rapazes do sul viesse a transformar-se numa espécie de mito. Não é verdade? Qual o rapaz do sul em plenas condições de funcionamento heterossexual que nunca sonhou com suecas? Quantos lograram alcançar alguma? Que me lembre, apenas o Luís Figo.

Devo confessar que na minha primeira viagem à Suécia cheguei um pouco receoso, temendo que a realidade pudesse não corresponder à mitologia. Contudo, para grande felicidade do meu olhar — e outros sentidos — pude confirmar in loco que o receio era profundamente infundado. A fama não é, de forma alguma, consequência de um maketing enganador muito bem urdido, pois a elegância passeia-se alegre e solta de forma generalizada pelas ruas de Estocolmo. E, pela amostra, acredito que noutras cidades o panorama não seja muito diferente.

Motivo para tanta elegância? Por enquanto só a leve suspeita de que possa existir no arenque ou no pão crocante — ou na combinação de ambos — substância que produza efeitos na formação e manutenção de tais corpos, e ainda os previna da deformação precoce. Não acredito nos poderes milagrosos das academias de ginástica — ou health clubs, como agora é de bom tom designá-las. Conjeturo até que a única que existiu em Estocolmo pertenceu a uma multinacional norte-americana e não esteve aberta por mais do que dois ou três meses. A escassez de clientes terá feito a multinacional dos corpos artificialmente sãos desistir do investimento. É bom salientar que não passa também isto da mais pura especulação.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Qual é maior?

Desde já desiludo quem do título desta crónica possa ter deduzido que viria aqui algum depoimento sobre manifestação de tendência homossexual masculina entre amigos de infância na época das grandes descobertas. Desenganem-se, tratarei aqui de teoria dos números, pura e abstrata, em perfeita sintonia com esse viril desporto chamado futebol. Mas garanto que, imbuído de um espírito universalista, tentarei abordar os temas de modo a não assustar quem detesta futebol, nem quem detesta Matemática, nem quem detesta ambas as coisas.

Dos que detestam a Matemática, conheço muitos e de longa data. O primeiro no qual detectei a tendência foi o António Carlos, colega de liceu, que ainda em plena adolescência descobriu uma profunda paixão pelo Direito para evitar a Matemática a partir do 10º ano. De lá para cá, com maior ou menor frequência, constato manifestações mais ou menos explícitas de advogados que lhe seguiram (ou anteciparam) as pisadas, o último dos quais José Guilherme Aguiar, comentador desportivo do programa Dia Seguinte na SIC Notícias. Não se empertiguem os advogados, pois bem sei que nem todos encaixam neste estereótipo. Assim de repente não me lembro de nenhum, pero que los hay, los hay.

Mas voltemos aos números. Melhor, ao futebol. Aliás, ao José Guilherme Aguiar. O sujeito anda desde o Natal a implicar com o golo que o Saviola marcou ao FCP. Não perde uma oportunidade para exibir o anti-benfiquismo primário em todo o seu esplendor, bem secundado pelo acólito verde — não me refiro a nenhum marciano —, afirmando que o golo é ilegal, porque surge na sequência de um fora-de-jogo do Urreta.

Insistiu tanto na história que já pensava dar-lhe algum crédito e adotar para a teoria futebolística de análise à arbitragem a teoria matemática do caos, teoria essa que tem como pilar fundamental o princípio da sensibilidade nas condições iniciais. Num pequeno parêntesis, e para elucidar os mais mal informados, adianto que numa visão extrema  — existe maneira mais elucidativa para exemplificar algo? —, podemos deduzir que está ferido de ilegalidade um golo limpo no último minuto, só porque o árbitro no primeiro minuto não assinalou uma falta banal. Com base em quê? Ora, no facto de que se tivesse assinalado essa falta todo o jogo teria sido diferente. A coisa não é disparatada de todo. Nem nada sensata.

Já pensava adotar essa ideia peregrina da teoria do caos para o futebol português — como se precisasse de mais —, quando entrou em cena a discussão sobre a validade do segundo golo que o Braga — grande rival do SLB esta época — marcou no domingo passado aos verde-rubros da Madeira, golo esse precedido de bola fora do campo nas barbas (se as tivesse) do bandeirinha — não entro em eufemismos vanguardistas de futebolês, bandeirinha é bandeirinha! — e não sancionada por este.  Instado a comentar o lance, José Guilherme Aguiar afirma perentoriamente não haver mácula que possa ser detectada no referido golo. Justificação? Entre a bola fora do campo e o golo passou tempo suficiente para que não faça sentido apelar-se a qualquer tipo de correlação entre a ilegalidade da bola fora e a legalidade do golo dentro. Onde é que eu já vi algo parecido mas sem a mesma conclusão?

Hoje em dia não há dúvida futebolística que subsista por muito tempo. Quase sempre subsiste o tempo que demora até alguém colocar o vídeo do respectivo lance no YouTube. No caso em concreto, dois vídeos: o do Saviola — que já lá estava desde a época natalícia para reanimar portistas amargurados — e o do Luís Aguiar (mais carnavalesco). Podia ter acontecido de, entre a ilegalidade do fora-de-jogo e o golo do Saviola mediar menos tempo do que entre a ilegalidade da bola fora de campo e o golo do Luís Aguiar. Aposto até que, em tal caso, num critério auto-denominado de nada tendencioso e no fair-play que o caracteriza , José Guilherme Aguiar argumentasse que é em algum momento entre os dois tempos (tempo médio?) que a teoria do caos aplicada ao futebol deixa de ter validade. Contudo, a medição do tempo nos vídeos do YouTube demonstra que se tratou de parcialidade descarada e do mais puro veneno anti-benfiquista, pois no tal lance do Saviola transcorreram 14 segundos, enquanto que no do Aguiar (o jogador) apenas 10 segundos.

Consigo imaginar uma das primeiras aulas com algum conteúdo matemático, muito provavelmente um dos momentos mais marcantes na vida do referido comentador que teima em não permitir que eu simpatize com ele. Pergunta o professor: «Qual é maior, Zezinho, 10 ou 14?». Na reação do professor à sua resposta deve ter descoberto Zezinho, aos 6 anos de idade, a paixão pelo Direito.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Abel Carleson

Hoje sentei-me ao lado do Abel Carleson. Dito assim, parece que vim num voo do Brasil sentado ao lado de um jogador de futebol. Mas não, ainda estou na Suécia e, melhor dizendo, sentei-me ao lado de Lennart Carleson, prémio Abel. Prémio instituído em 2002, atribuído pela Academia Norueguesa de Ciências e Letras em homenagem ao matemático norueguês Niels Henrik Abel; uma espécie de prémio Nobel para matemáticos.

Lennart Carleson, já acima dos 80 anos de idade, é uma daquelas figuras simpáticas que nem precisa dizer nada para que logo se perceba que só pode ser simpático; aliás, presença assídua nos seminários do Instituto Mittag-Leffler, prima pela discrição e silêncio. Talvez por na audiência marcar presença outra figura (grande, mas menor) que não perde uma oportunidade para se pavonear, dir-lhe-á o bom senso que não abra muitas brechas para o pavoneamento alheio.

Coincidiu de numa das palestras de hoje eu ter ficado sentado precisamente ao lado direito de Carleson. Não sei bem porquê, mas faço questão de mencionar que me encontrava à sua direita. Sendo isso bem frisado em textos litúrgicos, alguma vantagem deve advir de se estar em tal posição relativamente às divindades (nada tem a ver com política, graças a deus, e passe a redundância, pois isso de direita e esquerda em política é coisa bem mais recente que a bíblia). Lá pelo meio do seminário, aproveitei a parte mais técnica de um assunto que não me dizia muito para desligar da palestra e confirmar numa folha que tinha em frente uma trivialidade sobre espacos Lp — mesmo as trivialidades, ou principalmente estas, é bom testá-las bem para que não se transformem em areias movediças sobre as quais assentam edifícios matemáticos.

Agora vejo que devia ter tido mais cuidado com os meus rabiscos, principalmente estando sentado ao lado de quem estava. Mas prognósticos a posteriori são sempre fáceis de fazer. Da fisionomia simpática de Carleson fazem parte um sobrolho espesso e franzido, característica que nem sempre abona muito em favor do ser simpático, mas ele será certamente uma das exceções à regra. No final notei-lhe o tal olho com sobrolho franzido levemente desviado para cima da folha onde eu rabiscara a tal trivialidade. Certamente pensou (em sueco, claro), «agora já temos visitantes cujas contas andam em torno destas trivialidades?». Cogitei esconder a folha, virar a página, tentar desviar-lhe o olhar, mas já de nada valeria: brilhante como é, deve ter um implacável olho fotográfico e uma memória de elefante.

Dia de muito azar, pois em momentos similares de palestras anteriores até tinha aproveitado para umas continhas com espaços BMO, tópico muito mais condizente com a nobreza do instituto. Rabiscos ainda distantes do que se espera de alguém que visita o Mittag-Leffler, mas acredito que já desse para enganar um pouco; ou, pelo menos, deixar o Carleson na dúvida. Enfim, um azar tremendo. Tão improvável quanto sair de carro numa manhã fria de inverno, o sujeito da frente parar no sinal laranja e seguir no passeio ao lado uma jovem de minissaia muito curta. Muito pouco provável a conjugação dos acontecimentos, mas previsível o resultado.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Kubismen

Não escrevo esta crónica com o intuito de tecer elogios a mim mesmo, mas se no discorrer da escrita, uma vez por outra, um vestígio de auto-elogio despontar, não será porventura também muito despropositado.

Na quarta visita à terra de sua majestade — a sueca — sinto que começo a entender algo da língua sueca. Não a língua falada ou ouvida, mas a lida. Foi seguramente durante o dia de hoje que o passo evolutivo aconteceu, pois ainda ontem alguém me perguntava no Messenger como dizer «obrigado» em sueco e eu dava como resposta um bonequinho com o sobrolho franzido. Foi preguiça disfarçada de honestidade, é certo, pois hoje em dia é muito fácil encontrar tradutor online para palavras de línguas muito mais complicadas.

Era fim de tarde e o sol já ia baixo há horas. E, a julgar pelo que vi à hora do almoço, suspeito que em Fevereiro, nas raras vezes em que o sol desperta, praticamente nem se levanta. Mas isso pouco importa para o caso, apesar de se tratar de nota sobre brilhantismo. Adiante. Não tenho, nem nunca tive medo de fantasmas — aposto que nem existem , mas o Mittag-Leffler (instituto) num começo de noite de sexta-feira, em época na qual os visitantes não abundam, transmite uma vaga ideia de que talvez valha a pena pelo menos equacionar a existência dos tais entes que aposto que nem existem. Pelo menos o do Mittag-Leffler (homem). Antes mesmo de começar a pensar elaborar grandes teorias sobre crenças e descrenças, resolvi descer até ao meu apartamento. Os apartamentos situam-se numa construção mais moderna, distando do instituto uma escassa centena metros e abundante ar gélido no rosto.

Chegado ao apartamento, ato contínuo, pousar a mochila, despir o grosso casaco, descalçar as botas, pegar uma cerveja no frigorífico — para aquecer  e ligar a televisão. Havia alguns canais acessíveis, como a Eurosport ou a CNN, mas parei o meu zapping num que transmitia a versão sueca do concurso «Quem quer ser milionário». A primeira pergunta surgiu longa e as respostas eram quatro: Van Gogh, Picasso e dois outros pintores cujos nomes já não me recordo — mas recordo-me de qual não é a tendência pictórica desses pintores. Rapidamente volto ao emaranhado de letras aglutinadas na pergunta com acentos para tudo quanto é gosto e, lá bem no fim, descortino a palavra «kubismen». This reminds me something, pensei — ainda vinha com o inglês na cabeça, depois de uma tarde bem passada em amena cavaqueira com suecos. A resposta só podia ser uma: Picasso. Momento de suspense.

Do lado de lá do ecrã o concorrente pensa um pouco, volta a pensar — tinha mais palavras do que eu para digerir  e, finalmente, avança com a sua resposta:Van Gogh. Não digo que senti um banho de água fria, pois não ousaria tomar disso por aqui, mas senti-me muito desiludido. «Não sei patavina de sueco», pensei. Pensei até que Picasso, Van Gogh e os outros que agora não me lembro pudessem nem ser nomes de pintores em sueco — sei, por exemplo, que Tiago em francês é Jacques e tenho um vizinho que diz que Picasso é apenas um carro. Ciente de que excesso de cultura por vezes atrapalha, achei por bem desconfiar um pouco de mim mesmo.

Volvido o momento de suspense e a desilusão por achar que a língua sueca continuava para mim tão redonda quanto um cubo, surge a resposta sob a forma de luz cintilante na televisão: Picasso!

Olhando em retrospectiva só posso acreditar que as 10 ou 15 palavras antes da tal «kubismen» só estavam lá como rasteira para o pobre concorrente sueco. Apesar do sucesso inicial, não posso ainda garantir o significado de nenhuma das outras palavras na frase — tratou-se de um primeiro exercício e não de uma questão de valorização em exame final , mas asseguro que a tal «kubismen» significa cubista. Ou será cubismo?