quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Novas oportunidades

Quem lê estas crónicas pensará, «que raio de matemático é este que praticamente nunca escreve sobre matemática?» Desconfiarão até alguns que uso o título de matemático apenas para me exibir; alguns poucos, claro está, pois exibicionismo com a matemática, neste país, é coisa mais frequente pelo outro lado: «orgulho-me de não ter tido capacidade para entender sequer o básico»; ou, «orgulho-me de ter sido um nabo»; ou até, «orgulho-me da pouca inteligência que tenho». Não exatamente com estas palavras, mas são essas as ideias que sub-repticiamente lhes deteto no exibicionismo bacoco. Há tempos atrás, o discurso tinha até tendências de moda entre a classe política (e não só), mas felizmente o tempo já fez sarar alguns dos sintomas dessa doença que ameaçava alastrar.

Aproveito então o ensejo para escrever sobre o Teorema de Pitágoras. Há alguns anos, esse teorema era ensinado lá pelo 8º ano de escolaridade, e acredito que ainda por lá ande. O resultado é relativamente fácil de entender e, em certas ocasiões, uma mnemónica simples ajudou-me a transmiti-lo a alguns menos dotados para esta arte: «A caminho de Siracusa, dizia Pitágoras para os seus netos, o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos». Em abono da verdade histórica pouco posso acrescentar, pois não sei se Pitágoras teve netos, e menos ainda sei se os levava a Siracusa; mas o que realmente interessa é que a verdade matemática está lá. Serve o resultado exclusivamente para triângulos que tenham um ângulo reto (ou de esquadria, num dizer mais popular), cujos lados são chamados de catetos (os menores, adjacentes ao ângulo reto) e hipotenusa (o maior, oposto ao ângulo reto).

Prosseguindo no tom modestamente exibicionista, aqui deixo registado que quis o destino (e os meus pais também) que eu tivesse nascido em Paços de Ferreira; terra essa que, nas últimas décadas, mui nobre e distintamente se tem evidenciado através da indústria do mobiliário. Foi precisamente aí que detetei conhecimento acima da média num sábio intérprete da arte local. Conhecimento inconsciente, como se verá. Pretendendo renovar os móveis de cozinha da casa que tocara em herança ao meu pai, inevitavelmente recorreu a família a um dos muitos especialistas locais. Tirando as medidas e anotando as preferências familiares, em dado momento quis o especialista saber se uma das esquinas da cozinha estava de esquadria. Ato contínuo, saca do metro, mede 80cm desde a esquina para uma das paredes e marca um ponto, mede dessa mesma esquina 60cm para a outra parede e marca outro ponto; finalmente, coloca o metro (100cm) entre os pontos e... bate certo. Conclui imediata e corretamente que a parede está de esquadria! Ou seja, 100x100 = 80x80 + 60x60, evidencia que o ângulo é reto. Dirão os mais entendidos que se trata de uma versão mais sofisticada do Teorema de Pitágoras, e até nem estarão errados, mas, de matemática, por hoje, é tudo.

Claro que o meu espírito matemático não podia deixar de mostrar regozijo por reconhecer naquele conterrâneo das artes mobiliárias conhecimento acima do que medianamente grassa por aí. Olhando-o com alguma atenção, situei-o numa faixa etária para a qual a escolaridade mínima obrigatória tanto podia ter sido de seis como de nove anos.
— Sabe que resultado da matemática acaba de utilizar?
Ao encolher de ombros como resposta, acrescento:
— Teorema de Pitágoras, conhece?
A um novo encolher de ombros e um ligeiro menear da cabeça em sentido de negação, contraponho:
— Estudou até que ano, Sr. Ribeiro?
A esta pergunta os ombros do Sr. Ribeiro não reagiram; num ligeiro sorriso que denotava contentamento e algum orgulho, responde:
— Sabe, entrei para as «novas oportunidades» e estou a terminar o 12º ano!
— Ah... muito bem, Sr. Ribeiro!

Encerrei a conversa por aí, pois não pretendia deixá-lo consciente de que, apesar desse extra de formação, coisas fundamentais continuavam a faltar-lhe; muito menos queria eu fazê-lo deixar de se sentir orgulhoso pela nova oportunidade que a vida aparentemente lhe dava. Mas aqui, não posso deixar de lamentar que nessas «novas oportunidades» não haja oportunidade para vincar alguns resultados tão simples e fundamentais como este do velho Pitágoras.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

João, Pedro e Sabina

Há tempos, escutava na Antena 1 uma música cantada em dueto pela argentina Mercedes Sosa e por Joaquín Sabina. O programa radiofónico era apresentado por dois conceituados jornalistas, cujos nomes nem viriam ao caso, mas, para que mais facilmente nos entendamos, digamos que um se chama João e o outro Pedro. Terminada a música, informa Pedro que o cantor é cubano. Imediatamente corrigido por João, Pedro insiste, depois duvida e finalmente concorda que o cantor é espanhol. Mais do que espanhol, digo eu, é um genuíno boémio madrileno nascido na Andaluzia. Cubano? Só se for o charuto ou o rum que muito provavelmente consome, pois, de acordo com o próprio Sabina, canta cada vez menos com a voz e mais com os brônquios.

O episódio, em si, não é importante (se o Pedro bíblico, sobre o qual assenta a madre igreja, negou Cristo três vezes e foi perdoado, por que motivo não poderia o Pedro não bíblico trocar a nacionalidade de Sabina?), mas denota a distância (musical, no caso) entre países que geograficamente se tocam e onde se fala praticamente a mesma língua, crendo-se apenas que de forma mais rápida do outro lado da fronteira (crença essa que vigora em ambos os lados). Sendo eu um apreciador da transversalidade musical do tal programa da Antena 1, cujos intérpretes, regra geral, fogem às limitadas imposições do perverso mercado discográfico, longe de mim querer que se interprete esta crónica como um pasquim acusatório do Pedro não bíblico.

Joaquín Sabina é, indubitavelmente, um dos maiores cantautores  (aprecio esta inovação linguística de nuestros hermanos) da música contemporânea, aclamado em Espanha e em todos os países não brasileiros da América Latina. Músico multifacetado, roqueiro e bluesista por formação, rumbeiro e bolerista por herança, e vice-versa; poeta de amores fracassados e frequente auto-proclamada vítima com culpa nas histórias que conta. Noctívago inveterado, reza a lenda que, certa noite, vagueava pelas ruas de Madrid, quando foi abordado por um bando de delinquentes que pretendiam levar-lhe o dinheiro, a corrente e o relógio. Reconhecido o artista, terminaram todos num bar; e ainda consta que não deixaram Sabina pagar nem uma rodada. Desse episódio resultou a faixa Pacto Entre Caballeros do disco Hotel Dulce Hotel, de 1987.

Se, por um lado, Portugal conhece tão mal a essência de um artista tão próximo como Joaquín Sabina, por outro lado, tenho fortes indícios de que o recíproco não será necessariamente verdade: no disco Dimelo en la Calle, de 2002, tem papel de destaque, em algumas faixas, uma surpreendente guitarra portuguesa. Essa mesma, a do fado, redescoberta com alma de blues — nada melhor do que um estrangeiro para nos explorar as entranhas. Fosse Sabina da terra de Tio Sam ou de Sua Majestade (a Britânica, claro) e teríamos com frequência as frequências moduladas do nosso espectro radiofónico espalhando a sua voz rouca e promovendo peregrinações a coliseus que facilmente se renderiam a seus pés.

sábado, 6 de novembro de 2010

Os três poderes

Quando relembro os tempos de escola, é com frequência que constato o modo como despontavam naqueles jovens em formação os traços fundamentais da personalidade de cada um. Ainda em tenra idade, já se notava, em alguns de forma vincada, uma dotação específica para o papel que viriam a desempenhar futuramente em sociedade.

Observo agora, muitos anos depois, a forma harmoniosa como aquela sociedade em miniatura mantinha o equilíbrio, e como apresentava já uma boa dose de apreciável organização. Identifico com relativa facilidade essencialmente três poderes: o poder do conhecimento, o poder da força (literalmente falando, pese embora a redundância) e o poder da esperteza. Este último, quase sempre o mais bem sucedido, levando em conta o pouco investimento na vertente humana e o grande alcance nas ambições.

Esses três poderes determinavam, de forma natural, aglomerações dos colegas em quatro estratos. Aos três naturalmente constituídos pelos executantes de cada um dos poderes, juntava-se um quarto estrato, constituído por aqueles que não apresentavam dote especial para nenhum poder: uma massa formada por gente sem muito conhecimento, relativamente fraca e pouco esperta. Acabam esses, muitas vezes, por constituir o elo mais forte de uma sociedade democrática, inúmeras vezes irritantes para o conhecimento, alvo natural da força e presas fáceis para a esperteza. Sociedades mais evoluídas caracterizam-se pela forma eficiente como conseguem ir munindo essa grande massa pelo poder do conhecimento.

Recordo, em especial, a turma do 5º e 6º anos de escolaridade e alguns dos intérpretes mais marcantes dos diversos poderes. Elegeria o Chico Nelo e o Rolando, respetivamente, como expoentes máximos da esperteza e da força. Nunca esqueço um fim de tarde após um teste de português no qual acabávamos de ser testados em conhecimentos sobre formas irregulares do género de certos substantivos: conde/condessa, boi/vaca, carneiro/ovelha, etc. Inolvidável ver o Chico Nelo a ponto de conseguir convencer a bela Dulce (excelente exemplar do quarto estrato e frequente alvo da cobiça da componente masculina da turma) de que a resposta certa para o feminino de bode era... bodessa! Não podia deixar que a esperteza colhesse assim, de forma tão descarada, a admiração de tão apetecível fruto. Soltei um riso tão zombeteiro que lhe cerceei os ímpetos exibicionistas alicerçados numa esperteza sem qualquer tipo de respeito pela verdade. Imperou o poder do conhecimento. No entanto, eram frequentes as vezes em que nenhum dos poderes se sobrepunha de forma tão clara, e só a intervenção do Rolando (ou algum dos seus pares) punha cobro às diversas contendas.

O Rolando manteve-se, ao longo da vida, fiel ao que sempre foi: terminada a escolaridade obrigatória, enveredou pela carreira de porteiro na discoteca local e vive hoje de uma reforma precoce, motivada por uma lesão cervical contraída no pleno exercício das suas funções. O Chico Nelo, em contrapartida, nunca teve uma noção exata daquilo que é, mas familiares influentes fizeram-no ascender socialmente, sendo hoje figura de proa na cena política da autarquia local. Consta até que se encontra bem encaminhado para um salto até Lisboa. De Oliveira, Francisco de Oliveira, é o nome afixado na porta do seu gabinete. Mas apostaria que o seu nome completo continua a ser Francisco Manuel Oliveira Barbosa.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Ex

Na língua portuguesa, o prefixo ex é normalmente utilizado para designar algo que deixou de ser aquilo que era ou de exercer o cargo ou função que tinha. Supostamente, traduz esse prefixo a ideia de menor propriedade ou conhecimento sobre a substância daquilo que fez ser mas já não é.

Caso flagrante é o de ex-marido (ou ex-mulher ou de forma mais moderna e abrangente, ex-companheiro(a)). Concentrar-me-ei apenas no caso do ex-marido, para mais claramente explanar as minhas ideias sem necessidade de recorrer a um número excessivo de parêntesis, mas advirto que a situação não é específica deste género. Ex-marido nenhum, em seu perfeito juízo, se julga melhor conhecedor da pessoa que o levou à função e posteriormente o eximiu, após ser etiquetado com o prefixo de ex. Ex-marido nenhum, em estado de sã consciência, avança com palpites sobre o melhor caminho a seguir pela ex-mulher. Pelo contrário, é frequente ouvir-se afirmações do tipo «fiquei sete anos casado com aquela mulher e não a conhecia». Ou então, «não reconheço a pessoa com quem estive casado». Ou até, «mudou muito, nem sei o que dizer».

Pensar-se-á que o significado do prefixo ex fica totalmente explicado com este exemplo. Lamento informar, mas tal não é verdade. Nem por sombras. As ambiguidades da língua portuguesa são de tal forma profundas, que esse mesmo ex também pode ser utilizado para designar precisamente o contrário do acima ilustrado. Pode-se, sem margem alguma de erro, utilizar o ex para transmitir a ideia de que o sujeito conhece mais do assunto, reconhece melhor o seus males e, mais do que ninguém, prescreve com mestria e precisão as terapias acertadas.

Nessa nova categoria de ex, destaco a função de ex-ministro das finanças. Alguém me aponta um que, após etiquetado com o tal prefixo, não tenha passado a sumidade em assuntos de finanças? É ver os gurus desfilarem nos órgãos de comunicação social, consultados a toda a hora, sem o menor questionamento sobre nenhuma das suas opiniões. Opiniões essas, devoradas com sofreguidão, como se de mandamentos divinos se tratassem. As opiniões presentes, claro está, não as passadas. Revelam-se, no cargo de ex-ministro, profundíssimos conhecedores dos detalhes mais íntimos das finanças da nação, detetando na perfeição os seus males e avançando com terapias supostamente infalíveis.

Não sei que bênção divina (só pode ser divina) lhes confere tamanho banho de sapiência após o desempenho do cargo ministerial. Num golpe sagrado, passam de verdadeiros inaptos que engrossam um extenso rol de ministros falhados, a verdadeiros oráculos na matéria. No caso de Teixeira do Santos, parece-me que a bênção divina já o ungiu: as suas últimas medidas foram apresentadas de forma tão convicta e com terapias tão acima de qualquer suspeita, que me parece justo encaminhá-lo, o mais rapidamente possível, para o merecido lugar de ex-ministro, no Olimpo dos profundos conhecedores das mais íntimas finanças da nação.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Bad English

"You can fool some of the people all of the time, 
and all of the people some of the time, 
but you can not fool all of the people all of the time".  
Abraham Lincoln.
 
Tenho um amigo que defende uma original teoria linguística. Segundo ele, a proficiência numa língua estrangeira pode ser avaliada pela capacidade de fazer uma piada nessa língua: se o interlocutor ri, a língua está num bom nível. Sendo esse meu amigo dotado de um excelente sentido de humor, é natural que o critério funcione perfeitamente com ele. Contudo, sujeitos que revelem dificuldades nas investidas pelo reino do humor, poderão, com base nesse critério, ter sérios problemas na avaliação da sua proficiência em outras línguas: não provocado o riso, ficará sempre a dúvida se há pouco domínio da língua estrangeira ou fraco sentido de humor.

Vem isto a propósito do primeiro ministro de Portugal. Há quem veja no discurso proferido por José Sócrates no Fórum de Líderes da Universidade de Columbia, Estados Unidos, a prova de que o seu inglês é de má qualidade. Pode ser. Mas eu inclino-me mais para pensar que Sócrates anda apenas em maré de azar nos seus discursos internacionais. Não esqueçamos que Sócrates fez um bom curso de inglês técnico, tendo chegado a abdicar do descanso dominical para melhor se dedicar à disciplina! É certo que a universidade onde fez o curso foi encerrada, mas confesso que nunca entendi as causas que ditaram o encerramento desse estabelecimento de ensino. Algo entre ignomínia, maledicência, botabaixismo ou perseguição política, deve ter contribuído de forma decisiva para o fatal veredicto.

Dois episódios me levam a acreditar que José Sócrates anda mesmo nessa tal maré de azar: há tempos, discursava numa cimeira internacional, em tom sério e empolgado (praticamente o único que o curso de oratória lhe deu a conhecer), sobre os benefícios do Magalhães, quase provocando a gargalhada geral; dias depois, resolvia fazer uma piada em inglês (bad English, para ser mais preciso) e não houve uma única alma piedosa que tivesse esboçado sequer um ténue sorriso. Certo de que Sócrates dá algum valor a questões de imagem, e tratando-se efetivamente de maré de azar, ousaria recomendar que tentasse fazer algo para provocar a sorte. E já que a universidade onde se formou foi encerrada, que tal uma boa revisão do seu sentido de humor?

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

La Nana

"E se tu olhares muito tempo para um abismo, 
o abismo também olha para dentro de ti"
Friedrich Nietzsche

Na semana passada, o mundo viveu momentos de incomum afetividade e solidariedade, motivados pelo resgate dos 33 mineiros soterrados numa mina do deserto de Atacama. Num tempo em que esse mesmo mundo é desregulado pelo nervosismo de mercados financeiros, foi bonito ver um esforço ponderado e paciente, com empenhamento à escala mundial, para resgatar aqueles soterrados. Volvidos 69 dias, quase um terço dos quais na completa incerteza sobre quanto lhes sobraria de vida subterrânea, os mineiros puderam de novo ver, com o olhar ainda baço, o almejado mundo que nunca mais os verá da mesma forma.

O Chile foi, por força dessas circunstâncias, o país da moda nas últimas semanas. O Chile será também, por força de outras circunstâncias, o país dos fazedores de modas nos tempos vindouros. Relatam agora algumas notícias que para lá convergem já olhares hollywoodianos da cinematografia; para lá correm apressadamente produtores e guionistas sedentos pelos direitos de uma história que promete render milhões.

Esse mesmo mundo, que durante décadas não soube recompensar condignamente o trabalho árduo dos mineiros, quer agora recompensá-los desmesuradamente pela simples coincidência de uma quase fatalidade. Oxalá saibam aproveitar a inesperada benesse que a vida surpreendentemente lhes dá; oxalá tenham arcaboiço psicológico para aguentar a pressão conferida por súbitas e inesperadas doses de fama, fortuna e glória; oxalá não sejam agora largados ao abandono das luzes da ribalta; oxalá não venham a desejar a vida simples e pobre de anónimo e explorado mineiro; oxalá não desejem, num caso extremo, ver-se de novo enfiados no fundo da mina que pacata e generosamente os acolheu durante as quase sete dezenas de dias.

O episódio já está suficientemente documentado através da cobertura televisiva do pré-resgate, do regate e do pós-resgate. Mas há muitos que querem mais: querem agora criar ficção em cima da realidade, multiplicar fortuna em nome da arte. Por coincidência, alguma da mais bonita arte cinematográfica que me foi dada a conhecer nos últimos tempos foi precisamente no Chile, através da obra de um jovem realizador chileno, de nome Sebastián Silva; sem cachês de milhões nem guionistas plastificadores de histórias; com uma câmara trémula em planos fechados, conferindo perturbação a personagens já em si perturbados. Rodeado por um naipe de atores de grande craveira e pouca projeção, Sebastián Silva escreveu e dirigiu uma história simples, sensível e profunda.

Coincidência das coincidências, retrata também esse filme um complicado resgate. Um regaste por vezes tão difícil e surpreendente quanto o dos mineiros a mais 600 metros de profundidade: o resgate de quem se perde no abismo do interior de si mesmo. Pelos mineiros, o mundo procurou e, felizmente, encontrou. Por gente como a protagonista do filme, o mundo passa frequentemente sem ver. Por mais perto que passe.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A pen do Senhor Ministro

O computês e o economês (provavelmente a par das letras do David Fonseca) são os submundos da língua  portuguesa que mais contribuem com estrangeirismos para o saber popular. Quase sempre desnecessárias (principalmente nas letras do David Fonseca), há palavras que facilmente nos invadem, sem que se entenda muito bem porquê. Nos últimos anos, a cada apresentação do orçamento de estado, são as pens que saem da boca de jornalistas e políticos com uma frequência quase assustadora.

Pen? Caneta? Causava-me tanta estranheza a adoção desse termo para tal acessório, que decidi tentar obter no dicionário inglês algum significado mais oculto da palavra; algo que desse a ideia de objeto para enfiar num buraco (a porta USB, no caso), pensava eu na minha ignorância. E a explicação lá estava, não com o sentido do tal enfiar no buraco, mas uma explicação que servia perfeitamente para o que eu procurava: «um lugar pequeno de confinamento ou de armazenamento» (tradução inglês-português feita por mim mesmo). Devo confessar que, com os orçamentos de estado que temos tido, a ideia de algo para (nos) enfiar num buraco me parecia mais consentânea com a função do objeto. Só que nunca suspeitei que o termo não se usasse em inglês — no americano, pelo menos.

Uma das coisas que aproveito para fazer quando passo pelos Estados Unidos é comprar alguns acessórios informáticos a preço de banana. Há uns anos, em São Francisco, Califórnia, tentei comprar uma tal pen. «Pen... Pen drive», dizia eu para o vendedor. À medida que aumentava a minha insistência, aumentava também a cara de estranheza do fulano. Até que, em pouco tempo, já só sobrava entre nós um recíproco e embaraçador olhar de estranheza: ele, porque não fazia a mínima ideia do que eu lhe pedia; eu, porque não entendia como era possível ele não entender que eu queria, simplesmente, uma pen drive. Felizmente, tive a brilhante ideia de traduzir para o inglês «objecto pequeno e portátil que serve para enfiar em portas USB de computadores e para lá transferir dados». De imediato, o vendedor desfez a cara de estranheza e soltou numa exclamação redentora do meu embaraço: «Oh, a flash drive!». Isso mesmo, pá!

Devo mencionar que, apesar do relativamente prolongado impasse entre mim e o vendedor, em momento algum ele me mostrou a caneta (de escrever) que tinha no bolso. Ou seja, ele partiu e manteve-se no princípio de que eu não era um tipo completamente desorientado que entrava numa loja de informática achando que entrava numa papelaria. Foi muito bonito sentir, da parte dele, elevação moral e respeito por este desorientado em terra estrangeira.

Vamos fazer um trato, Senhor Ministro? Promete que não nos enfia mais nenhuma dessas pens? Se por outro motivo não for, pelo menos, não contribui também o senhor para que mais portugueses façam figuras tristes no estrangeiro quando se expressam no inglês aprendido por cá.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Um dia histórico

Hoje vivemos um dia histórico, dizem alguns. Justificam-no, afirmando que se corrige essa imoralidade dos anos de gratuitidade de algumas auto-estradas (vulgo SCUTs). As SCUTs, é bom lembrar, foram, na maior parte dos casos, construídas onde deviam ter sido construídas estradas (ICs) que viriam substituir outras sem um mínimo de condições. Sabe-se lá por qual motivo (eu desconfio), achou-se por bem fazer a coisa em grande e dar um presente envenenado ao povo. Triste povo sem memória!

O princípio do utilizador-pagador, continuam. Os da grande Lisboa, por exemplo, com opções como autocarro, barco, comboio e metro (todos com tarifas financiadas pelo estado) pensam que o certo é mesmo isso. Até é ecologicamente correto, ora. Como se o carro fosse sempre um luxo! Saibam que precisamente esses que necessitam do carro para transitarem nas SCUTs já pagam altíssimos impostos em IA, IC e IPP. Impostos esses que, bem administrados, facilmente dariam para manter uma rede de estradas decente. Lamento muito que o pseudo-moralismo elementar do utilizador-pagador funcione apenas num sentido, senão eu, que utilizo pouco o carro e pago muito em impostos para o ter, ainda iria buscar um bom dinheiro de volta.

Eu moro no Porto, trabalho no Porto e até vou a pé para o trabalho. Mas ainda me lembro do tempo em que vinha de uma cidade a cerca de 30km do Porto. Para estar aqui às 8:30, tinha como única opção um autocarro (com tarifa não financiada pelo estado) que me fazia acordar às 5:30 da manhã. Depois comprei o primeiro carro e, pela velha estrada com curvas e buracos, já conseguia ganhar mais uma hora de descanso matinal (e outra de descanso vespertino, claro). Os que continuam no movimento pendular para o Porto (e são muitos, pois nem todos conseguiram crédito para um apartamento no grande centro), desde há uns anos que com as SCUTs ganham mais uns bons minutos de descanso.

Já se perguntaram por que motivo queria o governo introduzir portagens apenas nas SCUTs do Norte? Não foi por nenhum argumento justo com base em critérios objetivos, pois o Tribunal Administrativo do Porto acaba de dar razão a uma providência cautelar refutando esse argumento. Não vou cometer o erro de querer avaliar intenções ou insinuar influências de amigos, mas vou correr o risco de, com base numa observação atenta ao mapa de Portugal, dizer o que me inspira a geografia: as SCUTs do Norte são as únicas que fazem concorrência às auto-estradas da BRISA! Além do mais, ninguém questiona que a forma mais natural (e barata) dos utilizadores pagarem as portagens nas SCUT assente num modelo de elevados lucros para essa mesma BRISA? Podem chamar-lhe chip ou DEM, mas aquilo não deixa de ser o negócio da Via Verde!

Este é também um dia histórico, porque começa a ser debatido na assembleia da república o orçamento mais penalizador para quem vive do trabalho de que há memória em Portugal. O drama, o grande drama, é que nenhuma das medidas que anunciam virá resolver problema algum, mas sim continuar a desgraçar os mais desgraçados e manter a graça dos eternos agraciados. Não vejo nestas medidas sequer um único paliativo para o cancro nacional.

P.S. (salvo seja): Eu nunca gostei dessas conversas de "os Lisboa e os outros", pois acho que o país já é pequeno demais para ser dividido. Mas, caros amigos lisboetas, ajudem-me. Tentem, pelo menos, subir ao telhado e ver um pouco mais além do que costumam ver da janela.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Os responsáveis

Desde há muito que deixei de ter paciência para os entediantes discursos das figuras proeminentes da cena política nacional nos feriados que assinalam as grandes efemérides do passado. Como sei que costumam ser portadores de sérios avisos à navegação, para compensar essa minha falta de paciência pelos discursos, costumo lançar um olhar ao resumo noturno dos mesmos em algum canal de notícias.

Das comemorações do 5 de Outubro, uma palavra várias vezes repetida por Cavaco e Sócrates prendeu a minha atenção: responsável. Imediatamente pensei na sua vertente substantivada e nos 25 anos da pós-adesão à comunidade europeia — dizem que agora é união europeia, mas eu vejo isto muito desunido. Se a Wikipédia não me falha, desde 1985, Cavaco e Sócrates contribuíram com cerca de 3/5 de governação. Cavaco, esbanjando fundos comunitários, criou um falso estado de graça que até há uma semana atrás Sócrates teimou em não querer deixar de ver. Quem mais do que estes dois poderia ser responsável?

Julguei que Cavaco e Sócrates, num inédito e insólito ato de contrição, se declaravam responsáveis pela situação catastrófica em que colocaram o país e, num discurso de muita dignidade e nobreza — pese embora a celebração da república —, pediam desculpa pelo incómodo e, tal como Guterres ou Barroso, decidiam fugir para bem longe. Ou decidiam afastar-se para andar por aí, como Santana. Tudo isto, pensei eu num breve instante. Muito mais breve do que o tempo que levei a escrever este parágrafo.

Só nos posteriores debates esmiuçadores dos discursos no tal canal tomei consciência de que o responsável a que se referiam era afinal Passos Coelho. A palavra não era utilizada de forma substantivada para tempo passado, mas de forma adjetivada para tempo futuro (se o houver...) — esta língua portuguesa é um perigo!

Como podem querer tornar já tão responsável o pobre Coelho? Não repararam que acaba de chegar à linha da frente? Colocando-lhe tanta pressão em cima, corre-se o risco de fazê-lo mesmo adotar uma postura muito pouco responsável. Confesso que nem veria com maus olhos tal possibilidade, pois evitando os passos de responsáveis anteriores, há sempre a possibilidade do país dar uma guinada e entrar no bom caminho.

Reservei um último parágrafo para um político que, não sendo diretamente responsável pelo atual estado de desgraça nacional, viabilizou a responsabilidade de outros: Paulo Portas. Apesar da menor influência, provou ser dotado de maior visão de futuro e, no momento em que o país começava a dar sinais de se afundar, tomou a sábia decisão de dar seguimento a um milionário contrato de aquisição de submarinos. Assim, quando o país afundar de vez, teremos lugar para salvar uns quantos. Talvez esses depois possam voltar cá para repovoar responsavelmente este cantinho da Europa unida.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Passo em frente e pé atrás

Portugal é um país com enormes dificuldades para abraçar a modernidade. Quando se vislumbra um passo em frente, há sempre alguém com responsabilidade nos desígnios da nação que teima em ficar de pé atrás. Não é por acaso que Chico Buarque e Ruy Guerra, num magistral soneto de 1972/73, onde melhor do que ninguém caracterizam o sentir-agir português, referem num dos versos que "há distância entre intenção e gesto".

Nos tempos que correm, um facto e dois episódios confirmam esta ambígua natureza lusitana que tanto nos impede de um lançamento arrojado e definitivo na vanguarda do mundo moderno. O facto que constitui o passo em frente é, indubitavelmente, a introdução no código civil português da possibilidade de casamento entre pessoas do mesmo sexo. Sendo certo que o número de sexos tem vindo a aumentar, nada melhor do que criar um quadro legal que contemple todas as variantes possíveis como juridicamente naturais. Em sentido contrário, dois episódios lamentáveis materializam o tal pé atrás, um proveniente do mundo do desporto e o outro do da política.

No que ao desporto diz respeito e indo direto à questão: havia necessidade do treinador Paulo Sérgio vir esclarecer que não se passou nada entre Liedson e Djaló no balneário do Sporting? O simples esclarecimento denota preconceito! O que acontece entre eles no balneário pode importar, no máximo, à Floribela — para quem não sabe, Djaló é o nome de um jogador de futebol do sexo masculino, casado com uma celebridade chamada Floribela. Se alguma vez não se passar nada entre Djaló e Floribela no balneário do Sporting também haverá um esclarecimento do Paulo Sérgio? É certo que o Sporting já não representa assim tanto no panorama futebolístico nacional, mas enquanto contarem com o marido da Floribela nas suas fileiras é bom que não se esqueçam das responsabilidades que têm, principalmente entre o público infanto-juvenil.

Já na esfera política, a questão é mais séria, pois envolve o presente e o mais que provável futuro primeiro-ministro (deus nos salve!) deste país, respectivamente José Sócrates e Pedro Passos Coelho de suas graças. A minha crítica é dirigida exclusivamente a este último, pois o primeiro até foi quem viabilizou legalmente as ligações entre pessoas de sexos alternativos — não foi só nos fatos Hermès e nos computadores Magalhães que trouxe a modernidade ao país!  Havia necessidade de Passos Coelho referir que nunca mais se encontrará a sós com José Sócrates? Tentará convencer-nos, com aquela pinta de galã, de que nunca ouviu um piropo em privado? Alguma vez se queixou? Se tivesse vindo da Joana Amaral Dias também se queixava?

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Carta aberta a António Mexia

Exmo. Senhor Mexia,

Antes de mais, o meu pedido de desculpas por tratá-lo apenas por Senhor. Sei quão importantes são os títulos para o nosso povo, mas receando cometer erro na escolha entre Arquiteto, Doutor, Engenheiro ou Professor, optei por tratá-lo, simplesmente, por Senhor — pior do que a ofensa da omissão será, certamente, a ofensa do trato inadequado.  Infelizmente, uma busca na internet não me esclareceu esta dúvida, prova de que na mais eficiente fonte de informação da atualidade, tal como na tarifa energética, ainda há um certo défice.

Para não importuná-lo mais do que o estritamente necessário, vou direto aos factos: por um lado, tomei conhecimento de que o senhor vê com muito bons olhos (e bonitos óculos, diga-se de passagem) que académicos portugueses dêem (comprem, será mais adequado) aulas em universidades americanas; por outro lado, tenho já uma relação próxima com várias dessas universidades, constando no meu curriculum vitae palestras em Austin, Houston, Kennesaw, Maryland, Pennsylvania, New York, Northwestern e Stony Brook.

Esclarecidos os factos, vamos à questão: vê o senhor com os tais bons olhos e bonitos óculos a compra de umas aulas para mim em alguma dessas universidades? Devo confessar que acho a pergunta um pouco descabida, mas o importante é que o senhor não acha. Garanto-lhe que não terei dificuldade em encontrar quem generosamente nos acolha em alguma delas, a mim e ao dinheiro que o senhor luminosamente subtrai aos portugueses e depois tão bem administra. Cientes de que muito recentemente o nosso país entrou em crise, os americanos (bom povo) facilmente compreenderão que não será possível continuar a comprar aulas para os nossos académicos a 3 milhões de euros, mas acredito que com uns 300 militos já possamos deixar muita gente satisfeita. Eu incluído.

Sei que tenho o handicap de não ter sido o ministro que tutelou a empresa que o senhor tem dirigido nos últimos anos, nem tão-pouco ter posto os cornos a alguém no parlamento. No entanto, acredito que o senhor, com a sua enorme influência, conseguirá facilmente desenrascar-me o cargo de Ministro da Economia no próximo governo (não deve andar longe...). Garanto-lhe que não serei ingrato a ponto de esquecer que uma mão lava a outra. Prometo até colocar os dedos na testa e apontá-los na direção de quem o senhor quiser (Francisco Louçã incluído) logo na primeira sessão parlamentar.

Acredito que pense que a Matemática não é uma área com muita afinidade com a Economia, mas garanto-lhe que é. John Nash (o Nobel da Economia, conhece?), por exemplo, necessitou de muita matemática para elaborar as suas reputadas teorias. Eu, caso o senhor não me ajude, precisarei forçosamente de ser um excelente economista nos tempos que se avizinham para conseguir manter esta minha vida faustosa que o nosso governo resolveu amputar em 10% para conseguir não piorar a vida decente de pessoas como o senhor. Não é uma queixa, o governo está certo. As suas férias de Inverno na Suíça, o recente modelo Aston Martin ou uma nova casa em Sintra serão certamente mais importantes do que a minha mensalidade do empréstimo bancário.

Com os melhores cumprimentos.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Monarquia vs. República

Há por aí uns saudosistas a tentar impingir a ideia de que a solução para Portugal passa por um retorno à monarquia como se constata, ainda há quem se preocupe com o futuro da nação! Não sei praticamente nada sobre esses, mas se me deixarem recuar aproximadamente um século, talvez consiga dizer alguma coisa sobre uns parentes mais ou menos próximos. 

Muito honestamente  — às vezes tenho disto  , acho a questão monarquia vs. república completamente irrelevante. Pode ser monarquia, república, teocracia ou outra cia qualquer que o fado não mudará facilmente para este eternamente adiado projeto de país. O problema é crónico e está nas elites despudoradamente sugadoras e no povo eternamente pasmado.

Pese embora a falta de relevância da questão, e apesar de nem sempre nutrir especial simpatia por presidentes da república
podia deixar no singular, mas prefiro que não se desconfie que não gosto do atual, continuo com uma vincada preferência pela república. Em termos de funcionamento das instituições é tudo mais ou menos a mesma coisa; contudo, salvo casos em que a produção de candidatos seja muito fraca, há sempre a oportunidade de renovar a esperança a cada cinco anos. 

Contra a monarquia tenho ainda duas embirrações: uma em abstrato, outra em concreto. Uma delas  — embirração em abstrato  — é a questão do sangue azul que me provoca urticária clubística. Mas, mesmo ignorando essa tal cor de sangue, conjeturar a possibilidade de Duarte Pio  — embirração em concreto  — entrar em cena e deixar descendentes ao leme do país durante gerações deixa-me com um certo sentimento de culpa, achando que podia ter a nobreza  — salvo seja  — de fazer algo em prol das gerações vindouras. Especializar-me em regicídio não está nos meus planos...

Só um pequeno aparte final: há muito quem utilize o "dom" precedendo o Duarte Pio  — ditará a etiqueta? 
 —, mas sendo eu um anti-monárquico convicto, recuso-me a utilizar a palavra para outra coisa que não seja o vinho da região de Viseu. Bem sei que as palavras não têm a mesma ortografia, mas aqui no Porto a fonética é praticamente igual e, em qualquer dos casos, diferente do resto do país. Há até quem assegure que o Porto é uma "naçom".

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O arquiteto Costa

Ao contrário do que diz o povo, em Portugal, o hábito faz o monge. A comprová-lo estão as recentes medidas anunciadas pelo diretor desportivo do Sporting Clube de Portugal. Segundo notícias veiculadas na comunicação social, os funcionários do Sporting estão agora proibidos de usar calças de ganga no seu posto de trabalho, desaconselhando-se ainda o uso de calções, bermudas, ténis e chinelos, e privilegiado-se o uso do blazer. Para quem não sabe, o Sporting é uma agremiação desportiva que, segundo consta, tem como funcionários alguns jogadores de futebol.

Das notícias vindas a lume não ficava claro se a medida devia ser seguida à risca (ou ao quadrado, pelo que se conhece do tal diretor desportivo) por todos os funcionários. Em caso afirmativo, teremos na próxima jornada da Liga Portuguesa uma sui generis equipa de futebol em blazer. No posto de trabalho, é claro, mais conhecido como relvado. Sendo o Sporting um clube vincadamente da aristocracia, o disparate deve estar na minha cabeça.

O episódio traz-me à memória o registo fonográfico de um encontro histórico, em 1968, entre Vinícius de Moraes e Amália Rodrigues, em Lisboa. Presentes nesse encontro, na casa de Amália, estavam também Natália Correia e Ary dos Santos, entre outros, tendo a conversa e a música fluído naturalmente até altas horas da madrugada. Em dado momento, Vinicius é convidado a pronunciar-se sobre a impressão que leva dos portugueses. Entre muitas palavras amáveis, aproveita também para apontar-nos um aspeto negativo: uma exagerada tendência para o formalismo! É interessante constatar que, volvidos mais de 40 anos, a sua impressão dos portugueses continua tão atual.

Relativamente à agremiação desportiva, causa-me ainda alguma perplexidade que, pese embora o acentuar do bom e velho formalismo lusitano, continuem a chamar o seu diretor desportivo singelamente de Costinha. Não combina. Valeria a pena comprarem-lhe um título. E não me refiro a título desportivo, pois compras dessas são especialidade de outra agremiação mais a Norte. Um título académico, como doutor, engenheiro ou arquiteto. E, estando para ele reservado o papel de obreiro-mor na construção deste novo Sporting, julgo que Arq.º Costa seria o ideal.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Superstições

De um modo sucinto, eu definiria a superstição como o estranho hábito de aumentar a complexidade de coisas que são, por natureza, simples. Quase sempre assentando em dados muito pouco credíveis, principalmente do ponto de vista estatístico.

Superstições são um mal da humanidade, havendo pessoas mais ou menos supersticiosas, consoante o grau de esoterismo que as carateriza. Tenho uma amiga que engravidou e se encontra com sérios problemas para escolher um nome para a criança. Simplesmente, porque desenvolveu uma disparatada superstição com nomes. Segundo ela, nomes determinam a personalidade e, em muitos casos, até características físicas da pessoa. Começou por exemplificar:
— Nome masculino: pessoa calma, chegada a um bom copo e que faz pelo menos um grande disparate na vida.
— Não faço ideia.
— Pinho, Vilarinho...
— Manuel?
— Ora, nem mais!
— Até entendo que isso do Pinho ter colocado os cornos no parlamento foi um grande disparate, mas qual foi o disparate do Vilarinho?
— Mandar o José Mourinho embora do Benfica, não achas?
— Sem dúvida!

Claro que não me mostrei convencido com este exemplo. Ela prosseguiu:
— Nome feminino: tendência para acentuada feiura, especialmente com o avançar da idade.
— Hum... não vejo qual.
— Ferreira Leite, Moura Guedes...
— Ah, Manuela!
— Aí está.

Além de supersticiosa, essa minha amiga revelava-se também muito pouco generosa com a beleza de pessoas provavelmente belas. Obviamente, eu continuava sem me mostrar convencido, e menos fiquei ainda com o ignóbil exemplo que a minha amiga apresentou depois. Digo eu:
— Mas isso é alguma superstição com nomes em geral, ou apenas com Manéis e Manelas?
— Com nomes, claro — disse ela. E prosseguiu: —Masculino: arrogante, com o ego do tamanho do mundo.
— Não estou a ver.
— Não?
— Não mesmo!
— Mourinho, Saramago, Sócrates...
— Estás maluca?!

Eu não tinha dito que era uma superstição disparatada? Não faz o menor sentido! Essa minha amiga precisa de um tratamento urgente. Superstições levadas ao extremo podem colocar em causa valores tão fundamentais como o da amizade.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Bares de tapas


Viagens que tenham por destino cidades latino-americanas não brasileiras são normalmente mais cómodas com uma escala em Madrid. Mesmo para as cidades brasileiras, se por comodismo entendermos economizar umas dezenas de euros, poderá também ser mais cómodo fazer a tal escala em Madrid. Estranha e misteriosamente, é por vezes mais barato viajar em voo TAP (via Lisboa, claro) a partir de uma cidade europeia do que começar a viagem em Lisboa ou no Porto.

No caso de Madrid, até consigo entender que os aviões da TAP aproveitem para abastecer os depósitos a preços muito mais convidativos, mas para outras cidades europeias onde os combustíveis possam ser mais caros (se as houver) não consigo encontrar justificação plausível. A aviação comercial é decididamente uma área difícil de entender. Por vezes fico com a sensação de que, suportadas nas ajudas financeiras dos diversos estados, as principais companhias aéreas (as de bandeira, como sói dizer-se) existem mais com o propósito de se aniquilarem umas às outras do que propriamente para tratarem da sobrevivência.

Mas voltando a Madrid. Ao tema de conversa, claro. Trocar uma escala em Lisboa por outra em Madrid é normalmente um prazer. Se o tempo der (e quase sempre dá), significa também trocar as diversas viagens nos autocarros da Groundforce (parte da TAP subespecializada em maltratar clientes, disfarçada de outra empresa para não prejudicar o bom nome da companhia aérea) por um cómodo e eficiente metro até ao centro de Madrid e aproveitar o muito de bom que a cidade tem para oferecer (Sara Carbonero não incluída). Se para mais não der, uma ligeira peregrinação por uns bares de tapas já justifica a viagem. Muitos crêem que de Espanha nem bom vento nem bom casamento, mas sem receio da acusação de traição à pátria, acrescento também que de menos bom é praticamente só isso: vento (no inverno) e casamento (o ano todo). E no que ao casamento diz respeito, confesso que tempos houve em que cheguei a duvidar.

Um dos setores no qual os bons hábitos espanhóis deviam servir de modelo aos portugueses é o da restauração. Não o da refeição formal, com mesa, talheres, sopa, prato principal, sobremesa, café e conta que não serve de fatura (um traço de informalidade!), mas o das tapas ao balcão, vinho a copo e sobras no chão. Que diós me perdoe a heresia, mas o que de similar se poderia considerar por cá seriam os snack-bares. Em termos de quantidade, não tenho a mínima dúvida, pois estou absolutamente seguro de que Portugal é o país do mundo com mais cafés/restaurantes com a designação de snack-bar por quilómetro quadrado. O mau uso da palavra é tanto que até dicionários respeitáveis (como o Google Tradutor, por exemplo) já consideram a palavra como bom português. Infelizmente, na maioria desses tais snack-bares entende-se por snack uma torrada, um prego em pão ou uma sande mista. Que pobreza lusitana!

Finalizo com um pequeno aparte: há muitos que dizem sandes em vez de sande, mas confesso que nunca entendi se são exatamente a mesma coisa. Será que a sandes mista tem mais fatias de queijo e fiambre?


quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Colaboradores

Poderá parecer presunção minha, mas não deixarei de referir que, muito antes da tanga do Durão Barroso ou do ataque das agências de reitingue (uma pequena contribuição minha para a modernidade em economês), eu já tinha previsto uma terrível crise económica para Portugal. Não sou minimamente entendido em macroeconomia e desconfio de praticamente todos os que se dizem entendidos, mas indícios fortes me mostravam que a tal crise se aproximava. E não me baseava em crença ou superstição, pois a única que tenho é a de achar que não as tenho.

A história começa com um telefonema anunciando a oferta de um ano de assinatura de uma revista chamada Exame e que, nas palavras de quem me tentava aliciar, era praticamente irrecusável. Desde tenra idade me instruíram a não aceitar ofertas de estranhos, mas daquela vez, talvez por no meu subconsciente pairar a ideia de que Exame era o nome de uma revista dedicada aos problemas da avaliação no Ensino Superior, aceitei a oferta de um ano de assinatura gratuita dessa tal revista. Devo aqui abrir um parêntesis para justificar o aparente delírio do meu subconsciente, deixando claro que, à data, a faculdade onde eu trabalhava permitia tantas variantes para épocas de exame que a existência de uma revista especializada no assunto não era, em si, uma ideia completamente estapafúrdia. De acordo com o meu subconsciente, é claro.

Quando mais tarde tomei conhecimento de qual era a especialidade da revista, imediata e levianamente concluí que, na melhor das hipóteses, a revista não me interessava — cheguei até a pensar anular a generosa oferta. Claro que estava equivocado. Com o tempo fui-me apercebendo de que o meu linguajar economês aumentava em flecha e a minha intuição sobre o futuro económico da nação aprimorava significativamente. Foi precisamente a questão linguística que mais me impressionou — até porque da minha evolução intuitiva só mais tarde tive consciência. Para ultrapassar barreiras de linguagem, recorro normalmente a um dicionário. No caso dessa revista, e apesar de se chamar Exame — e não Exam — e os textos virem supostamente escritos em português, precisava de uns dois ou três: o de inglês, o de inglês-português e, nos casos mais intrincados, o de português. Desde a adolescência que não sentia tanta evolução no nível do meu inglês.

No que ao linguajar diz respeito, e ignorando a pertinente questão do idioma, duas ideias fundamentais me chamaram a atenção. Em primeiro lugar, surpreendeu-me a ousadia dos gestores e administradores portugueses que agora se dizem CEOs. Tanto relógio Rolex, tanto carro topo de gama e vida faustosa num país à beira da penumbra — já na época... — e ainda se autoproclamam de CEOs? Não encontram na língua portuguesa palavra mais adequada do que essa homófona daquela que logo lembra ao comum dos mortais viverem os gestores em algo muito parecido com o paraíso? Recomendaria mais discrição nessa designação, pois não é necessário — nem prudente — imbuírem a terminologia da ideia de que levam uma vida celestial. Para o povo — sempre invejoso para com os bem-sucedidos — já basta saber que a elite económica tem fantásticos rendimentos em salários, prémios, cartões de crédito, fugas ao fisco e ajudas do estado.

Mas o que mais me surpreendeu — e decisivamente contribuiu para eu desenvolver a percepção de que a terrível crise se aproximava — foi, edição após edição, ir constatando que as nossas empresas atualmente se dividem tão-somente em CEOs e colaboradores. Agora não há funcionários nem trabalhadores. No máximo do mais trabalhoso, presta-se colaboração em alguma empresa. Em part-time, imagino eu, ou quando sobra tempo entre passatempos. Seria necessária muita genialidade para intuir que a economia do país inevitavelmente entraria em colapso?

quinta-feira, 18 de março de 2010

A calçada portuense


No início do século XXI, arquitetos ilustres que gravitam em torno da cidade do Porto, baseados em estudos aturados sobre a história arquitetónica da cidade, chegaram à conclusão de que a popular calçada portuguesa, em basalto e calcário, nada tinha a ver com o Porto. E um suposto amor pela verdade histórica levou-os a aproveitar uns quantos fundos culturais europeus para requalificarem os pavimentos, deixando-os num generalizado tom cinzento-escuro de pedras graníticas. Menos mal que a requalificação — devo confessar que ganhei aversão à palavra — com base na verdade histórica não recuou demasiado no tempo, sob pena de termos hoje as ruas do Porto em terra batida.

A requalificação dos espaços públicos não se limitou ao piso das ruas e passeios. Algumas das praças mais emblemáticas da cidade sofreram também intervenção especializada, tendo passado sobre elas, sem pejo, um pesado manto granítico, mesmo em canteiros onde dantes brotavam flores. No máximo da tolerância para com o colorido, os requalificadores — ou lá como devem ser designados os tipos em bom português — permitiram que se mesclasse o cinzento da pedra com os tons esverdeados da relva e das árvores — que sobraram. Bancos de jardim que dantes eram vermelhos — que cor aberrante! — foram pintados de verde-escuro. Os que sobraram de madeira, porque o mais frequente é que os bancos de jardim sejam agora frias pedras de granito — neste ponto recuaram à idade da pedra. Terão pensado nos idosos, assíduos frequentadores das praças? Pensarão que sofrem de sobreaquecimento?

A monotonia do tom acinzentado no piso não se restringiu à parte mais antiga da cidade. Na zona da Boavista, o alcatrão foi o material escolhido para pavimentar alguns dos passeios. Terão aqui negligenciado a história e antecipado um futuro de estacionamento desenfreado em tudo quanto é espaço livre? Registo nesta zona uma exceção no que ao colorido diz respeito: em certa época do ano sobram tons de vermelho e branco nas camélias que ornamentam a rotunda. Acredito que esta exceção seja mais fruto da ignorância do arquiteto, desconhecedor das ousadias florais dessas plantas, do que de ato piedoso para com elas. Lembrando teoria que recomenda conversa com as plantas, em muitas das vezes que por lá passo, peço-lhes que não ousem demasiado no esbanjamento de cores. Acredito que, dessa forma, poderão escapar mais facilmente ao instinto requalificador de novos projetistas monocromáticos.

terça-feira, 9 de março de 2010

A Devassa

Nascido no seio de família com tendência religiosa vincadamente católica, desde tenra idade foi-me transmitida a ideia de que o deus infinitamente bom e generoso tem também os seus momentos de ira e castiga. Uma das mais evidentes manifestações da ira divina surgia em noites de tempestade, sob a forma de raios e trovões. A oportunidade era aproveitada para me incutirem os ideais do deus bíblico, associando a tão assustador espetáculo a existência do pecado sobre a terra, mais ou menos original. A princípio estranhando pecado que pudesse despoletar tão desmesurada ira, comecei aos poucos a detetar justificação — para pelo menos parte dessa ira ­­— nos comportamentos da Paulinha, amiga de infância com muita curiosidade sobre as variações da anatomia humana.

Quis o destino ­— e também eu — que aos 20 e poucos anos de idade cruzasse o Atlântico em direção ao Rio de Janeiro, e viesse a instalar-me num apartamento na rua onde anos antes passeava a famosa garota de Ipanema. Já pouco garota era naquela altura, mas outras não faltavam que lhe seguiam as pisadas no doce balanço a caminho do mar. Nos quatro anos de exílio carioca pude, por diversas vezes, comprovar a ira divina através dos seus tenebrosos recados sobre a cidade de inúmeros pecadores. Na época, já a Paulinha deixara de fazer parte do meu círculo de amizades. Entretanto, conhecera a Ana Lúcia, desinibida moradora do 407, com papel análogo ao que tivera outrora a Paulinha na atribuição de culpas pela ira divina. 

Alguns anos de afastamento do Rio, tempo mais do que suficiente para várias alterações nos hábitos da cidade, especialmente no que à atividade turística diz respeito. Nesse particular, registo com estupefação o encerramento da boate Help. Não posso acreditar que tenham posto termo à atividade da mais emblemática casa de acasalamento noturno, último refúgio do turista cuja atividade diurna não lhe correra de feição. Uma espécie de fast food no ramo. Em compensação — no Rio funciona muito bem a lei da compensação, especialmente nestas matérias —, e para gáudio de turistas e cariocas, tornou-se agora mais fácil encontrar em diversos bairros da cidade os préstimos de uma devassa, cuja atividade, a julgar pela campanha publicitária, se afigura por demais convidativa: «Bem loura, bem devassa. Finalmente ela chegou, pegando você pelo colarinho, segurando você pelo aroma, fazendo você se apaixonar pelo sabor». 

No preciso momento em que decidia sair para conferir os dotes dessa tal devassa, o deus bíblico — que comunica através de raios e trovões — decide enviar uma tempestade sobre o Rio de Janeiro. Quem conhece a cidade sabe — e nunca duvida — que num ápice o Rio se transformará num imenso rio, podendo deixar vítimas isoladas nos locais mais inusitados. A mim, tocou-me ficar no décimo sexto andar de uma das recém formadas ilhas da zona sul, com uma garrafa de cachaça, limões, gelo e açúcar. Nem sei como interpretar esta mensagem divina.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Cidade maravilhosa

O Rio de Janeiro é uma cidade onde a primeira impressão para quem chega da Europa (por via aérea) dificilmente poderá ser favorável. Exceptuaria os casos em que o cansaço da viagem transatlântica possa ter provocado o sono no traslado até à zona Sul. Quando se fala em Rio de Janeiro, pensa-se, quase sempre, nesta zona mais nobre da cidade, mas para dicas interessantes sobre outras zonas, recomendo uma consulta ao Dr. Duarte Lima, profundo conhecedor do grande Rio.

O cheiro nauseabundo da baía de Guanabara e o visual desordenado e pobre das favelas na Linha Vermelha constituem um péssimo cartão-de-visita para a cidade que merecidamente ostenta o epíteto de maravilhosa. A quem for ao Rio pela primeira vez e quiser uma excelente primeira impressão, recomendo que se deixe levar pelo sono assim que saia do aeroporto (a longa espera pelas malas costuma provocar sonolência), um despertar lá pelo bairro da Tijuca, um espreguiçar no escuro do túnel Rebouças e um mergulho de olhos bem abertos na paisagem deslumbrante que lhe reserva a luz ao fundo do túnel.

O Rio de Janeiro é, acima tudo, uma cidade de inúmeras contradições. Cidade onde o neguinho desce da favela para se apossar, sem aviso prévio, de relógio, câmara e carteira do turista desavisado, mas também onde o neguinho desce com pandeiro, violão e mulata para levantar o astral do turista desanimado. Cidade onde o pecado passeia livre e solto nas ruas (ou fica parado à noite na Av. Atlântica), sobe elevadores e entra nos quartos, mas também cidade que tem num dos seus morros um enorme Cristo Redentor com os braços abertos sobre a baía de Guanabara e que, como será fácil de prever, redime.

Só posso conceber que Chico Buarque e Ruy Guerra tenham criado a canção Não Existe Pecado ao Sul do Equador a pedido de alguma agência responsável por uma campanha publicitária com vista a atrair o turista cristão. Campanha enganadora, como será fácil de imaginar. E eficaz, especialmente se tinha como alvo o cristão a ponto de converter-se em pecador.

quarta-feira, 3 de março de 2010

O desconforto ortográfico

Tenho um especial apreço pela criatividade linguística do povo brasileiro. Têm por vezes com exageros e despropósitos, é certo, mas não consigo imaginar uma língua que perdure sem a capacidade de inovar. Devo confessar que nos primeiros tempos de contacto com o português escrito no Brasil senti algum desconforto, mas nada que a leitura de uns quantos jornais e livros não tivesse facilmente resolvido. Ninguém melhor do que Caetano Veloso para sintetizar esse normal processo de estranhamento: «Narciso acha feio o que não é espelho e à mente apavora o que ainda não é mesmo velho».

Decorridos alguns anos sobre esse ligeiro desconforto nos primeiros contactos com o português escrito no Brasil, deparo-me agora com compatriotas também desconfortáveis, desta feita em desacordo com o novo acordo ortográfico. Ergue-se do lado lusitano uma onda de contestação, com origem no Twitter e no Facebook (admitirão os reacionários que se utilize estas palavras em bom português?), que conta já com milhares de assinaturas.

Posso estar enganado (por vezes acontece...), mas se não tivesse nada mais interessante a que me dedicar, vasculharia as páginas de alguns signatários da petição reacionária em busca de maus tratos à língua por esses que tão acerrimamente defendem a sua imutabilidade. E aposto que não seria em vão. Alguém me estimula financeiramente com uma apostazinha?

Sou por vezes presunçoso (a ponto de colocar nuvens negras pairando sobre opiniões sustentadas por ilustres especialistas nas mais variadas matérias), mas neste caso, reconheço que, entre as mais do que prováveis jantaradas e viagens transatlânticas, os estudiosos da língua acabaram por chegar a boa conclusão e dar valiosa contribuição para um futuro duradouro do Português como língua à escala mundial. Poderá ter sido uma decisão difícil, mas nem por isso terá constituído grande golpe de génio concluir que não vale muito a pena remar contra a maré.

Não se pense que na desconfiança pela modernidade descaracterizadora da língua estão apenas os saudosistas lusitanos. Do lado brasileiro já pude ver despontar indícios de preocupação em diversas pessoas, a última das quais o meu amigo Luiz Cláudio, quando foi informado de que voo deixara de ter acento. Foi preocupação de pouca dura, pois o meu alerta sobre algumas armadilhas da língua portuguesa, em particular sobre a existência de palavras homófonas, deixou-o mais tranquilo. Acima de tudo, despreocupado quanto à viagem de regresso a São Paulo.


segunda-feira, 1 de março de 2010

O saudosismo ortográfico

Essa enorme capacidade portuguesa de mobilização pelas grandes causas é algo que por vezes ainda me surpreende. Não será característica exclusiva deste povo, mas será, certamente, traço fundamental da nossa identidade.

Especialmente numa época em que a democracia atinge o seu apogeu e as instituições democráticas funcionam na plenitude, corríamos o sério risco de entrar numa espiral de tédio democrático, com deputados a ocuparem-se de questões menores e o povo de costas voltadas para a política. Para evitar um tal estado de pasmaceira, nada melhor do que uma grande causa, uma força aglutinadora para fazer chegar aos representantes parlamentares uma mensagem inequívoca de que o povo está atento: um movimento de imutabilidade da língua! Como mentores desse movimento há um tradutor fulano-de-tal, uns advogados sempre prontos a conduzir a parte legal das grandes causas e uns quantos jornalistas dispostos a dar-lhes voz.

Se é para fazer jus ao epíteto de povo mais saudosista da Europa, único que há uns séculos teve a audácia de introduzir um neologismo para traduzir esse sentimento, façamos a coisa a sério. Não restrinjamos a causa aos c's e p's mudos e às palavras mais ou menos hifenizadas. Deixemo-nos de meias palavras e vamos fundo no grito de revolta. Ignoremos esse revolucionário que deu pelo nome de Luís de Camões, recuemos ainda mais no tempo e readotemos a língua latina, essa sim, imutável e eterna. Utilizemos todo o potencial do mundo globalizado e projetemos uma enorme revogação das modernizações linguísticas efetuadas durante mais de 15 séculos nas regiões hoje conhecidas como Portugal, Espanha, França, Itália e Roménia. Enfim, devolvamos ao mundo esse magnífico império unificado pelo latim.

Aproveito desde já o ensejo para sugerir que, caso esta minha proposta avance, se entronize César Berlusconi Augusto como imperador. Na falta de melhor critério, entroniza-se um líder latino que já tem alguma experiência na organização de bacanais.

Não sei se vem muito a propósito, mas não posso deixar de registar alguma coincidência: sempre atenta às grandes causas e engajada em movimentos pouco evolutivos, a igreja católica cogita voltar às missas em latim. Prometo que se me abordar algum emissário de Roma com uma petição em prol do latim como língua oficial, deixo nela a minha cruz!

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Ana

Mais uma viagem para o Brasil e, coincidência das coincidências, mais uma passagem pelo Aeroporto da Portela. Asseguram-me que a TAP tem voos diretos do Porto para o Brasil, mas, se realmente os tem, serão provavelmente para uso exclusivo de árbitros de futebol. Hei-de investigar melhor essa possibilidade, pois, fazendo parte da minha atividade profissional arbitrar artigos submetidos para publicação em revistas científicas, poderei, com alguma propriedade, também considerar-me um árbitro. Passarei até a comprar os bilhetes na agência Cosmos que, segundo consta, costuma ser generosa com quem exerce essa atividade profissional, mandando a fatura para clientes mais abastados com a contabilidade desorganizada. Uma espécie de Robin dos Bosques a operar na área das viagens.

De todas as vezes que passo pela Portela fico com a sensação de que as pontes telescópicas (ou mangas, como sói dizer-se) do terminal principal estão lá para inglês ver (ou será que os passageiros britânicos as utilizam?), pois não acredito que seja apenas uma fatalidade estatística que nunca me queiram enfiar nas ditas mangas. Se na ida é desagradável, na volta a coisa é ainda pior: descer do avião, pegar um autocarro para o Terminal 1, passar no Posto de Fronteira, pegar novo autocarro para o Terminal 2 e, finalmente, pegar um autocarro para o avião que me levará até ao Porto. Tudo isso, mesclado com muitas subidas e descidas de escadas nem sempre rolantes.

Não sei porque sujeitam os nortenhos a tanto desconforto, mas a empresa com nome de mulher (já lá vou) que administra o aeroporto devia repensar a situação. Será que a ideia é sacrificar os passageiros adeptos de algum clube nortenho suspeito? Se assim for, não é má ideia de todo, mas advirto que no norte também há clubes honestos. Sugiro que, por exemplo, passem a fazer uma triagem pelo cartão de sócio. O meu é do Paços de Ferreira e está sempre com as cotas em dia. Por outro lado, mora em Lisboa tipos como o Miguel Sousa Tavares, adepto do tal clube nortenho suspeito que até se opõe à construção de um novo aeroporto em Lisboa. Talvez esteja na hora de o obrigarem a passar pelo aeroporto do Porto nas suas viagens para o Brasil (dizem que são muitas) e, na volta, deixá-lo a ver mangas em três autocarros.

Não sei o nome da instituição que permite o registo de marcas em Portugal, mas também pouco interessa para o caso. O que realmente interessa é que tenho tia, sobrinhas, várias amigas e uma musa chamada Ana Ivanovic, todas acima de qualquer suspeita sobre a conduta de mulher séria (especialmente a tia e as sobrinhas) e revolta-me que tenham permitido registar como Ana uma empresa que trata o viajante com tamanho desconforto. Uma espécie de prostituta de beira de estrada. Não vou perder tempo a medir as minhas palavras, pois sei bem que essa é a designação apropriada para aquela que se aproveita do viajante que passa sem alternativa, cobra caro e não oferece um mínimo de conforto. Para esse ramo de atividade há nomes muito mais apropriados. Shirley ou Vanessa Alberta, por exemplo. Mas Ana não, por favor!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Presidente Nobre?

Será obrigatório que me manifeste através do voto em 2011 para nova eleição presidencial. O termo "obrigatório" não foi aqui deixado por acaso, apesar de no país dos eufemismos haver quem afirme que o voto é apenas dever cívico. Convém salientar que quem não se desloca a uma mesa de voto está a engrossar o percentual dos abstencionistas. Essa é, inequivocamente, uma bela forma de votar, principalmente quando a confiança não aponta para nenhum dos antigos membros de associação de estudantes transformados em homens de gravata, bem falantes, com nome no boletim de escrutínio ou sigla a mascarar o nome. Atento ao futuro do planeta, Portugal está, no que à reciclagem humana diz respeito, na vanguarda da postura ecologicamente correta: autarca condenado à prisão é reempossado na autarquia — para não cair no submundo da droga ; estudante sem jeito para a atividade enfia-se em associação de estudantes e é conduzido para político; político com atuação desastrosa demite-se e é reciclado para cargo europeu ou gestor de empresa do sistema; Carlos Queiroz refugia-se como adjunto de Sir Alex Ferguson e é chamado para selecionador nacional.  Julgo que não seria de todo disparatado se se mandassem colocar enormes cartazes em cada fronteira com o dizer: Welcome to Portugall, Country of Human Recycling.

Voltando à questão presidencial. Há uns tempos apresentou a sua candidatura Fernando Nobre. Essa candidatura deixa-me de sobrolho franzido, pulga atrás da orelha e pé atrás. Niguém me engana: isso é coisa de monarquia! Pensarão eles que não somos um povo com memória? A Nobreza está para os regimes monárquicos como os gestores que fizeram estágio na política (com apadrinhamento familiar) estão para a república. A Burguesia também é do tipo gestor com estágio na política, mas sem o apadrinhamento familiar (talvez via associação de estudantes). Já agora, para completar o cenário monárquico e enaltecer o meu nível cultural,  acrescento o Clero. Esse continua igual, com a única exceção do papa, que agora tem um iPod e ouve Michael Jackson. Será que canta "I'm bad" e faz gestos obscenos? E deus perdoa?

Num momento Nuno Rogeiro, surge a pergunta inevitável: quem nos garante que a candidatura de Nobre não é apenas uma jogada tática de Duarte Pio (será suficientemente astuto para tanto?), auto-proclamado legítimo herdeiro da coroa, para colocar Nobre no poder e este, posteriormente, perpetrar um golpe de estado contra si mesmo, deixando caminho aberto para que Duarte entre em cena? E que cena! Mesmo levando em conta todas as democracias pouco saudáveis da África, Ásia e América Latina, seríamos o primeiro país do mundo com um presidente da república a dar um golpe de estado em si mesmo. Já somos um país do mundo primeiro em muitas coisas, mas, pelo sim pelo não, gostaria que pudéssemos evitar este título durante mais algum tempo. É que eu viajo muito e nem sempre tenho paciência para aguentar a chacota, principalmente dos oriundos de países que não são primeiros em nada.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Os tiques do Senhor Presidente

Quem me conhece, sabe que não tenho opinião muito favorável sobre o atual presidente da república portuguesa. Quem me conhece melhor, sabe até que preferia ver outro a ocupar o lugar dele. Reconheço que, além de ser eu um sujeito deliberada e assumidamente parcial, não consigo outro motivo forte que permita sustentar a minha opinião. Cavaco Silva até tem pose de estadista, fala sempre na terceira pessoa quando se refere a si mesmo e, quando sorri, fá-lo com um tique nervoso que faz qualquer um ficar tenso (inequívoca qualidade de estadista).

Porém, há a questão da empatia, barreira difícil de transpor; principalmente quando lhe noto esse vício de mandar anunciar, de manhã, que o presidente vai fazer uma comunicação ao país à hora do Telejornal — ainda dizem que não há manipulação dos media! Esses episódios algo frequentes deixam-me o dia todo ansioso. «Irá dar a independência à Madeira?» «Terá decidido invadir a Espanha?» «Estará o palácio presidencial sob escuta?» Matemático nenhum tem condições para exercer a sua atividade neste estado de ansiedade.

Em abono de Cavaco Silva — afinal não sou tão deliberadamente parcial —, devo mencionar aquele episódio natalício no qual câmaras indiscretas o apanharam a comer bolo-rei. Foi relativamente parodiado pela ligeira deselegância com que o fez, mas o que ninguém entendeu é que o gesto foi intencional e até com uma certa subtileza humorística. Tomo a ousadia de recomendar que o presidente entre mais no reino — salvo seja! — da piada, pois quem não tem por hábito (nem jeito) fazê-la, quase sempre acaba mal interpretado no momento em que resolve arriscar.

Até hoje, não houve comentador político, blogger ou frequentador do Manuel Luís Goucha — o programa, em princípio — que tivesse mencionado, em abono do presidente, o que para mim foi óbvio desde o primeiro instante. Admito que eu possa ter um grau de perspicácia muito acima da média, mas não era claro que Cavaco comia o bolo numa atitude de escárnio, tentando achincalhar a monarquia? Tratava-se de bolo-rei, se fosse pastel de Belém a postura teria sido outra, certamente. O resultado foi desastroso, mas a subtileza foi de mestre!

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Menos encanto na hora da despedida

Termino aqui os meus relatos sobre mais uma estadia em Estocolmo. Normalmente, o encanto com a cidade começa mesmo antes da chegada e prolonga-se até à hora da partida, mas infelizmente desta visita tenho a registar um pequeno detalhe desagradável. Comecemos pela parte agradável. Especialmente para alguém como eu, acostumado a nomes como Sá Carneiro (Pedras Rubras, para os mais saudosistas), Portela ou Aeródromo de Espinho, deparar-se com um aeroporto chamado Arlanda tem o seu quê de surpresa para o lado positivo. Lembro-me perfeitamente da primeira vez que fiz reserva de voo para Estocolmo. Quando na agência de viagens me disseram que iria para Arlanda, quase respondi que não dava, o meu centro de investigação só cobria despesas de viagem para Estocolmo, extras não podiam ser incluídos na factura.

Sobre a mulher sueca já me pronunciei anteriormente e não me quero repetir, apesar da sua perfeição merecer odes extra. A perfeição sueca prolonga-se pelas casas, que mais parecem versões aumentadas daquelas que a Ikea monta em 35 m2 e nos fazem querer mandar todos os visitantes para fora, bloquear a porta e ficar a morar lá (especialmente se a assistente daquele sector for sueca). Mas, sabendo de antemão que no melhor pano cai a nódoa, nunca excluí a possibilidade de a qualquer momento surgir detalhe que me fizesse sentir menos em terra alheia. Na existência de mulher sueca com modos de peixeira saída da lota tinha eu deixado de acreditar há muito. Quis o destino que o desencanto surgisse no metro de Estocolmo e já na viagem de volta.

O ser humano nasce com uma certa tendência mais ou menos universal para o mal, tendência essa que vai diminuindo à medida que educação vem ao de cima. Se há coisa que o ser pouco educado gosta de fazer é riscar carruagens de metro. Não sei qual o prazer nessa manifestação espontânea de atraso no processo evolutivo, mas os efeitos conheço-os eu muito bem: por exemplo, a empresa que administra o metro do Porto quer ainda que, além dos riscos nas carruagens, tenhamos que aguentar com um enorme dístico ao lado da parte riscada chamando a atenção para o ato vândalo. Como se os riscos não fossem perceptíveis sem o tal dístico! No caso do metro de Estocolmo, tratou-se apenas da corriqueira imagem com um coração a unir os nomes de dois jovens que se amam e não têm dinheiro para enviar uma SMS. A julgar pelos nomes, deduzo que sejam suecos do sul.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Suecas


Estocolmo é, indubitavelmente, a cidade com maior número de suecas por metro quadrado. E antes que frequentadores assíduos de algum jardim público da cidade do Porto lancem dúvidas sobre as minhas asserções indubitáveis, esclareço que a palavra sueca não é aqui utilizada para designar o homónimo jogo de cartas muito popular em Portugal.

Sempre me pergunto que motivo estapafúrdio poderá ter feito com que dessem o mesmo nome ao jogo maioritariamente praticado por aposentados do sul e às jovens — e não jovens também — habitantes da Suécia. De comum encontro apenas esse pequeno detalhe de que também elas gostam de ficar em jardins públicos, mas em tardes soalheiras de verão a arejar os corpos massacrados pelo inverno longo e rigoroso. A semelhança é mesmo muito ténue, como se constata.

Sem recurso a qualquer tipo de confirmação de fonte segura — nem insegura —, utilizando apenas a lógica e os meus parcos conhecimentos em história sueca anterior a 1998, se me fosse pedida uma explicação para o nome do tal jogo de cartas, arriscaria que o jogo foi introduzido na Península Ibérica, por volta do século X, quando marinheiros vikings esqueceram um baralho de cartas — e o respectivo manual de instruções — em alguma praia lusitana. Talvez cartas com suecas nuas. Quem sabe. Mas, friso, a minha teoria não é mais do que um mero exercício de especulação.

Voltemos às suecas. Às mulheres, claro. Esqueçamos o jogo de cartas de uma vez por todas. Quis deus — só pode ser obra divina — que a mulher que habita este país do norte e os sonhos dos rapazes do sul viesse a transformar-se numa espécie de mito. Não é verdade? Qual o rapaz do sul em plenas condições de funcionamento heterossexual que nunca sonhou com suecas? Quantos lograram alcançar alguma? Que me lembre, apenas o Luís Figo.

Devo confessar que na minha primeira viagem à Suécia cheguei um pouco receoso, temendo que a realidade pudesse não corresponder à mitologia. Contudo, para grande felicidade do meu olhar — e outros sentidos — pude confirmar in loco que o receio era profundamente infundado. A fama não é, de forma alguma, consequência de um maketing enganador muito bem urdido, pois a elegância passeia-se alegre e solta de forma generalizada pelas ruas de Estocolmo. E, pela amostra, acredito que noutras cidades o panorama não seja muito diferente.

Motivo para tanta elegância? Por enquanto só a leve suspeita de que possa existir no arenque ou no pão crocante — ou na combinação de ambos — substância que produza efeitos na formação e manutenção de tais corpos, e ainda os previna da deformação precoce. Não acredito nos poderes milagrosos das academias de ginástica — ou health clubs, como agora é de bom tom designá-las. Conjeturo até que a única que existiu em Estocolmo pertenceu a uma multinacional norte-americana e não esteve aberta por mais do que dois ou três meses. A escassez de clientes terá feito a multinacional dos corpos artificialmente sãos desistir do investimento. É bom salientar que não passa também isto da mais pura especulação.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Qual é maior?

Desde já desiludo quem do título desta crónica possa ter deduzido que viria aqui algum depoimento sobre manifestação de tendência homossexual masculina entre amigos de infância na época das grandes descobertas. Desenganem-se, tratarei aqui de teoria dos números, pura e abstrata, em perfeita sintonia com esse viril desporto chamado futebol. Mas garanto que, imbuído de um espírito universalista, tentarei abordar os temas de modo a não assustar quem detesta futebol, nem quem detesta Matemática, nem quem detesta ambas as coisas.

Dos que detestam a Matemática, conheço muitos e de longa data. O primeiro no qual detectei a tendência foi o António Carlos, colega de liceu, que ainda em plena adolescência descobriu uma profunda paixão pelo Direito para evitar a Matemática a partir do 10º ano. De lá para cá, com maior ou menor frequência, constato manifestações mais ou menos explícitas de advogados que lhe seguiram (ou anteciparam) as pisadas, o último dos quais José Guilherme Aguiar, comentador desportivo do programa Dia Seguinte na SIC Notícias. Não se empertiguem os advogados, pois bem sei que nem todos encaixam neste estereótipo. Assim de repente não me lembro de nenhum, pero que los hay, los hay.

Mas voltemos aos números. Melhor, ao futebol. Aliás, ao José Guilherme Aguiar. O sujeito anda desde o Natal a implicar com o golo que o Saviola marcou ao FCP. Não perde uma oportunidade para exibir o anti-benfiquismo primário em todo o seu esplendor, bem secundado pelo acólito verde — não me refiro a nenhum marciano —, afirmando que o golo é ilegal, porque surge na sequência de um fora-de-jogo do Urreta.

Insistiu tanto na história que já pensava dar-lhe algum crédito e adotar para a teoria futebolística de análise à arbitragem a teoria matemática do caos, teoria essa que tem como pilar fundamental o princípio da sensibilidade nas condições iniciais. Num pequeno parêntesis, e para elucidar os mais mal informados, adianto que numa visão extrema  — existe maneira mais elucidativa para exemplificar algo? —, podemos deduzir que está ferido de ilegalidade um golo limpo no último minuto, só porque o árbitro no primeiro minuto não assinalou uma falta banal. Com base em quê? Ora, no facto de que se tivesse assinalado essa falta todo o jogo teria sido diferente. A coisa não é disparatada de todo. Nem nada sensata.

Já pensava adotar essa ideia peregrina da teoria do caos para o futebol português — como se precisasse de mais —, quando entrou em cena a discussão sobre a validade do segundo golo que o Braga — grande rival do SLB esta época — marcou no domingo passado aos verde-rubros da Madeira, golo esse precedido de bola fora do campo nas barbas (se as tivesse) do bandeirinha — não entro em eufemismos vanguardistas de futebolês, bandeirinha é bandeirinha! — e não sancionada por este.  Instado a comentar o lance, José Guilherme Aguiar afirma perentoriamente não haver mácula que possa ser detectada no referido golo. Justificação? Entre a bola fora do campo e o golo passou tempo suficiente para que não faça sentido apelar-se a qualquer tipo de correlação entre a ilegalidade da bola fora e a legalidade do golo dentro. Onde é que eu já vi algo parecido mas sem a mesma conclusão?

Hoje em dia não há dúvida futebolística que subsista por muito tempo. Quase sempre subsiste o tempo que demora até alguém colocar o vídeo do respectivo lance no YouTube. No caso em concreto, dois vídeos: o do Saviola — que já lá estava desde a época natalícia para reanimar portistas amargurados — e o do Luís Aguiar (mais carnavalesco). Podia ter acontecido de, entre a ilegalidade do fora-de-jogo e o golo do Saviola mediar menos tempo do que entre a ilegalidade da bola fora de campo e o golo do Luís Aguiar. Aposto até que, em tal caso, num critério auto-denominado de nada tendencioso e no fair-play que o caracteriza , José Guilherme Aguiar argumentasse que é em algum momento entre os dois tempos (tempo médio?) que a teoria do caos aplicada ao futebol deixa de ter validade. Contudo, a medição do tempo nos vídeos do YouTube demonstra que se tratou de parcialidade descarada e do mais puro veneno anti-benfiquista, pois no tal lance do Saviola transcorreram 14 segundos, enquanto que no do Aguiar (o jogador) apenas 10 segundos.

Consigo imaginar uma das primeiras aulas com algum conteúdo matemático, muito provavelmente um dos momentos mais marcantes na vida do referido comentador que teima em não permitir que eu simpatize com ele. Pergunta o professor: «Qual é maior, Zezinho, 10 ou 14?». Na reação do professor à sua resposta deve ter descoberto Zezinho, aos 6 anos de idade, a paixão pelo Direito.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Abel Carleson

Hoje sentei-me ao lado do Abel Carleson. Dito assim, parece que vim num voo do Brasil sentado ao lado de um jogador de futebol. Mas não, ainda estou na Suécia e, melhor dizendo, sentei-me ao lado de Lennart Carleson, prémio Abel. Prémio instituído em 2002, atribuído pela Academia Norueguesa de Ciências e Letras em homenagem ao matemático norueguês Niels Henrik Abel; uma espécie de prémio Nobel para matemáticos.

Lennart Carleson, já acima dos 80 anos de idade, é uma daquelas figuras simpáticas que nem precisa dizer nada para que logo se perceba que só pode ser simpático; aliás, presença assídua nos seminários do Instituto Mittag-Leffler, prima pela discrição e silêncio. Talvez por na audiência marcar presença outra figura (grande, mas menor) que não perde uma oportunidade para se pavonear, dir-lhe-á o bom senso que não abra muitas brechas para o pavoneamento alheio.

Coincidiu de numa das palestras de hoje eu ter ficado sentado precisamente ao lado direito de Carleson. Não sei bem porquê, mas faço questão de mencionar que me encontrava à sua direita. Sendo isso bem frisado em textos litúrgicos, alguma vantagem deve advir de se estar em tal posição relativamente às divindades (nada tem a ver com política, graças a deus, e passe a redundância, pois isso de direita e esquerda em política é coisa bem mais recente que a bíblia). Lá pelo meio do seminário, aproveitei a parte mais técnica de um assunto que não me dizia muito para desligar da palestra e confirmar numa folha que tinha em frente uma trivialidade sobre espacos Lp — mesmo as trivialidades, ou principalmente estas, é bom testá-las bem para que não se transformem em areias movediças sobre as quais assentam edifícios matemáticos.

Agora vejo que devia ter tido mais cuidado com os meus rabiscos, principalmente estando sentado ao lado de quem estava. Mas prognósticos a posteriori são sempre fáceis de fazer. Da fisionomia simpática de Carleson fazem parte um sobrolho espesso e franzido, característica que nem sempre abona muito em favor do ser simpático, mas ele será certamente uma das exceções à regra. No final notei-lhe o tal olho com sobrolho franzido levemente desviado para cima da folha onde eu rabiscara a tal trivialidade. Certamente pensou (em sueco, claro), «agora já temos visitantes cujas contas andam em torno destas trivialidades?». Cogitei esconder a folha, virar a página, tentar desviar-lhe o olhar, mas já de nada valeria: brilhante como é, deve ter um implacável olho fotográfico e uma memória de elefante.

Dia de muito azar, pois em momentos similares de palestras anteriores até tinha aproveitado para umas continhas com espaços BMO, tópico muito mais condizente com a nobreza do instituto. Rabiscos ainda distantes do que se espera de alguém que visita o Mittag-Leffler, mas acredito que já desse para enganar um pouco; ou, pelo menos, deixar o Carleson na dúvida. Enfim, um azar tremendo. Tão improvável quanto sair de carro numa manhã fria de inverno, o sujeito da frente parar no sinal laranja e seguir no passeio ao lado uma jovem de minissaia muito curta. Muito pouco provável a conjugação dos acontecimentos, mas previsível o resultado.