Pode parecer brincadeira (e até é), mas o assunto tem alguma (ainda que ténue) seriedade: o H, sem um som próprio no português, cria-nos um falso sentimento de inutilidade da letra em outras línguas. Vejamos o caso do inglês, por exemplo. Um português típico fala um inglês de nível muito aceitável (José Sócrates não é típico), com esse grande senão da sonoridade (ou falta dela) do H. Pensa-se, erradamente, que também no inglês o H é o parente pobre do abecedário e esquece-se que nesse idioma o H tem quase sempre vida própria. O H tem um som relativamente próximo do nosso R — o de garganta, não aquele emitido com a ponta da língua —, mas muito mais suave. Para melhor ilustrar a coisa, digamos que um som a meio caminho entre esse tal R bem suavizado e um suspiro bastante acentuado.
Falamos o nosso idioma de um jeito tão arrevesado que, com exceção de algumas línguas orientais, temos similar a praticamente todo e qualquer som em outra língua estrangeira. O problema dos orientais é que resolveram simplificar na variedade de sons e complicar no modo como atacam as sílabas. Aquilo é feito com base na intensidade, com um sobe e desce quase constante. Em chinês, por exemplo, com muita persistência e sofrimento da minha parte (e da parte de quem pacientemente me ensinava), consegui chegar a razoáveis ataques às palavras nihao, xiexie e pijiu. Digamos que, as duas primeiras para poder ser simpático, e a terceira para não morrer à sede por aqueles lados. No caso da pijiu — que nunca atingi o requinte de conseguir pedi-la bem gelada —, achei por bem nem solicitá-la com muita frequência, sob pena de começar a enrolar a língua.
Estas subtilezas linguísticas trazem-me à memória uma das muitas piadas que no Brasil surgiram na sequência da morte do Ayrton Senna — eles têm um jeito muito peculiar de mitigar a dor. Rezava assim: «no funeral de Ayrton Senna todos choraram, só o Damon Hill» (note-se que para os brasileiros o L no final tem som de U). A piada é ligeiramente subtil e não tão ligeiramente boba, mas ilustra o esforço dos brasileiros na tentativa de evitarem o erro lusitano com o H inglês. Infelizmente, exageram no tal suspiro. É pena.























