segunda-feira, 14 de março de 2011

José no divã

No Egito Antigo viveu um José que gozou de excelente reputação como interpretador de sonhos. A sua fama chegou a tal ponto que um dia foi levado para interpretar um enigmático sonho do faraó, no qual apareciam sete vacas magras e sete vacas gordas, as primeiras das quais comiam tudo que podiam — inclusive as vacas gordas — mas continuavam sempre magras. O José, que era perito na arte dos sonhos, não teve dúvidas: o Egito passaria por sete anos de fartura seguidos de sete anos de seca. Por causa dessa visão profética, puderam aforrar nos sete anos de fartura e assim sobreviver nos sete anos que lhes sucederam. Muito naturalmente, o José caiu nas graças do faraó e passou a ocupar lugar de destaque entre o seu povo.

No Portugal Moderno há também um José que foi guindado a lugar de destaque entre o seu povo. Contudo, ao invés do José do Egito, o José de Portugal denotou sempre imensas dificuldades para interpretar sinais, viessem eles sob a forma de sonho, ou saltassem à vista como a mais evidente realidade. O José de Portugal olhava para vacas magras e vacas gordas e só conseguia enxergar as gordas. Ou, se enxergava as vacas todas, pareciam-lhe todas gordas. O que à partida poderia ser visto como uma preocupante limitação, aliada a um grande dom de iludir, veio a tornar-se numa enorme vantagem. O seu otimismo era contagiante!

No entanto, não há mal que dure sempre nem bem que nunca acabe. Esse dom que gerou enormes proventos para o José e os seus correligionários, começava agora a dar mostras de entrar em declínio. Com uma imensa manada de «vacas magras» a berrar e uma oposição impiedosa a amplificar-lhes a voz, os dons do José de Portugal começaram a não ser suficientes para dar a volta á situação. Os conselheiros não perderam tempo. Para analisar o problema reuniram-se com os melhores especialistas das mais diversas áreas e chegaram a uma inevitável conclusão: o José está a precisar de psicanálise. Se, aquela que era a sua grande virtude, agora começava a tornar-se num empecilho, tornava-se imperioso dar um jeito nisso. O quanto antes.

Houve muita resistência inicial do próprio José, mas aos poucos foi-se apercebendo que as sessões de psicanálise o deixavam fortalecido. Ao cabo de algumas sessões começou a dar mostras de alguma abertura para um trabalho mais profundo do psicanalista. Era evidente para o psicanalista (bons psicanalistas têm um dom especial para detetar evidências e até são muito bem pagos por isso) que o José chegava hoje ao seu consultório profundamente agastado. Sentiu que, pela primeira vez, teria oportunidade de realizar uma viagem profunda ao interior do José, sempre tão mascarado e protegido por elmos internos e externos. O psicanalista usou de todos os poderes e conhecimentos que tinha para deixá-lo num estado quase hipnótico, e provocou-o para falar:
— Está muito difícil aguentar esta oposição injusta e difamadora que concentra a sua ação no insulto e no ataque pessoal. Uma oposição que não consegue reconhecer nada de positivo neste país que, com muita abnegação, tenho conduzido de forma exemplar. Dou o máximo, busco as melhores opções, encontro soluções fantásticas e os resultados estão aí: são os indicadores de inovação, os indicadores de educação, relatórios da OCDE, planos tecnológicos, planos energéticos e planos de mobilidade. Somos um caso sério no mundo e um exemplo para a Europa. Desdobro-me, multiplico-me, adiciono riqueza, corrijo o défice, faço crescer a economia, aumento o PIB...
— Calma, José. Vamos por partes.
— José?!
— Sim, José... não é o seu nome?
— Não!
— Não?!
— O meu nome é Angela!
Só nesse momento o psicanalista teve noção de que tinha chegado a um nível demasiado profundo no íntimo do José. Custou-lhe um pouco a trazê-lo de volta à realidade do país que efetivamente governava.

terça-feira, 8 de março de 2011

Dados

"When men are scared of a woman, 
they always accuse her of being mannish"
Elizabeth Aston

A Zirinha caminhava em passo apressado rumo à estação de metro, deixando para trás o hotel onde acabava de cometer a maior loucura da sua vida. Por estranho que pudesse parecer (e a ela parecia-lhe), não lhe passava pela cabeça qualquer tipo de arrependimento. Tampouco a certeza de que não voltaria a cometer loucura igual. Nem diferente. Considerava-se satisfeita, mas sentia no íntimo uma ligeira sensação de televisão a preto-e-branco.

Apesar dos sete anos de casada e das duas gravidezes quase de enfiada, a Zirinha soube manter o corpo de aspeto não resignado, com volume e formas sempre muito sedutoras. Só não sabia que teria coragem de despertá-lo para outro que não o Alberto, seu primeiro e único namorado, com o qual se casara ao fim de três anos de namoro. Virgem — em todos os sentidos. E, não fosse ter visto o Brad Pitt em Lendas da Paixão, podia até afirmar que casara virgem também em pensamento. A Zirinha, que sempre foi uma menina de impulsos, decidiu — sem causa aparente nem motivo forte — ainda em fase precoce do namoro que iria conservar-se intacta até à lua-de-mel. Decidiu e cumpriu. Algo que lhe custou vários ataques de desespero do Alberto, a pouca admiração das amigas mais engajadas em movimentos feministas e, anos mais tarde, algum arrependimento pela falta de outras experiências.

Na viagem de metro até casa, reviu em pensamento os acontecimentos desde que a Margarida a deixara sozinha no Shopping. Almoçaram juntas e, como de costume, a Margarida saiu apressada para o trabalho. A Zirinha tem um emprego com horário bastante flexível que lhe permite até dar-se ao luxo de esporadicamente não aparecer, bastando justificar com um simples «surgiu um imprevisto» por SMS. Não podia imaginar que, poucos minutos após a saída da Margarida, viesse sentar-se na mesa exatamente em frente aquele forasteiro com o qual viria a dar largas, primeiro à imaginação, depois à conversa e finalmente ao corpo. Dele pouco mais conhecera além do aveludado da voz, o desempenho corporal e um ligeiro sotaque estrangeiro. Nome, nacionalidade, número de telefone, local de residência, nada lhe passara aos registos. Desde a inicial troca de palavras, a conversa ficou centrada no aqui e agora, tendo rapidamente evoluído para patamares ao nível da física e da química.

Estava agora prestes a chegar a casa. Não vislumbrava ainda o motivo pelo qual desta vez, de forma tão revolucionária na sua vida, deu abertura para que um completo desconhecido lhe tivesse cativado primeiro o olhar e depois todos os outros sentidos. Talvez apenas um impulso. Contaria à Margarida? Não, ela não iria acreditar. Além de que, descuidada como era, alguma vez poderia deixar escapar um comentário imprudente perante o Alberto. Apesar da aventura, não lhe passava pela cabeça viver sem o Alberto. Continuava a sentir que ele era o homem da sua vida, a sua televisão a cores. Agora com mais dados a atestar essa verdade.

sábado, 5 de março de 2011

A lei de Newton

Além de uma assinalável produção de leis nacionais, os portugueses estão também sujeitos a leis europeias, leis internacionais e leis universais. Se as coisas neste país muitas vezes não correm de feição, nem sempre é por falta de leis adequadas, mas sim por falta de aplicação das mesmas. Uma das leis que com alguma insistência se viola — ou ignora — é a lei da Gravitação Universal de Newton. Essa que, em particular, diz que cair é para baixo. Estaria Newton ao corrente das subtilezas da realidade portuguesa? Seria a realidade portuguesa no tempo de Newton comparável ao que é agora? Estas são questões difíceis de ser respondidas por alguém com o meu nível de conhecimento histórico e que deixo à consideração das autoridades na área.

Não é preciso pensar muito — nem ser muito brilhante na tarefa — para que facilmente se chegue à conclusão de que o país tem muita gente a cair para cima. Eles são os Coelhos, os Loureiros, os Varas e muitos outros que todos bem conhecemos. Com maior ou menor visibilidade eles andam por aí. Caso interessante é o do Fernando Gomes. Esse que há uns anos era presidente da Câmara do Porto e, não resistindo a um tentador convite para integrar o governo presidido por António Guterres, abandonou a câmara como se abandona um farrapo velho. Para azar seu — e mais ainda de muitos portugueses —, a sua ação como Ministro Adjunto e Ministro da Administração Interna foi uma lástima. Entre meter os pés pelas mãos e proferir declarações sem pés nem cabeça, a cabeça do ministro acabou invetivalemente por rolar. Contudo, saiu de Lisboa com o "rabinho entre as pernas" e entrou no Porto a "cantar de galo": «O novo candidato do partido à Câmara do Porto sou eu!» As gentes do Porto, que em geral até nem são muito favoráveis à cor, não estiveram com meias medidas e mostraram-lhe o merecido cartão vermelho. Que se esperava a seguir? Mais uma vez o rabinho entre as pernas e a queda de mais um degrau? Não. Houve queda para cima: foi promovido a administrador da GALP, onde até hoje permanece com um salário sei-lá-quantas vezes — no mínimo muitas — melhor do que em qualquer outro emprego que tenha tido antes.

Por falar em Câmara do Porto  e ainda a respeito da lei de Newton. Espanta-me que essa câmara contrate empresas onde trabalham engenheiros sem um mínimo de conhecimentos de Física. Por mínimo, entenda-se o conhecimento da supracitada lei de Newton. Imaginemos que há uma requalificação na zona da rotunda da Boavista e lhes é destinado supervisionar o escoamento das águas pluviais. Onde será natural colocar os bueiros? Em pontos mais baixos da valeta? Não. Os engenheiros que supervisionam essas obras têm uma predileção especial por deixá-los nuns altinhos. Digamos que com o declive certo, mas a descer na direção não recomendada para que a água escape de acordo com a lei de Newton. Dá ideia que os bueiros são lá colocados para contemplarem a água nos inevitáveis lagos que se formam em dias de chuva. O caso é mais desagradável em zonas onde o material usado para a impermeabilização dos solos (estranhamente, às vezes parece ser esse um dos objetivos dos passeios) é o alcatrão.

Não há escapatória através dos bueiros para as águas pluviais na zona da Boavista, mas nem tudo está perdido. E nem excluo a possibilidade desses engenheiros terem posto em prática algum conhecimento de Física, do tal mínimo que se exige a tais profissionais: o sol aquece a água e esta acaba inevitavelmente por se evaporar. O problema é que isso demoooora!....

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Ubíquos mercados

 São os mercados!
Foi a única explicação que o Chico Paulo ouviu do patrão quando este o demitiu. O Chico Paulo absorveu a informação como mandamento divino e nem reclamou. Já tinha ouvido várias referências a esses tais mercados na televisão e nos jornais, e sabia que eles andavam por aí. Só nunca pensou que os mercados lhe caíssem em cima desta forma tão impiedosa. Os todo-poderosos mercados agora atacavam. Sabia também que não adiantava reclamar. Tinha que se resignar.

O trabalho do Chico Paulo não era muito decente (entre outros biscates que fazia no local, limpava casas de banho num café/restaurante perto da estação), mas o emprego — informal  rendia-lhe cerca de 200 euros por mês. O dinheiro chegava essencialmente para os gastos pessoais com cerveja e cigarros e para dar uma ou outra por fora (coisa de homem, claro). Com o pouco que recebia, nunca pensou (na verdade, pouco pensava em geral) fazer descontos para o que quer que fosse. O patrão também o desestimulava:
 Porquê dar ao estado o que podes deixar no teu bolso, Chico Paulo?

A salvação do Chico Paulo era — agora mais do que nunca — a sua mulher, que conseguia um bom rendimento mensal com um negócio caseiro de venda de bebidas — praticamente só cerveja  num aposento da casa com acesso direto do exterior. Agora, para ocupar o tempo do Chico Paulo, a mulher dava-lhe uma lista de compras para fazer pela manhã (o abastecimento de bebidas do negócio caseiro tinha ficado a cargo dele) e recomendava-lhe umas saídas vespertinas para espairecer  jogar cartas no parque ou assistir aos treinos do FCP no Olival passaram a ser as ocupações mais frequentes. Convém não esquecer que o Chico Paulo andava muito perturbado com essa história dos mercados lhe estarem a dar cabo da vida. Espairecer tornava-se imperioso. A perturbação chegara a tal ponto que não entrava mais no Bolhão ou no Bom Sucesso, e só fazia compras em supers ou em hipers  a respeito desses não ouvira ainda más referências.

Chovia muito. Nessa tarde o Chico Paulo resolveu regressar mais cedo. Mal entrou em casa, escutou uns ruídos estranhos vindos do quarto e viu a mulher — suada e mal vestida — correndo em direção a ele:
— Foge, Chico Paulo, os mercados entraram no nosso quarto!
O Chico Paulo imediatamente virou costas e correu para bem longe. Estava muito apavorado com a ideia dos mercados lhe terem invadido o quarto. Nem sabia quando teria coragem para voltar a entrar em casa.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Um novo passo evolutivo


Quem não confia na bíblia — e tem um nível cultural minimamente razoável — muito provavelmente sabe que a vida na terra tem estado sujeita à evolução das espécies. Sabe também que pequenos avanços ao nível da postura contribuíram de forma significativa para o desenvolvimento da espécie humana. A separação do polegar ou a posição ereta, por exemplo, foram decisivas para atingirmos o grau de sofisticação e desenvolvimento que temos — nem todos, admito — hoje em dia.

No entanto, apesar das constantes reclamações do ser humano fêmea, há uma postura que o ser humano macho tem sentido algumas dificuldades em adquirir. O macho contribui, com tal falta de postura, para uma vida caseira em condições menos saudáveis, tanto na perspectiva higiénica como, principalmente, na perspectiva do relacionamento conjugal.

Segundo as minhas estatísticas baseadas num inquérito a cerca de uma dúzia de famílias portuguesas — e acredito que famílias de outras nacionalidades não sejam diferentes neste aspeto —, cerca de 88% dos homens — ser humano macho — demonstram dificuldades em sentar-se para fazer determinado tipo de necessidade fisiológica. Esse mesmo macho que já conseguiu separar o polegar dos outros dedos, reluta ainda em separar a mão de certo órgão no momento em que alivia a bexiga.

Sabendo eu que esse é um problema que afeta seriamente alguns relacionamentos, andei anos a meditar sobre o problema. Há cerca de três meses, enquanto via um jogo de futebol na SportTV, pareceu-me finalmente ter chegado a uma solução. A solução pareceu-me tão brilhante que resolvi tentar capitalizá-la: escrevi para a Associação Portuguesa de Terapeutas do Relacionamento Conjugal (APTRC) informando-os sobre o perigo — para eles — da ideia genial que eu acabava de ter. Não tenho dúvidas de que, posta a minha ideia em prática, um rude golpe nos proventos dos afiliados da APTRC será quase inevitável. A capitalização da minha ideia consistiria, simplesmente, num acordo sobre o montante a receber — de preferência percentual sobre o volume de negócios — para que eu mantivesse o meu silêncio. Por outras palavras, uma espécie de chantagem.

Não tendo até agora obtido qualquer tipo de resposta da parte da APTRC e como até tento, a cada dia que passa, tornar-me num ser cada vez mais altruísta — poderia ter havido retrocesso, cara APTRC! —, decidi tornar agora pública a minha ideia, dando dessa forma uma contribuição para a evolução do ser humano macho na conquista de uma nova postura. Se Colombo teve uma ideia brilhante ao ver um ovo e Newton teve uma ideia ainda mais brilhante ao ver cair uma maçã, porque não poderia eu ter uma ideia brilhante ao ver um jogo de futebol na SportTV?

Assim como grande parte das ideias brilhantes que têm despontado na mente humana, esta também é muito simples: colocar em cada casa de banho um pequeno LCD — a acender em simultâneo com a lâmpada —, aproximadamente à altura da cintura e exatamente em frente ao vaso sanitário. Dependendo do gosto do(s) elemento(s) masculino(s) do agregado familiar, canais como Caça & Pesca, SportTV ou SIC Notícias poderão revelar-se bastante eficientes rumo à conquista desse novo passo evolutivo. Canais como Playboy, Venus ou Hustler, apesar de muito apreciados pelo ser humano macho, não são recomendáveis para este efeito.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Imprecisas impressões musicais nacionais

com uma melodia pouco inspirada e uma letra nada de mais os deolinda deixaram a nu a superficialidade da atual música portuguesa, o momento crítico devia inspirar, mas o mais profundo e atual continua ser o zeca a lembrar que eles comem tudo e não deixam nada, que o pão sabe a merda, que o que faz falta é avisar a malta, que falta também o fausto a alertar a rapariguinha para que cosa a saia velha de cambraia, ou a rosalinda para que o pé não lhe descaia, o godinho a anunciar primeiros dos últimos dias do resto das nossas vidas e baladas da rita, o mário branco contra o charlatão e contra a força do fmi, o rui veloso, o carlos tê e o chico fininho sem máquina zero, a café e bagaço num bairro do oriente, o palma a passar em bairros do amor ou em santa apolónia a abarrotar de gente, a pedir que o deixem rir, perdemos a irreverência do variações, nem para hoje nem para amanhã, não o temos aqui nem além, temos um represas desinspirado, um gil sem ala de namorados, perdemos o trovante na xácara das bruxas dançando, o tordo não diz nada sem o ary, o paco entrou na ternura dos quarenta e ficou-se por aí, o carvalho já não fala de ninis, do mendes nem rock em stock, o cid perdeu a alma pop, adio, adieu, aufwiedersehen, goodbye, as doce provocadoras deram lugar à pimbérica ágata, até os pimbas são piores que o marco paulo de antes ou o meira dos emigrantes, o tony carreira é o maior, o mais banal e o mais pobre, apesar do dinheiro que anda a ganhar, ninguém tem nada para cantar, e quando cantam não contam nada, perdem-se em emaranhados de palavras que nada dizem, nada acrescentam, nem mexem o fundo à panela, amália partiu sem deixar rasto para novos poetas que falem do povo que lava no rio, que dêem de beber à dor e cantem malhoa, mas os malhoas que não cantem, a inspiração da mafalda ficou-se pelos pássaros do sul, joão afonso, toranja, ornatos violeta foram artistas de um disco só, mesmo quando lançaram mais, as do xaile eram boas mas arrefeceram, os da mesa esmoreceram, o donna maria perdeu a voz, a dulce pontes parou no primeiro canto, o madredeus morreu em lenta agonia e partiu com a banda cósmica, o carlos do carmo não traz novos homens das castanhas, nem cacilheiros para a lisboa menina e moça, ana moura, camané, joana amendoeira, katia guerreiro, mafalda arnauth, mariza, tantos fadistas, todos cantam bem mas de novo nada dizem, o sardet ainda não sabe que não existe, o pedro pais não devia mas insiste, a sara tavares perdeu o gingado, o abrunhosa é chato, pretensioso, ouvi-lo é um enfado, o gonzo já disse quase tudo, agora há ídolos, talentos, chuvas de estrelas, vozes e mais vozes, falta quem escreva, quem escreva e diga, quem use a palavra para alertar, cantar em inglês é o que está a dar, não querem saber dos de cá e ninguém os ouve de lá, melhor um intuitivo blá blá blá, as bandas debandaram, não há táxi para o cairo, nem chicletes para mascar, nem patchouly para cheirar, amor e paixão dos heróis do mar, uhf na rua do carmo, gnr com pronúncia do norte, trabalhadores do comércio que chamem a polícia, xutos não pontapeiam nada, o tim enfia letras à martelada, os delfins definharam, o clã eterniza dificuldades de expressão, a resistência não resistiu, o vitorino, o janita, a filipa pais e outros mais cantam o que já cantaram e voltam a cantar, reinterpretam amália, ouro negro, variações, revisitam-lhes sempre as mesmas canções, falta alma na novidade e novidade na alma, melodias com novas roupagens, letras com mensagens, venha um novo zeca, venham mais cinco, mais seis, mais sete, venham ajudar-nos a pintar o sete

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

As flores do Ramos

O Ramos e a Palmira não necessitavam de grandes manifestações de romantismo para se sentirem felizes um com o outro. Em nove anos de casados ele nunca lhe ofereceu flores. Ela não sentia falta, ele não se lembrava e a vida do casal evoluía agradavelmente sem necessidade desse adorno perfumado entre os dois. Para a felicidade do Ramos bastava a felicidade da Palmira e para a felicidade da Palmira bastava a fidelidade do Ramos — a fidelidade da Palmira nunca foi sequer posta em causa pelo Ramos.

Com o aproximar do 14 de Fevereiro de 2009 a estabilidade dessa relação sofreu um forte revés. No seu novo emprego o Ramos sentiu-se fortemente pressionado: de todos os lados lhe chegavam sugestões de lingerie, velas, flores, perfumes, chocolates, jantares românticos! Todos os seus colegas de trabalho tinham feito reservas para jantar. A única exceção — além do Ramos — era o Carlos Alberto, que tinha rompido com a namorada há cerca de três meses e ainda não tinha encontrado substituta. Mesmo assim, tentou um reatamento na base do «só uma noite», mas foi informado de que as noites dela já estavam entregues a outro.

Namorados, noivos, juntados, casados, em união de facto, todos faziam algo nessa noite. Tinham que fazer algo nessa noite! Como era possível um casal não fazer algo nessa noite? A pressão sobre o Ramos foi tão acentuada que ele se sentiu na necessidade de também fazer algo nessa noite. Ligou para uma lista de restaurantes. Baratos, caros, em barco, em hotel, todos reservados — a restauração não era definitivamente a solução.

O Ramos decidiu então que, simplesmente, ofereceria flores à Palmira. Uma dúzia de rosas vermelhas. E aproveitaria a hora do almoço para ir comprá-las. Assim, de tarde, os seus colegas de trabalho teriam oportunidade de ver que o Ramos estava na moda. E estar na moda, nesse dia, significava mostrar que estava atento à relação conjugal.

O Ramos não estava acostumado a comprar flores. Menos ainda estava acostumado a andar com elas na rua. Para atenuar um ligeiro embaraço, resolveu colocar as mãos atrás das costas e segurar as flores de cabeça — se assim se pode dizer — para baixo. Se há momentos e gestos aparentemente insignificantes na vida de um homem que acabam por ganhar uma importância primordial, este era seguramente um deles. A ponto de mudar o rumo da vida do Ramos para sempre. E para pior.

Pouco tempo depois de ter saído da loja com as flores atrás das costas o Ramos deu de caras com a Palmira. Como podia o Ramos imaginar que a essa hora a Palmira andava por aquela parte da cidade? Na mesma rua, no mesmo passeio, mas em sentido contrário — prenúncio do que os esperava a seguir?

Teria sido tão simples oferecer-lhe logo as flores, mas o embaraço da situação, a intenção de exibi-las no escritório e o inesperado encontro com a Palmira fizeram-no perder a capacidade de raciocínio e a pronta reação que se lhe exigia perante a inevitável pergunta dela:
— Que levas tu atrás das costas?
— Nada — respondeu o Ramos.
Imediatamente, após ter dado esta resposta, o Ramos teve o pressentimento de que entrava em apuros. Tentando remediar — e piorando — a situação, deixou que as flores caíssem no chão atrás de si. Lenta e silenciosamente. Mas não invisivelmente. E é claro que a Palmira as viu. O Ramos tentou o retorno à verdade:
— São flores... para ti!
— Então porque as deitas ao chão?
Não houve explicação. Nem houve mais conversa. O Ramos viu apenas a Palmira dar de costas e desaparecer rapidamente entre os transeuntes.

O momento justifica um parágrafo extra. Que motivo pode levar um homem a achar que a verdade é mais inverosímil do que a mentira? Malformação genética? Malformação social? Inabilidade para lidar com a pressão? Para cúmulo, recorrendo a uma mentira completamente desnecessária e com prova irrefutável atrás das costas. Nesse momento, teria dado jeito ao Ramos que alguma intervenção divina tivesse operado um milagre contrário ao consagrado na História e as rosas tivessem sido transformadas em pães. Uma dúzia de pães não teriam levantado suspeitas. Mas, para má sorte do Ramos, a história dele foi outra.

Quando regressou a casa, o Ramos encontrou todas as suas roupas remexidas em cima da cama e duas malas do lado para que as empacotasse e saísse de casa. A Palmira procurou e encontrou uma prova inequívoca — além das flores, é claro — de que o Ramos a traía: um cabelo loiro e comprido na manga do seu blêizer azul-marinho. De nada adiantou ao Ramos tentar explicar-lhe que cabelos loiros e compridos andam por aí à solta, no ar, nos transportes públicos, nos bancos de jardim. Para a Palmira eram provas mais do que suficientes de que o Ramos a traía.

Valeu ao Ramos a generosidade do Carlos Alberto que o deixou ficar no sofá por uns dias — jantaram os dois nessa noite — e de nada lhe valeram os insistentes telefonemas para falar com a Palmira. Ela só aceitou falar com o Ramos uma semana depois. E para lhe comunicar que entrasse em contacto com o seu advogado para tratar do divórcio. Hoje em dia o Ramos é um homem só e amargurado. No limiar da depressão. Ganhou trauma a flores e nunca mais conseguiu colocar as mãos atrás das costas. Daí para cá o Ramos mete baixa no dia de S. Valentim. Baixa psiquiátrica, claro está. Nesse dia não sai de casa.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Missão Gaia: em busca da cópia amada

A Agência Espacial Europeia tem em marcha um ambicioso projeto de reconhecimento da Via Láctea, através de um mapeamento tridimensional de aproximadamente mil milhões de estrelas nesta galáxia. O projeto é denominado de Missão Gaia, em homenagem à deusa grega da Terra.

Além do valor científico inquestionável de um projeto desta envergadura, este é um projeto que também pode ser de grande valor para si que neste momento sofre por causa de um amor não correspondido por uma mulher. Para si que já se declarou, mas recebeu como resposta um «ainda não me sinto preparada para uma nova relação». Na melhor das hipóteses, com o anexo «quem sabe um dia». Saiba que, nessas circunstâncias, é bastante provável que ela ainda morra de amores pelo anterior, ou já esteja de olho no próximo (que não é você). Em tal caso, o mais previsível é que você fique ainda por muito tempo numa situação de reserva. Vai resignar-se a essa irrelevante condição de reserva, ou prefere lutar por um posto de titular?

Eu sei que já perdeu várias noites a meditar sobre o assunto, sempre chegando à conclusão de que o difícil nem é encontrar outra que se deixe encantar por si, mas sim encontrar outra exatamente igual àquela que ama e que, adicionalmente, se deixe encantar por si. Provavelmente, nas suas cogitações noturnas chegou também à infalível conclusão de que isso é praticamente impossível: a complexidade do genoma e as suas implicações nas características físicas e psíquicas do ser humano (mais ainda na mulher) são de tal forma vastas que, mesmo levando em conta toda a produção chinesa, dificilmente encontrará sobre a face da Terra outra mulher igual a essa que ama. Por aí não vai lá.

A solução é a Missão Gaia. Senão vejamos: partindo da perspectiva conservadora de que em torno de cada estrela gravitam, em média, nove planetas (sejamos generosos com Plutão), mas apenas um deles é habitado por seres humanos, teremos então cerca de mil milhões de planetas com francas possibilidades de neles ser detetada vida humana. Continuando ainda nessa tal perspectiva conservadora, e assumindo que em cada um desses planetas habitam cerca de três mil e quinhentos milhões de mulheres (corresponde esse número a cerca de metade da população humana na Terra, segundo dados recentes), isso dará aproximadmente 3.500.000.000.000.000 mulheres detetadas, em caso de pleno sucesso da Missão Gaia. Assim sim, teremos um número razoável para que você possa alimentar esperanças de encontrar alguma cópia dessa ingrata que não corresponde ao seu amor.

Corra logo para estudar nalguma área relevante para a Missão e, dessa forma, contribuir para esta causa que afinal também pode ser sua. Com alguma sorte, poderá até ser o primeiro a chegar ao pé de uma das previsíveis cópias da Ana Ivanovic. E, quem diz pé, também diz coração. Ou outras partes. Em tal caso, será até provável que depois queira dar-se ao luxo de mandar para outra galáxia a mulher que agora ama e não corresponde ao seu amor. Ela e todas as suas cópias que possivelmente existem na Via Láctea!

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A normalidade

Caetano Veloso

O Teixeira era um fulano que com elevada frequência (mais do que o normal) se auto-definia como normal. Assumia-se até como um dos poucos normais de que ele próprio tinha conhecimento. Enquanto os outros viviam de forma mais ou menos intensa frequentes dramatizações de situações quotidianas e eventuais espirais de loucura, o Teixeira planava como águia altaneira sobre o vale de todos esses males.

O Teixeira tinha crescido num ambiente familiar complicado: mãe alcoólica, pai incógnito, padrastos toxicodependentes e quatro meio-irmãos numa casa de apenas dois quartos. Tudo a favor de uma personalidade carregada de traumas. Mas não. O Teixeira teve logo desde tenra idade um sentido de auto-orientação suficientemente forte para não se deixar contaminar pelos fatores adversos do meio que o rodeava. Cresceu fidelizando-se ao lema «mente sã em corpo são» e ia fazendo disso cavalo de batalha.

Por força dessa postura, tinha muito pouca paciência para qualquer manifestação de drama pessoal não devidamente fundamentado da parte dos que com ele conviviam. Sabia quem melhor o conhecia que o Teixeira encarava qualquer problema do foro psicológico como doença contagiosa. Não foram poucas as vezes em que abandonou cervejadas com amigos só para não ter que ouvir lamúrias sentimentais. Abria apenas uma pequena exceção para a tristeza e, mesmo assim, só convivia com a tristeza alheia por mais de um dia quando essa era provocada pela morte de parente próximo (não mais do que parente em primeiro grau, entenda-se).

Como designar uma mulher que entra na vida de um homem de forma intensa e íntima por escassas duas tardes e sete noites? Namorada? Pois bem, o Teixeira teve uma namorada nessas circunstâncias, pela qual deu indícios de estar profundamente apaixonado. Dizia ser ela a mulher com a cabeça mais limpa que encontrara em toda a sua vida. Cabeça limpa, pele limpa, casa limpa, tudo limpo, uma perfeição! Nesses dias de intensa proximidade não lhe notou qualquer tipo de distúrbio na vertente psicológica, excetuando uma relativa preocupação com a pele (especialmente a pele do rosto). Algo normal, pensou o Teixeira.

Contudo, ao cabo das tais duas tardes e sete noites, notou que essa preocupação com a pele do rosto se manifestava com uma frequência muito maior do que inicialmente lhe tinha parecido. E, por vezes, nos momentos mais inoportunos. O caso entre eles deu para o torto quando o Teixeira  tomou consciência de que sempre na hora H, quando a noite aquecia e ele começava a segredar-lhe ao ouvido coisas que só ao ouvido é costume segredar, ela invariavelmente lhe pedia: «Vai fazer a barba». Hipocondria dermatológica o Teixeira não podia tolerar!

sábado, 22 de janeiro de 2011

Entre as brumas da memória

Não precisei das recomendações do New York Times para, desde há vários anos, ter feito de Guimarães uma das minhas cidades de eleição. O enquadramento numa região de grande beleza natural, a riqueza histórica, a população maioritariamente jovem e a cultura palpitante, projetam-na, justa e merecidamente, a um lugar de destaque entre as cidades peninsulares. Centro histórico, Paço Ducal, Igreja de S. Miguel, Castelo e estátua de Afonso Henriques são pontos de visita quase obrigatória. Por lá passo com alguma regularidade, muitas vezes em jeito de guia turístico de amigos estrangeiros que me visitam. Assim aconteceu na semana passada.

Suponho que por causa do momento crítico que a nação atravessa, detive-me mais tempo do que o normal em frente à estátua do Fundador. Mais tempo do que o normal e, agora constato, mais tempo do que o recomendável. Uma série de pensamentos profundos e contraditórios (muitos deles inconfessáveis) passaram-me pela memória nesses instantes. A imprudência foi paga na noite seguinte com um sonho estranho: eu morria e, acabado de chegar ao paraíso, dava de caras com Afonso Henriques. Encontrava-o vestido a preceito, não faltando elmo, espada nem escudo. Indumentária um pouco estranha para quem se encontra no paraíso, mas como é bem sabido, os sonhos são criações da mente com estranhas associações de ideias.

Vendo chegar um português (tenho uma vaga ideia de uma etiquetagem à entrada que me deixou com uma bandeirinha portuguesa na lapela), Afonso Henriques apressou-se em minha direção, ávido de notícias sobre Portugal. Mostrei -lhe a minha estranheza pela falta de portugueses que lhe tivessem levado notícias recentes, ao que ele me respondeu:
 Estou na ala dos ilustres. Ultimamente não aparecem por cá muito portugueses. Há uns meses conversei algumas horas com o José Saramago, mas logo ele foi chamado para o grupo dos mais íntimos do Filho.
 Íntimos do Filho?! Jesus?
 Sim, o Todo-Poderoso.
 Não é o Pai quem manda?
 Não, o Pai aposentou-se há séculos, cansado de enviar sinais sobre a terra e ver o seu povo continuar tão pecador. Cedeu a liderança ao Filho, que a exerce de maneira bastante mais suave, deixando ao cuidado do povo a interpretação dos muitos sinais já enviados ao longo dos tempos.
 Ah, interessante sinal de maturidade conferido ao povo. Mas voltando a Saramago...
 Sim...
 Espanta-me que esteja aqui. Ele era profunda e convictamente comunista.
 Pois, por isso mesmo, o Filho adora comunistas. Diz que são os que melhor interpretaram a mensagem que deixou na terra. Uma mensagem de partilha e igualdade acima de tudo. Além do mais, adorou um livro escrito por Saramago, por fazer jus ao seu lado humano. Ao que consta, estava farto que lhe reconhecessem apenas o lado divino.
 A sério?
 Sim.Veja bem: dignar-se descer à terra, tornar-se homem entre os homens, aceitar ser sacrificado e, depois, não lhe valorizarem o lado humano é indecente, não acha?
 Sim, de facto... .
 Mas conte-me, conte-me como anda o país.
 Bom, já deve saber que nos tornamos numa república há cerca de um século.
 Sim, sim, essas coisas eu sei, quero notícias recentes.
 Então indo direto ao assunto: o país encontra-se numa profunda crise financeira e debate-se com sérios problemas de subsistência.
 Ai sim? A república democrática não consegue passar incólume a esse tipo de problemas?
A pergunta, em tom irónico, vinda de alguém seguramente pró monárquico absolutista, causou-me alguma irritação. Contrapus:
 No fundo, no fundo a culpa de tudo isto é sua.
 Minha?!
 Sim, não foi o senhor quem fundou o país?
 Ah... sob esse ponto de vista. Mas, meu caro, em oito séculos podiam ter avançado muito.
 E tentamos. Chegamos a dominar meio mundo. Mas o império desmoronou-se e, no final, pouco ficou. Continuamos com a velha sina de povo relegado ao abandono pela Europa.
 E por que não se aliam a essa Europa?
 Já nos aliamos...
 E então?
 Nada. Uns fundos comunitários, umas estradas e uma série de maus vícios de novo-riquismo foi o que restou. Neste momento estamos completamente à mercê dos mercados.
 Mercados?! Fruta, legumes, carne...?
 Não, não!... Mercados financeiros. Especuladores...
 Mas não é presidente Cavaco Silva, um grande especialista na área?
 Hum, vejo que anda muito bem informado.
 É, sobre esse Cavaco falou-me bastante o Saramago.
 Pois, imagino...
 E que tem feito Cavaco?
 Neste momento anda em campanha eleitoral para a reeleição. Mas nos cinco anos de mandato exerceu uma magistratura de influência.
 Exerceu o quê?!
 Uma magistratura de influência.
 Que é isso?
 Ao certo não sei, mas a julgar pelo que tem vindo a público, creio referir-se à influência que Cavaco tem exercido para salvar a pele de uma quadrilha de amigos encapuçados de banqueiros que, com um gigantesco roubo, ajudaram a aumentar o buraco financeiro do país.
 Então vai ser complicado ser reeleito...
 Não sei, ele já assegurou que no próximo mandato exercerá uma magistratura ativa.
 Ai sim? Deve querer dizer que da próxima será ele o ladrão...

Quadrilha, roubo, ladrão... esses termos associados ao representante das mais altas instâncias da nação causaram-me um grande mal-estar que, de imediato, me fez despertar desse sonho tão incomum. É bom salientar que tudo isto se passou ao nível do subconsciente. De forma consciente, eu jamais ousaria dizer (ou até pensar) essas coisas sobre o presidente e seus amigos. Aliás, repare-se na megalomania do meu subconsciente, que não só ousa entrar no céu, como ainda se guinda à ala dos ilustres. Devo confessar que não é nada fácil conviver com um subconsciente como o meu...

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Inglês com H

A letra H poderia ser facilmente omitida no alfabeto português, dado que não tem som próprio. A sua importância resume-se aos casos em que é precedida das letras C, L ou N. Para substituir o CH, temos o X; para os outros casos, na língua espanhola resolveu-se facilmente o problema escrevendo LL para algo muito parecido com o nosso LH e Ñ para o NH. Podíamos fazer a mesma coisa e, dessa forma, economizar nos teclados de computador e no enfado das nossas criancinhas a aprender o abecedário. Os italianos, por exemplo, baniram J, K, W, X e Y e continuam a expressar-se melhor do que ninguém — compensam com as mãos!

Pode parecer brincadeira (e até é), mas o assunto tem alguma (ainda que ténue) seriedade: o H, sem um som próprio no português, cria-nos um falso sentimento de inutilidade da letra em outras línguas. Vejamos o caso do inglês, por exemplo. Um português típico fala um inglês de nível muito aceitável (José Sócrates não é típico), com esse grande senão da sonoridade (ou falta dela) do H. Pensa-se, erradamente, que também no inglês o H é o parente pobre do abecedário e esquece-se que nesse idioma o H tem quase sempre vida própria. O H tem um som relativamente próximo do nosso R — o de garganta, não aquele emitido com a ponta da língua —, mas muito mais suave. Para melhor ilustrar a coisa, digamos que um som a meio caminho entre esse tal R bem suavizado e um suspiro bastante acentuado.

Falamos o nosso idioma de um jeito tão arrevesado que, com exceção de algumas línguas orientais, temos similar a praticamente todo e qualquer som em outra língua estrangeira. O problema dos orientais é que resolveram simplificar na variedade de sons e complicar no modo como atacam as sílabas. Aquilo é feito com base na intensidade, com um sobe e desce quase constante. Em chinês, por exemplo, com muita persistência e sofrimento da minha parte (e da parte de quem pacientemente me ensinava), consegui chegar a razoáveis ataques às palavras nihao, xiexie e pijiu. Digamos que, as duas primeiras para poder ser simpático, e a terceira para não morrer à sede por aqueles lados.  No caso da pijiu — que nunca atingi o requinte de conseguir pedi-la bem gelada —, achei por bem nem solicitá-la com muita frequência, sob pena de começar a enrolar a língua.

Estas subtilezas linguísticas trazem-me à memória uma das muitas piadas que no Brasil surgiram na sequência da morte do Ayrton Senna — eles têm um jeito muito peculiar de mitigar a dor. Rezava assim: «no funeral de Ayrton Senna todos choraram, só o Damon Hill» (note-se que para os brasileiros o L no final tem som de U). A piada é ligeiramente subtil e não tão ligeiramente boba, mas ilustra o esforço dos brasileiros na tentativa de evitarem o erro lusitano com o H inglês. Infelizmente, exageram no tal suspiro. É pena.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Praticamente sem saída

Você, que já alguma vez firmou contrato de entrega corporal e afetiva com dedicação exclusiva a uma mulher, sabe como é difícil manter esse contrato em condições saudáveis. Mesmo que tenha a ficha cadastral sempre impecavelmente limpa em pensamentos, palavras, atos e omissões, chegará inevitavelmente o dia em que sofrerá alguma acusação. Não se iluda, encontrar indícios de criminalidade punida por lei com base no contrato em vigor é uma das missões da mulher na relação conjugal. E os possíveis indícios são tantos, que o mais prudente é tentar manter sempre muito bem fechado o flanco das prováveis investidas pidescas da sua companheira.

Se já tem experiência no ramo, sabe perfeitamente que há palavras que não podem nunca ser proferidas. Na pior das categorias estão os nomes. E no ponto mais alto da perigosidade está o nome daquela sua amiga que quase deu caso, todos sabem perfeitamente que é pretérito mais-que-perfeito, mas a sua mulher prefere sempre pensar que ficou mal resolvido. Na categoria imediatamente a seguir vem o lote das mulheres proibidas. Proibidas pelo seu contrato de entrega corporal e afetiva, mas, principalmente, porque você nunca terá arcabouço para conseguir sequer chegar perto de alguma delas. Mas não se iluda, nem assim está protegido: aos olhos da sua mulher você é substancialmente melhor do que a realidade!

Uma das últimas a entrar para essa galeria de mulheres proibidas foi a Rita Pereira. Salvo o caso de ter andado a seguir as novelas da TVI nos últimos anos (trata-se de uma mera situação hipotética, pois sei perfeitamente que você não é desses), se em casa tiver o descuido de proferir esse nome, a sua situação ficará bastante complicada. A partir daí tem algumas saídas:

Saída nº 0: você diz que tem uma colega de escritório com esse nome. A parte do cérebro feminino capacitada para deduzir que no seu escritório não teriam a menor condição financeira para contratar a Rita Pereira bloqueia instantaneamente a estímulos de pavor. Esqueça essa saída.

Saída nº 1: você diz que ouviu falar dela no escritório, mas não viu o vídeo. Não tente menosprezar a inteligência da sua mulher. Acha que ela acredita que logo você, que usa o YouTube por tudo e por nada, iria deixar passar uma dessas? A mentira é o pior dos defeitos numa relação conjugal.

Saída nº 2: você diz que ouviu falar dela no escritório e viu o vídeo, mas achou-a demasiado vulgar. A vulgaridade não é nunca assumida pela mulher como algo não atraente para um homem. O cinismo é, a par da mentira, o pior dos defeitos numa relação conjugal.

Saída nº 3: você diz que ouviu falar dela no escritório, viu o vídeo e gostou, mas continua a preferir a sua mulher. Nesse caso, ela vacila por três segundos, mas logo reage na plena consciência de que a  hipocrisia é, a par da mentira e do cinismo, o pior dos defeitos numa relação conjugal.

Em suma, se você tiver o descuido de mencionar o nome da Rita Pereira no recesso do seu lar, terá um sério problema para resolver. Metaforicamente, será uma daquelas situações muito frequentes em filmes, onde um fugitivo entra numa rua bloqueada por uma cerca que só com muita destreza consegue pular. Convenhamos, pular a cerca não é das coisas mais recomendáveis para consertar o que quer que seja numa relação conjugal. Por segurança, evite até falar de mulheres que tenham no nome Rita... ou Pereira. E, por segurança máxima, evite mesmo falar em pera. Associação de ideias é uma das coisas mais assustadoras no sexo feminino!

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Alto plano de autoajuda

Tenho um plano (quase) infalível para que consiga ser superior a praticamente tudo que o apoquenta: vizinha, mulher, filhos, prestação da casa, leasing do carro, resultados do Benfica e tudo mais no plano da sua vida. Deixe-se de lamentações e suba ao telhado — só não o faça num dia de chuva, sob pena de este alto plano de superação pessoal poder redundar num fatal descanso eterno, em plano inferior; fora esse detalhe, o plano é infalível. Verá lá de cima o entra e sai da vizinha, a mulher e os filhos saírem de sua casa no tal carro a leasing e o vizinho a fumar, perturbado pelo resultado do Benfica. E você lá em cima, superior a tudo. Se gosta de fumar, fume. Mas descontraído. Não conhece o resultado do jogo, porquê preocupar-se com algo que não conhece?

Aproveite para pensar na vida, mas não na realidade comezinha que o apoquenta, como (o advérbio, não o verbo) vizinha, mulher, filhos, prestação da casa, leasing do carro, resultados do Benfica e tudo mais no plano da sua vida. Agora está num plano superior. Pode dedicar-se a meditar sobre questões muito mais relevantes para a humanidade: «Qual a origem do universo?», «Deus existe?» ou «O que pensam os mercados?», por exemplo. Diga-me uma coisa: há quanto tempo não para para pensar nessas questões realmente importantes? Tudo o resto é supérfluo. Pense na idade do universo. A sua vida dura menos do que um infinitesimal grão de areia nessa imensa praia do tempo e os seus problemas quase sempre duram menos do que a sua vida.

Leve mantimentos para uns dias e cobertores para umas noites. Vai poder apreciar, lá de cima, as preocupações de alguns que o amam (e provavelmente não sabia) e as de outros que não o amam (e provavelmente também não sabia) e lhe causam muitos problemas. Esqueça que este é um plano relativamente egoísta, pois é só por uns dias. Quando descer, será internado para avaliarem o seu estado de saúde e curarem a sua gripe ou pneumonia. No pior dos casos vai passar uns dias num hospital psiquiátrico para averiguarem a sua sanidade mental. Mas, acima de tudo, vai sentir o amor, o carinho e a preocupação de todos aqueles que gostam de si. Vai sentir-se novamente amado. Vizinha, mulher e filhos vão fazer questão de demonstrarem um amor infinito e incondicional.

Acha que não? Por mais paradoxal que possa parecer, teme receber confirmação da falta de amor da parte de alguns que julga que o amam? Então não leve comida nem cobertores e suba só por uns breves minutinhos. Leve apenas as questões «Qual a origem do universo?», «Deus existe?» ou «O que pensam os mercados?» para meditar. Depois desça e verá como volta mais leve. Resolver problemas relacionados com vizinha, mulher, filhos, prestação da casa, leasing do carro, resultados do Benfica e tudo mais vai parecer-lhe muito simples.

Detalhe importante: o plano só resultará se subir ao telhado de forma convicta e realmente empenhado em responder às questões «Qual a origem do universo?», «Deus existe?» ou «O que pensam os mercados?». Ou questões similares que já lhe tenham passado pela mente em momento especialmente filosófico. «Onde deixei o meu telemóvel?» não serve.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Três grandes desilusões

Não sei que poder mágico possui o número três, mas coisas verdadeiramente importantes acontecem com muita frequência aos trios: três desejos, três poderes, três reis magos, três mosqueteiros (mesmo sendo quatro....), santíssima trindade, ménage à trois, trilogias aos molhos! É inequívoco que existe algo de transcendente no número três. De um ponto de vista meramente matemático, no máximo do brilhantismo, consigo chegar à conclusão de que três é o primeiro primo ímpar. Sim, e daí? Tem que haver algo mais para lá da Matemática!

Querendo também eu aproveitar o enigmático simbolismo numeral, resolvi abordar o tema das grandes desilusões da vida em número de três. A primeira digna de registo ocorreu num chuvoso fim de tarde de Dezembro, aos sete anos de idade. Chovia de forma tão copiosa que a professora resolveu reter-nos na sala de aula mais alguns minutos além do tempo regulamentar. Para nos entreter, pediu-nos que falássemos sobre o Natal. Nem foi a revelação de que o Pai Natal não existe que me causou tão grande desilusão, mas a forma como o meu colega Baptista começou a abordagem: «Toda a gente sabe que o Pai Natal não existe». Pouco importa o que disse a seguir. O que realmente importa, a ponto de me marcar para sempre, foi a forma como assumiu que TODA a gente sabia. Toda a gente?! Eu não sabia... e nem desconfiava! Senti-me um tremendo idiota. Apesar da tenra idade, dificilmente voltei a sentir-me tão desiludido comigo mesmo. Como pude andar anos (não muitos, tinha só sete) a acreditar que aquela fugaz visão de algo escuro na chaminé, numa anterior madrugada de 25 de Dezembro, eram os pés do Pai Natal? No mínimo, devia ter desconfiado que pudesse haver remela no olho!

Depois dessa, muitas outras desilusões: amorosas, desportivas, profissionais, religiosas, de tudo um pouco, mas quase nenhuma que me venha à memória sem a árdua tarefa de ter que puxar por ela. É então, por volta dos meus trinta anos, que surge aquela que pode ser guindada ao mesmo patamar da desilusão provocada pelo Baptista. A expectativa era tão grande nos momentos que antecederam aquela minha primeira visita ao museu do Louvre que, mal entrei no museu, dirigi-me apressadamente para a sala onde estava exposta a Mona Lisa. Eu já devia saber que o quadro tinha apenas 77cm × 53cm, e assim ter evitado o primeiro impacto negativo. Mas o pior foi a inacessibilidade e a falta de ambiente para apreciar, frente-a-frente com a obra original, o sorriso enigmático da retratada, a posição das mãos, as pinceladas do Leonardo da Vinci. Aquele magote de japoneses que não arredava pé venceu-me de forma implacável e deitou por terra toda a minha expectativa de um momento de raro deleite artístico.

Quanto à terceira grande desilusão... Bem, aflorá-la é complicado. Tenho uma vaga ideia de que, entre as duas já citadas, o Veloso falhou um penalti que ditou uma derrota numa final da Liga dos Campeões. Mas essa levou tanto tempo a curar que continuo a preferir não entrar em detalhes.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Um Natal singular

A Alzira não conseguia entender o que provocara no Nicolau tão profunda mudança de comportamento nos dias que antecederam este Natal. Sempre lhe dissera que nem em criança atribuiu muito valor à data: digno de registo, apenas uma ligeira motivação religiosa, mas apenas enquanto a promessa da avó de um chupa-chupa após a missa se revestiu de algum interesse. Daí para a frente, só as filhoses da avó conseguiam despertar-lhe igual interesse pela data. Chegou a propor à avó filhoses noutras datas, mas em vão. Até aos últimos dias de vida, a avó mostrou-se sempre renitente: filhoses só no Natal e Natal só em Dezembro. Nem em Maio, no aniversário do Nicolau.

A Alzira acreditava que o ambiente familiar onde crescera teria contribuído de forma decisiva para a postura do Nicolau. Especialmente a forma relativamente austera com que os pais encaravam os bens materiais que não eram considerados estritamente necessários. Do lado espiritual, nem a religiosidade da avó empolgara o Nicolau mais do que nos anos do chupa-chupa. Rapidamente deu por perdida a tentativa de catequização de mais uma geração.

Este ano, algo de anormal se passou nos dias que antecederam o Natal: primeiro, a revelação de que pretendia trajar de Pai Natal para distribuir os presentes pela família; depois, a forma abnegada como procurou os adereços para trajar a preceito. Não pareceu à Alzira que o Nicolau tivesse feito isso para agradar aos filhos, pois havia já dois anos que o mais velho deixara de acreditar no Pai Natal e já se pressentia que também o mais novo estava a ponto de converter-se em descrente. Teria que haver motivo mais forte para que o Nicolau tivesse percorrido meia cidade à procura de botas, calças, casaco, gorro e, especialmente, a barba. Esta última, particularmente difícil de encontrar. Foi quase rude a indignação dele perante a sugestão da Alzira para que improvisasse uma barba em algodão. O desentendimento só não tomou maiores proporções, porque estavam ambos sem tempo para discussões.

A morte dos pais do Nicolau no curto espaço de um ano e o crescente cansaço da mãe da Alzira contribuíram de forma decisiva para que, após nove anos de casados, passassem a primeira noite de Natal em casa. A azáfama foi muito maior do que a previsão inicial da Alzira, mas tinha valido a pena. Esteve tudo perfeito: as entradas, o bacalhau e as sobremesas. Recebera elogios dos pais, da irmã, do cunhado e até do Nicolau (pelas filhoses). Até o ingrediente extra do enigmático trajar do Nicolau conferiu um colorido inesperado à noite.

A irmã e o cunhado já tinham voltado para casa. No andar de cima, os pais da Alzira dormiam num quarto e os meninos no outro. Restavam apenas a Alzira e o Nicolau, lado a lado no sofá. A Alzira observava o Nicolau ainda com as vestes vermelhas e a enorme barba branca. Sentia-o distante, mas era inequívoco o seu olhar de felicidade por entre o emaranhado de pelos na cara. Chegava a cofiar a barba! A Alzira acreditava que com algum tempo para conversarem, finalmente ouviria do Nicolau explicação razoável para mudança tão radical do seu comportamento neste Natal. No exato momento em que se aprestava para abordar o tema, o Nicolau abandonou o seu ar introspetivo e, numa observação em ligeiro tom de lamento, deixou-a desarmada: 
— Faltaram as renas...

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Fédération Nationale d’Achats des Cadres

A FNAC, tratando-se de uma multinacional de grande sucesso, é natural que encerre alguns mistérios. A começar pelo seu nome, que em francês é sigla para algo como Federação Nacional de Compras dos Quadros (não se infira do nome que a FNAC surgiu como uma federação de galerias de arte pictórica, ou algo do género, pois a palavra "quadro" é aqui utilizada para designar gerente de empresa). Quem visita alguma das atuais lojas da cadeia não imagina que na génese daquele lugar esteve uma federação com esses objetivos. Mas o maior e mais ambicionado dos mistérios será, certamente, a sua fórmula de sucesso para a captação e fidelização de clientes.
 
Há dias, recebi uma mensagem eletrónica da FNAC anunciando uma pré-venda. Ciente de que tais pré-vendas são, normalmente, lançadas para os produtos mais desejados pelo grande público (produtos esses que rapidamente chegam à condição de esgotados), é com satisfação que me sinto brindado por tais anúncios. Aberta a mensagem, constato que se trata de um CD+DVD do Tony Carreira, incluindo (como brinde) um CD single da nova balada do artista, com a possibilidade de (pagando mais cerca de 50%) receber uma edição especial limitada, num exclusivo FNAC, autografada pelo artista. Tentador, muito tentador!

Duas reflexões me surgiram na sequência dessa mensagem. A primeira delas, o titulo da obra fono/videográfica: «O Mesmo de Sempre». A reflexão foi mais ou menos nos seguintes termos: «Ora, aí está um artista honesto. Assume aberta e francamente que não traz nada de novo: o mesmo de sempre. E daí? Quantos não se perpetuam em sequências de trabalhos que nada acrescentam de novo? Muitos o fazem e disfarçam, este tem a honestidade de o confessar. Boa Tony, os fãs apreciam um artista com caráter. Pena eu não ser fã, senão comprava!»

A segunda, e última, reflexão (convenhamos que para o artista em causa até já foram reflexões a mais), surgiu sob a forma de questionamento: «Julgava que uma empresa como a FNAC, que até tem um cartão de fidelização de clientes, pessoal e intransmissível, tinha uma política de publicidade direcionada. Mas, pelos vistos, enganei-me. Ou não me enganei? Se não me enganei, que diabo de produtos andei eu a comprar para agora receber esta proposta com o produto do Tony?» 


Com tais questionamentos, fica claro que continuo pouco esclarecido sobre a fórmula de sucesso da FNAC para a captação e fidelização de clientes: se, por um lado, no caso do Tony a mensagem eletrónica falhou redondamente, por outro lado, não esqueço que há uns anos funcionou na perfeição, pois foi precisamente por essa via que tive o meu primeiro contacto com a Carla Bruni. A intermediação da FNAC foi de tal forma eficiente que, num ápice, ela passou a invadir-me as noites com a sua voz quente e sensual e, em privado, fazer-me sentir Le Ciel Dans Une Chambre. Isso antes, muito antes do Nicolas Sarkozy lhe ter posto o olho em cima!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O cafeteiro Mr. Clooney

Aquém e além fronteiras nunca me canso de enaltecer os méritos do café expresso que se pode tomar em Portugal. A par da Itália, o país onde mais facilmente se encontra (quase ao virar de cada esquina) um excelente café com notas altas em sabor, aroma, concentração, temperatura e preço. Sendo certo que não temos o mérito de produzir o grão, nem de ter inventado a máquina, temos o grande mérito de saber utilizar o que outros produzem de bom. Pode parecer fácil, mas, a grande verdade, é que muitos tentam e só poucos conseguem.

No entanto, há algum tempo que sinto pairar no ar uma forte ameaça a essa nossa excelente tradição: um número significativo de portugueses, quiçá com sede de modernidade, têm resolvido dar protagonismo desmesurado a um americano que por aí apareceu a apregoar um tal de nespresso, ameaçando colocar em risco a verdadeira arte do café que tão bem aprimorámos. Se se tratasse de uma mulata tropical, até entendia que tivesse chegado para dar um sabor mais apimentado ao grão, mas um americano? Esses americanos lá sabem o que é um bom café? Nos Estados Unidos, pede-se um café e recebe-se em troca um balde de água quente, onde, na melhor das hipóteses, pode ter sido lavada uma chávena de café.

Custa-me a entender o sucesso desse nescafé expresso em pastilhas coloridas e máquinas futuristas. Estarão os portugueses e as portuguesas assim tão rendidos ao charme e à presunção de Mr. Clooney? Confesso que só encontro essa explicação para que, Natal após Natal, continuem a formar-se extensas filas de sedentos do produto que o americano apregoa no interior de templos nespressados. Caramba, se fazem isso para poderem continuar a ver com frequência o grisalho em campanhas publicitárias de TVs e painéis publicitários, contratem-no para vender muffins... Ou donuts.  Disso os americanos entendem! E, no caso dos donuts, até os sabem confecionar com suficientes variantes para, de igual forma, conferirem um belo colorido às prateleiras.

Há quem alegue, em defesa desse tal nespresso, a forma prática e higiénica como tudo se processa. Veja-se o ponto que isto chegou: ameaça-se dar cabo de uma excelente tradição de longa data só para se economizar no trabalho de colocar o pó, deitar fora a borra e lavar o filtro de uma tradicional máquina de café expresso. Continuando a enveredar por esse caminho abstruso, temo muito que, a breve trecho, tenhamos, na boa tradição da mesa portuguesa, a alheira de Mirandela substituída por alguma barra de cereais!

domingo, 12 de dezembro de 2010

Entre o garrote e a intervenção cirúrgica

O garrote foi um método de execução introduzido em Espanha no início do século XIX. Consistia esse método em colocar uma ligadura, corda, arame, ou similar, em torno do pescoço da vítima e apertar até ao estrangulamento. Hoje em dia, o garrote é apenas um artifício de primeiros socorros visando a compressão de um membro corporal afectado por uma hemorragia grave. Trata-se de um recurso extremo, que deve ser aplicado com grande precaução e por um curto período de tempo, até que intervenção cirúrgica possa ser assegurada.

Em sentido metafórico, não será difícil conceber a aplicação de garrotes nas mais diversas situações. Assim podemos considerar os casos da intervenção militar nas favelas do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, e as medidas de austeridade financeira aplicadas a algumas faveladas economias europeias. Lá, como cá, houve nos últimos anos traficantes confortavelmente instalados no alto do morro, de lá ditando leis sobre um território aparentemente sem lei e perante a complacência daqueles que tinham por obrigação controlar o espaço. Traficantes de droga, no caso carioca, e traficantes da alta finança, no caso europeu. Aplicar um garrote a qualquer uma destas zonas problemáticas e deixá-la a definhar é sempre uma opção fácil, se não houver preocupação com o dia seguinte. Difícil é ter engenho e arte para reunir os meios indispensáveis de complementá-la com uma intervenção cuidadosa visando sanar a origem do mal.

No caso carioca, foram vários os governadores que passaram pelo estado do Rio de Janeiro e prolongaram o abandono a que vinha sendo deixado o povo nas favelas, constantemente oprimido pelo poder bélico (entenda-se lei) dos traficantes de drogas. Cabe o grande mérito na mudança de rumo ao atual governador do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, em colaboração com o Ministro da Defesa brasileiro, Nelson Jobim. Resulta já dessa ação algumas dezenas de traficantes neutralizados e uns quantos que escaparam pelo esgoto. Ficará para o futuro um morro mais limpo, que proporcionará uma vida mais digna a uma larga maioria de gente trabalhadora e honesta que durante todo este tempo tem habitado a favela.

No caso europeu, dada a complexidade do emaranhado poder da União Europeia e a necessidade de uma posição firme para "acalmar os mercados", seria quase inevitável que o comando de uma bem sucedida intervenção financeira ficasse a cargo de um dos líderes das quatro grandes potências que integram a União. Quase por exclusão de partes (e alguma vontade própria), essa responsabilidade acabou por cair nos ombros de Angela Merkel. Nicolas Sarkozy, ainda no rescaldo de uma lua-de-mel, e a braços com inúmeros problemas internos causados por um povo reivindicador e contestatário, mostrou-se sem tempo para esse papel; Silvio Berlusconi, pública e reconhecidamente vivendo numa onda de consecutivas luas-de-mel, menos tempo tem ainda; David Cameron, fiel aos preceitos da velha política britânica, quer primeiro resolver os problemas da ilha, depois os problemas da ilha e, só no final, os problemas da ilha  apesar de algumas singularidades vigentes na ilha, os dias por lá continuam a ter apenas 24 horas.

A tarefa sobrou inevitavelmente para a zelosa chanceler alemã, aquela que é descrita pelos diplomatas americanos como "contrária à tomada de riscos e raramente criativa". Se, numa primeira fase, é plausível admitir-se a adoção do garrote como solução de emergência para acudir ao sangramento das problemáticas finanças de alguns países da União, urge também que esse seja complementado com uma minuciosa ação cirúrgica, de modo a fazer descer pelo esgoto os traficantes da alta finança e, ao mesmo tempo, assegurar dias melhores aos habitantes das zonas afetadas, vítimas maiores dos ímpetos gananciosos desses mesmos traficantes. Contudo, Angela Merkel tarda em dar mostras de querer aliviar o garrote que, aplicado de forma cruel e cega, estrangula as já deprimidas economias e, inevitavelmente, acabará por causar sérios danos às zonas financeiramente mais problemáticas.

E assim vai  uma parte significativa do nosso mundo nos tempos que correm: entre a cirúrgica intervenção militar nas favelas do Complexo do Alemão e o garrote financeiro aplicado às faveladas economias europeias sob comandado da simplista alemã.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A lógica do dragão

Acredito que seja necessária alguma capacidade filosófica para entender que o todo é maior do que a soma das partes. No entanto, já não acredito que seja necessária mais do que mediana capacidade lógica para entender que o todo é maior do que qualquer uma das partes. Acredito eu, mas pelos vistos, nas estruturas diretivas do FCP impera um outro tipo de lógica. Pensarão desde já alguns que impera a lógica da vitória; pensarão outros, muitos mais, que impera a lógica da vitória a qualquer preço. Desta vez vou abster-me dessas polémicas aparentemente subjetivas e focalizar-me em questão lógica e inequivocamente objetiva.

A estrutura do FCP encontra-se organizada essencialmente em quatro categorias: dirigentes, associados, atletas e árbitros. Faz parte da filosofia dessa agremiação acariciar os interpretes destas três últimas categorias com prémios. Anualmente, no caso dos associados e atletas, e com maior frequência, no caso dos árbitros. Sabe-se, com base em irregularidades atrozes perpetradas por juízes e agentes judiciários que as decisões sobre os árbitros acariciados e as formas de acariciamento são tomadas diretamente por quem está no vértice mais alto da pirâmide organizativa, entre eles vulgarmente designado por «meu presidente». Presidente esse, já em si, dotado de uma lógica muito especial. Na vida pessoal, por exemplo: rapaz muito namoradeiro (nada de anormal), troca frequentemente de namorada (continua normal), leva a relação ao extremo (normalíssimo), mas acaba sempre por casar com uma mesma que tem numa espécie de reserva.

Acredito que, também no caso de associados e atletas, a decisão sobre os premiados seja tomada nas mais altas instâncias. Para associado da época 2009/2010 escolheram Rui Moreira, associado que acabava de abandonar, de forma abrupta, o local onde acerrimamente defendia os interesses do clube. Premiação relativamente estranha, mas há pior. As modalidades praticadas na agremiação desportiva são as mais variadas, o que provoca, inevitavelmente, a existência de diversos tipos de atletas. Relativamente à época 2009/2010, decidiram que o distinguido como atleta do ano seria Falcao. Neste particular, também me pareceu estranho que tivessem decidido premiar o atleta de uma modalidade cuja equipa ficou em terceiro lugar no respetivo campeonato, mas o pior veio depois: Hulk é premiado como... futebolista do ano!

Alto. Parece-me que aqui, além de falcão, também há gato. Então os futebolistas não são atletas? Como pode Falcao ser o atleta do ano sem ser o futebolista do ano? Entendo que queiram também premiar um futebolista que andou três meses a mandar bolas para a bancada e, por ter espancado um segurança, tenha passado outros tantos meses sentado nessa mesma bancada a ver os colegas suarem as estopinhas. Mas não havia necessidade de pontapearem a lógica dessa forma. Se a vontade de premiar o Hulk era assim tão grande (ou seria receio de um novo espancamento?), podiam tê-lo incluído noutra modalidade. Carateca, por exemplo, nem me parecia muito despropositado.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Carta aberta a Mira Amaral

Ex.º Senhor
Dr. Eng.º Mira Amaral,

Sabendo de antemão que o senhor tem habilitações académicas em Engenharia e Economia, e na dúvida sobre qual o título onde recai a sua preferência, optei por brindá-lo com os dois. Estamos em época natalícia e não devemos poupar na generosidade para com os outros, não é mesmo assim?

Mas é precisamente devido a uma certa falta de generosidade da parte do Sr. Dr. Eng.º que resolvi escrever-lhe. São já diversas as vezes que o ouço nos meios de comunicação social apregoando as suas doutas verdades, de forma genérica e abstrata, sobre o mau comportamento profissional dos portugueses. Hoje de manhã foi na Antena 1. Chamado a pronunciar-se sobre os feriados (e algumas prováveis pontes) de 2011 e os mais do que previsíveis malefícios desses ociosos dias para a nação, afirmava o Sr. Dr. Eng.º, em tom de mandamento do dia, que os portugueses devem "trabalhar mais e melhor", ao invés de continuarem numa vida "calma" e "doce". Assim, sem meias palavras nem exceções, a frio (como o tempo).

Coincidiu estar eu, nesse preciso momento, na padaria da esquina a comprar o pão da manhã. Em simultâneo, observava o Sr. Silva, padeiro em torno dos seus 50 anos, por detrás do vidro que separava a área de produção da área de venda. Era segunda-feira, manhã cedo, e ele acabava de passar mais uma noite amassando e cozendo o pão que muitos como eu iriam comer. Tinha o ar de alguém profundamente cansado. As palavras do Sr. Dr. Eng.º fizeram-me pensar na vida profissional daquele homem que eu observava do outro lado do vidro, num local confinado e quente, suando abundantemente, apesar do rigoroso inverno que se fazia sentir lá fora. Pensei em como, seguindo a sua douta opinião, poderia resgatá-lo daquela vida "calma" e doce" e fazê-lo "trabalhar mais e melhor". Confesso que, nas condições em que vi o Sr. Silva, não vislumbrei até agora outra forma de seguir o mandamento do Sr. Dr. Eng.º sem que tivesse que o sujeitar a algo mais do que humanamente razoável. E, da mesma forma que aqui  refiro o caso específico do Sr. Silva da padaria, poderia também referir muitíssimos outros casos de profissionais sérios e competentes a quem, sem exceção, acabam sendo dirigidas as suas palavras.

Perdoe-me se, na minha modesta posição, respondo a uma afirmação genérica, resultante de ato ponderado de alguém tão bem recompensado financeiramente pela nação, com o caso específico de um profissional remunerativamente tão insignificante como o padeiro. Mas, convenhamos, na mesma medida em que peco pela especificidade do exemplo que contraponho a uma afirmação genérica e abstrata, peca também o Sr. Dr. Eng.º pela leviandade com que atesta a malandrice e incompetência de muitos casos como o que aqui especifico. A grande verdade é que pouco importa quem mais peca, pois estamos em época de Natal e ambos seremos facilmente perdoados.

Mas vamos ao que considero realmente importante e me motivou a escrever esta carta. Dado o à vontade com que o Sr. Dr. Eng.º se movimenta em Portugal, tanto no meio económico-financeiro como no meio político (perdoe-me a redundância, trata-se apenas de uma figura de estilo para reforçar a direção do meu apelo), rogo-lhe, encarecidamente, que se reúna com alguns dos seus amigos mais competentes para redigirem umas diretivas mais precisas sobre o sentido em que devemos avançar: setores improdutivos, profissionais incompetentes, malandros de cada setor e terapia específica. Uma espécie de tábua da lei para o avanço de Portugal. Há-de convir que afirmações genéricas sobre a malandrice e a incompetência de um povo têm o sério defeito de desmotivar quem já trabalha a preceito (o Sr. Silva da padaria, por exemplo). Numa primeira fase, não precisam de ser muito exaustivos, basta uma meia dúzia de setores. Depois, seguindo o saudável hábito dos meios onde o Sr. Dr. Eng.º tão facilmente se movimenta, cria-se um instituto específico, nomeia-se uma boa dúzia de gestores públicos com horário leve e principesca remuneração (estímulo necessário para a boa execução das suas tarefas) e a coisa fluirá.

Escusado será pedir-lhes que cumpram a tarefa com honestidade e competência, pois sei perfeitamente que o Sr. Dr. Eng.º e os seus pares colocam sempre esses atributos em tudo que fazem e dizem, principalmente quando é em prol do bem público. Contudo, não ficaria de bem comigo mesmo se não lhes pedisse para, nas muitas variáveis que serão forçados a considerar num estudo sério deste tipo, levarem em consideração que as capacidades de trabalho deste malandro e incompetente povo (refiro-me à arraia-miúda, não às elites, claro) são frequentemente apreciadas pelos gestores das empresas nos sete cantos do mundo para onde costumam emigrar.

A todos um bom Natal!

sábado, 4 de dezembro de 2010

A televisão do Almeida

Logo nas primeiras conversas do Almeida com a Clarisse sobre o casamento que os viria a unir, decidiram que abdicariam da televisão. O tempo em casa seria para se dedicarem um ao outro, diziam eles. Dedicarem-se e entregarem-se, dizia o Almeida no círculo mais íntimo de amigos.

Coincidiu passar a haver menor frequência das entregas com a entrada do computador em casa. O aparelho que deveria servir para comunicar mais frequentemente com os familiares distantes, contribuiu, por outro lado, para uma mais deficiente comunicação entre o casal. Sob a pior das formas: falta de tempo para a expressão corporal. Aquilo que anos antes lhes custara algum desconforto no carro e muito dinheiro em motéis, e que parecia ser o farol da vida e o sentido da existência, convertera-se agora numa atividade tão banal (e muito menos frequente) quanto as entradas no Facebook ou os comentários no Público Online.

O Almeida não teve logo perceção de qual era a causa e qual era a consequência. Na verdade, ele era pródigo em confundir causas com consequências. E vice-versa. O Almeida também nunca foi muito dado a pensar sobre as grandes questões da vida. E para tudo tentava arranjar uma solução simples. Nunca o Almeida conversara aberta e francamente sobre o problema matrimonial que o preocupava, mas percebia-se nas conversas entre amigos que puxava o tema de forma recorrente. E tema recorrente só pode significar preocupação.

Quando a Clarisse engravidou, o Almeida pressentiu que o problema só poderia agravar-se ainda mais. No futuro, não seriam apenas as dores de cabeça da Clarisse e o apelo do computador que lhes roubariam o tempo que outrora fora precioso. Com o nascimento do Carlinhos, haveria alguém em casa que lhes monopolizaria tempo e atenção. E assim foi durante os primeiros anos de vida do pequeno: computador e Carlinhos roubaram quase todo o tempo que serviria para o Almeida e a Clarisse se dedicarem um ao outro. Dedicarem-se e entregarem-se.

Contudo, o Carlinhos cresceu. Subitamente, o computador e o pequeno que cresceu tornaram-se dois males que se anularam um ao outro: o Carlinhos ocupava o computador e o computador entretinha o Carlinhos. Mas o Almeida constatava que algo continuava errado na sua vida. Sentia necessidade de fazer alguma coisa para preencher o incontornável vazio. Tinha tomado uma decisão: iria comprar uma televisão!

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Jardim rico, jardim pobre

Caminhar por certas cidades europeias em determinadas épocas do ano é, em muitos casos, sinónimo de um prazenteiro desfrutar de cores e aromas que emanam de jardins espalhados por vivendas, ruas e praças.

Salvo algumas honrosas exceções, neste extremo da Europa o cenário tem vindo a acentuar-se como consideravelmente diferente. A começar pelos jardins públicos que entraram numa onda de austeridade muito antes dos tempos austeros terem chegado cá. Nalguns, porque os municípios que os detêm preferiram a sobranceria de um qualquer arquiteto taciturno ao desabrochar de algumas flores. Noutros, porque o orçamento que chega para pagar a gestores (supostamente baratos) de empresas camarárias, não chega para pagar a jardineiros (supostamente caros).  A austeridade prossegue nos jardins de muitas vivendas, onde, em muitos casos, só por desconhecimento do significado da palavra se pode continuar a designar o espaço por jardim.

O caso específico que aqui pretendo abordar é o de um jardim num certo estabelecimento comercial. Nas minhas caminhadas diárias até ao local de trabalho costumo passar por um prédio pertencente a uma instituição bancária de nome milenar. Em frente a esse prédio há um pequeno jardim que dantes tinha relva regularmente tratada e arbustos satisfatoriamente cuidados. De há uns tempos para cá, quem dirigia essa instituição terá decidido que o dinheiro que chegava para pagar jatos particulares de ex-administradores, deixara de chegar para cuidar do jardim.

Alguém faz ideia do preço dos serviços prestados por um jardineiro?

Cheguei a pensar mandar um e-mail para essa dependência bancária, alertando para o mau estado do jardim. Na época, era eu cliente da instituição e sabia que eles se preocupavam bastante com questões de imagem: nos vários anos da nossa relação não houve um único funcionário que não me tivesse recebido de gravata enlaçada! Pensando melhor, acabei por frear o meu ímpeto, pois diversas notícias davam conta de que a austeridade tinha atacado de forma implacável até o rico Jardim. Assim sendo, era natural que o pobre jardim tivesse que continuar mal cuidado. Optei por não perturbá-los, deixando-os com a atenção única e exclusivamente centrada nas inquietações dos mercados internacionais.

Para meu grande contentamento, constatei há dias que no exterior dessa tal instituição, jardineiros aparavam a relva e davam melhor aspeto aos esquecidos arbustos. Será este um primeiro sinal da retoma económica?