domingo, 1 de maio de 2011

O álbum de retratos

O amor da dona Lurdes pelo Marinho era de tal forma profundo que, em nome de um valor tão alto como a felicidade do filho, estava disposta a invadir a sua privacidade. O seu coração de mãe não aguentava mais ver o Marinho no estado de sofrimento em que tinha mergulhado depois que a Maria Helena o largou. Acima de que tudo, não podia permitir que ele continuasse a cultivar esse sofrimento: eram já sem conta as vezes que lhe batia à porta do quarto — nesse bater quase em simultâneo com o rodar do puxador — e o via esconder aquele maldito álbum vermelho no armário.

Foram também sem conta as vezes que a dona Lurdes avisou o Marinho de que não era normal o tempo que o Ricardo passava no apartamento deles. E, muitas dessas vezes, apenas na companhia da Maria Helena. Mas, de que adiantou? A todos os alertas o Marinho respondeu sempre com um «somos amigos de infância». E eram de facto amigos de infância. Três amigos de infância. Mas a dona Lurdes sabia — e o tempo veio comprovar que estava certa — que a amizade de infância nunca foi escudo para uma punhalada pelas costas. Foi assim que a dona Lurdes interpretou o modo como a Maria Helena abandonou a casa e a vida do Marinho para ficar com o Ricardo. Com um simples bilhete: «Fui viver com o Ricardo, não me procures».

O Marinho era um menino puro. Essa mesma pureza que anos antes fizera a Maria Helena optar por ele — em detrimento do Ricardo —, servia agora para ela facilmente descartá-lo como quem descarta uma peça de roupa sem utilidade. E para ficar precisamente com esse Ricardo, que outrora lhe parecera impuro. Sabia-se que, na época, o coração da Maria Helena tinha vacilado bastante entre o Marinho e o Ricardo e finalmente pendido para o lado da pureza. Mas, excetuando a dona Lurdes, ninguém vaticinaria que esse mesmo coração pudesse voltar a vacilar e pender agora para o outro lado.

O momento da dona Lurdes violar a privacidade do filho — em nome da sua felicidade, claro — tinha finalmente chegado. O Marinho tinha saído apressado para o trabalho e, inacreditavelmente, esquecido a chave na porta do armário onde zelosamente guardava o álbum de retratos. A dona Lurdes não deixou de notar esse detalhe enquanto arrumava o quarto do filho. Ainda pensou duas vezes, mas à terceira já estava com a porta aberta. E nem precisou de vasculhar muito para rapidamente descobrir o maldito álbum vermelho. Soltou um suspiro de alívio e abriu um ar de satisfação enquanto apertava o álbum contra o peito.

De imediato, dirgiu-se para o seu quarto. Antes de encerrar o álbum a sete chaves, a dona Lurdes sentiu a tentação de olhar o seu conteúdo. Sabia que havia a possibilidade do álbum conter fotos íntimas do Marinho e da Maria Helena, mas ao seu coração de mãe nem isso fez merecer a reprovação do intento. Abriu o álbum e começou a folheá-lo. À medida que avançava, o seu semblante, que minutos antes era de satisfação, rapidamente começou a ficar carregado. E, entre suores frios, surgiu-lhe a inevitável interrogação: «Porquê tantas fotos do Ricardo?!»

quarta-feira, 27 de abril de 2011

A inexorabilidade dos números

Ainda muito jovem me apercebi de que não era especialmente dotado para a atividade política. Para ser mais preciso, por volta dos meus dez anos de idade. Lembro-me perfeitamente daquela tarde em que fui incumbido pelos meus colegas para negociar a devolução de uma bola com o proprietário do terreno vizinho àquele onde costumávamos jogar futebol. De nada valeu ao meu povo carente de bola a minha suposta capacidade de negociação, pois o resultado prático da missão foi termos que desatar todos a correr — sem a tal bola — e nunca mais ganharmos coragem para colocar os pés naquele terreno. Claro que daí em diante o grupo nunca mais me incumbiu de missões com necessidade de alguma habilidade política — e eu até agradeci — e aí comecei a desconfiar que o meu caminho talvez pudesse passar mais pelas ciências exatas.

Claro que o ser humano vem dotado de uma certa capacidade de evolução e eu nem fujo muito à regra. Posso até dizer que com os anos fui desenvolvendo o pouco jeito que tinha e hoje já começo a considerar a possibilidade de abraçar uma carreira política. Obviamente, porque a atividade política de hoje em dia pouco tem a ver com a atividade de outros tempos. Ter boa capacidade política nos tempos que correm consiste essencialmente em ter alguns dotes de teatralização na campanha eleitoral com a palavra a certa — de preferência enigmática — e o sorriso perfeito. A isso juntando bom aspeto físico — a minha mãe acha-me muito bonito — e uma boa equipe de marketing por trás a orientar os passos, podemos dizer que temos a fórmula certa para o sucesso político na atualidade.

Se dúvidas houvesse, com a chegada a Portugal do triunvirato — a nossa comunicação social aderiu em massa a uma tal de troika, mas eu confesso que ainda não senti necessidade de recorrer à língua russa — de peritos internacionais em finanças públicas e a completa passividade dos nossos governantes, tivemos a prova cabal de que a governação de um país não se faz agora com habilidade política para negociar, mas sim com total subjugação à inexorabilidade dos números. O papel do governante é, hoje em dia, ceder à chantagem dos mercados e dos banqueiros, estando para ele reservada apenas a mera função de justificar  — quase sempre a posteriori — o limitado leque de opções possíveis, quase sempre com base em números e dados estatísticos.

E, se o assunto é números, porquê restringir o recrutamento de líderes políticos a engenheiros e economistas e não chegar àqueles que melhor conhecem e entendem as suas subtilezas? Estão a ver onde quero chegar não estão? Sem puxar muito pela memória, posso assegurar que tenho conhecimento profundo em números naturais, inteiros, racionais, irracionais, reais, complexos, quaterniónicos, primos, compostos, perfeitos, algébricos, transcendentes e muitos outros que nem vêm ao caso!

É óbvio que uma candidatura minha neste momento a um cargo político da nação já não viria a tempo das eleições que se avizinham. Mas, com tempo, vou amadurecer a ideia e, quem sabe, nas eleições seguintes — que nem deverão andar muito longe, dada a grande instabilidade política — apareço com uma equipe e o marketing certo para o sucesso. Até já tenho um discurso alusivo à minha qualidade técnica na nobre ciência dos números para tentar convencer o povo a votar em mim:
«Vocês conhecem o meu trabalho: eu provei que sistemas dinâmicos com decomposição dominada nos quais um dos fibrados exibe contração uniforme e o outro comportamento não uniformemente expansor possuem alguma medida de Sinai-Ruelle-Bowen!»
Que se acautelem os pouco preparados intervenientes da cena política nacional, pois o lugar deles começa a ficar em perigo!

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Sem preconceito

A Dulce acabava de pousar o telefone.
Outra vez?!
Outra vez o quê?
A tua tia...
O que é que tem a minha tia?
Já vem para cá outra vez?
Como “já”?
Ainda há pouco tempo cá esteve.
Há pouco tempo?
Não é?
Na Páscoa do ano passado... Há mais de um ano!
Parecia-me menos tempo...
Ó Proença, não sejas assim com a minha tia.
E vem por quanto tempo?
Uma ou duas semanas...
Tudo isso?!
Não mais de três!
Ah não, três semanas sem sofá a partir das 10?!
A tia é uma mulher só.
Só? Porque quer...
A história do pai do Borges de novo?
A tua tia tem à mão um bom partido e rejeita-o! Depois é uma mulher só, claro.
Não sejas preconceituoso!
Eu?!
Sim. Achas que tinha que se sujeitar ao primeiro que lhe apareceu só porque já tem mais de 60 anos?
Não tinha que se sujeitar. Só tinha que lhe dar uma oportunidade.
Ele tem aquele defeito...
Essa é boa! Ela rejeita-o porque ele tem um ligeiro defeito e eu é que sou o preconceituoso!
Ligeiro defeito?!
Sim. Uma perna ligeiramente mais curta. Mas sentado ou deitado nem se nota.
Não me referia a isso.
Não?! Tem outro?
Ora, Proença, não te lembras de quando o apresentamos à tia?
Um pouco vesgo? Com óculos escuros também não se nota.
Nem é tão pouco vesgo. Mas também não me referia a isso.
Não me digas que é por ele ouvir mal!
Desse defeito já nem lembrava...
Aliás, do jeito que a tua tia fala, é até uma virtude: não vai reclamar nunca!
Não, não é isso!
É por ser adepto do Porto?!
Não, Proença, que disparate!
Então, que diabo é?!
Não te lembras do jantar de apresentação?
Lembro... O que é que teve?
Ah, Proença, é difícil!
Difícil o quê?
Difícil até para eu falar.
Fala.
Ah...
Fala!
Flatulência é demais!
Ah, Dulcinha, para isso há remédio!
Não dá!
Um médico resolvia isso facilmente.
Não dá, não dá!
Acho que tu e a tua tia é que estais cheias de preconceito.
É, Proença, para resolver o caso da minha tia tu até és um homem muito despido de preconceitos!
O Proença achava-se um homem moderno. De mente aberta. Não gostou do «para resolver o caso da minha tia» na frase da Dulce. Ainda pensou argumentar que para resolver o seu próprio caso também se tinha despido de alguns preconceitos, mas pressentiu que seria mais prudente não entrar com a argumentação por esse lado. Achava-se um homem moderno e prudente. E totalmente sem preconceito!

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Evea culpa

É inegável que vivemos um período profundamente conturbado da nossa história. Não temos árabes, nuestros hermanos ou colonizados para combater, mas temos guerras abertas em várias frentes: ideológicas entre direita e esquerda; partidárias entre PS e PSD; desportivas entre Benfica e Porto; até no Sporting, clube vincadamente aristocrata e acima de qualquer tentação de mau vício plebeu, na falta de um rival externo para guerrear, desataram à pancada uns aos outros. Em todas estas guerras há um denominador comum no pomo da discórdia: a culpa. Perentoriamente enjeitada por todas as partes beligerantes, surge naturalmente a pergunta inevitável: afinal, onde mora a culpa?

Sendo eu um assumido adepto de boa ponderação sobre as grandes questões, dei por mim a tentar decifrar este enigma nacional de distribuição da culpa. Excetuando a guerra Benfica-Porto — nesse caso a culpa é claramente do Pinto da Costa —, em todos os outros casos, fui recuando até tempos imemoriais. Dos erros da atualidade passei aos erros cometidos no processo de adesão à CEE, logo fui remetido ao problemático período do pós 25 de Abril e, num ápice, à ditadura salazarista. Essa foi consequência do conturbado período da primeira república que, como é fácil de adivinhar, tem os seus problemas com raízes na monarquia. Da monarquia parlamentar passei à absolutista e, recuando pelas três dinastias, fui até ao reino de Leão, transportando a culpa também por árabes, alanos, suevos, vândalos, visigodos, romanos — memorizem este nome, voltarei a eles —, lusitanos, celtas, cartagineses, gregos, fenícios e muitos outros povos que por aqui andaram, passei pelo homo sapiens, homo neanderthalensis e, após uma série de outros homos — todos com agá —, imagine-se onde fui parar. Que coisa incrível! Alguém adivinha? Essa mesmo: Eva! 

A menos que se consiga algum teste de ADN — algo que julgo praticamente impossível ao fim de todo este tempo —, nem ao Adão se pode imputar qualquer tipo de culpa. Convém lembrar que em regimes jurídicos minimamente decentes a paternidade não é mais do que uma presunção e, em prol do bom Adão, não vamos deixar de usar essa prerrogativa. Aliás, segundo os relatos bíblicos, a relação conjugal nos primórdios funcionava em moldes ligeiramente diferentes dos atuais: era a Eva quem saía para angariar sustento e o Adão ficava a cuidar da vida doméstica. Nunca me foi dito às claras — nem preto no branco — o que se passou entre a Eva e a serpente, mas tendo em conta a constante atrapalhação que demonstrava o padre que me catequizou sempre que eu lhe pedia esclarecimentos adicionais, agora que tenho uma visão mais adulta — e cínica — do mundo, sou levado a concluir que só pode ter acontecido uma coisa: a Eva teve um envolvimento íntimo com a serpente. Isso até justifica a má índole do Caim — da qual descende a componente viperina da humanidade — e uma quantidade de maus tipos que têm andado por aí. É bastante provável que o bom Abel seja mesmo filho legítimo do bom Adão, mas aí entramos mais uma vez no reino da mera presunção.

Devo acrescentar um dado que me parece importante e que contribuiu de forma decisiva para a elaboração desta minha teoria: lá pelo meio das minhas averiguações, descobri em alguns textos de direito romano várias referências a uma tal de evea culpa. Quem entende alguma coisa de latim — não é propriamente o meu caso, mas tenho um primo que diz que entende e deu-me uma ajudinha neste caso — sabe muito bem o que isso significa!

segunda-feira, 11 de abril de 2011

As metáforas do amor

Não será necessário recorrer a estudos muito aprofundados sobre o assunto para que facilmente possamos chegar à conclusão de que o tema preferido da grande maioria dos poetas é o amor. Poetas fracos — por vezes bem sucedidos financeiramente com a produção de letras para canções — usam e abusam da visão do amor como uma flor. Grandes poetas, por seu turno, conseguem com facilidade metáforas bastante mais originais, nem sempre através de associações especialmente românticas. Luís de Camões, por exemplo, afirmou num dos seus sonetos que «o amor é ferida». A comparação não é particularmente atraente, mas o poeta adornou-a de forma tão magistral, que os aspetos mais repugnantes associados à ideia de ferida dificilmente se acercarão do pensamento de quem leia esse soneto — exceção feita a mim mesmo neste momento, claro... Você também?

Recorrendo a um algoritmo simples que desenvolvi com base nas pesquisas do Google, cheguei à conclusão de que até agora não houve poeta — de língua contemplada pelo Google Tradutor — que tivesse espalhado a sua arte sobre aquela que me parece ser a metáfora mais óbvia: o amor é cola. Apresentada assim, a comparação não será porventura nada poética, mas acredito que um Camões relativamente inspirado facilmente arranjasse forma de transformá-la numa belíssima imagem.

Fatores como a emancipação da mulher, o descaramento do homem e, acima de tudo, a felicidade de pelo menos um dos dois, têm deixado evidente a cola que mais une o casal dos nossos dias: uma cola aguada. Grande parte dos amores modernos são como uma dessas colas que facilmente se encontram em loja de chinês e com a qual se tem dificuldade para colar até duas folhas de papel. Num estado menos aguado, há amores cola branca, que gruda por um tempo, mas depois — por razões de temperatura inapropriada entre os corpos unidos, por exemplo — deixa desprender aquilo que anteriormente uniu. Cada vez mais raros são os amores cuja cola resiste a todas as intempéries e perdura forte e firme até que a morte os separe. Uma cola de sapateiro, por assim dizer.

Será seguramente uma dessas colas de sapateiro que tem unido a dona Gertrudes e o senhor Ernesto ao longo dos 57 anos de casados. Especialmente a que brota da parte da dona Gertrudes. Frequentemente sujeita às maiores intempéries de mau humor do senhor Ernesto — que por vezes discorda até na hora de concordar —, o amor da dona Gertrudes resiste. Lá está ela agora, levantando-se da cama a meio da noite para ir buscar um copo de água e um comprimido para amenizar um ataque de vesícula do senhor Ernesto. Enquanto ele bebe a água, ela afaga-lhe o cabelo e, com muita ternura, diz: «vai passar, vai passar...» A dona Gertrudes já nem se lembra que poucas horas antes ele teve um dos seus frequentes acessos de mau humor, só porque à saída da missa ela lhe perguntou:
— Quem era aquele alto e loiro parecendo alemão lá na fila da frente?
— Mas, Gertrudes, tu és completamente louca! — A palavra «louca» foi pronunciada com um prolongar da letra L que doeu fundo na alma da dona Gertrudes; o senhor Ernesto prosseguiu: — Na fila da frente não tinha ninguém alto e louro parecendo alemão!
— Não?!
— Não! O alto e louro parecendo alemão lá na fila da frente era o filho mais novo do falecido Manuel Antunes!

Alguém vai negar que só uma cola de sapateiro suporta frequentes acessos como este?

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Prece de um português consciente

Festejos na Luz
Meu deus, meu bom deus, ciente da omnipresença que te caracteriza, estou certo que tens acompanhado todas as manifestações de grande irresponsabilidade dos adeptos portistas nas últimas 24 horas. Como é possível que, em época de crise económica e financeira tão acentuada, eles saiam para rua a gastar enormes quantidades de recursos petrolíferos cuja importação tanto pesa na nossa balança comercial? Como é possível que, num momento em que o país necessita urgentemente de aumentar a produtividade, eles se deitem a altas horas da madrugada e no dia seguinte cheguem — e só tu sabes em que condições físicas — tarde ao trabalho? Meu deus, meu bom deus, como é possível que, num momento em que tantos portugueses andam carenciados do bem estar físico, psíquico e social, adeptos de um mero clube de futebol fiquem na rua aos berros até de madrugada, utilizem compulsivamente as buzinas dos carros e assim perturbem o sossego de quem já anda tão perturbado? Meu deus, meu bom deus, porquê todo esse frenesim? Para celebrar a vitória de um grupo de homens em calções a dar pontapés numa bola? Que espécie de gente é essa que coloca tal frivolidade acima dos interesses e dos valores mais profundos da nação? Que espécie de gente é essa que não pensa no que pensam os mercados nem nas suas reações? Meu deus, meu bom deus, como podem esses portistas criticar a atitude consciente e ponderada dos dirigentes benfiquistas que, sensatamente, optaram por não agravar ainda mais o nosso défice energético? Meu deus, meu bom deus, como se tudo isso não bastasse, hoje entopem as caixas de correio eletrónico com frases tolas e fotos de um profundo mau gosto — chegam ao cúmulo de desrespeitar a imagem e o bom nome de Jesus! Fazem desfilar pelos murais facebookianos um chorrilho de piadas, anedotas e comentários sem a menor contribuição para solucionar os grandes problemas do momento. Meu deus, meu bom deus, essas pessoas não trabalham? Não têm filhos para sustentar e um país para ajudar a recuperar? Como é possível que nesta situação económica tão inspiradora de cuidados, 24 horas depois do tal feito do bando de homens em calção a dar pontapés numa bola, ainda tenham os pensamentos todos dirigidos para aí? Meu deus, meu bom deus, eu sei que não é digno de um crente desejar mal aos outros e ainda menos digno é quando nos outros estão incluídos familiares e amigos. Longe de mim desejar-lhes mal que lhes afete a saúde, as finanças ou o bem estar familiar. Mas, se pudesses interferir... Não te peço grandes intervenções, apenas uma coisinha aqui e outra ali, que os faça não terem motivos para sair de casa para festejos até ao debelar desta maldita crise que tanto nos apoquenta.

domingo, 3 de abril de 2011

A cozinha do chefe

O Portugal que eu admiro e prezo é um país de cozinha saborosa, barata, farta e com uma personalidade muito própria. A cozinha tradicional portuguesa é, dentre as que conheço, uma daquelas onde melhor se extrai o verdadeiro sabor dos alimentos, havendo pouco espaço para molhos dissimuladores. Fica o envolvimento harmonioso dos alimentos quase exclusivamente a cargo de um azeite de muito boa qualidade. Contudo, nos últimos anos a modernidade tem colocado em causa algumas dessas boas características da cozinha portuguesa, muito particularmente nas componentes personalidade própria e preço. Na base disso têm estado fatores de ordem diversa, entre eles:

Fator matemático: a passagem do escudo ao euro exigiu a conversão dos preços. Dada a reconhecida e assumida inépcia dos portugueses para a matemática — especialmente detetável nos proprietários de restaurantes —, optou-se pelos arredondamentos simplificados: 1000 escudos passaram a 10 euros, 1500 escudos passaram a 15, 2000 a 20, e por aí adiante.

Fator social: é sabido que a cozinha moderna não se faz com mulheres na retaguarda — longe vão os tempos em que o lugar delas era na cozinha. A cozinheira cedeu o lugar ao chefe — dizem que o chique é chef, mas eu continuo a preferir português correto — que, como homem que é, ganha mais. Ou seja, a evolução ainda é parcial: a mulher já foi retirada da cozinha — dos restaurantes —, mas continua-se a pagar mais aos homens. Claro que essa meia modernidade tem o seu preço.

Fator geográfico: dantes os alimentos eram genuinamente portugueses, normalmente regionais ou até locais. Agora (por enquanto...) os alimentos têm origem à escala planetária. Entre outros agravantes, o transporte em boas condições de higiene e conservação, a taxa de câmbio e a taxa de importação têm o seu reflexo no preço final.

Fator tempo: os pratos tradicionais tinham nomes curtos que indicavam conteúdos bem definidos. Passava-se os olhos pelo cardápio e, num ápice, o estômago dava indicações da preferência no momento. Agora os pratos não têm nomes, mas sim descrições. O que dantes funcionava em duas ou três palavras, agora tem que ser descrito em duas ou três linhas — quase invariavelmente utilizando a preposição "com". Claro que o maior tempo de permanência num espaço de qualidade tem o seu preço.

Fator material: dantes um restaurante era composto de pratos (louça) de tamanho normal e comida farta. Agora a quantidade de comida diminuiu significativamente, mas o tamanho dos pratos aumentou. Sendo certo que vivemos numa sociedade onde o preço dos bens essenciais é bastante inferior ao dos bens supérfluos, é natural que isso se reflita no preço final.

Fator linguístico: já prestou a devida atenção ao cardápido de um restaurante moderno que se preze? Quantos especialistas em línguas serão necessários para elaborar algo minimamente decente? Um serviço especializado como esse tem forçosamente os seus custos e o inevitável reflexo no preço final.

Claro que todas estas inovações conferem um toque de classe à nossa cozinha. E fazem com que, aos nossos próprios olhos, pareçamos um povo muito mais sofisticado. Eu já evoluí na minha condição de gourmet. Diria que fiz uma evolução parcial, pois os pratos continuam a ser os mesmos da cozinha tradicional — aí não faço concessões —, mas os nomes já foram todos adaptados. Especialmente quando tenho convidados em casa, o impacto é outro. Só a título de exemplo: lascas de torsk da Noruega salteadas em bolbo de allium cepa com tubérculo de solanácea peruana ao suco e fruto de oliva, mesclado em ovos galináceos e aromatizado ao vin blanc. Bacalhau à Brás? Não, que nome mais antiquado!

sábado, 26 de março de 2011

O pesadelo da Scarlett


Um verdadeiro pesadelo. Eu tinha lido na véspera que hackers haviam invadido o iPhone dela e de lá retirado fotos muito comprometedoras, mas não me passou pela cabeça que o meu nome pudesse estar em causa. Só passei a levar em conta essa possibilidade depois que o meu sobrinho me telefonou. Entre elogios à proeza do tio — até aí totalmente desconhecida — e aos dotes físicos da Scarlett, eu deduzia que nas fotos roubadas pelos hackers ela não estava só. Mas não podia ser eu. Estava seguro que o telemóvel dela era um Nokia!

Conheci a Scarlett quando decorriam as filmagens do Vicky Cristina Barcelona. Tinha bem presentes os detalhes do nosso encontro: eu a desfrutar a tranquilidade do meu entre safras e ela a necessitar urgentemente de uma boa colheita. Ambos solitários naquele restaurante perto de Las Ramblas. O meu olhar rapidamente se fixou na mesa ao lado: primeiro na paella e logo depois só para ela. Apesar de uns ligeiros toques de disfarce, não tive dúvidas de quem se tratava. Abordei-a com um «are you lonesome tonight?» e nem precisei de esperar que a conversa avançasse muito para saber que já encaixava bem o «do you miss me tonight?». Inexplicavelmente — ou talvez nem tanto — a ambas as perguntas corresponderam respostas afirmativas.

Soube depois que ela acabava de ser rejeitada pelo Bardem — que optara pela Penelope — e precisava urgentemente de afogar as suas mágoas. E o meu aspeto de encorpado moreno latino a expressar-se num inglês com ligeiro sotaque ibérico era exatamente o que ela estava a precisar. Começamos por afogar as mágoas — eu não as tinha, mas imediatamente me solidarizei com ela — num Vega-Sicilia e terminamos, já manhã alta, com um Moët Chandon numa suite do Hotel Hilton onde ela estava hospedada. Pelo meio muita loucura. As fotos incluídas.

Depois da chamada do meu sobrinho, o telefone começou incessantemente a tocar: família, amigos, colegas e, finalmente, a comunicação social! Acabavam de considerar-me o português mais bem-sucedido da década, com honras e deferências de ilustre cavalheiro. Um feito inigualável!

Rapidamente me apercebi que o pior tinha acontecido: a Scarlett tinha transferido as fotos do Nokia para o iPhone, comprado — lembro-me de lhe ter recomendado a compra — tempos depois do nosso affair. Quiçá, para com mais frequência recordar o português mais bem-sucedido da década, que lhe proporcionara uma das noites mais memoráveis de sempre. Palavras dela. Em inglês, claro.

Mas isso não podia estar a acontecer comigo! A minha vida de modesto matemático exilado no mundo que tanto preza o sossego do anonimato para ir alcançando os seus resultados não mundanos estava irremediavelmente comprometida. Que terrível agonia!

Foi neste ponto que o pesadelo acabou: o meu cão veio avisar-me que estava na hora de acordar. Já passava das nove e fazia parte do nosso trato levá-lo para o passeio matinal. Desci feliz e agradecido por ter sido resgatado daquele pesadelo tão agoniante. Passeei-o incógnito pela vizinhança, na minha vida recatada de sempre. Aproveitei os primeiros minutos da manhã para acrescentar uma inesperada boa ideia a um problema que me sobrara de véspera. Sentia-me anormalmente inspirado!

quarta-feira, 23 de março de 2011

Aproximadamente catorze

Há algumas semanas, numa viagem de comboio entre Coimbra e Porto, acabou-se-me a bateria do iPod. Adormeci ao som do Madredeus e acordei, alguns minutos depois, ao som da voz de deus (ou do povo, que embora não sendo igual, dá no mesmo). Perto de mim, dois casais de meia-idade lamentavam-se sobre a situação político-económica do país, concordando que PS e PSD são uma e a mesma coisa. Concordavam entre eles e comigo também, pois há muito que esses partidos me parecem farinha do mesmo saco. Levando em conta todos os fatores ponderáveis e imponderáveis, não consigo notar-lhes mais do que a ténue diferença do dêzinho na sigla de um deles. Um dêzinho para distrair o povo incauto, penso eu: tirando dêzinho e colocando dêzinho, pensará o povo que consegue verdadeiras alternativas no poder.

Se dúvidas houvesse quanto à flagrante falta de diferença que os atinge, essas teriam ficado completamente dissipadas com as pseudo-negociações para o acordo sobre o orçamento de estado de 2011. Alguém negará que aquilo foi uma prova cabal de que o ambiente reinante entre esses partidos é do mais puro companheirismo e comunhão de ideias? Fingem zangar-se com base numa discrepância de 0,1%, amuam, são chamados pelo senhor professor e imediatamente fazem as pazes. E, para o quadro ficar completo, terminam abraçados numa foto de telemóvel. Que linda amizade!

Até aqui coincidia a generalidade dos comentários dos meus ocasionais companheiros de viagem. A coisa divergiu no ponto da conclusão. O meu espírito inconformado jamais poderia admitir que são «todos iguais»! Menos ainda admitiria que, finda a governação do sem dêzinho, a alternativa será votar de novo no dêzinho. Todos iguais? Quais todos? Temos alternado apenas entre dois (e meio) que, esses sim, são todos iguais. Mas, não esqueço: nas últimas eleições legislativas contei as opções no boletim de voto e, posso assegurar, eram aproximadamente 14! (é ponto de exclamação, não é 14 factorial, sem exageros...).

Para não ter que me imiscuir em conversa alheia, resolvi apear-me em Gaia e caminhar até ao Porto (a aragem vinda do mar e a vista panorâmica da ponte D. Luís costumam fazer-me bem nestas ocasiões). Já mais arejado e consciente dos problemas nacionais, surgiram-me dúvidas sobre qual poderia ser o verdadeiro problema dos meus ex-companheiros de viagem. Talvez não fosse um problema de consciência política, mas um problema de matemática, ou até de iliteracia: será que não sabem contar até mais do que dois (e meio)? Será que não sabem interpretar as siglas?

Revoltei-me comigo mesmo: devia ter interferido na conversa alheia e alertado que há mais do que os tais dois (e meio) partidos todos iguais. Podia até ter tentado ajudar na hipotética questão de iliteracia, sugerindo votarem num qualquer partido que não tenha a letra S na sigla (curiosa e ironicamente, são partidos com o tal S, de aparente preocupação com o social, que nos têm dado cabo da sociedade). Cheguei a casa arrependido pela minha saída precipitada daquela carruagem. Adormeci de consciência pesada e acordei três vezes durante a noite. Com pesadelos horríveis.

sábado, 19 de março de 2011

Pai

 Pai?
 Sim.
 Logo à noite quero ir à Kapital.
 Capital? Mas, já estamos em Lisboa.
 Não, pai, quero ir à Kapital com K, a discoteca.
 "Quero ir"...
 Tu também?!
 Não, apenas achei interessante a forma como disseste: "quero ir".
 Querer quero. Se posso ou não, isso é outra questão.
 Não achas que ainda és muito nova para começares a ir a discotecas?
 Começar?! Já fui lá várias vezes.
 Já?! A tua mãe tem permitido?
 Sim. E acha normal.
 Normal, no tempo dela, era uma rapariguinha de catorze anos ficar em casa a ver televisão.
 Normal, no meu tempo, é uma rapariga de quase quinze anos ir a discotecas.
 E que vais tu fazer a discotecas?
 Ora, pai, dançar, namorar, beber, divertir-me! Fica tranquilo, sabes que ainda não bebo álcool.
 Namorar?!
 Sim, o Renato.
 O Renato?! O coleguinha do colégio?
 Sim. Agora é o namoradinho do colégio.
 Não são muito novos para isso?
 Para falar verdade, sinto que já comecei um pouco tarde. Quase todas as minhas amigas têm namorados há bastante mais tempo do que eu. Algumas já vão no segundo e umas quantas no terceiro.
 É sério?
 Bem, a maior parte são namoricos só para andar, nada muito sério. Mas algumas já perderam a virgindade. Eu confesso que ainda não me sinto preparada para isso.
 Ainda bem!
 Não sei... Mas, pai, levas-me à Kapital?
 A que horas?
 Gostaria de estar lá por volta da uma?
 Chegar à uma da manhã?!
 Sim!
 Hum, e o Eixo do Mal?
 Eixo do mal, pai? Vais deixar de dar boleia ao teu bem mais precioso por causa de um tal eixo do mal?
 Não sejas cínica...
 Cínica? Não, pai, estou apenas a lembrar-te aquilo que há anos me ensinas: entre o bem e o mal, escolher sempre o caminho do bem.
 Está bem, está bem... E para voltares?
 Temos duas opções: venho à boleia com o irmão mais velho do Renato, ou vais lá buscar-me.
 Só temos uma opção! A que hora queres que te pegue?
 Por volta das seis. Mas não precisas de ter pressa!
 Quando chegar dou um toque.
 OK. És o pai mais fixe do mundo!

Horas mais tarde, o pai reparava que no carro a seu lado não ia uma rapariguinha de catorze anos, mas uma mulher feita. Pela primeira vez tomava consciência de que a sua postura perante o complicado universo feminino estava a mudar. Começava a encará-lo agora mais na perspectiva de «produtor» do que na de «consumidor».
 Pai?
 Sim.
 Emprestas-me 20 euros?
 Empresto. Emprestar, quer dizer...
 Quer dizer isso mesmo. Prometo que quando tiver o meu primeiro emprego te devolvo os 20 euros.

O pai nessa noite foi dormir com a sensação de ter levado alguns murros no estômago. Uns mais intensos do que outros. Mas não podia deixar de se sentir orgulhoso pela capacidade de argumentação da filha. Sinal de que estava a ser bem preparada para enfrentar o mundo. Isso deixou-o um pouco mais aliviado.

segunda-feira, 14 de março de 2011

José no divã

No Egito Antigo viveu um José que gozou de excelente reputação como interpretador de sonhos. A sua fama chegou a tal ponto que um dia foi levado para interpretar um enigmático sonho do faraó, no qual apareciam sete vacas magras e sete vacas gordas, as primeiras das quais comiam tudo que podiam — inclusive as vacas gordas — mas continuavam sempre magras. O José, que era perito na arte dos sonhos, não teve dúvidas: o Egito passaria por sete anos de fartura seguidos de sete anos de seca. Por causa dessa visão profética, puderam aforrar nos sete anos de fartura e assim sobreviver nos sete anos que lhes sucederam. Muito naturalmente, o José caiu nas graças do faraó e passou a ocupar lugar de destaque entre o seu povo.

No Portugal Moderno há também um José que foi guindado a lugar de destaque entre o seu povo. Contudo, ao invés do José do Egito, o José de Portugal denotou sempre imensas dificuldades para interpretar sinais, viessem eles sob a forma de sonho, ou saltassem à vista como a mais evidente realidade. O José de Portugal olhava para vacas magras e vacas gordas e só conseguia enxergar as gordas. Ou, se enxergava as vacas todas, pareciam-lhe todas gordas. O que à partida poderia ser visto como uma preocupante limitação, aliada a um grande dom de iludir, veio a tornar-se numa enorme vantagem. O seu otimismo era contagiante!

No entanto, não há mal que dure sempre nem bem que nunca acabe. Esse dom que gerou enormes proventos para o José e os seus correligionários, começava agora a dar mostras de entrar em declínio. Com uma imensa manada de «vacas magras» a berrar e uma oposição impiedosa a amplificar-lhes a voz, os dons do José de Portugal começaram a não ser suficientes para dar a volta á situação. Os conselheiros não perderam tempo. Para analisar o problema reuniram-se com os melhores especialistas das mais diversas áreas e chegaram a uma inevitável conclusão: o José está a precisar de psicanálise. Se, aquela que era a sua grande virtude, agora começava a tornar-se num empecilho, tornava-se imperioso dar um jeito nisso. O quanto antes.

Houve muita resistência inicial do próprio José, mas aos poucos foi-se apercebendo que as sessões de psicanálise o deixavam fortalecido. Ao cabo de algumas sessões começou a dar mostras de alguma abertura para um trabalho mais profundo do psicanalista. Era evidente para o psicanalista (bons psicanalistas têm um dom especial para detetar evidências e até são muito bem pagos por isso) que o José chegava hoje ao seu consultório profundamente agastado. Sentiu que, pela primeira vez, teria oportunidade de realizar uma viagem profunda ao interior do José, sempre tão mascarado e protegido por elmos internos e externos. O psicanalista usou de todos os poderes e conhecimentos que tinha para deixá-lo num estado quase hipnótico, e provocou-o para falar:
— Está muito difícil aguentar esta oposição injusta e difamadora que concentra a sua ação no insulto e no ataque pessoal. Uma oposição que não consegue reconhecer nada de positivo neste país que, com muita abnegação, tenho conduzido de forma exemplar. Dou o máximo, busco as melhores opções, encontro soluções fantásticas e os resultados estão aí: são os indicadores de inovação, os indicadores de educação, relatórios da OCDE, planos tecnológicos, planos energéticos e planos de mobilidade. Somos um caso sério no mundo e um exemplo para a Europa. Desdobro-me, multiplico-me, adiciono riqueza, corrijo o défice, faço crescer a economia, aumento o PIB...
— Calma, José. Vamos por partes.
— José?!
— Sim, José... não é o seu nome?
— Não!
— Não?!
— O meu nome é Angela!
Só nesse momento o psicanalista teve noção de que tinha chegado a um nível demasiado profundo no íntimo do José. Custou-lhe um pouco a trazê-lo de volta à realidade do país que efetivamente governava.

terça-feira, 8 de março de 2011

Dados

"When men are scared of a woman, 
they always accuse her of being mannish"
Elizabeth Aston

A Zirinha caminhava em passo apressado rumo à estação de metro, deixando para trás o hotel onde acabava de cometer a maior loucura da sua vida. Por estranho que pudesse parecer (e a ela parecia-lhe), não lhe passava pela cabeça qualquer tipo de arrependimento. Tampouco a certeza de que não voltaria a cometer loucura igual. Nem diferente. Considerava-se satisfeita, mas sentia no íntimo uma ligeira sensação de televisão a preto-e-branco.

Apesar dos sete anos de casada e das duas gravidezes quase de enfiada, a Zirinha soube manter o corpo de aspeto não resignado, com volume e formas sempre muito sedutoras. Só não sabia que teria coragem de despertá-lo para outro que não o Alberto, seu primeiro e único namorado, com o qual se casara ao fim de três anos de namoro. Virgem — em todos os sentidos. E, não fosse ter visto o Brad Pitt em Lendas da Paixão, podia até afirmar que casara virgem também em pensamento. A Zirinha, que sempre foi uma menina de impulsos, decidiu — sem causa aparente nem motivo forte — ainda em fase precoce do namoro que iria conservar-se intacta até à lua-de-mel. Decidiu e cumpriu. Algo que lhe custou vários ataques de desespero do Alberto, a pouca admiração das amigas mais engajadas em movimentos feministas e, anos mais tarde, algum arrependimento pela falta de outras experiências.

Na viagem de metro até casa, reviu em pensamento os acontecimentos desde que a Margarida a deixara sozinha no Shopping. Almoçaram juntas e, como de costume, a Margarida saiu apressada para o trabalho. A Zirinha tem um emprego com horário bastante flexível que lhe permite até dar-se ao luxo de esporadicamente não aparecer, bastando justificar com um simples «surgiu um imprevisto» por SMS. Não podia imaginar que, poucos minutos após a saída da Margarida, viesse sentar-se na mesa exatamente em frente aquele forasteiro com o qual viria a dar largas, primeiro à imaginação, depois à conversa e finalmente ao corpo. Dele pouco mais conhecera além do aveludado da voz, o desempenho corporal e um ligeiro sotaque estrangeiro. Nome, nacionalidade, número de telefone, local de residência, nada lhe passara aos registos. Desde a inicial troca de palavras, a conversa ficou centrada no aqui e agora, tendo rapidamente evoluído para patamares ao nível da física e da química.

Estava agora prestes a chegar a casa. Não vislumbrava ainda o motivo pelo qual desta vez, de forma tão revolucionária na sua vida, deu abertura para que um completo desconhecido lhe tivesse cativado primeiro o olhar e depois todos os outros sentidos. Talvez apenas um impulso. Contaria à Margarida? Não, ela não iria acreditar. Além de que, descuidada como era, alguma vez poderia deixar escapar um comentário imprudente perante o Alberto. Apesar da aventura, não lhe passava pela cabeça viver sem o Alberto. Continuava a sentir que ele era o homem da sua vida, a sua televisão a cores. Agora com mais dados a atestar essa verdade.

sábado, 5 de março de 2011

A lei de Newton

Além de uma assinalável produção de leis nacionais, os portugueses estão também sujeitos a leis europeias, leis internacionais e leis universais. Se as coisas neste país muitas vezes não correm de feição, nem sempre é por falta de leis adequadas, mas sim por falta de aplicação das mesmas. Uma das leis que com alguma insistência se viola — ou ignora — é a lei da Gravitação Universal de Newton. Essa que, em particular, diz que cair é para baixo. Estaria Newton ao corrente das subtilezas da realidade portuguesa? Seria a realidade portuguesa no tempo de Newton comparável ao que é agora? Estas são questões difíceis de ser respondidas por alguém com o meu nível de conhecimento histórico e que deixo à consideração das autoridades na área.

Não é preciso pensar muito — nem ser muito brilhante na tarefa — para que facilmente se chegue à conclusão de que o país tem muita gente a cair para cima. Eles são os Coelhos, os Loureiros, os Varas e muitos outros que todos bem conhecemos. Com maior ou menor visibilidade eles andam por aí. Caso interessante é o do Fernando Gomes. Esse que há uns anos era presidente da Câmara do Porto e, não resistindo a um tentador convite para integrar o governo presidido por António Guterres, abandonou a câmara como se abandona um farrapo velho. Para azar seu — e mais ainda de muitos portugueses —, a sua ação como Ministro Adjunto e Ministro da Administração Interna foi uma lástima. Entre meter os pés pelas mãos e proferir declarações sem pés nem cabeça, a cabeça do ministro acabou invetivalemente por rolar. Contudo, saiu de Lisboa com o "rabinho entre as pernas" e entrou no Porto a "cantar de galo": «O novo candidato do partido à Câmara do Porto sou eu!» As gentes do Porto, que em geral até nem são muito favoráveis à cor, não estiveram com meias medidas e mostraram-lhe o merecido cartão vermelho. Que se esperava a seguir? Mais uma vez o rabinho entre as pernas e a queda de mais um degrau? Não. Houve queda para cima: foi promovido a administrador da GALP, onde até hoje permanece com um salário sei-lá-quantas vezes — no mínimo muitas — melhor do que em qualquer outro emprego que tenha tido antes.

Por falar em Câmara do Porto  e ainda a respeito da lei de Newton. Espanta-me que essa câmara contrate empresas onde trabalham engenheiros sem um mínimo de conhecimentos de Física. Por mínimo, entenda-se o conhecimento da supracitada lei de Newton. Imaginemos que há uma requalificação na zona da rotunda da Boavista e lhes é destinado supervisionar o escoamento das águas pluviais. Onde será natural colocar os bueiros? Em pontos mais baixos da valeta? Não. Os engenheiros que supervisionam essas obras têm uma predileção especial por deixá-los nuns altinhos. Digamos que com o declive certo, mas a descer na direção não recomendada para que a água escape de acordo com a lei de Newton. Dá ideia que os bueiros são lá colocados para contemplarem a água nos inevitáveis lagos que se formam em dias de chuva. O caso é mais desagradável em zonas onde o material usado para a impermeabilização dos solos (estranhamente, às vezes parece ser esse um dos objetivos dos passeios) é o alcatrão.

Não há escapatória através dos bueiros para as águas pluviais na zona da Boavista, mas nem tudo está perdido. E nem excluo a possibilidade desses engenheiros terem posto em prática algum conhecimento de Física, do tal mínimo que se exige a tais profissionais: o sol aquece a água e esta acaba inevitavelmente por se evaporar. O problema é que isso demoooora!....

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Ubíquos mercados

 São os mercados!
Foi a única explicação que o Chico Paulo ouviu do patrão quando este o demitiu. O Chico Paulo absorveu a informação como mandamento divino e nem reclamou. Já tinha ouvido várias referências a esses tais mercados na televisão e nos jornais, e sabia que eles andavam por aí. Só nunca pensou que os mercados lhe caíssem em cima desta forma tão impiedosa. Os todo-poderosos mercados agora atacavam. Sabia também que não adiantava reclamar. Tinha que se resignar.

O trabalho do Chico Paulo não era muito decente (entre outros biscates que fazia no local, limpava casas de banho num café/restaurante perto da estação), mas o emprego — informal  rendia-lhe cerca de 200 euros por mês. O dinheiro chegava essencialmente para os gastos pessoais com cerveja e cigarros e para dar uma ou outra por fora (coisa de homem, claro). Com o pouco que recebia, nunca pensou (na verdade, pouco pensava em geral) fazer descontos para o que quer que fosse. O patrão também o desestimulava:
 Porquê dar ao estado o que podes deixar no teu bolso, Chico Paulo?

A salvação do Chico Paulo era — agora mais do que nunca — a sua mulher, que conseguia um bom rendimento mensal com um negócio caseiro de venda de bebidas — praticamente só cerveja  num aposento da casa com acesso direto do exterior. Agora, para ocupar o tempo do Chico Paulo, a mulher dava-lhe uma lista de compras para fazer pela manhã (o abastecimento de bebidas do negócio caseiro tinha ficado a cargo dele) e recomendava-lhe umas saídas vespertinas para espairecer  jogar cartas no parque ou assistir aos treinos do FCP no Olival passaram a ser as ocupações mais frequentes. Convém não esquecer que o Chico Paulo andava muito perturbado com essa história dos mercados lhe estarem a dar cabo da vida. Espairecer tornava-se imperioso. A perturbação chegara a tal ponto que não entrava mais no Bolhão ou no Bom Sucesso, e só fazia compras em supers ou em hipers  a respeito desses não ouvira ainda más referências.

Chovia muito. Nessa tarde o Chico Paulo resolveu regressar mais cedo. Mal entrou em casa, escutou uns ruídos estranhos vindos do quarto e viu a mulher — suada e mal vestida — correndo em direção a ele:
— Foge, Chico Paulo, os mercados entraram no nosso quarto!
O Chico Paulo imediatamente virou costas e correu para bem longe. Estava muito apavorado com a ideia dos mercados lhe terem invadido o quarto. Nem sabia quando teria coragem para voltar a entrar em casa.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Um novo passo evolutivo


Quem não confia na bíblia — e tem um nível cultural minimamente razoável — muito provavelmente sabe que a vida na terra tem estado sujeita à evolução das espécies. Sabe também que pequenos avanços ao nível da postura contribuíram de forma significativa para o desenvolvimento da espécie humana. A separação do polegar ou a posição ereta, por exemplo, foram decisivas para atingirmos o grau de sofisticação e desenvolvimento que temos — nem todos, admito — hoje em dia.

No entanto, apesar das constantes reclamações do ser humano fêmea, há uma postura que o ser humano macho tem sentido algumas dificuldades em adquirir. O macho contribui, com tal falta de postura, para uma vida caseira em condições menos saudáveis, tanto na perspectiva higiénica como, principalmente, na perspectiva do relacionamento conjugal.

Segundo as minhas estatísticas baseadas num inquérito a cerca de uma dúzia de famílias portuguesas — e acredito que famílias de outras nacionalidades não sejam diferentes neste aspeto —, cerca de 88% dos homens — ser humano macho — demonstram dificuldades em sentar-se para fazer determinado tipo de necessidade fisiológica. Esse mesmo macho que já conseguiu separar o polegar dos outros dedos, reluta ainda em separar a mão de certo órgão no momento em que alivia a bexiga.

Sabendo eu que esse é um problema que afeta seriamente alguns relacionamentos, andei anos a meditar sobre o problema. Há cerca de três meses, enquanto via um jogo de futebol na SportTV, pareceu-me finalmente ter chegado a uma solução. A solução pareceu-me tão brilhante que resolvi tentar capitalizá-la: escrevi para a Associação Portuguesa de Terapeutas do Relacionamento Conjugal (APTRC) informando-os sobre o perigo — para eles — da ideia genial que eu acabava de ter. Não tenho dúvidas de que, posta a minha ideia em prática, um rude golpe nos proventos dos afiliados da APTRC será quase inevitável. A capitalização da minha ideia consistiria, simplesmente, num acordo sobre o montante a receber — de preferência percentual sobre o volume de negócios — para que eu mantivesse o meu silêncio. Por outras palavras, uma espécie de chantagem.

Não tendo até agora obtido qualquer tipo de resposta da parte da APTRC e como até tento, a cada dia que passa, tornar-me num ser cada vez mais altruísta — poderia ter havido retrocesso, cara APTRC! —, decidi tornar agora pública a minha ideia, dando dessa forma uma contribuição para a evolução do ser humano macho na conquista de uma nova postura. Se Colombo teve uma ideia brilhante ao ver um ovo e Newton teve uma ideia ainda mais brilhante ao ver cair uma maçã, porque não poderia eu ter uma ideia brilhante ao ver um jogo de futebol na SportTV?

Assim como grande parte das ideias brilhantes que têm despontado na mente humana, esta também é muito simples: colocar em cada casa de banho um pequeno LCD — a acender em simultâneo com a lâmpada —, aproximadamente à altura da cintura e exatamente em frente ao vaso sanitário. Dependendo do gosto do(s) elemento(s) masculino(s) do agregado familiar, canais como Caça & Pesca, SportTV ou SIC Notícias poderão revelar-se bastante eficientes rumo à conquista desse novo passo evolutivo. Canais como Playboy, Venus ou Hustler, apesar de muito apreciados pelo ser humano macho, não são recomendáveis para este efeito.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Imprecisas impressões musicais nacionais

com uma melodia pouco inspirada e uma letra nada de mais os deolinda deixaram a nu a superficialidade da atual música portuguesa, o momento crítico devia inspirar, mas o mais profundo e atual continua ser o zeca a lembrar que eles comem tudo e não deixam nada, que o pão sabe a merda, que o que faz falta é avisar a malta, que falta também o fausto a alertar a rapariguinha para que cosa a saia velha de cambraia, ou a rosalinda para que o pé não lhe descaia, o godinho a anunciar primeiros dos últimos dias do resto das nossas vidas e baladas da rita, o mário branco contra o charlatão e contra a força do fmi, o rui veloso, o carlos tê e o chico fininho sem máquina zero, a café e bagaço num bairro do oriente, o palma a passar em bairros do amor ou em santa apolónia a abarrotar de gente, a pedir que o deixem rir, perdemos a irreverência do variações, nem para hoje nem para amanhã, não o temos aqui nem além, temos um represas desinspirado, um gil sem ala de namorados, perdemos o trovante na xácara das bruxas dançando, o tordo não diz nada sem o ary, o paco entrou na ternura dos quarenta e ficou-se por aí, o carvalho já não fala de ninis, do mendes nem rock em stock, o cid perdeu a alma pop, adio, adieu, aufwiedersehen, goodbye, as doce provocadoras deram lugar à pimbérica ágata, até os pimbas são piores que o marco paulo de antes ou o meira dos emigrantes, o tony carreira é o maior, o mais banal e o mais pobre, apesar do dinheiro que anda a ganhar, ninguém tem nada para cantar, e quando cantam não contam nada, perdem-se em emaranhados de palavras que nada dizem, nada acrescentam, nem mexem o fundo à panela, amália partiu sem deixar rasto para novos poetas que falem do povo que lava no rio, que dêem de beber à dor e cantem malhoa, mas os malhoas que não cantem, a inspiração da mafalda ficou-se pelos pássaros do sul, joão afonso, toranja, ornatos violeta foram artistas de um disco só, mesmo quando lançaram mais, as do xaile eram boas mas arrefeceram, os da mesa esmoreceram, o donna maria perdeu a voz, a dulce pontes parou no primeiro canto, o madredeus morreu em lenta agonia e partiu com a banda cósmica, o carlos do carmo não traz novos homens das castanhas, nem cacilheiros para a lisboa menina e moça, ana moura, camané, joana amendoeira, katia guerreiro, mafalda arnauth, mariza, tantos fadistas, todos cantam bem mas de novo nada dizem, o sardet ainda não sabe que não existe, o pedro pais não devia mas insiste, a sara tavares perdeu o gingado, o abrunhosa é chato, pretensioso, ouvi-lo é um enfado, o gonzo já disse quase tudo, agora há ídolos, talentos, chuvas de estrelas, vozes e mais vozes, falta quem escreva, quem escreva e diga, quem use a palavra para alertar, cantar em inglês é o que está a dar, não querem saber dos de cá e ninguém os ouve de lá, melhor um intuitivo blá blá blá, as bandas debandaram, não há táxi para o cairo, nem chicletes para mascar, nem patchouly para cheirar, amor e paixão dos heróis do mar, uhf na rua do carmo, gnr com pronúncia do norte, trabalhadores do comércio que chamem a polícia, xutos não pontapeiam nada, o tim enfia letras à martelada, os delfins definharam, o clã eterniza dificuldades de expressão, a resistência não resistiu, o vitorino, o janita, a filipa pais e outros mais cantam o que já cantaram e voltam a cantar, reinterpretam amália, ouro negro, variações, revisitam-lhes sempre as mesmas canções, falta alma na novidade e novidade na alma, melodias com novas roupagens, letras com mensagens, venha um novo zeca, venham mais cinco, mais seis, mais sete, venham ajudar-nos a pintar o sete