quarta-feira, 1 de junho de 2011

Sintomas de dislexia nacional

Há determinadas práticas que nos entram nos hábitos sem que por vezes se vislumbre motivo suficientemente forte que as justifique. Invade-me inevitavelmente uma certa impressão de estranheza quando para tais práticas não encontro explicação razoável ou, num caso mais extremo, nelas deteto alguma falta de lógica.

Uma das tradições portuguesas que aqui merece a minha ponderação está relacionada com a atividade imobiliária. Especificamente, na identificação dos apartamentos por andar. Para que fique claro o que aqui pretendo ponderar, pensemos num apartamento situado no oitavo andar de um determinado prédio. O mais comum em Portugal será talvez esse apartamento ser designado por 8º Direito ou 8º Esquerdo. Contudo, se o prédio tiver mais do que dois apartamentos por andar, já se podem ver designações como 8º Centro, 8º Centro Traseiro ou até 8º Centro Traseiro Direito. Essas são as designações por extenso, porque no intercomunicador do prédio podem surgir abreviaturas como 8º Dir, 8º Esq, 8º Ctr Trs ou até 8º Ctr Trs Dir — já para não falar na possibilidade de se baixar ao caso extremo de um R/C Ctr Trs Dir.

Quem, como eu, tiver o hábito de receber amigos estrangeiros em casa, sentirá por vezes a necessidade de lhes ministrar um curso prévio de português — com abreviaturas — para que os sinta perfeitamente capacitados de executarem um gesto tão simples como chamar no intercomunicador. No entanto, será justo ressalvar que já detetei em Portugal alguns prédios nos quais foi adotada a terminologia vigente em muitos outros países, nos quais se designam os apartamentos por 8A, 8B, etc. No Brasil, a preferência aponta para 801, 802, etc. Poder-se-ia pensar que bastaria 81, 82 e por aí fora, mas note-se a preocupação da terminologia brasileira ter ficado preparada para prédios com mais de 10 apartamentos por andar. Conhecendo o parque habitacional de Copacabana, acredito que a opção brasileira tenha ganho força com a urbanização desse bairro.

Até há cerca de 10 anos, altura em que troquei de apartamento pela primeira vez, pensava eu que a designação de Direito ou Esquerdo estava imbuída de uma certa lógica. Julgava eu que, olhando um prédio de frente, facilmente se saberia de que lado ficava um e outro — não via grande necessidade de tal conhecimento, mas digamos que essa correlação justificaria a terminologia. Na época morava eu num 3º Direito. Talvez por uma questão de orientação política que começava a despontar em mim, decidi que no novo prédio escolheria a minha fração no lado oposto. Como o prédio estava ainda mal começado — e mal vendido — eu podia dar-me a esse luxo. No dia em que escolhi o novo apartamento assim fiz: levei em conta a posição do apartamento em relação à frente do prédio e, por analogia com o prédio antigo, escolhi a minha fração no extremo oposto. Estava certo que iria morar no 8º Esquerdo.

Na minha primeira visita ao novo apartamento, que placa vejo eu por cima da porta? 8º Direito! A minha tentativa de explicação lógica para este hábito nacional foi irremediavelmente por água abaixo. E nem precisei de esperar pela governação de José Sócrates para me aperceber de que em Portugal uma suposta esquerda pode não passar de uma direita travestida.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

A virgem e o pecado

‎«Estou a acostumar-me com a ideia de considerar 
cada ato sexual como um processo em que, no mínimo, 
quatro pessoas estão sempre envolvidas»
S. Freud



— Pare, pare...
— Ahn?
— Pare!
— Porquê?
— Não dá.
— Não dá? Porquê?
— Não sei...
— É por causa do falecido?
— Não! Aqui em sua casa não há problema.
— Então não entendo.
— Pois, é estranho.
— Logo hoje que tomei precauções...
— Tomou?
— Tomei. Não nota?
— Sim. Noto-o mais animado.
— Pois...
Alguns segundos em silêncio.
— Acho que sei.
— Acha?
— Acho que sim...
— Então, qual é o problema?
— Aquela estátua.
— Qual estátua?
— A da virgem.
— Que é que tem?
— Lembra-me que estamos em pecado.
— Mas na nossa idade deus perdoa!
— O problema não é deus.
— Não?
— Não. É a virgem.
— Porquê?
— Sou muito devota!
— Ah...
— Pode tirá-la dali?
— Infelizmente não.
— Não?! Porquê?
— Prometi à falecida.
— Promessa séria?
— Sim, no leito de morte.
— Ah, então não pode quebrar a promessa.
Alguns segundos em silêncio.
— Vamos para a sala?
— Na sala?!
— Sim, no sofá.
— E a minha ciática?
— Ah, pois é...
— Já não temos idade para isso!
— Pois...
Alguns segundos em silêncio.
— Acho que tenho a solução!
— Tem?
— Acho que sim.
Ele levantou-se da cama e colocou a primeira peça de roupa que encontrou a tapar a cabeça da virgem.
— Agora já dá?
— Não sei, vamos tentar.
— Vamos!
— Mas em silêncio, por favor!
— E de joelhos?

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Cinema de época

"There is only one thing that can kill the movies, 
and that is education"
W. Rogers

Era tão sagrado quanto a Páscoa. Ano após ano os quatro regressavam à vila para celebrar a festividade com as respetivas famílias e começavam sempre com uma comemoração aos bons velhos tempos no café da praça. Invariavelmente, lá pela nona ou décima cerveja a conversa embarcava numa sessão nostalgia. O tema deste ano era o cinema. Cinema de época, como eles próprios resolveram apelidá-lo: os filmes que lhes marcaram a adolescência e, mais ainda, as fantásticas atrizes que os protagonizaram. O primeiro a avançar com um nome foi o Toni:
— Brooke Shields…
— Ah, A Lagoa Azul! — diz o Joca.
— Uma sereia! — acrescenta o Chico.
Riram os três. O Morais não riu. Parecia pensativo. O próximo a nomear uma atriz foi o Joca:
— Bo Derek…
10 - Uma Mulher de Sonho! — diz o Chico.
— Que desempenho corporal! — acrescenta o Toni.
Voltaram a rir os três. O Morais continuou sem rir. Estava pensativo. O seguinte a evocar o nome de uma musa desse tal cinema de época foi o Chico:
— Nastassja Kinski…
A Felina! — diz o Toni.
— Uma gata no cio! — acrescenta o Joca.
Riram de novo os três. Decididamente, o Morais estava muito pensativo. E quieto. Movia apenas o braço direito espaçadamente para levar o copo à boca. Tinha chegado a sua hora de falar. No preciso momento em que os outros começavam a dirigir-lhe olhares inquiridores, ele deu com a mão na mesa — sinal inequívoco de ter descoberto o nome que buscava — e exclamou:
— Eiko Matsuda!
— Quem?! — pergunta o Joca.
— É uma atriz?! — questiona o Toni.
— É? — indaga o Chico.
— Claro! — afirma perentoriamente o Morais.
— Lá vem o Morais com a sua mania de cinema intelectual —returque o Toni.
— É mesmo coisa do Morais — acrescenta o Chico.
— Ó Morais, queremos as atrizes que nos humedeceram os sonhos — diz o Joca, para risada de todos. Menos do Morais.
— Sim, eu sei... — responde o Morais.
— E que raio de filme fez ela?! — pergunta o Toni.
— É… que raio? — questiona o Joca.
— É! — enfatiza o Chico.
— Não vos lembrais? — indaga o Morais.
— Não! — respondem os três em simultâneo.
O Império dos Sentidos! — remata o Morais.
A resposta deixou os outros em sentido. E imperou o silêncio. O Morais, o intelectual, tinha brilhado em área que nem era a sua maior especialidade. Ficaram mais uns segundos em silêncio e pediram a conta. Saíram todos com a mesma ideia em mente: «Onde diabo se pode arranjar uma cópia desse filme?»

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O GPS na relação conjugal

Não sei se já há dados estatísticos que o comprovem, mas acredito que um dos efeitos secundários do uso generalizado do GPS tenha sido uma valiosa contribuição para o decréscimo das situações de conflito entre casais que gostam de viajar (e utilizar o GPS).

Casal que tenha ultrapassado a lua-de-mel rapidamente começa a aperceber-se que não é por terem passado a formar um só corpo que daí em diante tudo funcionará na perfeição. A mulher, de um modo geral, atinge esse estado de consciência muito antes do homem. Muitas vezes, na própria lua-de-mel. Principalmente se essa envolver viagem de carro na qual se torne necessário recorrer a um mapa. Facilmente a mulher descobre que a sugestão de ignorarem o mapa e pedirem indicações a alguém é uma das ofensas graves para o homem: o verdadeiro macho sabe como tratar sozinho da orientação familiar e não precisa da ajuda de estranhos. Sugerir que se abdique deste princípio básico pode ser (e quase sempre é) interpretado como ofensa grave. Respeitado esse princípio, a viagem passa depois por várias fases.

Na fase 1, o homem coloca o mapa nas mãos da mulher e escuta a inevitável pergunta: «onde é que estamos?» Respostas objetivas do tipo «devias saber tanto quanto eu», além de dificilmente saírem no tom e volume certos para não parecerem ofensivas, também não vão contribuir em nada para a resolução do problema. Nessa fase, o mais recomendável é parar o carro e assinalar sobre o mapa (de preferência com uma cruzinha) o local onde se encontram nesse momento. Ainda com o carro parado, o homem deve colocar o mapa com a orientação certa nas mãos da sua companheira. Se o estado de espírito ainda permitir, pode também aproveitar para lhe dar um beijo e assim transmitir a ideia (falsa) de que não está tenso.

A fase 2 é um pouco mais demorada e, normalmente, envolve instruções do tipo «vira para lá» (com o correspondente acompanhamento de sinalética manual, claro está). Nesta fase o homem deve aumentar o mais que puder o alcance da sua visão radial. O ideal seria colocar a mulher no capô (e ela até agradeceria, mais não fosse para se livrar do sujeito mal-humorado que tem ao lado), mas isso não é permitido por lei (pelo menos nos países por onde tenho andado). Esta é a fase em que a tensão aumenta significativamente e deixa de ser possível disfarçá-la com um beijo. Aumentar o volume do rádio pode ajudar. Mesmo que isso faça com que as instruções deixem de ser escutadas, o efeito será praticamente o mesmo. E o volume alto sempre permite libertar alguma da tensão acumulada praguejando um pouco sem que se note a indelicadeza.

Entre as fases 2 e 3 há a tentação para uma fase 2.5, que envolve o mapa colocado sobre o volante e o acumular das funções de piloto e co-piloto. O homem jamais deve cair nessa tentação! Além de ser proibido por lei e contribuir de forma significativa para aumentar o risco de acidente (por vezes há sintonia entre as proibições e o perigo iminente), não costuma trazer resultados práticos: o desempenho de mais do que uma tarefa em simultâneo é qualidade exclusiva da mulher!

A fase 3 depende dos casais:

Nos casais onde o homem tem alguma inteligência prática (ou menos testosterona, dá no mesmo), chegando a esta fase (mas só nesta fase!), o problema já se resolve facilmente com o renovar da sensata sugestão feminina «vamos perguntar a alguém». No entanto, nesta fase de cedência à sensatez feminina, evitem-se os exageros: perguntando a grupos exclusivamente femininos, e sendo elas pelo menos quatro, com probabilidade alta se corre o risco de obter indicações com mãozinhas delicadas a apontar nas direções de (no mínimo) os quatro pontos cardeais.

Nos casais mais radicais, a mulher sai do carro e apanha um táxi. Muito tempo depois o homem chega ao destino visivelmente cansado e, com um sorriso idiota e ar triunfal, acrescenta: «estás a ver que consegui?»

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Nota temporária

A todos quantos visitam este blogue em busca do GPS na relação conjugal, esclareço: de acordo com informação prestada pelas engenheiras da Google a crónica irá voltar. Saiu sem GPS, mas o Google Maps já a localizou e vai ajudá-la a voltar para o devido lugar. Só mais um pouco de paciência, por favor!

Aqui a versão oficial do ocorrido:
http://buzz.blogger.com/2011/05/blogger-is-back.html

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Esse tal de Bilada

Coincidiu estar eu no Alentejo na manhã em que foi anunciada a morte do Bin Laden. Acabava de pedir o meu café com leite e torrada  de pão alentejano, claro  para o dejejum na esplanada de um café. Em condições normais, teria aproveitado o entrementes  gosto especialmente desta palavra, apesar de só agora a desvirginar por escrito   para sacar do meu telefone esperto e cavalgar em 3G por esse mundo virtual afora em busca das notícias matinais. Contudo, perante o cenário que me era oferecido, simplesmente detive-me a contemplar a beleza do imenso matiz verde-claro — típico da época na planície alentejana — aqui e ali salpicado pelo verde-escuro das oliveiras.

Atendeu-me um senhor de idade já avançada. Seria perfeitamente razoável que ainda fosse de uma geração de formação escolar  se a teve  predominantemente analfabeta. Se não de ignorância total nas letras, pelo menos com pouca agilidade para absorver a informação das legendas que habitualmente complementam o som e as imagens televisivas. Especialmente, quando a junção de letras conduz a uma palavra em língua estrangeira. Bin Laden, por exemplo.

Notei junto ao balcão desse café um prender de atenções dos clientes locais pelo aparelho televisivo. Na esplanada onde me encontrava não podia ver nem ouvir que notícia lhes cativava a atenção, mas foi para mim claro que algo de importante se passava. Quando o senhor me trouxe o tal café com leite e torrada, aproveitei para tentar obter algum esclarecimento. A resposta veio pronta e ligeiramente evasiva:
 Dizem que mataram esse tal de Bilada.
Não pude deixar de notar esse detalhe interessante na forma como me esclareceu com o "dizem que". Inteligentemente, toma o conteúdo da informação televisiva como mera informação, não como comprovativo de um facto. E o delicioso pormenor do Bilada? Comentários para quê? Ninguém duvide que uma certa dose de analfabetismo por vezes ajuda na criatividade para uma adaptação linguística.

Soube depois que noutras latitudes houve festa da brava até altas horas da madrugada para celebrar a morte desse tal de Bilada, como se da conquista de um campeonato do mundo se tratasse. Devo confessar que ao ser informado dessa morte não levantei nem o punho direito para festejar, como se de um mero golo se tratasse. Encarei sempre esse tal de Bilada tanto como produtor quanto como produto do mal. Morre este homem, mas ninguém duvide que o génio do mal continuará com personificações por esse mundo à solta.

domingo, 1 de maio de 2011

O álbum de retratos

O amor da dona Lurdes pelo Marinho era de tal forma profundo que, em nome de um valor tão alto como a felicidade do filho, estava disposta a invadir a sua privacidade. O seu coração de mãe não aguentava mais ver o Marinho no estado de sofrimento em que tinha mergulhado depois que a Maria Helena o largou. Acima de que tudo, não podia permitir que ele continuasse a cultivar esse sofrimento: eram já sem conta as vezes que lhe batia à porta do quarto — nesse bater quase em simultâneo com o rodar do puxador — e o via esconder aquele maldito álbum vermelho no armário.

Foram também sem conta as vezes que a dona Lurdes avisou o Marinho de que não era normal o tempo que o Ricardo passava no apartamento deles. E, muitas dessas vezes, apenas na companhia da Maria Helena. Mas, de que adiantou? A todos os alertas o Marinho respondeu sempre com um «somos amigos de infância». E eram de facto amigos de infância. Três amigos de infância. Mas a dona Lurdes sabia — e o tempo veio comprovar que estava certa — que a amizade de infância nunca foi escudo para uma punhalada pelas costas. Foi assim que a dona Lurdes interpretou o modo como a Maria Helena abandonou a casa e a vida do Marinho para ficar com o Ricardo. Com um simples bilhete: «Fui viver com o Ricardo, não me procures».

O Marinho era um menino puro. Essa mesma pureza que anos antes fizera a Maria Helena optar por ele — em detrimento do Ricardo —, servia agora para ela facilmente descartá-lo como quem descarta uma peça de roupa sem utilidade. E para ficar precisamente com esse Ricardo, que outrora lhe parecera impuro. Sabia-se que, na época, o coração da Maria Helena tinha vacilado bastante entre o Marinho e o Ricardo e finalmente pendido para o lado da pureza. Mas, excetuando a dona Lurdes, ninguém vaticinaria que esse mesmo coração pudesse voltar a vacilar e pender agora para o outro lado.

O momento da dona Lurdes violar a privacidade do filho — em nome da sua felicidade, claro — tinha finalmente chegado. O Marinho tinha saído apressado para o trabalho e, inacreditavelmente, esquecido a chave na porta do armário onde zelosamente guardava o álbum de retratos. A dona Lurdes não deixou de notar esse detalhe enquanto arrumava o quarto do filho. Ainda pensou duas vezes, mas à terceira já estava com a porta aberta. E nem precisou de vasculhar muito para rapidamente descobrir o maldito álbum vermelho. Soltou um suspiro de alívio e abriu um ar de satisfação enquanto apertava o álbum contra o peito.

De imediato, dirgiu-se para o seu quarto. Antes de encerrar o álbum a sete chaves, a dona Lurdes sentiu a tentação de olhar o seu conteúdo. Sabia que havia a possibilidade do álbum conter fotos íntimas do Marinho e da Maria Helena, mas ao seu coração de mãe nem isso fez merecer a reprovação do intento. Abriu o álbum e começou a folheá-lo. À medida que avançava, o seu semblante, que minutos antes era de satisfação, rapidamente começou a ficar carregado. E, entre suores frios, surgiu-lhe a inevitável interrogação: «Porquê tantas fotos do Ricardo?!»

quarta-feira, 27 de abril de 2011

A inexorabilidade dos números

Ainda muito jovem me apercebi de que não era especialmente dotado para a atividade política. Para ser mais preciso, por volta dos meus dez anos de idade. Lembro-me perfeitamente daquela tarde em que fui incumbido pelos meus colegas para negociar a devolução de uma bola com o proprietário do terreno vizinho àquele onde costumávamos jogar futebol. De nada valeu ao meu povo carente de bola a minha suposta capacidade de negociação, pois o resultado prático da missão foi termos que desatar todos a correr — sem a tal bola — e nunca mais ganharmos coragem para colocar os pés naquele terreno. Claro que daí em diante o grupo nunca mais me incumbiu de missões com necessidade de alguma habilidade política — e eu até agradeci — e aí comecei a desconfiar que o meu caminho talvez pudesse passar mais pelas ciências exatas.

Claro que o ser humano vem dotado de uma certa capacidade de evolução e eu nem fujo muito à regra. Posso até dizer que com os anos fui desenvolvendo o pouco jeito que tinha e hoje já começo a considerar a possibilidade de abraçar uma carreira política. Obviamente, porque a atividade política de hoje em dia pouco tem a ver com a atividade de outros tempos. Ter boa capacidade política nos tempos que correm consiste essencialmente em ter alguns dotes de teatralização na campanha eleitoral com a palavra a certa — de preferência enigmática — e o sorriso perfeito. A isso juntando bom aspeto físico — a minha mãe acha-me muito bonito — e uma boa equipe de marketing por trás a orientar os passos, podemos dizer que temos a fórmula certa para o sucesso político na atualidade.

Se dúvidas houvesse, com a chegada a Portugal do triunvirato — a nossa comunicação social aderiu em massa a uma tal de troika, mas eu confesso que ainda não senti necessidade de recorrer à língua russa — de peritos internacionais em finanças públicas e a completa passividade dos nossos governantes, tivemos a prova cabal de que a governação de um país não se faz agora com habilidade política para negociar, mas sim com total subjugação à inexorabilidade dos números. O papel do governante é, hoje em dia, ceder à chantagem dos mercados e dos banqueiros, estando para ele reservada apenas a mera função de justificar  — quase sempre a posteriori — o limitado leque de opções possíveis, quase sempre com base em números e dados estatísticos.

E, se o assunto é números, porquê restringir o recrutamento de líderes políticos a engenheiros e economistas e não chegar àqueles que melhor conhecem e entendem as suas subtilezas? Estão a ver onde quero chegar não estão? Sem puxar muito pela memória, posso assegurar que tenho conhecimento profundo em números naturais, inteiros, racionais, irracionais, reais, complexos, quaterniónicos, primos, compostos, perfeitos, algébricos, transcendentes e muitos outros que nem vêm ao caso!

É óbvio que uma candidatura minha neste momento a um cargo político da nação já não viria a tempo das eleições que se avizinham. Mas, com tempo, vou amadurecer a ideia e, quem sabe, nas eleições seguintes — que nem deverão andar muito longe, dada a grande instabilidade política — apareço com uma equipe e o marketing certo para o sucesso. Até já tenho um discurso alusivo à minha qualidade técnica na nobre ciência dos números para tentar convencer o povo a votar em mim:
«Vocês conhecem o meu trabalho: eu provei que sistemas dinâmicos com decomposição dominada nos quais um dos fibrados exibe contração uniforme e o outro comportamento não uniformemente expansor possuem alguma medida de Sinai-Ruelle-Bowen!»
Que se acautelem os pouco preparados intervenientes da cena política nacional, pois o lugar deles começa a ficar em perigo!

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Sem preconceito

A Dulce acabava de pousar o telefone.
Outra vez?!
Outra vez o quê?
A tua tia...
O que é que tem a minha tia?
Já vem para cá outra vez?
Como “já”?
Ainda há pouco tempo cá esteve.
Há pouco tempo?
Não é?
Na Páscoa do ano passado... Há mais de um ano!
Parecia-me menos tempo...
Ó Proença, não sejas assim com a minha tia.
E vem por quanto tempo?
Uma ou duas semanas...
Tudo isso?!
Não mais de três!
Ah não, três semanas sem sofá a partir das 10?!
A tia é uma mulher só.
Só? Porque quer...
A história do pai do Borges de novo?
A tua tia tem à mão um bom partido e rejeita-o! Depois é uma mulher só, claro.
Não sejas preconceituoso!
Eu?!
Sim. Achas que tinha que se sujeitar ao primeiro que lhe apareceu só porque já tem mais de 60 anos?
Não tinha que se sujeitar. Só tinha que lhe dar uma oportunidade.
Ele tem aquele defeito...
Essa é boa! Ela rejeita-o porque ele tem um ligeiro defeito e eu é que sou o preconceituoso!
Ligeiro defeito?!
Sim. Uma perna ligeiramente mais curta. Mas sentado ou deitado nem se nota.
Não me referia a isso.
Não?! Tem outro?
Ora, Proença, não te lembras de quando o apresentamos à tia?
Um pouco vesgo? Com óculos escuros também não se nota.
Nem é tão pouco vesgo. Mas também não me referia a isso.
Não me digas que é por ele ouvir mal!
Desse defeito já nem lembrava...
Aliás, do jeito que a tua tia fala, é até uma virtude: não vai reclamar nunca!
Não, não é isso!
É por ser adepto do Porto?!
Não, Proença, que disparate!
Então, que diabo é?!
Não te lembras do jantar de apresentação?
Lembro... O que é que teve?
Ah, Proença, é difícil!
Difícil o quê?
Difícil até para eu falar.
Fala.
Ah...
Fala!
Flatulência é demais!
Ah, Dulcinha, para isso há remédio!
Não dá!
Um médico resolvia isso facilmente.
Não dá, não dá!
Acho que tu e a tua tia é que estais cheias de preconceito.
É, Proença, para resolver o caso da minha tia tu até és um homem muito despido de preconceitos!
O Proença achava-se um homem moderno. De mente aberta. Não gostou do «para resolver o caso da minha tia» na frase da Dulce. Ainda pensou argumentar que para resolver o seu próprio caso também se tinha despido de alguns preconceitos, mas pressentiu que seria mais prudente não entrar com a argumentação por esse lado. Achava-se um homem moderno e prudente. E totalmente sem preconceito!

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Evea culpa

É inegável que vivemos um período profundamente conturbado da nossa história. Não temos árabes, nuestros hermanos ou colonizados para combater, mas temos guerras abertas em várias frentes: ideológicas entre direita e esquerda; partidárias entre PS e PSD; desportivas entre Benfica e Porto; até no Sporting, clube vincadamente aristocrata e acima de qualquer tentação de mau vício plebeu, na falta de um rival externo para guerrear, desataram à pancada uns aos outros. Em todas estas guerras há um denominador comum no pomo da discórdia: a culpa. Perentoriamente enjeitada por todas as partes beligerantes, surge naturalmente a pergunta inevitável: afinal, onde mora a culpa?

Sendo eu um assumido adepto de boa ponderação sobre as grandes questões, dei por mim a tentar decifrar este enigma nacional de distribuição da culpa. Excetuando a guerra Benfica-Porto — nesse caso a culpa é claramente do Pinto da Costa —, em todos os outros casos, fui recuando até tempos imemoriais. Dos erros da atualidade passei aos erros cometidos no processo de adesão à CEE, logo fui remetido ao problemático período do pós 25 de Abril e, num ápice, à ditadura salazarista. Essa foi consequência do conturbado período da primeira república que, como é fácil de adivinhar, tem os seus problemas com raízes na monarquia. Da monarquia parlamentar passei à absolutista e, recuando pelas três dinastias, fui até ao reino de Leão, transportando a culpa também por árabes, alanos, suevos, vândalos, visigodos, romanos — memorizem este nome, voltarei a eles —, lusitanos, celtas, cartagineses, gregos, fenícios e muitos outros povos que por aqui andaram, passei pelo homo sapiens, homo neanderthalensis e, após uma série de outros homos — todos com agá —, imagine-se onde fui parar. Que coisa incrível! Alguém adivinha? Essa mesmo: Eva! 

A menos que se consiga algum teste de ADN — algo que julgo praticamente impossível ao fim de todo este tempo —, nem ao Adão se pode imputar qualquer tipo de culpa. Convém lembrar que em regimes jurídicos minimamente decentes a paternidade não é mais do que uma presunção e, em prol do bom Adão, não vamos deixar de usar essa prerrogativa. Aliás, segundo os relatos bíblicos, a relação conjugal nos primórdios funcionava em moldes ligeiramente diferentes dos atuais: era a Eva quem saía para angariar sustento e o Adão ficava a cuidar da vida doméstica. Nunca me foi dito às claras — nem preto no branco — o que se passou entre a Eva e a serpente, mas tendo em conta a constante atrapalhação que demonstrava o padre que me catequizou sempre que eu lhe pedia esclarecimentos adicionais, agora que tenho uma visão mais adulta — e cínica — do mundo, sou levado a concluir que só pode ter acontecido uma coisa: a Eva teve um envolvimento íntimo com a serpente. Isso até justifica a má índole do Caim — da qual descende a componente viperina da humanidade — e uma quantidade de maus tipos que têm andado por aí. É bastante provável que o bom Abel seja mesmo filho legítimo do bom Adão, mas aí entramos mais uma vez no reino da mera presunção.

Devo acrescentar um dado que me parece importante e que contribuiu de forma decisiva para a elaboração desta minha teoria: lá pelo meio das minhas averiguações, descobri em alguns textos de direito romano várias referências a uma tal de evea culpa. Quem entende alguma coisa de latim — não é propriamente o meu caso, mas tenho um primo que diz que entende e deu-me uma ajudinha neste caso — sabe muito bem o que isso significa!

segunda-feira, 11 de abril de 2011

As metáforas do amor

Não será necessário recorrer a estudos muito aprofundados sobre o assunto para que facilmente possamos chegar à conclusão de que o tema preferido da grande maioria dos poetas é o amor. Poetas fracos — por vezes bem sucedidos financeiramente com a produção de letras para canções — usam e abusam da visão do amor como uma flor. Grandes poetas, por seu turno, conseguem com facilidade metáforas bastante mais originais, nem sempre através de associações especialmente românticas. Luís de Camões, por exemplo, afirmou num dos seus sonetos que «o amor é ferida». A comparação não é particularmente atraente, mas o poeta adornou-a de forma tão magistral, que os aspetos mais repugnantes associados à ideia de ferida dificilmente se acercarão do pensamento de quem leia esse soneto — exceção feita a mim mesmo neste momento, claro... Você também?

Recorrendo a um algoritmo simples que desenvolvi com base nas pesquisas do Google, cheguei à conclusão de que até agora não houve poeta — de língua contemplada pelo Google Tradutor — que tivesse espalhado a sua arte sobre aquela que me parece ser a metáfora mais óbvia: o amor é cola. Apresentada assim, a comparação não será porventura nada poética, mas acredito que um Camões relativamente inspirado facilmente arranjasse forma de transformá-la numa belíssima imagem.

Fatores como a emancipação da mulher, o descaramento do homem e, acima de tudo, a felicidade de pelo menos um dos dois, têm deixado evidente a cola que mais une o casal dos nossos dias: uma cola aguada. Grande parte dos amores modernos são como uma dessas colas que facilmente se encontram em loja de chinês e com a qual se tem dificuldade para colar até duas folhas de papel. Num estado menos aguado, há amores cola branca, que gruda por um tempo, mas depois — por razões de temperatura inapropriada entre os corpos unidos, por exemplo — deixa desprender aquilo que anteriormente uniu. Cada vez mais raros são os amores cuja cola resiste a todas as intempéries e perdura forte e firme até que a morte os separe. Uma cola de sapateiro, por assim dizer.

Será seguramente uma dessas colas de sapateiro que tem unido a dona Gertrudes e o senhor Ernesto ao longo dos 57 anos de casados. Especialmente a que brota da parte da dona Gertrudes. Frequentemente sujeita às maiores intempéries de mau humor do senhor Ernesto — que por vezes discorda até na hora de concordar —, o amor da dona Gertrudes resiste. Lá está ela agora, levantando-se da cama a meio da noite para ir buscar um copo de água e um comprimido para amenizar um ataque de vesícula do senhor Ernesto. Enquanto ele bebe a água, ela afaga-lhe o cabelo e, com muita ternura, diz: «vai passar, vai passar...» A dona Gertrudes já nem se lembra que poucas horas antes ele teve um dos seus frequentes acessos de mau humor, só porque à saída da missa ela lhe perguntou:
— Quem era aquele alto e loiro parecendo alemão lá na fila da frente?
— Mas, Gertrudes, tu és completamente louca! — A palavra «louca» foi pronunciada com um prolongar da letra L que doeu fundo na alma da dona Gertrudes; o senhor Ernesto prosseguiu: — Na fila da frente não tinha ninguém alto e louro parecendo alemão!
— Não?!
— Não! O alto e louro parecendo alemão lá na fila da frente era o filho mais novo do falecido Manuel Antunes!

Alguém vai negar que só uma cola de sapateiro suporta frequentes acessos como este?

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Prece de um português consciente

Festejos na Luz
Meu deus, meu bom deus, ciente da omnipresença que te caracteriza, estou certo que tens acompanhado todas as manifestações de grande irresponsabilidade dos adeptos portistas nas últimas 24 horas. Como é possível que, em época de crise económica e financeira tão acentuada, eles saiam para rua a gastar enormes quantidades de recursos petrolíferos cuja importação tanto pesa na nossa balança comercial? Como é possível que, num momento em que o país necessita urgentemente de aumentar a produtividade, eles se deitem a altas horas da madrugada e no dia seguinte cheguem — e só tu sabes em que condições físicas — tarde ao trabalho? Meu deus, meu bom deus, como é possível que, num momento em que tantos portugueses andam carenciados do bem estar físico, psíquico e social, adeptos de um mero clube de futebol fiquem na rua aos berros até de madrugada, utilizem compulsivamente as buzinas dos carros e assim perturbem o sossego de quem já anda tão perturbado? Meu deus, meu bom deus, porquê todo esse frenesim? Para celebrar a vitória de um grupo de homens em calções a dar pontapés numa bola? Que espécie de gente é essa que coloca tal frivolidade acima dos interesses e dos valores mais profundos da nação? Que espécie de gente é essa que não pensa no que pensam os mercados nem nas suas reações? Meu deus, meu bom deus, como podem esses portistas criticar a atitude consciente e ponderada dos dirigentes benfiquistas que, sensatamente, optaram por não agravar ainda mais o nosso défice energético? Meu deus, meu bom deus, como se tudo isso não bastasse, hoje entopem as caixas de correio eletrónico com frases tolas e fotos de um profundo mau gosto — chegam ao cúmulo de desrespeitar a imagem e o bom nome de Jesus! Fazem desfilar pelos murais facebookianos um chorrilho de piadas, anedotas e comentários sem a menor contribuição para solucionar os grandes problemas do momento. Meu deus, meu bom deus, essas pessoas não trabalham? Não têm filhos para sustentar e um país para ajudar a recuperar? Como é possível que nesta situação económica tão inspiradora de cuidados, 24 horas depois do tal feito do bando de homens em calção a dar pontapés numa bola, ainda tenham os pensamentos todos dirigidos para aí? Meu deus, meu bom deus, eu sei que não é digno de um crente desejar mal aos outros e ainda menos digno é quando nos outros estão incluídos familiares e amigos. Longe de mim desejar-lhes mal que lhes afete a saúde, as finanças ou o bem estar familiar. Mas, se pudesses interferir... Não te peço grandes intervenções, apenas uma coisinha aqui e outra ali, que os faça não terem motivos para sair de casa para festejos até ao debelar desta maldita crise que tanto nos apoquenta.

domingo, 3 de abril de 2011

A cozinha do chefe

O Portugal que eu admiro e prezo é um país de cozinha saborosa, barata, farta e com uma personalidade muito própria. A cozinha tradicional portuguesa é, dentre as que conheço, uma daquelas onde melhor se extrai o verdadeiro sabor dos alimentos, havendo pouco espaço para molhos dissimuladores. Fica o envolvimento harmonioso dos alimentos quase exclusivamente a cargo de um azeite de muito boa qualidade. Contudo, nos últimos anos a modernidade tem colocado em causa algumas dessas boas características da cozinha portuguesa, muito particularmente nas componentes personalidade própria e preço. Na base disso têm estado fatores de ordem diversa, entre eles:

Fator matemático: a passagem do escudo ao euro exigiu a conversão dos preços. Dada a reconhecida e assumida inépcia dos portugueses para a matemática — especialmente detetável nos proprietários de restaurantes —, optou-se pelos arredondamentos simplificados: 1000 escudos passaram a 10 euros, 1500 escudos passaram a 15, 2000 a 20, e por aí adiante.

Fator social: é sabido que a cozinha moderna não se faz com mulheres na retaguarda — longe vão os tempos em que o lugar delas era na cozinha. A cozinheira cedeu o lugar ao chefe — dizem que o chique é chef, mas eu continuo a preferir português correto — que, como homem que é, ganha mais. Ou seja, a evolução ainda é parcial: a mulher já foi retirada da cozinha — dos restaurantes —, mas continua-se a pagar mais aos homens. Claro que essa meia modernidade tem o seu preço.

Fator geográfico: dantes os alimentos eram genuinamente portugueses, normalmente regionais ou até locais. Agora (por enquanto...) os alimentos têm origem à escala planetária. Entre outros agravantes, o transporte em boas condições de higiene e conservação, a taxa de câmbio e a taxa de importação têm o seu reflexo no preço final.

Fator tempo: os pratos tradicionais tinham nomes curtos que indicavam conteúdos bem definidos. Passava-se os olhos pelo cardápio e, num ápice, o estômago dava indicações da preferência no momento. Agora os pratos não têm nomes, mas sim descrições. O que dantes funcionava em duas ou três palavras, agora tem que ser descrito em duas ou três linhas — quase invariavelmente utilizando a preposição "com". Claro que o maior tempo de permanência num espaço de qualidade tem o seu preço.

Fator material: dantes um restaurante era composto de pratos (louça) de tamanho normal e comida farta. Agora a quantidade de comida diminuiu significativamente, mas o tamanho dos pratos aumentou. Sendo certo que vivemos numa sociedade onde o preço dos bens essenciais é bastante inferior ao dos bens supérfluos, é natural que isso se reflita no preço final.

Fator linguístico: já prestou a devida atenção ao cardápido de um restaurante moderno que se preze? Quantos especialistas em línguas serão necessários para elaborar algo minimamente decente? Um serviço especializado como esse tem forçosamente os seus custos e o inevitável reflexo no preço final.

Claro que todas estas inovações conferem um toque de classe à nossa cozinha. E fazem com que, aos nossos próprios olhos, pareçamos um povo muito mais sofisticado. Eu já evoluí na minha condição de gourmet. Diria que fiz uma evolução parcial, pois os pratos continuam a ser os mesmos da cozinha tradicional — aí não faço concessões —, mas os nomes já foram todos adaptados. Especialmente quando tenho convidados em casa, o impacto é outro. Só a título de exemplo: lascas de torsk da Noruega salteadas em bolbo de allium cepa com tubérculo de solanácea peruana ao suco e fruto de oliva, mesclado em ovos galináceos e aromatizado ao vin blanc. Bacalhau à Brás? Não, que nome mais antiquado!

sábado, 26 de março de 2011

O pesadelo da Scarlett


Um verdadeiro pesadelo. Eu tinha lido na véspera que hackers haviam invadido o iPhone dela e de lá retirado fotos muito comprometedoras, mas não me passou pela cabeça que o meu nome pudesse estar em causa. Só passei a levar em conta essa possibilidade depois que o meu sobrinho me telefonou. Entre elogios à proeza do tio — até aí totalmente desconhecida — e aos dotes físicos da Scarlett, eu deduzia que nas fotos roubadas pelos hackers ela não estava só. Mas não podia ser eu. Estava seguro que o telemóvel dela era um Nokia!

Conheci a Scarlett quando decorriam as filmagens do Vicky Cristina Barcelona. Tinha bem presentes os detalhes do nosso encontro: eu a desfrutar a tranquilidade do meu entre safras e ela a necessitar urgentemente de uma boa colheita. Ambos solitários naquele restaurante perto de Las Ramblas. O meu olhar rapidamente se fixou na mesa ao lado: primeiro na paella e logo depois só para ela. Apesar de uns ligeiros toques de disfarce, não tive dúvidas de quem se tratava. Abordei-a com um «are you lonesome tonight?» e nem precisei de esperar que a conversa avançasse muito para saber que já encaixava bem o «do you miss me tonight?». Inexplicavelmente — ou talvez nem tanto — a ambas as perguntas corresponderam respostas afirmativas.

Soube depois que ela acabava de ser rejeitada pelo Bardem — que optara pela Penelope — e precisava urgentemente de afogar as suas mágoas. E o meu aspeto de encorpado moreno latino a expressar-se num inglês com ligeiro sotaque ibérico era exatamente o que ela estava a precisar. Começamos por afogar as mágoas — eu não as tinha, mas imediatamente me solidarizei com ela — num Vega-Sicilia e terminamos, já manhã alta, com um Moët Chandon numa suite do Hotel Hilton onde ela estava hospedada. Pelo meio muita loucura. As fotos incluídas.

Depois da chamada do meu sobrinho, o telefone começou incessantemente a tocar: família, amigos, colegas e, finalmente, a comunicação social! Acabavam de considerar-me o português mais bem-sucedido da década, com honras e deferências de ilustre cavalheiro. Um feito inigualável!

Rapidamente me apercebi que o pior tinha acontecido: a Scarlett tinha transferido as fotos do Nokia para o iPhone, comprado — lembro-me de lhe ter recomendado a compra — tempos depois do nosso affair. Quiçá, para com mais frequência recordar o português mais bem-sucedido da década, que lhe proporcionara uma das noites mais memoráveis de sempre. Palavras dela. Em inglês, claro.

Mas isso não podia estar a acontecer comigo! A minha vida de modesto matemático exilado no mundo que tanto preza o sossego do anonimato para ir alcançando os seus resultados não mundanos estava irremediavelmente comprometida. Que terrível agonia!

Foi neste ponto que o pesadelo acabou: o meu cão veio avisar-me que estava na hora de acordar. Já passava das nove e fazia parte do nosso trato levá-lo para o passeio matinal. Desci feliz e agradecido por ter sido resgatado daquele pesadelo tão agoniante. Passeei-o incógnito pela vizinhança, na minha vida recatada de sempre. Aproveitei os primeiros minutos da manhã para acrescentar uma inesperada boa ideia a um problema que me sobrara de véspera. Sentia-me anormalmente inspirado!

quarta-feira, 23 de março de 2011

Aproximadamente catorze

Há algumas semanas, numa viagem de comboio entre Coimbra e Porto, acabou-se-me a bateria do iPod. Adormeci ao som do Madredeus e acordei, alguns minutos depois, ao som da voz de deus (ou do povo, que embora não sendo igual, dá no mesmo). Perto de mim, dois casais de meia-idade lamentavam-se sobre a situação político-económica do país, concordando que PS e PSD são uma e a mesma coisa. Concordavam entre eles e comigo também, pois há muito que esses partidos me parecem farinha do mesmo saco. Levando em conta todos os fatores ponderáveis e imponderáveis, não consigo notar-lhes mais do que a ténue diferença do dêzinho na sigla de um deles. Um dêzinho para distrair o povo incauto, penso eu: tirando dêzinho e colocando dêzinho, pensará o povo que consegue verdadeiras alternativas no poder.

Se dúvidas houvesse quanto à flagrante falta de diferença que os atinge, essas teriam ficado completamente dissipadas com as pseudo-negociações para o acordo sobre o orçamento de estado de 2011. Alguém negará que aquilo foi uma prova cabal de que o ambiente reinante entre esses partidos é do mais puro companheirismo e comunhão de ideias? Fingem zangar-se com base numa discrepância de 0,1%, amuam, são chamados pelo senhor professor e imediatamente fazem as pazes. E, para o quadro ficar completo, terminam abraçados numa foto de telemóvel. Que linda amizade!

Até aqui coincidia a generalidade dos comentários dos meus ocasionais companheiros de viagem. A coisa divergiu no ponto da conclusão. O meu espírito inconformado jamais poderia admitir que são «todos iguais»! Menos ainda admitiria que, finda a governação do sem dêzinho, a alternativa será votar de novo no dêzinho. Todos iguais? Quais todos? Temos alternado apenas entre dois (e meio) que, esses sim, são todos iguais. Mas, não esqueço: nas últimas eleições legislativas contei as opções no boletim de voto e, posso assegurar, eram aproximadamente 14! (é ponto de exclamação, não é 14 factorial, sem exageros...).

Para não ter que me imiscuir em conversa alheia, resolvi apear-me em Gaia e caminhar até ao Porto (a aragem vinda do mar e a vista panorâmica da ponte D. Luís costumam fazer-me bem nestas ocasiões). Já mais arejado e consciente dos problemas nacionais, surgiram-me dúvidas sobre qual poderia ser o verdadeiro problema dos meus ex-companheiros de viagem. Talvez não fosse um problema de consciência política, mas um problema de matemática, ou até de iliteracia: será que não sabem contar até mais do que dois (e meio)? Será que não sabem interpretar as siglas?

Revoltei-me comigo mesmo: devia ter interferido na conversa alheia e alertado que há mais do que os tais dois (e meio) partidos todos iguais. Podia até ter tentado ajudar na hipotética questão de iliteracia, sugerindo votarem num qualquer partido que não tenha a letra S na sigla (curiosa e ironicamente, são partidos com o tal S, de aparente preocupação com o social, que nos têm dado cabo da sociedade). Cheguei a casa arrependido pela minha saída precipitada daquela carruagem. Adormeci de consciência pesada e acordei três vezes durante a noite. Com pesadelos horríveis.

sábado, 19 de março de 2011

Pai

 Pai?
 Sim.
 Logo à noite quero ir à Kapital.
 Capital? Mas, já estamos em Lisboa.
 Não, pai, quero ir à Kapital com K, a discoteca.
 "Quero ir"...
 Tu também?!
 Não, apenas achei interessante a forma como disseste: "quero ir".
 Querer quero. Se posso ou não, isso é outra questão.
 Não achas que ainda és muito nova para começares a ir a discotecas?
 Começar?! Já fui lá várias vezes.
 Já?! A tua mãe tem permitido?
 Sim. E acha normal.
 Normal, no tempo dela, era uma rapariguinha de catorze anos ficar em casa a ver televisão.
 Normal, no meu tempo, é uma rapariga de quase quinze anos ir a discotecas.
 E que vais tu fazer a discotecas?
 Ora, pai, dançar, namorar, beber, divertir-me! Fica tranquilo, sabes que ainda não bebo álcool.
 Namorar?!
 Sim, o Renato.
 O Renato?! O coleguinha do colégio?
 Sim. Agora é o namoradinho do colégio.
 Não são muito novos para isso?
 Para falar verdade, sinto que já comecei um pouco tarde. Quase todas as minhas amigas têm namorados há bastante mais tempo do que eu. Algumas já vão no segundo e umas quantas no terceiro.
 É sério?
 Bem, a maior parte são namoricos só para andar, nada muito sério. Mas algumas já perderam a virgindade. Eu confesso que ainda não me sinto preparada para isso.
 Ainda bem!
 Não sei... Mas, pai, levas-me à Kapital?
 A que horas?
 Gostaria de estar lá por volta da uma?
 Chegar à uma da manhã?!
 Sim!
 Hum, e o Eixo do Mal?
 Eixo do mal, pai? Vais deixar de dar boleia ao teu bem mais precioso por causa de um tal eixo do mal?
 Não sejas cínica...
 Cínica? Não, pai, estou apenas a lembrar-te aquilo que há anos me ensinas: entre o bem e o mal, escolher sempre o caminho do bem.
 Está bem, está bem... E para voltares?
 Temos duas opções: venho à boleia com o irmão mais velho do Renato, ou vais lá buscar-me.
 Só temos uma opção! A que hora queres que te pegue?
 Por volta das seis. Mas não precisas de ter pressa!
 Quando chegar dou um toque.
 OK. És o pai mais fixe do mundo!

Horas mais tarde, o pai reparava que no carro a seu lado não ia uma rapariguinha de catorze anos, mas uma mulher feita. Pela primeira vez tomava consciência de que a sua postura perante o complicado universo feminino estava a mudar. Começava a encará-lo agora mais na perspectiva de «produtor» do que na de «consumidor».
 Pai?
 Sim.
 Emprestas-me 20 euros?
 Empresto. Emprestar, quer dizer...
 Quer dizer isso mesmo. Prometo que quando tiver o meu primeiro emprego te devolvo os 20 euros.

O pai nessa noite foi dormir com a sensação de ter levado alguns murros no estômago. Uns mais intensos do que outros. Mas não podia deixar de se sentir orgulhoso pela capacidade de argumentação da filha. Sinal de que estava a ser bem preparada para enfrentar o mundo. Isso deixou-o um pouco mais aliviado.

segunda-feira, 14 de março de 2011

José no divã

No Egito Antigo viveu um José que gozou de excelente reputação como interpretador de sonhos. A sua fama chegou a tal ponto que um dia foi levado para interpretar um enigmático sonho do faraó, no qual apareciam sete vacas magras e sete vacas gordas, as primeiras das quais comiam tudo que podiam — inclusive as vacas gordas — mas continuavam sempre magras. O José, que era perito na arte dos sonhos, não teve dúvidas: o Egito passaria por sete anos de fartura seguidos de sete anos de seca. Por causa dessa visão profética, puderam aforrar nos sete anos de fartura e assim sobreviver nos sete anos que lhes sucederam. Muito naturalmente, o José caiu nas graças do faraó e passou a ocupar lugar de destaque entre o seu povo.

No Portugal Moderno há também um José que foi guindado a lugar de destaque entre o seu povo. Contudo, ao invés do José do Egito, o José de Portugal denotou sempre imensas dificuldades para interpretar sinais, viessem eles sob a forma de sonho, ou saltassem à vista como a mais evidente realidade. O José de Portugal olhava para vacas magras e vacas gordas e só conseguia enxergar as gordas. Ou, se enxergava as vacas todas, pareciam-lhe todas gordas. O que à partida poderia ser visto como uma preocupante limitação, aliada a um grande dom de iludir, veio a tornar-se numa enorme vantagem. O seu otimismo era contagiante!

No entanto, não há mal que dure sempre nem bem que nunca acabe. Esse dom que gerou enormes proventos para o José e os seus correligionários, começava agora a dar mostras de entrar em declínio. Com uma imensa manada de «vacas magras» a berrar e uma oposição impiedosa a amplificar-lhes a voz, os dons do José de Portugal começaram a não ser suficientes para dar a volta á situação. Os conselheiros não perderam tempo. Para analisar o problema reuniram-se com os melhores especialistas das mais diversas áreas e chegaram a uma inevitável conclusão: o José está a precisar de psicanálise. Se, aquela que era a sua grande virtude, agora começava a tornar-se num empecilho, tornava-se imperioso dar um jeito nisso. O quanto antes.

Houve muita resistência inicial do próprio José, mas aos poucos foi-se apercebendo que as sessões de psicanálise o deixavam fortalecido. Ao cabo de algumas sessões começou a dar mostras de alguma abertura para um trabalho mais profundo do psicanalista. Era evidente para o psicanalista (bons psicanalistas têm um dom especial para detetar evidências e até são muito bem pagos por isso) que o José chegava hoje ao seu consultório profundamente agastado. Sentiu que, pela primeira vez, teria oportunidade de realizar uma viagem profunda ao interior do José, sempre tão mascarado e protegido por elmos internos e externos. O psicanalista usou de todos os poderes e conhecimentos que tinha para deixá-lo num estado quase hipnótico, e provocou-o para falar:
— Está muito difícil aguentar esta oposição injusta e difamadora que concentra a sua ação no insulto e no ataque pessoal. Uma oposição que não consegue reconhecer nada de positivo neste país que, com muita abnegação, tenho conduzido de forma exemplar. Dou o máximo, busco as melhores opções, encontro soluções fantásticas e os resultados estão aí: são os indicadores de inovação, os indicadores de educação, relatórios da OCDE, planos tecnológicos, planos energéticos e planos de mobilidade. Somos um caso sério no mundo e um exemplo para a Europa. Desdobro-me, multiplico-me, adiciono riqueza, corrijo o défice, faço crescer a economia, aumento o PIB...
— Calma, José. Vamos por partes.
— José?!
— Sim, José... não é o seu nome?
— Não!
— Não?!
— O meu nome é Angela!
Só nesse momento o psicanalista teve noção de que tinha chegado a um nível demasiado profundo no íntimo do José. Custou-lhe um pouco a trazê-lo de volta à realidade do país que efetivamente governava.