na guerra contra a realidade"
Jules de Gaultier
Alguns metros acima um homem sozinho. Baixo, magro, de pele clara e aspeto frágil. Sentado numa cadeira, virado na direção do casal — que coincide com a direção do mar... a mais natural — lê absortamente um livro à sombra do seu guarda-sol. O primeiro homem levanta-se e aproxima-se do segundo homem, dizendo-lhe com certa rudeza:
— Se não parar de olhar para a minha mulher estamos mal!
— Como?!
— Não, não come nada que eu não deixo!
— Deve estar a brincar...
— Acha mesmo?!
— Não vejo outra possibilidade.
— Não se faça de desentendido, pois sabe muito bem do que estou a falar!
— Não me faço nada de desentendido, só não estou a entender nada.
— Bom, só vim avisá-lo: se continuar a olhar para a minha mulher rebento consigo, entendeu?!
A última frase foi dita em crescendo — tanto em volume de voz como em rubor na face do primeiro homem — e com um ligeiro pender de corpo na direção do segundo homem. Era óbvio que o segundo homem não estava a entender praticamente nada. Apenas o suficiente para que tivesse ficado claro que, dada a diferença de envergadura física — e aparentemente também psíquica — o melhor seria calar-se. Minutos depois pegou nas suas coisas e saiu tocado pela prudência.
Segundo ato: o mesmo casal da praia, agora no quarto. Ele deitado na cama, ela sentada. Corpos ruborizados e esquentados, não apenas pelo sol que apanharam poucas horas antes.
— A minha Irina gostou?
— Adorou!
— Viu a virilidade do seu Ronaldo?
— Uma força da natureza!
— Viu como preservo a minha Irina?
— Fê-la sentir-se uma estrela!
— Da próxima ameaço um voyeur ainda mais forte.
— Ai que homem potente!
— Isso excita a minha Irina?
— Deixa-a em brasa!
— Chama o Ro-Ro, chama o Ro-Ro!
— Ro-Ro, Ro-Ro...
— Chama de novo, chama!
— Ro-Ro, Ro-Ro...
— Ai que loucura!
...

















