Não pretendendo lançar dúvidas sobre
as qualidades dos meus leitores masculinos — e menos ainda querendo
diminuir-lhes os índices de autoconfiança —, não deixo contudo de lembrá-los
que na vida é muito importante termos a noção exata do lugar que ocupamos e até
onde chegam realmente as nossas capacidades. Sem querer expor demasiado a minha
fraca aptidão para filosofar, diria apenas que só com a noção exata dos limites
podemos levar mais longe a transcendência.
Por mais que se sinta dotado para
a arte da sedução numa primeira abordagem, não serão poucas as vezes em que sente
necessidade de se esforçar para conseguir atingir patamares de qualidade mais
elevados. É óbvio que a abordagem certa depende muito do ambiente e os métodos
variam muito com as circunstâncias. Num bar com música alta, por exemplo, numa
primeira fase poderá relegar para segundo plano o palavreado e a conversa
intelectualmente cativante, necessitando de maior investimento no sorriso, na
expressão facial, na forma como pronuncia as palavras — quaisquer que elas
sejam —, no gingado do corpo, na subtileza do beijo ou até mesmo na intensidade
do amasso. No entanto, se está de olho naquela vizinha com a qual se cruza quase
de manhã ao sair de casa, aí a questão já é mais delicada. Não se esqueça que a
essa hora da manhã nem você nem ela estarão alcoolizados. Em princípio. Além da
abordagem certa, é necessário também saber levantar e manter aceso o arco da
conversa. A não ser que ela esteja mais desesperada do que você... Mas, em tal
caso, você também vai achar que está perante uma mulher fácil e o interesse
pode murchar. Pode. Depende. O certo é que, em geral, esta situação exige
melhor desempenho numa primeira abordagem.
Só para que tenha uma noção mais exata daquilo que realmente
representa, levanto a seguinte questão: que lugar pensa que ocupa na hierarquia
animal em termos de poder de sedução? Não perca muito tempo em busca da
resposta, pois eu esclareço já: abaixo de cão.
Se tem cão, sabe perfeitamente do que eu estou a falar. Se
não tem, compre, alugue ou peça um emprestado para fazer o teste. Verá como o
animal facilita a sua tarefa numa primeira abordagem. Nem precisa de treiná-lo
para nenhum comportamento especial, pois na presença do cão elas dão-lhe uma
abertura que jamais dariam se você estivesse sozinho — o sexo feminino é
particularmente sensível a essa característica muito canina chamada fidelidade.
Mas não se empolgue muito com os resultados. Expressões do tipo «que lindo», «que
fofo» ou «posso pegar?» são, em princípio, dirigidas ao cão!
















