Esta questão do tratamento é algo fundamental em Portugal, sendo mais frequente a deferência pelo título que alguém ostenta do que pelo mérito daquilo que possa — ou não — ter realizado. Apesar de há mais de cem anos república, ainda se presta reverência aos títulos nobiliários e os dons ainda circulam quase como parte integrante de alguns nomes. Há ilustres da praça pública que se encontram há décadas fora da carreira militar — nem sei até que ponto alguma vez lá estiveram dentro —, mas em circunstância alguma abdicam do título militar no trato quotidiano. E, aos títulos pelo grau académico, deve acrescentar-se os conferidos por certas ordens: a pena para quem não trate arquiteto ou engenheiro de forma condigna é, no mínimo, a correção imediata, grande parte das vezes em tom de relativamente ofendido! Haverá país tão sui generis como este em questão de títulos?
Um tratamento que me causa alguma indignação é o de s'tor — aluno que me queira ver relativamente irritado, aqui fica a sugestão! A introdução desse tal de s'tor foi particularmente bem-sucedida como trato aos professores do ensino secundário — não estudei o problema a fundo, mas suponho que a inovação remonte ao período no qual a profissão passou a ser exercida maioritariamente por licenciados. É-me difícil entender que esses, exercendo profissão tão nobre, com papel preponderante na formação intelectual e cultural das novas gerações, tenham querido libertar-se do clássico tratamento por professor, em favor de outra coisa que veio a descambar nesse tal de s'tor.
Sou de uma geração na qual o s'tor — talvez numa forma ainda não tão sincopada — já imperava como tratamento preferencial aos professores do ensino secundário. Na universidade, o tratamento dividia-se entre o senhor professor e o senhor doutor, aqui e ali já com tentações para formas mais sincopadas. Recordo, a propósito, um episódio com um dos meus professores — um daqueles verdadeiros mestres que nos ficam eternamente na memória —, tão zeloso com a Língua Portuguesa como com a Matemática — após a correção das provas, era frequente trazer anotações sobre os erros de Matemática e os de Português que mais lhe desagradaram. Um certo dia, uma das minhas colegas resolveu ceder à tentação de um tratamento a meio caminho entre o senhor doutor e o s'tor. Algo como s'd'tor. Perante tal forma de tratamento, o professor, no charme dos seus já quase setenta anos de idade, perguntou: «A senhora acha-me realmente sedutor?»


















