quarta-feira, 20 de julho de 2011

S'd'tor

A preferência do ministro recentemente empossado na pasta da Economia, Álvaro Santos Pereira, para o tratamento pelo nome próprio — abdicando do nome adornado pelo posto que ocupa — causou alguma estranheza e provocou discussão em determinados meios. Num país onde se crê que o hábito faz o monge, é difícil aceitar que alguém acabado de chegar a um dos mais altos cargos da nação possa abdicar das honrarias que lhe são devidas. Pior do que isso, pensarão muitos — que não Assunção Cristas, claro está —, só ver um político sem fato e gravata em época que não seja de campanha eleitoral — em campanha eleitoral é diferente, pois eles gostam de se mostrar mais perto do povo e o povo gosta de vê-los, despretenciosamente, como iguais.

Esta questão do tratamento é algo fundamental em Portugal, sendo mais frequente a deferência pelo título que alguém ostenta do que pelo mérito daquilo que possa — ou não — ter realizado. Apesar de há mais de cem anos república, ainda se presta reverência aos títulos nobiliários e os dons ainda circulam quase como parte integrante de alguns nomes. Há ilustres da praça pública que se encontram há décadas fora da carreira militar  nem sei até que ponto alguma vez lá estiveram dentro , mas em circunstância alguma abdicam do título militar no trato quotidiano. E, aos títulos pelo grau académico, deve acrescentar-se os conferidos por certas ordens: a pena para quem não trate arquiteto ou engenheiro de forma condigna é, no mínimo, a correção imediata, grande parte das vezes em tom de relativamente ofendido! Haverá país tão sui generis como este em questão de títulos?

Um tratamento que me causa alguma indignação é o de s'tor  aluno que me queira ver relativamente irritado, aqui fica a sugestão! A introdução desse tal de s'tor foi particularmente bem-sucedida como trato aos professores do ensino secundário  não estudei o problema a fundo, mas suponho que a inovação remonte ao período no qual a profissão passou a ser exercida maioritariamente por licenciados. É-me difícil entender que esses, exercendo profissão tão nobre, com papel preponderante na formação intelectual e cultural das novas gerações, tenham querido libertar-se do clássico tratamento por professor, em favor de outra coisa que veio a descambar nesse tal de s'tor

Sou de uma geração na qual o s'tor  talvez numa forma ainda não tão sincopada  já imperava como tratamento preferencial aos professores do ensino secundário. Na universidade, o tratamento dividia-se entre o senhor professor e o senhor doutor, aqui e ali já com tentações para formas mais sincopadas. Recordo, a propósito, um episódio com um dos meus professores — um daqueles verdadeiros mestres que nos ficam eternamente na memória —, tão zeloso com a Língua Portuguesa como com a Matemática — após a correção das provas, era frequente trazer anotações sobre os erros de Matemática e os de Português que mais lhe desagradaram. Um certo dia, uma das minhas colegas resolveu ceder à tentação de um tratamento a meio caminho entre o senhor doutor e o s'tor. Algo como s'd'tor. Perante tal forma de tratamento, o professor, no charme dos seus já quase setenta anos de idade, perguntou: «A senhora acha-me realmente sedutor?»

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Morangos e chantilly num apartamento em Albufeira

Havia já mais de uma dezena de anos que o Alfredo e o Delfim passavam as férias de verão no Algarve. A independência financeira da idade adulta trouxe-lhes uma certa dependência por um apartamento em Albufeira. Alguma vez tentaram uma alternativa no sul de Espanha, mas rapidamente concluíram que não havia nada como um apartamento em Albufeira!

Nos primeiros anos um quarto e sala era suficiente. Depois da peregrinação noturna pelos bares sagrados, o calor da noite acontecia já ao amanhecer no recesso do apartamento. Poder-se-ia pensar na competição interna pelo quarto, mas estranhamente era a sala o aposento mais requisitado. O acesso privilegiado à cozinha era fator decisivo. Chantilly e morangos eram ingredientes indispensáveis no frigorífico. Morangos que, ocasionalmente, eram também chamados de fresas ou strawberries e, numa das vezes, até de aardbeien. Chantilly era uma palavra mais universal. Com exceção de uma ocasião, quando uma camone mais embriagada teimou em chamar aquilo de cheivim foume. Estava o Alfredo nessa noite com o acesso privilegiado à cozinha  — e à camone  — e, apesar de não ser grande especialista em língua inglesa, pelo uso dado ao creme deduziu que chevim foume fosse expressão para algo como espuma de barbear  — não exatamente para a barba naquele caso.

Alguns anos depois o Alfredo e o Delfim casaram  — não um com o outro, é claro. Mas a sintonia entre eles era tanta que até no ano do casamento fizeram questão de coincidir: o Alfredo em Abril e o Delfim em Maio. E a tradição do apartamento em Albufeira no verão manteve-se. O quarto e sala deu naturalmente lugar a um sala e dois quartos. As peregrinações noturnas mudaram de local e as esposas tornaram-se presença habitual. Alfredo e Delfim trocavam por vezes toques de cotovelo e olhares nostálgicos nas passagens em frente aos templos sagrados de outros tempos. As noites eram agora mais comedidas e o amanhecer passou a ser, para o Alfredo e o Delfim — e as respetivas esposas —, a hora do sono profundo. Morangos e chantilly agora só esporadicamente. E como sobremesa.

Anos mais tarde os filhos. Hábitos quase todos alterados. Exceto a tradição de um apartamento em Albufeira no verão. O quarto e sala que dera lugar ao sala e dois quartos evoluía agora para um sala e três quartos —  o Bruno César e o César Bruno passaram a dividir o quarto extra. As saídas noturnas tornaram-se incompatíveis com a necessidade do sol da manhã para os pequenos. A proposta masculina de tomarem conta deles no horário da sesta — por troca com alguma liberdade noturna e um bom sono matinal — foi simultânea e liminarmente vetada por ambas as esposas — a sintonia entre o Alfredo e o Delfim prolongava-se também às esposas. Morangos e chantilly voltaram a ser presença habitual no frigorífico. Agora para as crianças.

Mais de dez anos depois, a sintonia daquela já longa amizade sofreu um abalo. Há um passo no qual o Alfredo não acompanha o Delfim: o divórcio. Com esse divórcio o Alfredo sofreu quase tanto como o Delfim. A incerteza sobre a tradição de um apartamento em Albufeira no verão deixou-o apreensivo. Chegou a temer o pior. Mas o próprio Delfim fez questão de lhe assegurar que a tradição se manteria. O Alfredo suspirou de alívio. Ocorreu-lhe depois que a situação voltava a permitir saídas noturnas e amanheceres mais animados para o Delfim. Não pode conter o despontar de uma nova dose de algum sofrimento — agora provocado pela inveja. Chegou a pensar no seu próprio divórcio, mas infelizmente não via ainda motivos suficientemente fortes que o justificassem. Mas teria de explicar ao Delfim que em nome dos valores familiares continuaria a ser um apartamento de sala e três quartos. E, para prevenir tentações, morangos e chantilly estariam proibidos naquele frigorífico.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

A fábula do coelho especial

Há muito, muito tempo (num tempo em que os animais ainda falavam) havia uma quinta no extremo mais ocidental do velho mundo, habitada exclusivamente por coelhos, galinhas e patos   demasiados patos; muito mais patos do que coelhos e galinhas. Apesar das constantes ameaças das glutonas raposas que circundavam a quinta, a população animal no seu interior conseguia defender-se razoavelmente bem e sobreviver com alguma tranquilidade.

Entre os animais da quinta havia naturalmente um líder. Líder esse que era eleito periodicamente em assembleia geral, através do sistema de voto mais natural: levantamento de asa, no caso de galinhas e patos, ou levantamento de pata, no caso dos coelhos. Fazia parte das atribuições desse líder zelar pela defesa dos animais na quinta, em particular, protegê-los das investidas das raposas. Como forma de diminuírem as tentativas de invasão, uma parte do que cultivavam na quinta era arremessado por cima dos muros para que as raposas se alimentassem  reza a lenda que há muito, muito tempo, as raposas eram animais com tendências tanto vegetarianas como carnívoras, mas já com clara preferência pela carne.

Durante anos, a organização da quinta funcionou na perfeição. O poder alternava quase sempre entre galos e coelhos; ora uns, ora outros. Os patos, apesar de em muito maior número, nunca conseguiam ascender ao poder  eram demasiado patos. Porém (há sempre um porém!), as condições de vida na quinta começaram a degradar-se seriamente quando um galo janota, de penas brilhantes e bem falante conseguiu ascender ao poder. A pouco e pouco, os humildes animais da quinta começaram a constatar que a contribuição dada para os manterem a salvo do inimigo externo (que dava pelo nome de raposa) era cada vez maior, e um grupo restrito de galos e galinhas engordava a olhos vistos. Em contrapartida, coelhos e patos (principalmente estes) emagreciam também a olhos vistos. O orgulho por terem um líder tão janota e bem falante rapidamente deu lugar ao descontentamento pelas condições de vida cada vez mais degradadas.

Um belo dia, para gáudio dos já inúmeros descontentes (principalmente patos), saiu da toca um belo coelho. Um coelho vigoroso, de pelo bem cuidado (ainda mais janota que o galo janota), com falas sábias e mansas. Esse coelho tornou-se na nova esperança para aquela população animal. Tanto fez, tanto prometeu, que a assembleia geral para nova eleição foi inevitavelmente marcada. No dia da votação, os coelhos nem pestanejaram e os patos (sempre muito dispostos a deixarem-se levar na onda das falas sábias e mansas) votaram em massa no coelho recentemente saído da toca. Até algumas galinhas se deixaram enganar pela lábia e aparente aura de boas intenções desse coelho tão especial.

Não demorou muito (menos de um mês) para que os patos mais desconfiados (alguns, poucos) e as galinhas sempre desconfiadas começassem a detetar no coelho uns certos tiques de raposa. Num ápice, já poucos acreditavam que sob a pele daquele coelho especial não houvesse uma raposa. E muitas outras raposas tinham saído da mesma toca sob peles de outros coelhos. O pânico instalou-se. Era tarde demais!

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Abaixo de cão


Não pretendendo lançar dúvidas sobre as qualidades dos meus leitores masculinos — e menos ainda querendo diminuir-lhes os índices de autoconfiança —, não deixo contudo de lembrá-los que na vida é muito importante termos a noção exata do lugar que ocupamos e até onde chegam realmente as nossas capacidades. Sem querer expor demasiado a minha fraca aptidão para filosofar, diria apenas que só com a noção exata dos limites podemos levar mais longe a transcendência.

Por mais que se sinta dotado para a arte da sedução numa primeira abordagem, não serão poucas as vezes em que sente necessidade de se esforçar para conseguir atingir patamares de qualidade mais elevados. É óbvio que a abordagem certa depende muito do ambiente e os métodos variam muito com as circunstâncias. Num bar com música alta, por exemplo, numa primeira fase poderá relegar para segundo plano o palavreado e a conversa intelectualmente cativante, necessitando de maior investimento no sorriso, na expressão facial, na forma como pronuncia as palavras — quaisquer que elas sejam —, no gingado do corpo, na subtileza do beijo ou até mesmo na intensidade do amasso. No entanto, se está de olho naquela vizinha com a qual se cruza quase de manhã ao sair de casa, aí a questão já é mais delicada. Não se esqueça que a essa hora da manhã nem você nem ela estarão alcoolizados. Em princípio. Além da abordagem certa, é necessário também saber levantar e manter aceso o arco da conversa. A não ser que ela esteja mais desesperada do que você... Mas, em tal caso, você também vai achar que está perante uma mulher fácil e o interesse pode murchar. Pode. Depende. O certo é que, em geral, esta situação exige melhor desempenho numa primeira abordagem.

Só para que tenha uma noção mais exata daquilo que realmente representa, levanto a seguinte questão: que lugar pensa que ocupa na hierarquia animal em termos de poder de sedução? Não perca muito tempo em busca da resposta, pois eu esclareço já: abaixo de cão.

Se tem cão, sabe perfeitamente do que eu estou a falar. Se não tem, compre, alugue ou peça um emprestado para fazer o teste. Verá como o animal facilita a sua tarefa numa primeira abordagem. Nem precisa de treiná-lo para nenhum comportamento especial, pois na presença do cão elas dão-lhe uma abertura que jamais dariam se você estivesse sozinho — o sexo feminino é particularmente sensível a essa característica muito canina chamada fidelidade. Mas não se empolgue muito com os resultados. Expressões do tipo «que lindo», «que fofo» ou «posso pegar?» são, em princípio, dirigidas ao cão!

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Ronaldo & Irina

"A imaginação é a única arma 
na guerra contra a realidade"
Jules de Gaultier

Primeiro ato: casal — homem e mulher — ao sol da tarde na praia. Ele alto e troncudo — ligeiramente para o gordo — com tatuagem no braço, ela relativamente deselegante no aspeto físico, mas cuidada na maquiagem e na bijuteria. Ele com um boné de pala para trás, ela com uma pala na frente. Ele sentado numa cadeira, ela deitada numa toalha. Ele lê A Bola, ela lê a revista Maria. Em ambos uma certa intenção — falhada — de fazer passar uma aura de sensualidade que só com muito boa vontade — e algum mau gosto — se lhes poderia reconhecer.

Alguns metros acima um homem sozinho. Baixo, magro, de pele clara e aspeto frágil. Sentado numa cadeira, virado na direção do casal — que coincide com a direção do mar... a mais natural — lê absortamente um livro à sombra do seu guarda-sol. O primeiro homem levanta-se e aproxima-se do segundo homem, dizendo-lhe com certa rudeza:
— Se não parar de olhar para a minha mulher estamos mal!
— Como?!
— Não, não come nada que eu não deixo!
— Deve estar a brincar...
— Acha mesmo?!
— Não vejo outra possibilidade.
— Não se faça de desentendido, pois sabe muito bem do que estou a falar!
— Não me faço nada de desentendido, só não estou a entender nada.
— Bom, só vim avisá-lo: se continuar a olhar para a minha mulher rebento consigo, entendeu?!
A última frase foi dita em crescendo — tanto em volume de voz como em rubor na face do primeiro homem — e com um ligeiro pender de corpo na direção do segundo homem. Era óbvio que o segundo homem não estava a entender praticamente nada. Apenas o suficiente para que tivesse ficado claro que, dada a diferença de envergadura física — e aparentemente também psíquica — o melhor seria calar-se. Minutos depois pegou nas suas coisas e saiu tocado pela prudência.

Segundo ato: o mesmo casal da praia, agora no quarto. Ele deitado na cama, ela sentada. Corpos ruborizados e esquentados, não apenas pelo sol que apanharam poucas horas antes.
— A minha Irina gostou?
— Adorou!
— Viu a virilidade do seu Ronaldo?
— Uma força da natureza!
— Viu como preservo a minha Irina?
— Fê-la sentir-se uma estrela!
— Da próxima ameaço um voyeur ainda mais forte.
— Ai que homem potente!
— Isso excita a minha Irina?
— Deixa-a em brasa!
— Chama o Ro-Ro, chama o Ro-Ro!
— Ro-Ro, Ro-Ro...
— Chama de novo, chama!
— Ro-Ro, Ro-Ro...
— Ai que loucura!
...

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O tempo, segundo Elias

O Elias tinha ideias claras e firmes sobre o problema do envelhecimento: a idade era algo muito relativo que dependia essencialmente da forma como era encarada; ser jovem consistia na arte de saber manter uma mente eternamente airosa num corpo sempre em forma; atitude era o segredo para passar incólume às marcas do tempo. Segundo o Elias.

Há muito tempo posicionado na casa dos trinta — passara já bastante dos trinta e dez, segundo a sua própria mulher —, enfrentava os incómodos sinais de erosão provocados pelo tempo com abnegação e afinco. E para todos os sinais encontrava uma solução: para os cabelos brancos uma pintura, para a calvície um melhor aproveitamento dos cabelos restantes — e laca a segurá-los —, para as rugas um creme facial, para a protuberância abdominal uma ginástica. Assim se mantinha fisicamente em forma e sem dar quaisquer mostras de envelhecimento. Segundo o Elias.

A tal mente eternamente airosa no corpo sempre em forma proporcionava-lhe um sucesso quase inabalável no meio feminino. A ponto de se sentir frequentemente assediado por teenagers e vintagers — e se no assédio das teenagers poucos acreditavam, já no caso das vintagers poucos teriam as suas dúvidas. Convém ressalvar que o inglês do Elias era relativamente fraco — bastante mais fraco que a sua capacidade para controlar os efeitos nefastos do tempo —, mas realizava constantes upgrades linguísticos para mais eficientemente se comunicar com as gerações mais novas. Segundo o Elias.

Recentemente ocorreu um episódio digno de registo. O Elias caminhava ao encontro da sua mulher que o aguardava umas dezenas de metros mais adiante. A sua atenção foi capturada por uma bela jovem — numa idade compreendida entre o teenager e o vintager, segundo o Elias — que por sua vez nele fixou longamente o seu olhar. Em condições até aí normais esse detalhe teria sido considerado pelo Elias como um inequívoco sinal de interesse da jovem. Contudo, desta vez levou-o a abordar a sua mulher com a seguinte dúvida:
— Tenho alguma coisa errada?
— Como assim?
— Cabelo em pé, sorvete no bigode, baton na cara... algo do género?
— Não... deixa ver... não... está tudo bem!
— Ah!
— Mas porquê?
— Nada, nada... só para saber...

Algo de muito estranho acontecera desta vez na postura do Elias: tendo sido alvo do olhar fixo de uma jovem singularmente bela, ao invés do que seria habitual, suspeitou que pudesse haver alguma anormalidade no seu visual. E não se apercebeu que, de forma inconsciente, estava a dar os primeiros sinais de fraqueza perante o implacável tempo. Tinha encontrado forma de controlar cabelo branco, calvície, rugas e protuberância abdominal, mas precisava urgentemente de aprender a não cair nas armadilhas do seu próprio subconsciente. Sob pena de se tornar vítima daquilo que mais o repugnava: o peso da idade.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Dia D

Era inquestionável. Ambos tinham perfeita consciência de que, volvidos quase dois anos sobre a primeira vez em que se tinham encontrado, o passo mais importante nessa ainda relativamente curta história de vida a dois iria finalmente ser dado.

A Aurora acordou a pensar precisamente nesse dia em que se conheceram. O incidente da garrafa de água com gás — Frize, salvo erro — caída a seus pés no supermercado e o Neves tentando de um jeito muito desajeitado evitar o inevitável — inequivocamente, um traço marcante da personalidade do Neves. Por mais que ele lhe tivesse garantido que sim, até hoje ela não acreditava que a queda da garrafa tivesse sido meramente acidental. E não podia negar que aquela dúvida tinha funcionado como rastilho para uma curiosidade que lhe condicionara os passos seguintes. Sem também menosprezar o agradável cheiro a homem naquele levantar estratégico — quase violando a distância mínima exigida por lei — depois de ter apanhado os vidros estilhaçados a seus pés. A Aurora achou curioso que lhe tivessem ocorrido estes pensamentos hoje ao despertar. Mas tinha que se apressar, pois dentro de duas horas a Florbela estaria a bater-lhe à porta. Seguiriam juntas para cartório.

O Neves acordou a pensar na primeira noite na qual a Aurora concordou que estava demasiado calor para a roupa que traziam vestida, mas quanto mais roupa tiravam mais a temperatura aumentava. Como lhe pareceu bela naquele trajar de Eva sem folha de videira. Bela e nervosa. Nunca entendeu o motivo pelo qual estava tão nervosa. Afinal, não era a primeira vez da Aurora. E nem duvidava que nesse aspeto até fosse ela a mais experiente dos dois. O Neves até hoje denotava sérias dificuldades para entender determinadas idiossincrasias femininas. Tinham decorrido apenas algumas semanas desde que se tinham conhecido na loja de conveniência do posto de gasolina. Ou teria sido no supermercado? O Neves achou interessante que lhe tivessem ocorrido estes pensamentos hoje ao despertar. Mas tinha que se despachar, pois em menos de uma hora deveria estar no cartório. 

Poucos minutos depois da hora marcada, lá estavam a Aurora e o Neves, lado a lado, sendo confrontados com a inevitável pergunta:
— Por certo, pensaram muito bem no ato que aqui vão realizar. Digam-me: é realmente da vossa vontade consumarem este divórcio?
— Sim! — Responderam ambos em simultâneo.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Sintomas de dislexia nacional

Há determinadas práticas que nos entram nos hábitos sem que por vezes se vislumbre motivo suficientemente forte que as justifique. Invade-me inevitavelmente uma certa impressão de estranheza quando para tais práticas não encontro explicação razoável ou, num caso mais extremo, nelas deteto alguma falta de lógica.

Uma das tradições portuguesas que aqui merece a minha ponderação está relacionada com a atividade imobiliária. Especificamente, na identificação dos apartamentos por andar. Para que fique claro o que aqui pretendo ponderar, pensemos num apartamento situado no oitavo andar de um determinado prédio. O mais comum em Portugal será talvez esse apartamento ser designado por 8º Direito ou 8º Esquerdo. Contudo, se o prédio tiver mais do que dois apartamentos por andar, já se podem ver designações como 8º Centro, 8º Centro Traseiro ou até 8º Centro Traseiro Direito. Essas são as designações por extenso, porque no intercomunicador do prédio podem surgir abreviaturas como 8º Dir, 8º Esq, 8º Ctr Trs ou até 8º Ctr Trs Dir — já para não falar na possibilidade de se baixar ao caso extremo de um R/C Ctr Trs Dir.

Quem, como eu, tiver o hábito de receber amigos estrangeiros em casa, sentirá por vezes a necessidade de lhes ministrar um curso prévio de português — com abreviaturas — para que os sinta perfeitamente capacitados de executarem um gesto tão simples como chamar no intercomunicador. No entanto, será justo ressalvar que já detetei em Portugal alguns prédios nos quais foi adotada a terminologia vigente em muitos outros países, nos quais se designam os apartamentos por 8A, 8B, etc. No Brasil, a preferência aponta para 801, 802, etc. Poder-se-ia pensar que bastaria 81, 82 e por aí fora, mas note-se a preocupação da terminologia brasileira ter ficado preparada para prédios com mais de 10 apartamentos por andar. Conhecendo o parque habitacional de Copacabana, acredito que a opção brasileira tenha ganho força com a urbanização desse bairro.

Até há cerca de 10 anos, altura em que troquei de apartamento pela primeira vez, pensava eu que a designação de Direito ou Esquerdo estava imbuída de uma certa lógica. Julgava eu que, olhando um prédio de frente, facilmente se saberia de que lado ficava um e outro — não via grande necessidade de tal conhecimento, mas digamos que essa correlação justificaria a terminologia. Na época morava eu num 3º Direito. Talvez por uma questão de orientação política que começava a despontar em mim, decidi que no novo prédio escolheria a minha fração no lado oposto. Como o prédio estava ainda mal começado — e mal vendido — eu podia dar-me a esse luxo. No dia em que escolhi o novo apartamento assim fiz: levei em conta a posição do apartamento em relação à frente do prédio e, por analogia com o prédio antigo, escolhi a minha fração no extremo oposto. Estava certo que iria morar no 8º Esquerdo.

Na minha primeira visita ao novo apartamento, que placa vejo eu por cima da porta? 8º Direito! A minha tentativa de explicação lógica para este hábito nacional foi irremediavelmente por água abaixo. E nem precisei de esperar pela governação de José Sócrates para me aperceber de que em Portugal uma suposta esquerda pode não passar de uma direita travestida.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

A virgem e o pecado

‎«Estou a acostumar-me com a ideia de considerar 
cada ato sexual como um processo em que, no mínimo, 
quatro pessoas estão sempre envolvidas»
S. Freud



— Pare, pare...
— Ahn?
— Pare!
— Porquê?
— Não dá.
— Não dá? Porquê?
— Não sei...
— É por causa do falecido?
— Não! Aqui em sua casa não há problema.
— Então não entendo.
— Pois, é estranho.
— Logo hoje que tomei precauções...
— Tomou?
— Tomei. Não nota?
— Sim. Noto-o mais animado.
— Pois...
Alguns segundos em silêncio.
— Acho que sei.
— Acha?
— Acho que sim...
— Então, qual é o problema?
— Aquela estátua.
— Qual estátua?
— A da virgem.
— Que é que tem?
— Lembra-me que estamos em pecado.
— Mas na nossa idade deus perdoa!
— O problema não é deus.
— Não?
— Não. É a virgem.
— Porquê?
— Sou muito devota!
— Ah...
— Pode tirá-la dali?
— Infelizmente não.
— Não?! Porquê?
— Prometi à falecida.
— Promessa séria?
— Sim, no leito de morte.
— Ah, então não pode quebrar a promessa.
Alguns segundos em silêncio.
— Vamos para a sala?
— Na sala?!
— Sim, no sofá.
— E a minha ciática?
— Ah, pois é...
— Já não temos idade para isso!
— Pois...
Alguns segundos em silêncio.
— Acho que tenho a solução!
— Tem?
— Acho que sim.
Ele levantou-se da cama e colocou a primeira peça de roupa que encontrou a tapar a cabeça da virgem.
— Agora já dá?
— Não sei, vamos tentar.
— Vamos!
— Mas em silêncio, por favor!
— E de joelhos?

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Cinema de época

"There is only one thing that can kill the movies, 
and that is education"
W. Rogers

Era tão sagrado quanto a Páscoa. Ano após ano os quatro regressavam à vila para celebrar a festividade com as respetivas famílias e começavam sempre com uma comemoração aos bons velhos tempos no café da praça. Invariavelmente, lá pela nona ou décima cerveja a conversa embarcava numa sessão nostalgia. O tema deste ano era o cinema. Cinema de época, como eles próprios resolveram apelidá-lo: os filmes que lhes marcaram a adolescência e, mais ainda, as fantásticas atrizes que os protagonizaram. O primeiro a avançar com um nome foi o Toni:
— Brooke Shields…
— Ah, A Lagoa Azul! — diz o Joca.
— Uma sereia! — acrescenta o Chico.
Riram os três. O Morais não riu. Parecia pensativo. O próximo a nomear uma atriz foi o Joca:
— Bo Derek…
10 - Uma Mulher de Sonho! — diz o Chico.
— Que desempenho corporal! — acrescenta o Toni.
Voltaram a rir os três. O Morais continuou sem rir. Estava pensativo. O seguinte a evocar o nome de uma musa desse tal cinema de época foi o Chico:
— Nastassja Kinski…
A Felina! — diz o Toni.
— Uma gata no cio! — acrescenta o Joca.
Riram de novo os três. Decididamente, o Morais estava muito pensativo. E quieto. Movia apenas o braço direito espaçadamente para levar o copo à boca. Tinha chegado a sua hora de falar. No preciso momento em que os outros começavam a dirigir-lhe olhares inquiridores, ele deu com a mão na mesa — sinal inequívoco de ter descoberto o nome que buscava — e exclamou:
— Eiko Matsuda!
— Quem?! — pergunta o Joca.
— É uma atriz?! — questiona o Toni.
— É? — indaga o Chico.
— Claro! — afirma perentoriamente o Morais.
— Lá vem o Morais com a sua mania de cinema intelectual —returque o Toni.
— É mesmo coisa do Morais — acrescenta o Chico.
— Ó Morais, queremos as atrizes que nos humedeceram os sonhos — diz o Joca, para risada de todos. Menos do Morais.
— Sim, eu sei... — responde o Morais.
— E que raio de filme fez ela?! — pergunta o Toni.
— É… que raio? — questiona o Joca.
— É! — enfatiza o Chico.
— Não vos lembrais? — indaga o Morais.
— Não! — respondem os três em simultâneo.
O Império dos Sentidos! — remata o Morais.
A resposta deixou os outros em sentido. E imperou o silêncio. O Morais, o intelectual, tinha brilhado em área que nem era a sua maior especialidade. Ficaram mais uns segundos em silêncio e pediram a conta. Saíram todos com a mesma ideia em mente: «Onde diabo se pode arranjar uma cópia desse filme?»

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O GPS na relação conjugal

Não sei se já há dados estatísticos que o comprovem, mas acredito que um dos efeitos secundários do uso generalizado do GPS tenha sido uma valiosa contribuição para o decréscimo das situações de conflito entre casais que gostam de viajar (e utilizar o GPS).

Casal que tenha ultrapassado a lua-de-mel rapidamente começa a aperceber-se que não é por terem passado a formar um só corpo que daí em diante tudo funcionará na perfeição. A mulher, de um modo geral, atinge esse estado de consciência muito antes do homem. Muitas vezes, na própria lua-de-mel. Principalmente se essa envolver viagem de carro na qual se torne necessário recorrer a um mapa. Facilmente a mulher descobre que a sugestão de ignorarem o mapa e pedirem indicações a alguém é uma das ofensas graves para o homem: o verdadeiro macho sabe como tratar sozinho da orientação familiar e não precisa da ajuda de estranhos. Sugerir que se abdique deste princípio básico pode ser (e quase sempre é) interpretado como ofensa grave. Respeitado esse princípio, a viagem passa depois por várias fases.

Na fase 1, o homem coloca o mapa nas mãos da mulher e escuta a inevitável pergunta: «onde é que estamos?» Respostas objetivas do tipo «devias saber tanto quanto eu», além de dificilmente saírem no tom e volume certos para não parecerem ofensivas, também não vão contribuir em nada para a resolução do problema. Nessa fase, o mais recomendável é parar o carro e assinalar sobre o mapa (de preferência com uma cruzinha) o local onde se encontram nesse momento. Ainda com o carro parado, o homem deve colocar o mapa com a orientação certa nas mãos da sua companheira. Se o estado de espírito ainda permitir, pode também aproveitar para lhe dar um beijo e assim transmitir a ideia (falsa) de que não está tenso.

A fase 2 é um pouco mais demorada e, normalmente, envolve instruções do tipo «vira para lá» (com o correspondente acompanhamento de sinalética manual, claro está). Nesta fase o homem deve aumentar o mais que puder o alcance da sua visão radial. O ideal seria colocar a mulher no capô (e ela até agradeceria, mais não fosse para se livrar do sujeito mal-humorado que tem ao lado), mas isso não é permitido por lei (pelo menos nos países por onde tenho andado). Esta é a fase em que a tensão aumenta significativamente e deixa de ser possível disfarçá-la com um beijo. Aumentar o volume do rádio pode ajudar. Mesmo que isso faça com que as instruções deixem de ser escutadas, o efeito será praticamente o mesmo. E o volume alto sempre permite libertar alguma da tensão acumulada praguejando um pouco sem que se note a indelicadeza.

Entre as fases 2 e 3 há a tentação para uma fase 2.5, que envolve o mapa colocado sobre o volante e o acumular das funções de piloto e co-piloto. O homem jamais deve cair nessa tentação! Além de ser proibido por lei e contribuir de forma significativa para aumentar o risco de acidente (por vezes há sintonia entre as proibições e o perigo iminente), não costuma trazer resultados práticos: o desempenho de mais do que uma tarefa em simultâneo é qualidade exclusiva da mulher!

A fase 3 depende dos casais:

Nos casais onde o homem tem alguma inteligência prática (ou menos testosterona, dá no mesmo), chegando a esta fase (mas só nesta fase!), o problema já se resolve facilmente com o renovar da sensata sugestão feminina «vamos perguntar a alguém». No entanto, nesta fase de cedência à sensatez feminina, evitem-se os exageros: perguntando a grupos exclusivamente femininos, e sendo elas pelo menos quatro, com probabilidade alta se corre o risco de obter indicações com mãozinhas delicadas a apontar nas direções de (no mínimo) os quatro pontos cardeais.

Nos casais mais radicais, a mulher sai do carro e apanha um táxi. Muito tempo depois o homem chega ao destino visivelmente cansado e, com um sorriso idiota e ar triunfal, acrescenta: «estás a ver que consegui?»

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Nota temporária

A todos quantos visitam este blogue em busca do GPS na relação conjugal, esclareço: de acordo com informação prestada pelas engenheiras da Google a crónica irá voltar. Saiu sem GPS, mas o Google Maps já a localizou e vai ajudá-la a voltar para o devido lugar. Só mais um pouco de paciência, por favor!

Aqui a versão oficial do ocorrido:
http://buzz.blogger.com/2011/05/blogger-is-back.html

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Esse tal de Bilada

Coincidiu estar eu no Alentejo na manhã em que foi anunciada a morte do Bin Laden. Acabava de pedir o meu café com leite e torrada  de pão alentejano, claro  para o dejejum na esplanada de um café. Em condições normais, teria aproveitado o entrementes  gosto especialmente desta palavra, apesar de só agora a desvirginar por escrito   para sacar do meu telefone esperto e cavalgar em 3G por esse mundo virtual afora em busca das notícias matinais. Contudo, perante o cenário que me era oferecido, simplesmente detive-me a contemplar a beleza do imenso matiz verde-claro — típico da época na planície alentejana — aqui e ali salpicado pelo verde-escuro das oliveiras.

Atendeu-me um senhor de idade já avançada. Seria perfeitamente razoável que ainda fosse de uma geração de formação escolar  se a teve  predominantemente analfabeta. Se não de ignorância total nas letras, pelo menos com pouca agilidade para absorver a informação das legendas que habitualmente complementam o som e as imagens televisivas. Especialmente, quando a junção de letras conduz a uma palavra em língua estrangeira. Bin Laden, por exemplo.

Notei junto ao balcão desse café um prender de atenções dos clientes locais pelo aparelho televisivo. Na esplanada onde me encontrava não podia ver nem ouvir que notícia lhes cativava a atenção, mas foi para mim claro que algo de importante se passava. Quando o senhor me trouxe o tal café com leite e torrada, aproveitei para tentar obter algum esclarecimento. A resposta veio pronta e ligeiramente evasiva:
 Dizem que mataram esse tal de Bilada.
Não pude deixar de notar esse detalhe interessante na forma como me esclareceu com o "dizem que". Inteligentemente, toma o conteúdo da informação televisiva como mera informação, não como comprovativo de um facto. E o delicioso pormenor do Bilada? Comentários para quê? Ninguém duvide que uma certa dose de analfabetismo por vezes ajuda na criatividade para uma adaptação linguística.

Soube depois que noutras latitudes houve festa da brava até altas horas da madrugada para celebrar a morte desse tal de Bilada, como se da conquista de um campeonato do mundo se tratasse. Devo confessar que ao ser informado dessa morte não levantei nem o punho direito para festejar, como se de um mero golo se tratasse. Encarei sempre esse tal de Bilada tanto como produtor quanto como produto do mal. Morre este homem, mas ninguém duvide que o génio do mal continuará com personificações por esse mundo à solta.

domingo, 1 de maio de 2011

O álbum de retratos

O amor da dona Lurdes pelo Marinho era de tal forma profundo que, em nome de um valor tão alto como a felicidade do filho, estava disposta a invadir a sua privacidade. O seu coração de mãe não aguentava mais ver o Marinho no estado de sofrimento em que tinha mergulhado depois que a Maria Helena o largou. Acima de que tudo, não podia permitir que ele continuasse a cultivar esse sofrimento: eram já sem conta as vezes que lhe batia à porta do quarto — nesse bater quase em simultâneo com o rodar do puxador — e o via esconder aquele maldito álbum vermelho no armário.

Foram também sem conta as vezes que a dona Lurdes avisou o Marinho de que não era normal o tempo que o Ricardo passava no apartamento deles. E, muitas dessas vezes, apenas na companhia da Maria Helena. Mas, de que adiantou? A todos os alertas o Marinho respondeu sempre com um «somos amigos de infância». E eram de facto amigos de infância. Três amigos de infância. Mas a dona Lurdes sabia — e o tempo veio comprovar que estava certa — que a amizade de infância nunca foi escudo para uma punhalada pelas costas. Foi assim que a dona Lurdes interpretou o modo como a Maria Helena abandonou a casa e a vida do Marinho para ficar com o Ricardo. Com um simples bilhete: «Fui viver com o Ricardo, não me procures».

O Marinho era um menino puro. Essa mesma pureza que anos antes fizera a Maria Helena optar por ele — em detrimento do Ricardo —, servia agora para ela facilmente descartá-lo como quem descarta uma peça de roupa sem utilidade. E para ficar precisamente com esse Ricardo, que outrora lhe parecera impuro. Sabia-se que, na época, o coração da Maria Helena tinha vacilado bastante entre o Marinho e o Ricardo e finalmente pendido para o lado da pureza. Mas, excetuando a dona Lurdes, ninguém vaticinaria que esse mesmo coração pudesse voltar a vacilar e pender agora para o outro lado.

O momento da dona Lurdes violar a privacidade do filho — em nome da sua felicidade, claro — tinha finalmente chegado. O Marinho tinha saído apressado para o trabalho e, inacreditavelmente, esquecido a chave na porta do armário onde zelosamente guardava o álbum de retratos. A dona Lurdes não deixou de notar esse detalhe enquanto arrumava o quarto do filho. Ainda pensou duas vezes, mas à terceira já estava com a porta aberta. E nem precisou de vasculhar muito para rapidamente descobrir o maldito álbum vermelho. Soltou um suspiro de alívio e abriu um ar de satisfação enquanto apertava o álbum contra o peito.

De imediato, dirgiu-se para o seu quarto. Antes de encerrar o álbum a sete chaves, a dona Lurdes sentiu a tentação de olhar o seu conteúdo. Sabia que havia a possibilidade do álbum conter fotos íntimas do Marinho e da Maria Helena, mas ao seu coração de mãe nem isso fez merecer a reprovação do intento. Abriu o álbum e começou a folheá-lo. À medida que avançava, o seu semblante, que minutos antes era de satisfação, rapidamente começou a ficar carregado. E, entre suores frios, surgiu-lhe a inevitável interrogação: «Porquê tantas fotos do Ricardo?!»

quarta-feira, 27 de abril de 2011

A inexorabilidade dos números

Ainda muito jovem me apercebi de que não era especialmente dotado para a atividade política. Para ser mais preciso, por volta dos meus dez anos de idade. Lembro-me perfeitamente daquela tarde em que fui incumbido pelos meus colegas para negociar a devolução de uma bola com o proprietário do terreno vizinho àquele onde costumávamos jogar futebol. De nada valeu ao meu povo carente de bola a minha suposta capacidade de negociação, pois o resultado prático da missão foi termos que desatar todos a correr — sem a tal bola — e nunca mais ganharmos coragem para colocar os pés naquele terreno. Claro que daí em diante o grupo nunca mais me incumbiu de missões com necessidade de alguma habilidade política — e eu até agradeci — e aí comecei a desconfiar que o meu caminho talvez pudesse passar mais pelas ciências exatas.

Claro que o ser humano vem dotado de uma certa capacidade de evolução e eu nem fujo muito à regra. Posso até dizer que com os anos fui desenvolvendo o pouco jeito que tinha e hoje já começo a considerar a possibilidade de abraçar uma carreira política. Obviamente, porque a atividade política de hoje em dia pouco tem a ver com a atividade de outros tempos. Ter boa capacidade política nos tempos que correm consiste essencialmente em ter alguns dotes de teatralização na campanha eleitoral com a palavra a certa — de preferência enigmática — e o sorriso perfeito. A isso juntando bom aspeto físico — a minha mãe acha-me muito bonito — e uma boa equipe de marketing por trás a orientar os passos, podemos dizer que temos a fórmula certa para o sucesso político na atualidade.

Se dúvidas houvesse, com a chegada a Portugal do triunvirato — a nossa comunicação social aderiu em massa a uma tal de troika, mas eu confesso que ainda não senti necessidade de recorrer à língua russa — de peritos internacionais em finanças públicas e a completa passividade dos nossos governantes, tivemos a prova cabal de que a governação de um país não se faz agora com habilidade política para negociar, mas sim com total subjugação à inexorabilidade dos números. O papel do governante é, hoje em dia, ceder à chantagem dos mercados e dos banqueiros, estando para ele reservada apenas a mera função de justificar  — quase sempre a posteriori — o limitado leque de opções possíveis, quase sempre com base em números e dados estatísticos.

E, se o assunto é números, porquê restringir o recrutamento de líderes políticos a engenheiros e economistas e não chegar àqueles que melhor conhecem e entendem as suas subtilezas? Estão a ver onde quero chegar não estão? Sem puxar muito pela memória, posso assegurar que tenho conhecimento profundo em números naturais, inteiros, racionais, irracionais, reais, complexos, quaterniónicos, primos, compostos, perfeitos, algébricos, transcendentes e muitos outros que nem vêm ao caso!

É óbvio que uma candidatura minha neste momento a um cargo político da nação já não viria a tempo das eleições que se avizinham. Mas, com tempo, vou amadurecer a ideia e, quem sabe, nas eleições seguintes — que nem deverão andar muito longe, dada a grande instabilidade política — apareço com uma equipe e o marketing certo para o sucesso. Até já tenho um discurso alusivo à minha qualidade técnica na nobre ciência dos números para tentar convencer o povo a votar em mim:
«Vocês conhecem o meu trabalho: eu provei que sistemas dinâmicos com decomposição dominada nos quais um dos fibrados exibe contração uniforme e o outro comportamento não uniformemente expansor possuem alguma medida de Sinai-Ruelle-Bowen!»
Que se acautelem os pouco preparados intervenientes da cena política nacional, pois o lugar deles começa a ficar em perigo!

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Sem preconceito

A Dulce acabava de pousar o telefone.
Outra vez?!
Outra vez o quê?
A tua tia...
O que é que tem a minha tia?
Já vem para cá outra vez?
Como “já”?
Ainda há pouco tempo cá esteve.
Há pouco tempo?
Não é?
Na Páscoa do ano passado... Há mais de um ano!
Parecia-me menos tempo...
Ó Proença, não sejas assim com a minha tia.
E vem por quanto tempo?
Uma ou duas semanas...
Tudo isso?!
Não mais de três!
Ah não, três semanas sem sofá a partir das 10?!
A tia é uma mulher só.
Só? Porque quer...
A história do pai do Borges de novo?
A tua tia tem à mão um bom partido e rejeita-o! Depois é uma mulher só, claro.
Não sejas preconceituoso!
Eu?!
Sim. Achas que tinha que se sujeitar ao primeiro que lhe apareceu só porque já tem mais de 60 anos?
Não tinha que se sujeitar. Só tinha que lhe dar uma oportunidade.
Ele tem aquele defeito...
Essa é boa! Ela rejeita-o porque ele tem um ligeiro defeito e eu é que sou o preconceituoso!
Ligeiro defeito?!
Sim. Uma perna ligeiramente mais curta. Mas sentado ou deitado nem se nota.
Não me referia a isso.
Não?! Tem outro?
Ora, Proença, não te lembras de quando o apresentamos à tia?
Um pouco vesgo? Com óculos escuros também não se nota.
Nem é tão pouco vesgo. Mas também não me referia a isso.
Não me digas que é por ele ouvir mal!
Desse defeito já nem lembrava...
Aliás, do jeito que a tua tia fala, é até uma virtude: não vai reclamar nunca!
Não, não é isso!
É por ser adepto do Porto?!
Não, Proença, que disparate!
Então, que diabo é?!
Não te lembras do jantar de apresentação?
Lembro... O que é que teve?
Ah, Proença, é difícil!
Difícil o quê?
Difícil até para eu falar.
Fala.
Ah...
Fala!
Flatulência é demais!
Ah, Dulcinha, para isso há remédio!
Não dá!
Um médico resolvia isso facilmente.
Não dá, não dá!
Acho que tu e a tua tia é que estais cheias de preconceito.
É, Proença, para resolver o caso da minha tia tu até és um homem muito despido de preconceitos!
O Proença achava-se um homem moderno. De mente aberta. Não gostou do «para resolver o caso da minha tia» na frase da Dulce. Ainda pensou argumentar que para resolver o seu próprio caso também se tinha despido de alguns preconceitos, mas pressentiu que seria mais prudente não entrar com a argumentação por esse lado. Achava-se um homem moderno e prudente. E totalmente sem preconceito!

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Evea culpa

É inegável que vivemos um período profundamente conturbado da nossa história. Não temos árabes, nuestros hermanos ou colonizados para combater, mas temos guerras abertas em várias frentes: ideológicas entre direita e esquerda; partidárias entre PS e PSD; desportivas entre Benfica e Porto; até no Sporting, clube vincadamente aristocrata e acima de qualquer tentação de mau vício plebeu, na falta de um rival externo para guerrear, desataram à pancada uns aos outros. Em todas estas guerras há um denominador comum no pomo da discórdia: a culpa. Perentoriamente enjeitada por todas as partes beligerantes, surge naturalmente a pergunta inevitável: afinal, onde mora a culpa?

Sendo eu um assumido adepto de boa ponderação sobre as grandes questões, dei por mim a tentar decifrar este enigma nacional de distribuição da culpa. Excetuando a guerra Benfica-Porto — nesse caso a culpa é claramente do Pinto da Costa —, em todos os outros casos, fui recuando até tempos imemoriais. Dos erros da atualidade passei aos erros cometidos no processo de adesão à CEE, logo fui remetido ao problemático período do pós 25 de Abril e, num ápice, à ditadura salazarista. Essa foi consequência do conturbado período da primeira república que, como é fácil de adivinhar, tem os seus problemas com raízes na monarquia. Da monarquia parlamentar passei à absolutista e, recuando pelas três dinastias, fui até ao reino de Leão, transportando a culpa também por árabes, alanos, suevos, vândalos, visigodos, romanos — memorizem este nome, voltarei a eles —, lusitanos, celtas, cartagineses, gregos, fenícios e muitos outros povos que por aqui andaram, passei pelo homo sapiens, homo neanderthalensis e, após uma série de outros homos — todos com agá —, imagine-se onde fui parar. Que coisa incrível! Alguém adivinha? Essa mesmo: Eva! 

A menos que se consiga algum teste de ADN — algo que julgo praticamente impossível ao fim de todo este tempo —, nem ao Adão se pode imputar qualquer tipo de culpa. Convém lembrar que em regimes jurídicos minimamente decentes a paternidade não é mais do que uma presunção e, em prol do bom Adão, não vamos deixar de usar essa prerrogativa. Aliás, segundo os relatos bíblicos, a relação conjugal nos primórdios funcionava em moldes ligeiramente diferentes dos atuais: era a Eva quem saía para angariar sustento e o Adão ficava a cuidar da vida doméstica. Nunca me foi dito às claras — nem preto no branco — o que se passou entre a Eva e a serpente, mas tendo em conta a constante atrapalhação que demonstrava o padre que me catequizou sempre que eu lhe pedia esclarecimentos adicionais, agora que tenho uma visão mais adulta — e cínica — do mundo, sou levado a concluir que só pode ter acontecido uma coisa: a Eva teve um envolvimento íntimo com a serpente. Isso até justifica a má índole do Caim — da qual descende a componente viperina da humanidade — e uma quantidade de maus tipos que têm andado por aí. É bastante provável que o bom Abel seja mesmo filho legítimo do bom Adão, mas aí entramos mais uma vez no reino da mera presunção.

Devo acrescentar um dado que me parece importante e que contribuiu de forma decisiva para a elaboração desta minha teoria: lá pelo meio das minhas averiguações, descobri em alguns textos de direito romano várias referências a uma tal de evea culpa. Quem entende alguma coisa de latim — não é propriamente o meu caso, mas tenho um primo que diz que entende e deu-me uma ajudinha neste caso — sabe muito bem o que isso significa!

segunda-feira, 11 de abril de 2011

As metáforas do amor

Não será necessário recorrer a estudos muito aprofundados sobre o assunto para que facilmente possamos chegar à conclusão de que o tema preferido da grande maioria dos poetas é o amor. Poetas fracos — por vezes bem sucedidos financeiramente com a produção de letras para canções — usam e abusam da visão do amor como uma flor. Grandes poetas, por seu turno, conseguem com facilidade metáforas bastante mais originais, nem sempre através de associações especialmente românticas. Luís de Camões, por exemplo, afirmou num dos seus sonetos que «o amor é ferida». A comparação não é particularmente atraente, mas o poeta adornou-a de forma tão magistral, que os aspetos mais repugnantes associados à ideia de ferida dificilmente se acercarão do pensamento de quem leia esse soneto — exceção feita a mim mesmo neste momento, claro... Você também?

Recorrendo a um algoritmo simples que desenvolvi com base nas pesquisas do Google, cheguei à conclusão de que até agora não houve poeta — de língua contemplada pelo Google Tradutor — que tivesse espalhado a sua arte sobre aquela que me parece ser a metáfora mais óbvia: o amor é cola. Apresentada assim, a comparação não será porventura nada poética, mas acredito que um Camões relativamente inspirado facilmente arranjasse forma de transformá-la numa belíssima imagem.

Fatores como a emancipação da mulher, o descaramento do homem e, acima de tudo, a felicidade de pelo menos um dos dois, têm deixado evidente a cola que mais une o casal dos nossos dias: uma cola aguada. Grande parte dos amores modernos são como uma dessas colas que facilmente se encontram em loja de chinês e com a qual se tem dificuldade para colar até duas folhas de papel. Num estado menos aguado, há amores cola branca, que gruda por um tempo, mas depois — por razões de temperatura inapropriada entre os corpos unidos, por exemplo — deixa desprender aquilo que anteriormente uniu. Cada vez mais raros são os amores cuja cola resiste a todas as intempéries e perdura forte e firme até que a morte os separe. Uma cola de sapateiro, por assim dizer.

Será seguramente uma dessas colas de sapateiro que tem unido a dona Gertrudes e o senhor Ernesto ao longo dos 57 anos de casados. Especialmente a que brota da parte da dona Gertrudes. Frequentemente sujeita às maiores intempéries de mau humor do senhor Ernesto — que por vezes discorda até na hora de concordar —, o amor da dona Gertrudes resiste. Lá está ela agora, levantando-se da cama a meio da noite para ir buscar um copo de água e um comprimido para amenizar um ataque de vesícula do senhor Ernesto. Enquanto ele bebe a água, ela afaga-lhe o cabelo e, com muita ternura, diz: «vai passar, vai passar...» A dona Gertrudes já nem se lembra que poucas horas antes ele teve um dos seus frequentes acessos de mau humor, só porque à saída da missa ela lhe perguntou:
— Quem era aquele alto e loiro parecendo alemão lá na fila da frente?
— Mas, Gertrudes, tu és completamente louca! — A palavra «louca» foi pronunciada com um prolongar da letra L que doeu fundo na alma da dona Gertrudes; o senhor Ernesto prosseguiu: — Na fila da frente não tinha ninguém alto e louro parecendo alemão!
— Não?!
— Não! O alto e louro parecendo alemão lá na fila da frente era o filho mais novo do falecido Manuel Antunes!

Alguém vai negar que só uma cola de sapateiro suporta frequentes acessos como este?

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Prece de um português consciente

Festejos na Luz
Meu deus, meu bom deus, ciente da omnipresença que te caracteriza, estou certo que tens acompanhado todas as manifestações de grande irresponsabilidade dos adeptos portistas nas últimas 24 horas. Como é possível que, em época de crise económica e financeira tão acentuada, eles saiam para rua a gastar enormes quantidades de recursos petrolíferos cuja importação tanto pesa na nossa balança comercial? Como é possível que, num momento em que o país necessita urgentemente de aumentar a produtividade, eles se deitem a altas horas da madrugada e no dia seguinte cheguem — e só tu sabes em que condições físicas — tarde ao trabalho? Meu deus, meu bom deus, como é possível que, num momento em que tantos portugueses andam carenciados do bem estar físico, psíquico e social, adeptos de um mero clube de futebol fiquem na rua aos berros até de madrugada, utilizem compulsivamente as buzinas dos carros e assim perturbem o sossego de quem já anda tão perturbado? Meu deus, meu bom deus, porquê todo esse frenesim? Para celebrar a vitória de um grupo de homens em calções a dar pontapés numa bola? Que espécie de gente é essa que coloca tal frivolidade acima dos interesses e dos valores mais profundos da nação? Que espécie de gente é essa que não pensa no que pensam os mercados nem nas suas reações? Meu deus, meu bom deus, como podem esses portistas criticar a atitude consciente e ponderada dos dirigentes benfiquistas que, sensatamente, optaram por não agravar ainda mais o nosso défice energético? Meu deus, meu bom deus, como se tudo isso não bastasse, hoje entopem as caixas de correio eletrónico com frases tolas e fotos de um profundo mau gosto — chegam ao cúmulo de desrespeitar a imagem e o bom nome de Jesus! Fazem desfilar pelos murais facebookianos um chorrilho de piadas, anedotas e comentários sem a menor contribuição para solucionar os grandes problemas do momento. Meu deus, meu bom deus, essas pessoas não trabalham? Não têm filhos para sustentar e um país para ajudar a recuperar? Como é possível que nesta situação económica tão inspiradora de cuidados, 24 horas depois do tal feito do bando de homens em calção a dar pontapés numa bola, ainda tenham os pensamentos todos dirigidos para aí? Meu deus, meu bom deus, eu sei que não é digno de um crente desejar mal aos outros e ainda menos digno é quando nos outros estão incluídos familiares e amigos. Longe de mim desejar-lhes mal que lhes afete a saúde, as finanças ou o bem estar familiar. Mas, se pudesses interferir... Não te peço grandes intervenções, apenas uma coisinha aqui e outra ali, que os faça não terem motivos para sair de casa para festejos até ao debelar desta maldita crise que tanto nos apoquenta.