O Mendonça teve sempre no Júlio um parceirão à altura a quem invariavelmente contava todos os detalhes — ou talvez apenas os mais sórdidos — sobre a sua vida conjugal e extra-conjugal nos momentos mais importantes. No entanto, para grande desapontamento do Júlio, desta vez tinha sido muito parco em palavras e mais ainda em explicações: «Preciso de uma nova chama na minha vida», foi apenas o que disse o Mendonça quando comunicou ao Júlio o seu novo rumo.
Tomados os aperitivos da praxe na sala de estar, os anfitriões sugeriram que se dirigissem para a mesa de jantar. O Júlio e a Teresa sentaram-se de um lado da mesa — com a Teresa à esquerda do Júlio —, o Mendonça e a Mariela do outro lado. Tendo o Júlio ficado em frente à Mariela — e o Mendonça em frente à Teresa, mas isso pouco importa para o caso —, uma apreciação mais detalhada da Mariela tornou-se praticamente inevitável. «Mesmo muito sem sal», pensava novamente o Júlio para com os seus botões, quando sentiu um ligeiro roçar — da batata de uma perna, supôs — na sua perna direita. A Teresa não podia ser — longe ia o tempo em que a Teresa dava largas aos seus dotes de contorcionista para roçar os membros do Júlio. O Mendonça nem pensar. Só podia ser... acidental. E era a batata da perna da Mariela, claro. «Acidental? Mas desta forma? Queres ver que a mosca-morta afinal tem vida?», pensava o Júlio, quando sentiu um novo roçar na sua perna.
Vítima de tais atrevimentos sob a mesa, o Júlio ficou naturalmente por fora da conversa que os outros três mantinham por cima — algo que todos notaram sem necessidade de recurso a especiais dotes no campo da perspicácia. Sentindo o alheamento do amigo, pergunta provocatoriamente o Mendonça:
— Não é Júlio?
— O quê? O quê? — responde o Júlio visivelmente atrapalhado para risada geral.
— O Júlio é sempre assim calado? — resolve acrescentar a Mariela.
A pergunta da Mariela funcionou como lenha na fogueira para o pobre Júlio: «Grande safada, não só me assedia por debaixo, como ainda me provoca por cima!»
A avaliar pelo comportamento da Mariela na primeira vez que se encontravam, o Júlio começava a entender onde podia o Mendonça ter descoberto nela a chama que lhe faltava. Mas continuava sem vislumbrar justificação para a leviandade com que tinha abandonado o lar — com a esposa e os dois filhos menores — e mergulhado de cabeça numa relação séria — seria? — com tal galdéria. Nesse momento já os outros três comentavam — com alguma preocupação — sobre o ar ausente e preocupado do Júlio. Tentando distrair o amigo, pergunta o Mendonça:
— Já te disse que temos uma gato? — E dirigindo-se à Mariela: — onde está ele?
— Senti-o há pouco roçar-me a perna debaixo da mesa — responde a Mariela.














