quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Pensamento é fogo (que arde sem ceder)

Pensamento é coisa deveras difícil de controlar. Tanto pode crescer de forma desgovernada até ao limite do absurdo, como estacar num pequeno detalhe e não deixar que nada mais de valor brote do cérebro que o produz. E, por contraditório que possa parecer — tratando-se de pensamento não é —, é facilmente sugestionável: vamos supor que lhe digo para pensar em flores vermelhas. Pensou, não é? E lhe disser para não pensar em flores vermelhas? Também pensou, não é? Em suma, facilmente sugestionável mas dificilmente controlável.

Uma das tarefas mais árduas que conheço é, seguramente, a de tentar adivinhar pensamento — esqueça todos os números de circo que já viu, porque aquilo é tudo combinado. Pior mesmo, só tentar adivinhar pensamento de mulher. Quantas vezes, meu caro amigo, em meio a uma conversa com a sua cara metade — ou lá quanto ela vale —, lhe apeteceu perguntar: «como diabo te foste lembrar agora disso?». Não pergunte, pois parecerá que está — e estará mesmo — a desvalorizar o assunto por ela despoletado em favor do processo lógico que o desencadeou. Por mais interessante que isso lhe pareça, ela não vai apreciar. Nem, tão pouco, tente entender essas coisas por si só: na complicada e singular lógica feminina há um encadeamento de ideias quase inacessível mesmo aos mais dotados cérebros masculinos — homossexuais incluídos. No universo masculino, os objetivos são sempre muito mais claros, os processos são sempre muito mais simples e os temas andam quase sempre à volta dos mesmos (dois ou três) tópicos.

O Francisco, que era um sujeito pouco avisado para essas coisas, conduzia o carro a alta velocidade — praticamente à mesma velocidade com que se espalhava em pensamento... —, enquanto a Glorinha seguia calada a seu lado. E por que motivo se espalhava em pensamento o desavisado Francisco? Ora, sentindo a Glorinha estranhamente calada durante largos minutos, resolveu tentar adivinhar-lhe o pensamento. Pior do que isso: tentou adivinhar a causa e o pensamento. Recuou às últimas palavras que trocaram e, rapidamente, achou que tinha descoberto: «está assim por causa de uma palavrinha azeda que me escapou... é óbvio que só pode ser isso... mas não pode ser isso... que mal tem isso de uma palavrinha azeda aqui ou ali?... um homem não é propriamente uma refinaria de açúcar!... estas reações dela por palavrinha de nada são cada vez mais irritantes!!... estão a tornar-se insuportáveis!!!... como é que a Glorinha pode agir assim comigo?!!!...»

Tudo isto e muito mais foi produzido numa súbita enxurrada de pensamentos pelo Francisco. Quando o crescendo de pensamentos — espiralando em torno do mesmo tema — já o levava perto da situação absurda de pensar pedir o divórcio da mulher que amava, surge uma inesperada interpelação:
— Chico?
— Sim.
— Vinha aqui a pensar...
— Sim?
— Sobre aquele problema que te falei ontem: acho que vou fazer como sugeriste.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O negócio dos saquinhos

Mesmo quem muito viaja de avião poderá não estar consciente de todas as variantes possíveis no filão dos negócios aeroportuários. Especialmente fulanos como eu que, com muita frequência, por lá passam exilados no mundo das ideias.

Há dias fiz uma viagem entre Marselha e Lisboa, com ida num domingo e volta na terça-feira seguinte. Para abreviar procedimentos na partida e na chegada, optei por levar apenas bagagem de mão. Ciente das restrições para certo tipo de produtos a bordo, tive o cuidado de deixar as armas brancas (e outras) em casa e de não levar líquidos em volumes superiores aos 100ml permitidos por lei. Em Marselha, coloquei a pequena mala na esteira rumo ao raio X e nem o facto de ser eu o único passageiro por lá naqueles minutos fez com que quisessem mostrar serviço. «Bon voyage!», foi tudo quanto me disseram.

Dois dias depois, o embarque em Lisboa: uma enorme fila de passageiros antes do raio X e um grande contingente de seguranças da Prosegur junto às esteiras para rastreio da bagagem de mão. Instruíam os passageiros que devia ser retirada da bagagem de mão todo e qualquer líquido, mesmo líquidos em volume abaixo dos 100 ml permitidos. Ordem recebida, ordem cumprida: de imediato, retirei o pequeno estojo com os objetos de higiene, asseio e perfume do interior da minha pequena mala. 
– Não não, meu senhor, tem que colocar essas coisas dentro de um saco transparente! – esclarece o diligente segurança.
– Bom... mas... não tenho nada disso.
– Lá atrás – aponta o segurança para um primeiro ponto de controle de passageiros – tem uma máquina com sacos.

«Lá atrás» significava ter que regressar ao ponto de partida e voltar a encarar aquela enorme fila. Sem outra opção, lá fui eu, de mau humor, em busca da tal máquina dispensadora de sacos. É bom que fique claro que não me refiro a sacos num material muito especial ou com um fecho não sei das quantas. Não. Refiro-me àqueles banais saquinhos plásticos que facilmente se encontram aos pacotes de 50 ou 100 em qualquer supermercado, ao preço de um ou dois euros (os 50 ou 100, claro), muito úteis para guardar produtos no frigorífico ou no congelador.

No aeroporto de Lisboa (imagino que noutros também, mas foi este o primeiro onde senti o problema) esses saquinhos tornaram-se uma boa oportunidade de negócio. A ideia da máquina é a seguinte: deposite um euro e receba em troca um saquinho. Como tenho uma certa aversão a alimentar ideias oportunistas, optei por me dirigir de novo ao balcão da companhia aérea e despachar como carga a bagagem que deveria ser de mão. Correndo o sério risco de ver danificada (e nem sempre ressarcido pela companhia) a frágil mala, é certo. Mas preferi arriscar ter que gastar 50 euros numa mala nova, a contribuir com um euro para um negócio obsceno como esse. No final das contas, em caso de má sorte, o prejuízo já só seria de 49 euros (2% de desconto estava desde logo garantido!).

A mala chegou bem, obrigado.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Entre a loucura do telefone e os encantos da powerbox

«Insanidade: fazer a mesma coisa repetidas vezes 
e esperar resultados distintos»
A. Einstein

O casal encontra-se confortavelmente instalado no sofá da sala a explorar os inúmeros encantos da powerbox, quando o telefone toca. Ele levanta-se e vai atender. Regressando ao sofá – e aos encantos da powerbox – é interrogado por ela:
– Quem era?
– Ninguém... foi engano.
Volvidos alguns minutos o telefone volta a tocar. Ele levanta-se e, mais uma vez, vai atender. No retorno ao sofá – e aos encantos da powerbox – é novamente questionado por ela:
– Quem era?
– O mesmo de há pouco. Procura um tal de Dr. Amorim.
– Perguntaste-lhe para que número estava a ligar?
– Sim.
– E então?
– Disse o nosso.
– Estranho...
Não demorou muito para o telefone voltar a tocar. Ele levanta-se pela terceira vez e, com cara de poucos amigos, vai atender. Quando regressa ao sofá, nem espera que ela o questione para lhe dizer com visível irritação:
– Que fulano louco! Insiste em ligar para cá à procura do tal Dr. Amorim.
– Muito louco...
Já sem ambiente para explorarem os encantos da powerbox, a atenção do casal fica agora centrada nos enigmáticos telefonemas. E o telefone toca pela quarta vez. Desta feita, ela levanta-se primeiro e vai atender. Na volta confirma:
– O mesmo. Procurando o Dr. Amorim.
– Que loucura! Melhor desligar o telefone.
– Deixa, pode ser que agora não ligue mais.
– OK.
Os minutos passam, o telefone não volta a tocar e eles podem de novo desfrutar dos encantos da powerbox. Aos poucos, a serenidade do casal começa a ser ameçada por uma certa inquietação dele. Notando-o inquieto, ela pergunta:
– Que tens tu?
– Estou intrigado...
– Com quê?
– Com a história dos telefonemas.
– Imaginei...
– Como é que conseguiste despachá-lo?
– Fácil: já atendi dizendo que era do consultório do Dr. Amorim, especialista em psiquiatria.
– Que disse ele?
– Que precisava de falar com o Dr. Amorim.
– E como é que o despachaste?
– Disse que o Dr. Amorim tinha ido de férias e só regressa no final do mês.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

O Restaurador Olex ®

A publicidade televisiva tem atualmente ao seu dispor meios que seriam praticamente impensáveis há algumas décadas atrás, com recursos para a criação de filmes publicitários que, por vezes, são autênticas produções hollywoodianas. Apesar do muito aparato (ou talvez pelo exagero do aparato), fico com a sensação de que nessas produções escasseia capacidade para se imporem no imaginário coletivo da mesma forma que se impunham algumas publicidades (ou reclames, como era costume dizer-se) do passado com recursos muito mais limitados.

Quem se encontra numa faixa etária acima dos trinta-e-muitos, certamente ainda guarda na memória (e, quem sabe, também na despensa) produtos como Boca Doce ®, Fantasias de Natal ®, Mokambo ® ou Trinaranjus ®. Apesar da produção simples e dos orçamentos irrisórios, todos eles se tornaram profundamente marcantes, fosse pela doçura dos seus intérpretes, pela cançãozinha que facilmente (até demais) se colava ao ouvido, ou até mesmo pela ligeira graçola.

Igualmente dessa época, igualmente inolvidável (porém, sem nenhuma das características atrás mencionadas) é a publicidade do Restaurador Olex ®. Não sei até que ponto foi intencional, mas se alguém tentou, conseguiu: impera o mau gosto do princípio ao fim. Apesar disso (ou talvez por isso), marcou o imaginário de uma geração. Quem a viu e ouviu dificilmente esqueceu que «um preto de cabeleira loira ou um branco de carapinha não é natural; o que é natural e fica bem é cada um usar o cabelo com que nasceu».

Nunca pratiquei yoga (por manifesta falta de tempo, obviamente), mas sou totalmente favorável à filosofia do ser como uno, corpo e mente em saudável harmonia. Em algumas intervenções orais do (jogador de futebol) Hulk, ficava com a sensação de que ele era naturalmente loiro. Sentia que o disfarce capilar em tom escuro não combinava. Finalmente, no passado fim de semana, ele resolveu seguir o conselho (quiçá, utilizando o produto) do Restaurador Olex ® e devolver a cor natural ao seu cabelo. Fica assim mais harmoniosamente preparado para enfrentar as agruras de um campeonato onde já deu mostras de sentir dificuldades de autocontrolo, principalmente na penumbra dos túneis.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Já nem o diabo os quer

Não tenhamos ilusões, do outro lado eles sabem tudo o que se passa por cá. E, dependendo do comportamento dos figurões deste lado, podem acontecer negociações entre um e o outro. Por estes dias houve uma interessante chamada telefónica de Deus para o Diabo:
 Estou.
 Aleluia! Finalmente atendes.
 Calma, Deus, temos a eternidade à nossa frente!
 Que estavas tu a fazer?
 Coisas do Diabo...
 Ai, ai, essas tuas coisas... Mas vamos ao que interessa: como estás de reservas?
 Que tipo de reservas?
 Para governantes portugueses.
 Nem pensar!
 Nem pensar?!
 Sim, por duas ou três gerações não aceito mais reservas.
 Oh Diabo, complicas-me a missão!
 Porquê, mais algum se portou mal?
 Sim, esse novato, o Passos Coelho.
 Que aprontou?
 Mentira.
 Mentira?
 Sim, mentiu.
 E queres mandá-lo cá para baixo por uma coisinha dessas?
 Coisinha?! Mentira descarada com a clara intenção de tirar benefício pessoal. Um grande aldrabão!
 Ah, Deus, perdoa-lhe.
 Não posso, Diabo, enganou milhões de fiéis. Aceitá-lo aqui dá-me cabo da reputação da casa.
 Bom, dessa casa sabes tu.
 Mas, deixa-me que te diga, isso de não aceitares reservas nem parece coisa tua.
 É verdade, mas esses governantes portugueses são do pior.
 E não é do mal que te alimentas?
 Sim, sim, claro. Só que esses gajos são insuportáveis!
 Por que dizes isso?
 No sistema deles, qualquer medíocre bem-falante apadrinhado num tal de centrão ganha facilmente protagonismo na cena política nacional.
 E daí?
 Depois transita do mundo da política para o mundo empresarial, como executivo topo de gama, enquanto eu esfrego um olho.
 E não gostas de promiscuidade?
 Claro que gosto! O chato é que esses governantes portugas se dão tão bem por lá, vão tão além das expectativas que os méritos pessoais recomendariam, que depois lhes custa demasiado abandonar as mordomias da vida na terra.
 E que mal tem isso para ti?
 Ora, com a alma deles, com o tal do fado enraizado, esses medíocres bafejados pela fortuna terrena chegam aqui demasiado chorões. Podes crer, vão muito além do razoável!
 E isso incomoda-te?
 Claro! Choram tanto que me estragam a fogueira. Depois que queimo um, há um trabalhão do Diabo para fazê-la voltar ao normal.
 Ai essa tua preguiça!...
 Pouco importa, preguiça ou não, já decidi não aceitar mais reservas para esses fulanos por uns tempos.
 E que faremos então com o Passos Coelho e mais uns quantos na forja?
 Sei lá, tu que és Deus resolve!
 Não estou a ver como... Em punições tu costumas ser melhor.
 Bom... surgiu-me uma ideia.
 Que ideia?
 Aumentamos o tamanho do purgatório e deixamo-los por lá a purgar na incerteza para todo o sempre.
 Só tu para te lembrares de uma coisa dessas!
 Modéstia à parte, não gosto de deixar os meus créditos por mãos alheias. E, neste caso, a necessidade aguçou-me o engenho!

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A chama oculta

O Júlio e a Teresa visitavam pela primeira vez o Mendonça no apartamento onde este tinha recentemente ido morar com a Mariela. Tratava-se do primeiro encontro do casal com essa tal Mariela. «Um pouco sem sal», pensou o Júlio após as primeiras impressões colhidas. E acrescentou para consigo mesmo: «Não entendo que chama viu o Mendonça nesta insulsinha para ter abandonado o lar daquela forma». Para ser mais exato, além do lar, tinha também abandonado a esposa e dois filhos menores.

O Mendonça teve sempre no Júlio um parceirão à altura a quem invariavelmente contava todos os detalhes  ou talvez apenas os mais sórdidos  sobre a sua vida conjugal e extra-conjugal nos momentos mais importantes. No entanto, para grande desapontamento do Júlio, desta vez tinha sido muito parco em palavras e mais ainda em explicações: «Preciso de uma nova chama na minha vida», foi apenas o que disse o Mendonça quando comunicou ao Júlio o seu novo rumo.

Tomados os aperitivos da praxe na sala de estar, os anfitriões sugeriram que se dirigissem para a mesa de jantar. O Júlio e a Teresa sentaram-se de um lado da mesa — com a Teresa à esquerda do Júlio —, o Mendonça e a Mariela do outro lado. Tendo o Júlio ficado em frente à Mariela  e o Mendonça em frente à Teresa, mas isso pouco importa para o caso , uma apreciação mais detalhada da Mariela tornou-se praticamente inevitável. «Mesmo muito sem sal», pensava novamente o Júlio para com os seus botões, quando sentiu um ligeiro roçar — da batata de uma perna, supôs  na sua perna direita. A Teresa não podia ser  longe ia o tempo em que a Teresa dava largas aos seus dotes de contorcionista para roçar os membros do Júlio. O Mendonça nem pensar. Só podia ser... acidental. E era a batata da perna da Mariela, claro. «Acidental? Mas desta forma? Queres ver que a mosca-morta afinal tem vida?», pensava o Júlio, quando sentiu um novo roçar na sua perna.

Vítima de tais atrevimentos sob a mesa, o Júlio ficou naturalmente por fora da conversa que os outros três mantinham por cima  algo que todos notaram sem necessidade de recurso a especiais dotes no campo da perspicácia. Sentindo o alheamento do amigo, pergunta provocatoriamente o Mendonça:
 Não é Júlio?
 O quê? O quê?  responde o Júlio visivelmente atrapalhado para risada geral.
 O Júlio é sempre assim calado?  resolve acrescentar a Mariela.
A pergunta da Mariela funcionou como lenha na fogueira para o pobre Júlio: «Grande safada, não só me assedia por debaixo, como ainda me provoca por cima!»

A avaliar pelo comportamento da Mariela na primeira vez que se encontravam, o Júlio começava a entender onde podia o Mendonça ter descoberto nela a chama que lhe faltava. Mas continuava sem vislumbrar justificação para a leviandade com que tinha abandonado o lar  com a esposa e os dois filhos menores  e mergulhado de cabeça numa relação séria  seria? — com tal galdéria. Nesse momento já os outros três comentavam  com alguma preocupação  sobre o ar ausente e preocupado do Júlio. Tentando distrair o amigo, pergunta o Mendonça:
 Já te disse que temos uma gato?  E dirigindo-se à Mariela:  onde está ele?
 Senti-o há pouco roçar-me a perna debaixo da mesa  responde a Mariela.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

But!

É claro que quem fala bem francês  acredito que seja esse o seu caso  não precisa de ler este parágrafo preliminar. Mas se não se sente à vontade com essa língua  tudo bem, há muito que deixou de ser grave , recomendo-lhe que comece por praticar o som da letra u: faça um biquinho — como se fosse dar um beijo  e diga u sem desmanchar o biquinho. Imagino que você, amigo macho, com receio de ver a sua virilidade posta em causa, vai sentir-se um pouco perturbado. Mas, fique tranquilo, se o seu chefe ou o seu vizinho o apanharem com expressão facial menos recomendável, conte a verdade: que está apenas a praticar francês  mas se lhe apetecer contar algo mais, aproveite o ensejo!

Longe vão os tempos em que a língua francesa dominava o mundo e falar francês se tornava quase obrigatório para quem queria ter boa formação. Ficaram-nos no português diversas marcas desse domínio linguístico, algumas bastante claras, outras mais ou menos disfarçadas: por exemplo, a palavra equipe  e outras do mesmo tipo  vem do francês e teve no português de Portugal a devida (?) adaptação para equipa. Adaptações dessas não aconteceram entre os brasileiros, sempre muito propensos a manterem fidelidade à sonoridade da palavra na língua original na introdução de qualquer neologismo. Com exageros, como é característica desse bom povo: por exemplo, nessa tentativa de afrancesar o u, em vez de menu dizem meni— na Bahia, pelo menos  até o puré vira pirê!  com tanta doçura no u, suspeito que o façam com batata doce.

Infelizmente para os francófonos, há muito que a língua inglesa passou a perna à língua francesa — algo a que os francófonos ainda não se adaptaram  e os anglófonos que se preparem pois os hispanohablantes avançam a olhos vistos — mas isso já são contas de outro rosário. Por causa desse domínio, temos também os anglicismos disseminados pelo nosso bom português, mais uma vez com as devidas (?) adaptações deste lado do Atlântico.

Uma área na qual os anglicismos predominam é a desportiva. E, por maioria de razão, no futebol — boa adaptação! Nunca entendi o motivo pelo qual os meus antepassados lusitanos desviaram o goal para golo, se gol — como se diz, e bem, no Brasil  até é uma palavra com alguma naturalidade em português, com a vantagem de manter fidelidade ao som original. Mas, enfim, nessa palavra em particular, antes golo do que o correspondente galicismo. Imagine-se no despontar do grande êxtase conferida pelo golo (ou gol) da sua equipa (ou equipe): como se sentiria se, em meio a tal êxtase, abraçando o parceiro de torcida, gritasse a plenos pulmões  com o tal u francês em biquinho  buuuuuut? No mínimo, um pouco comprometedor.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A confissão

Havia já alguns dias que a Isaurinha vivia enclausurada no seu quarto. Saía apenas para as refeições — mera exigência parental —, apesar de quase nada comer. Também quase não falava. A Isaurinha alegre e comunicativa de outros tempos tinha dado lugar a um ser pouco mais do que contemplativo. 

«Mal de amores», comentava a mãe. «Falta de ocupação», acrescentava o pai. Inicialmente encararam o alheamento da Isaurinha como algo típico do fim da adolescência. Contudo, com o decorrer dos dias, a preocupação foi aumentando. Especialmente na mãe. Ao terceiro dia a mãe entrou no quarto da Isaurinha com a intenção de ter uma conversa de mulher para mulher. Após muita insistência para que a filha se abrisse, da boca da Isaurinha não ouviu mais do que um singelo e estranho pedido: «quero o padre».

Ao saber do inesperado pedido da Isaurinha, finalmente soou o alarme do pai com todo o exagero que caracteriza o género masculino:
 Extrema unção?  perguntou.
 Não digas disparates!  atalhou a mãe.
 Então só pode ser pecado... Pecado capital!  acrescentou o pai.
 Calma  disse a mãe , o padre é jovem, de mente aberta, alguém com quem os jovens gostam muito de conversar. Provavelmente quer abrir-se com ele.

Imediatamente contactado, poucos minutos depois o padre dava entrada na casa da Isaurinha. Posto ao corrente da situação, pediu para ficar a sós com ela. Para diminuir a ansiedade nos longos minutos de espera, o pai tentou escutar algo através da porta  ato liminarmente condenado pela mãe. Mais tarde, a própria mãe colou o ouvido à porta. Tudo isso em vão, porque do cómodo onde o padre e a Isaurinha estavam reunidos nem uma palavra escapou para o exterior.

Assim que o padre saiu da conversa com a Isaurinha, pai e mãe correram pressurosos em busca de explicação para o mal que atormentava a filha. O padre escudou-se no dever de sigilo da confissão. Após alguma imploração, deixou escapar que, de fato, se tratava de «mal de amores».
 Bem me parecia!  disse a mãe.
 E é preciso isto tudo?  questionou o pai.
 Amores impossíveis...  contrapôs o padre.
 É no que dá ver muita televisão  comentou o pai. E prosseguiu: — Precisa de se envolver mais com a paróquia, ir mais à missa!
 Não, não, isso não! Basta que cumpra a obrigação da missa dominical. E que não fique lá muito na frente...  rematou o padre.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Caminhos do norte

Não diria que se tratava de um sonho de infância, pois nessa idade não cheguei a conhecer os trolls noruegueses, mas a minha recente visita à Noruega foi, inequivocamente, o cumprir de um sonho de longa data. Entre fiordes, lagos, vales verdejantes e montanhas de tirar o fôlego que não me defraudaram as expectativas, foi no padrão de desenvolvimento que tive as maiores surpresas. Consegue imaginar um país com uma área cerca de quatro vezes maior do que a de Portugal com pouco mais do que algumas dezenas de quilómetros de autoestradas? Pois esse país existe e chama-se Noruega. A julgar por esse detalhe, e se não soubesse que se tratava de um dos países mais ricos do mundo, asseguraria que por lá não tinha ainda passado a prosperidade. Claro que isso tem o seu preço e eles não têm uma Brisa ou uma Mota Engil que os encham de orgulho.

Ainda antes de sair de casa, num mínimo de estudo prévio sobre a Noruega (indispensável para quem se propunha percorrer uma boa parte desse paíde carro), constatei que por lá havia (e há) um sistema de portagens muito similar ao que recentemente foi implementado em Portugal nas chamadas (agora só por ironia) estradas Sem Custo para o Utilizador. Não para pagar a autoestradas que, como já disse (e eu nunca minto, mas quando o faço disfarço bem) quase não existem, mas para entrar nas principais cidades ou para passar em alguns túneis. Viadutos quase não vi. Vi sim muitas travessias que em Portugal teriam dado origem a faustosas pontes por lá ainda funcionarem através de ferryboats. Vi também muitos túneis, uns muito longos, outros nem tanto, uns pouco iluminados outros totalmente às escuras. Sem luxo nenhum. Num desses túneis, ao cair da tarde, quando sobre o planalto caía o frio no aproximar de mais uma noite de fim de verão, deparei-me com um rebanho de ovelhas descansando.

Voltando às portagens. «Estou tramado», pensei, «se o sistema de pagamento for como o português, a coisa não está preparada para turistas». «Não vou», pensei de novo. «Mas... e o sonho?», pensei mais uma vez. Não precisei de me alongar muito na sequência de pensamentos, pois rapidamente descobri que os noruegueses, afinal, não tinham montado um sistema de pagamento não preparado turistas. Vejam lá do que eles se lembraram: o visitante estrangeiro vai à página web da Autopass (uma empresa assim tipo Via Verde, mas melhorada) e lá preenche um formulário onde regista a matrícula do carro, o número do cartão de crédito e as datas de vigência para esse registo. Os noruegueses são muito espertos, não são?

Claro que por causa disso acabam por não ter uma indústria de chips (não me refiro às batatas, até porque a culinária foi coisa a que por lá não me dediquei muito a fundo) tão desenvolvida como a nossa. Consequentemente, também não têm uma Via Verde com o sucesso da nossa. Em contrapartida, e para que não se sintam inferiorizados de todo, têm um país quase todo verdejante. Um país profundamente rural. «Como é possível que um país com tamanho grau de desenvolvimento continue a apostar fortemente na agricultura?», pensará Cavaco Silva e seus correligionários. Sem mencionar a preponderância das pescas, pois toda a gente sabe de onde vem grande parte do nosso tão querido bacalhau. Se não soubesse que se tratava de um dos países mais desenvolvidos do mundo, à luz do cavaquismo que de longa data nos ilumina, juraria que apostaram num modelo de desenvolvimento completamente errado.

Um ligeiro desapontamento surgiu na componente mais encantadora da espécie humana que povoa qualquer país: a feminina. Talvez pela profunda admiração que nutro pelas vizinhas suecas, esperava algo de similar na qualidade da menina norueguesa que vem e que passa no doce balanço a caminho do bar. A realidade ficou um pouco aquém das expectativas, mas penso que tal é compreensível: muito provavelmente, com o grande domínio que durante séculos exerceu na região, o império sueco açambarcou para as proximidades de Estocolmo o que de melhor por lá existia na genética feminina. Conjetura minha, mera conjetura.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O tímido por cima da vizinha de baixo

O Abreu foi sempre muito tímido. Já próximo dos trinta anos de idade, tinha ainda quase imaculada a sua folha de registo das relações sentimentais. Não que lhe tivessem faltado oportunidades para ter maculado a sua existência nesse capítulo, mas uma timidez exagerada tirava-lhe capacidade de intervenção na hora em que a ação se tornava imprescindível.

O Abreu andava de olho  e normalmente não passava dessa fase do olho  na vizinha de baixo, desde que há algumas semanas ela se mudou para o seu prédio. Rapidamente lhe identificou qualidades que a tornaram merecedora de uma observação mais cuidada. E em alguns encontros fortuitos no elevador notou nela recetividade para algo mais do que os meros cumprimentos da praxe. Mas a timidez... A timidez é que singularizava o Abreu!

Mais um encontro no elevador. Ele entra no rés do chão, ela já vem da garagem.
— Boa noite.
— Boa noite.
Na sua qualidade de observador tímido, o Abreu coletava informações relevantes sobre a vizinha. Em particular, detalhes que confirmassem a inexistência de homem por perto. Não deixou de notar um dado que lhe pareceu significativo: que mulher com homem na sua órbita teria necessidade de subir com uma caixa de ferramentas da garagem até ao seu apartamento? Animado por esse detalhe, pensou dizer algo mais do que meramente circunstancial. E voltou a pensar. Doze andares não foram suficientes para tanto pensamento.
— Boa noite.
— Boa noite.
Ela saiu no andar anterior ao dele. E o Abreu confirmou o que já anteriormente tinha confirmado: ela morava no apartamento exatamente por debaixo do seu.

Gorava-se mais uma oportunidade para algumas palavras mais do que meramente circunstanciais. «Que esperas tu, Abreu? Que esperas?», pensava ele revoltado consigo mesmo. Logo hoje, que trazia consigo um CD da Madeleine Peyroux, teria sido tão fácil conseguir dois ou três dedos de conversa: «Um CD muito bom! Conhece? Madeleine Peyroux. Americana, apesar do nome. Canta uma música do Leonard Cohen parecendo Billie Holiday».  Depois das oportunidades goradas era costume tudo lhe parecer muito simples. Mas a timidez, essa maldita timidez, estava a tornar-se insustentável. Iria tomar uma atitude!

Alguns minutos mais tarde, estava ele sentado no sofá quando escutou como acompanhamento da bela voz da Madeleine Peyroux a campainha do seu apartamento. O Abreu sabia que, mais cedo ou mais tarde, a campainha iria tocar. Respirou fundo e dirigiu-se à porta. Lá estava a vizinha de baixo com ar de muito preocupada.
 Desculpe incomodar, mas o meu teto está a pingar!
 Como?!
 Alguma infiltração no seu apartamento, presumo.
 Estive a lavar umas coisas no tanque, será que deixei a torneira aberta?
O Abreu abriu a porta da cozinha e viu que a água já vinha da área de serviço até meio da cozinha.
— Ai Jesus, foi mesmo! — disse ele com desfaçatez. E correu para fechar a torneira.
— Traga algo para enxugar a água que eu ajudo-o! — ofereceu-se ela.
O Abreu rapidamente apareceu com duas toalhas de banho e um balde. Quando a situação já estava sob controlo, ela mesma observou:
 Que música é esta? Parece Billie Holiday... Mas cantando Leonard Cohen? Não pode ser!
 Muito bem observado!
 Quem canta?
 Madeleine Peyroux. Não conhece?
 Não.
 Americana, apesar do nome afrancesado.
 Linda versão do Dance Me to the End of Love.
 Fantástica!
Rapidamente descobriram um imenso gosto musical em comum. Nessa mesma noite jantaram em casa dela. Enquanto ela preparou o jantar ele fez os furos e colocou um quadro na parede.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Só no trânsito...

— Pai.
— Que foi?
— Por que é que levantaste aquele dedo?
— Aquele dedo? Qual dedo?!
— O dedo do meio.
— O dedo do meio? Eu levantei o dedo do meio?!
— Sim.
— Não. Eu levantei a mão toda!
— Hum...
— Verdade!
— Sim, mas mais o dedo do meio.
— Mero acaso.
— Então por que é que levantaste a mão toda mais o dedo do meio?
— Ora, porque conhecia o senhor do outro carro.
— Ah... então foi por isso que ele buzinou!
— Estás a ver?
— Hoje estás a encontrar muitos senhores conhecidos.
— É verdade.
— Logo hoje que vais com mais pressa...
— É... muita gente conhecida só atrapalha.
— E por que é que disseste aquela palavra?
— Aquela palavra? Qual palavra? Eu disse alguma palavra?!
— Disseste. Duas... aliás... três!
— Ia a cantar, não?
— Não. Disseste só três palavras!
— Se calhar só sabia o refrão.
— Hum...
— Alguma dessas canções minimalistas.
— Não me venhas com cantigas, tá?
— Tá, tá bom.
— Então por que é que disseste aquelas três palavras?
— Mas quais palavras?
— Uma delas eu não posso dizer.
— Um palavrão?!
— Sim!
— Qual?
— Aquele sobre a mãe do senhor do outro carro.
— Ah, meu filho, o pai não diz dessas coisas!
— Não, não...
— Diz?!
— Só no trânsito...

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Trocando destinos


Não é fácil ficar indiferente à perspetiva de uma história de amor, principalmente quando nela há contornos pouco esclarecidos que estimulam a imaginação. Presenciei o episódio que relato a seguir no lounge de um aeroporto europeu.

A poucos metros de mim, um homem lia calmamente uma revista enquanto aguardava o mesmo voo que eu. A calma do momento foi interrompida por uma bela jovem — nestas coisas elas são sempre belas e jovens — que se aproximou dele perguntando (em inglês, claro):
— Posso sentar-me?
— Sim, faça favor.
— Mas... a sua bolsa.
— Oh, desculpe.
— Tudo bem.
Uns segundos depois:
— Adivinhe porque vim sentar-me ao seu lado.
— Não faço ideia.
— Bem... não sei se devo dizer.
— Por favor!
— OK. Eu pensei que você fosse um ator.
— Um ator?
— Sim. Eu estava ali sentada e pareceu-me que você fosse ele.
— Ele quem?
— George Clooney.
— Está a brincar.
— O seu cabelo, o seu estilo...
— Muito obrigado. Tomo isso como um elogio!
— À vontade.
Alguns segundos em silêncio. Ela cruza as pernas, tocando levemente a perna dele.
— Desculpe.
— Não tem mal.
— Qual é o seu destino final?
— Chicago. E o seu?
— Nova Iorque.
— Você chega primeiro.
— E você faz uma escala.
— Somos muito perspicazes!
Alguns risos.
— Tem a certeza de que não é mesmo o George Clooney?
— Para ser honesto, já começo a desconfiar.
— A sério?
— De tanto que insiste...
— E está realmente indo para Chicago?
— Claro que não!
— Ah, bem me parecia!
— Na verdade, também fico em Nova Iorque.
— E para onde vai?
— Para a sua zona.
— Que coincidência! Então podemos partilhar um táxi.
— Sim, claro!

Não sei se realmente chegaram a partilhar um táxi. Mas sei que no começo da viagem aérea diligenciaram para que se sentassem do lado um do outro, tendo mais tarde partilhado um mesmo cobertor — talvez tenham partilhado algo mais...

A partir daqui as interpretações podem divergir quanto ao rumo e à moral desta história.

Os românticos verão neste episódio o começo de uma história de amor à primeira vista — ou apenas uma noite de amor à primeira vista. Não querendo desvirginar-lhes a pureza de um olhar idílico sobre as relações humanas, recomendo aos românticos que parem a leitura exatamente neste parágrafo.

Continuou? Sinto muito.

Os desconfiados levantarão a possibilidade de um ingrediente extra: a traição. Esses trocaram já o olhar idílico sobre as relações humanas pela crença de que o sofrimento está muitas vezes à pequena distância de uma mentira improvisada que faz alguém trocar o destino.

Os informados — grupo no qual me incluo, por uns minutos antes me ter sido dado a escutar, sem opção de rejeição, um telefonema do viajante clooniano — sabem que em Chicago havia uma mulher aguardando a sua chegada. Dependendo da informação que essa mulher venha a receber, ou do grau de desconfiança que a caracteriza, muito provavelmente estará também ela prestes a trocar o destino.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A relíquia

"Apenas homens excecionalmente racionais 
podem dar-se ao luxo de ser absurdos"
Allan Goldfein

Até hoje, a única vez que a dona Amélia conheceu o seu marido completamente irreconhecível aconteceu há mais de 30 anos num estádio de futebol. Jamais se esqueceu de um sujeito vestido de preto, vítima dos mais vis impropérios do senhor Raimundo e seus companheiros. A julgar pela forma como se dirigiam a ele, era filho de uma mãe com profissão nada honrada e casado com uma mulher de comportamento muito pouco digno.

Terminado o jogo, o senhor Raimundo voltou a ser o mesmo homem calmo, ponderado e educado que todos — especialmente a dona Amélia — muito apreciavam. A transformação durante aquelas quase duas horas dentro do estádio foi de tal forma radical que a dona Amélia jurou nunca mais acompanhá-lo a tal antro de desabrochamento do lado mais animalesco da espécie humana. Preferia não saber o que por lá se passava e fingir que não conhecera essa faceta do seu marido.

Mas que diabo teria acontecido para que o senhor Raimundo fosse hoje o grande motivo de alvoroço naquele prédio? «Está demitida, está demitida!», era a frase que a dona Amélia ouvia ininterruptamente desde que entrara no prédio. Chegando ao seu apartamento, o volume dos berros elevava-se a um ponto quase intolerável: «está demitida, está demitida!»

— Que se passa, Raimundo?
— Ainda perguntas o que se passa?!
— Naturalmente.
— Que instruções deste à Matilde antes de sair de casa?
— Disse-lhe para lavar uma roupa e preparar sopa para o jantar.
— Roupa? Qual roupa?!
— Ora, Raimundo, umas peças de verão. Coisas para levarmos na viagem.
— Peças? Quais peças?!
— Vestidos, calções, polos...
— Pois, polos...
— Roupas de verão que estavam na parte de cima do roupeiro.
— Só essas?
— Sim, claro.
— Então vai ao varal!

A dona Amélia foi.

E voltou sem palavras. Viu no varal aquele polo num encarnado berrante lavado e estendido ao sol como virgem acabada de desflorar. Não podia acreditar que a empregada tivesse decidido lavar o polo que o seu marido guardava religiosamente há tantos anos na gaveta dos objetos de culto da sua mesinha de cabeceira. Entre eles, o vídeo onde se pode ver a equipa encarnada a subir a escadaria do Estádio Nacional, os adeptos em êxtase, o ligeiro desequilíbrio do Chalana, a sua mão direita a ser colocada sobre o ombro do senhor Raimundo e o suor a marcar a mão do pequeno genial no seu polo. Nunca o senhor Raimundo permitira que aquele polo tivesse sido lavado. O seu santo sudário!

A dona Amélia pressentiu que a Matilde estava, inapelavelmente, a ponto de engrossar o imenso contingente de desempregados deste país. A demissão parecia ser, aos olhos do senhor Raimundo, pena demasiado branda para o crime perpetrado por aquela empregada.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Tempos de crise

Conversa entre vizinhas.
— Bom dia.
— Bom dia.
— Tem ovos?
— Não sei, hoje ainda não fui ao galinheiro. 
— Precisava...
— Agora para o almoço?
— Sim.
— Então vamos lá ver.
— Vamos lá!

Descem até ao galinheiro.
— Já tinha vindo aqui?
— Não, nunca.
— É aqui que as crio.
— Pensava que tivesse mais galinhas.
— Já tive, mas dão muito trabalho...
— Aquela é maior porquê?
— É galo...
— Ah... E põe ovos maiores?
— O galo?!
— Sim.
— Não foi feito para isso!
— Ah, claro, que disparate!
— Distração....
— Pois.

A proprietária acerca-se do ninho das galinhas poedeiras.
— Há ovos.
— Que bom!
— Quantos quer?
— Meia duzinha...
— Arranja-se.
— Vou fazer uma omelete. 
— Estes são ótimos.
— Com ovos caseiros faz-se uma refeição boa e barata.
— Sem dúvida.
— A sua produçãozinha dá uma boa ajuda.
— Dá mesmo.
— Dá para si e ainda vende barato aos vizinhos.
— Bom para todos.
— Tempos de crise... está complicado...
— Muito.
— E a situação está cada dia pior.
— Está mesmo.
— Mas nós ainda nos vamos aguentando sem grandes sacrifícios.
— Graças a deus.
— Já há muita gente em situação delicada.
— Infelizmente.
— Cada vez mais gente a ferrar o cão.
— Imagino.
— Olhe, vou andando. Depois pago-lhe os ovos, está bem? 

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A volta por cima

Órfão de mãe à nascença e de pai cinco minutos após a mãe ter sido fecundada, o Tó Mendes cresceu sob os cuidados da avó, sem outros parentes próximos. Ainda muito novo enveredou por uma carreira — se assim se pode chamar — de trolha. Manhã cedo era apanhado pela furgoneta de uma construtora que, já tarde da noite, o devolvia a casa. Consigo levava a marmita do almoço preparado pela avó: sopa e um conduto — arroz, batata ou massa — adubado com carne de porco, muitas vezes rançosa.

O sonho de uma vida melhor começou a despontar no Tó Mendes quando uma noite, no café do centro, assistiu a uma reportagem televisiva sobre emigrantes em França. Aí viu trabalhadores do mesmo ramo de atividade que se aviavam ao almoço com chouriço, queijo, pão estaladiço e vinho. Aquilo mexeu por dentro — principalmente com o estômago — do Tó Mendes. Não restando mais motivo forte que o prendesse à aldeia, após a morte da avó aceitou a proposta do primeiro que lhe acenou com a promessa de uma vida melhor em terras francesas.

Depois que emigrou, nem o Tó Mendes nem a sua aldeia natal voltaram a ter notícias um do outro. Tinham já decorrido mais de dez anos quando o Tó Mendes decidiu reaparecer. Já a vida lhe corria de feição quando lhe ocorreu — não exatamente com estas palavras — que exibicionismo em terra natal causa sempre maior impacto. Nesse preciso momento, tomou a decisão de fazer alguns investimentos na aldeia que o viu nascer. Reapareceu acompanhado de Mercedes branco, corrente de ouro e uma robusta loura platinada. Admirável. Logo o Tó Mendes, que nos mais de vinte anos que viveu na aldeia não fora alvo da generosidade sentimental nem da mais enjeitada das suas conterrâneas, aparecia agora acompanhado de uma loira platinada!

Trazia como projeto construir uma enorme vivenda para férias no terreno da casa em ruínas que herdara da avó. Começou por fazer chorudos donativos para a junta de freguesia investir em melhoramentos na avenida principal e para o pároco melhorar a — sempre necessitada — igreja matriz. Todos naquela aldeia ficaram com a certeza — especialmente o pároco e o presidente da junta — de que o Tó Mendes tinha dado a volta por cima.

Recebeu efusivos abraços do pároco, do presidente da junta e de muitos outros amigos que nem imaginava possuir. Mostravam-se todos muito felizes com o retorno do Tó Mendes — especialmente o pároco e o presidente da junta —  e também muito curiosos sobre como chegara a tal estado de prosperidade. Naquele fim de tarde pediu-se silêncio no velho café do centro para que se escutasse a história de sucesso dos anos de emigrante do senhor António Mendes.
— Um grande homem — dizia o presidente da junta.
— Que deus o abençoe — acrescentava o pároco.

Começou por mencionar a tal reportagem televisiva que lhe fez despontar o sonho de uma vida melhor como emigrante em França.
— Um grande homem — dizia o presidente da junta.
— Que deus o abençoe — acrescentava o pároco.

Contou depois que nos primeiros anos se sujeitara a trabalhar ilegalmente por tuta e meia numa empresa da construção civil no sul de França. De sol a sol... no verão, porque no inverno era muito mais do que isso.
— Um grande homem — dizia o presidente da junta.
— Que deus o abençoe — acrescentava o pároco.

Referiu a seguir que anos mais tarde conseguiu contrato numa outra empresa, ainda mal pago, mas já a trabalhar apenas o de lei. De sol a sol... no inverno.
— Um grande homem — dizia o presidente da junta.
— Que deus o abençoe — acrescentava o pároco.

A história ia já longa, com o Tó Mendes a fazer menção a uma série de empresas onde trabalhou, mas sem avanços que indiciassem o que provocara melhoras tão significativas na qualidade de vida do Tó Mendes. Eis senão quando, um antigo companheiro de labuta — que tinha que acordar cedo para apanhar a mesma furgoneta que uma década antes apanhava também o Tó Mendes —, denotando alguma ansiedade resolveu pedir um atalho:
— Sim, Tó, mas diz logo como é que conseguiste dinheiro para tudo isto!
— Ah, sim — sorriu o Tó Mendes — essa parte foi fácil: há cerca de um ano acertei na Loto!

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Um caso insólito

Freud trouxe nova luz ao mundo sobre diversos fenómenos psicanalíticos que até então careciam de alumiação. Não teria sido necessária a intervenção de Freud para alumiar psicanaliticamente o caso de uma jovem estar de caso com um homem bastante mais velho, pois isso era — e acho que continua a ser — visto como caso muito natural.

Mas se o caso era um jovem estar de caso com uma mulher bastante mais velha, já o caso mudava — e acho que continua a mudar  — de figura. À luz da teoria freudiana poder-se-á conjeturar que a paixão do jovem pela mulher bastante mais velha tem as suas raízes na infância e resulta de algo mal resolvido entre esse jovem e a sua mãe.

Poderá ter sido algo do género que esteve na origem do caso do Neca. A conjetura ganha maior consistência se levarmos em conta que a mãe do Neca partiu para exercer atividade profissional em ramo pouco honorífico ainda o jovem mal balbuciava as primeiras palavras. Por força das circunstâncias, o Neca acabou sendo criado pelos avós.

O caso do Neca começou na fase em que alguns dos seus amigos se apaixonavam pelas suas amigas, e outros amigos se apaixonavam pelas amigas de outros. Enquanto todos se entretinham com quem andava por perto, o Neca desenvolveu um intenso amor pela Júlia Pinheiro. Amor platónico, claro. Na época, devia estar ela em torno dos 48 anos de idade e o Neca em torno dos 17. Suspeitava-se que o caso nunca iria dar em nada. Mas o Neca sonhava. Sempre que as obrigações escolares o permitiam, o Neca passava as manhãs — ou as tardes, já não me lembro desse detalhe — em frente ao televisor a deliciar-se com os programas da sua amada.

O Neca não se contentou com um amor platónico. Quando atingiu a maioridade decidiu ir a Lisboa para assistir ao vivo ao programa que a Júlia apresentava. Foram cartas, telefonemas e e-mails em catadupa. Tanto insistiu que conseguiu ser selecionado. A expectativa criada foi tanta que, pouco antes de começar o programa, o Neca invadiu o camarim da Júlia Pinheiro e jogou-se a seus pés declarando todo o seu amor por ela. Primeiro a Júlia Pinheiro riu muito e agradeceu. Mas logo achou que era melhor chamar os seguranças.

Quem tem acompanhado de perto a carreira da estrela televisiva nas últimas décadas deverá lembrar-se de um programa no qual a Júlia Pinheiro apareceu a falar alto e num tom de voz muito estridente. Foi precisamente nesse dia. E por causa desse caso insólito com o Neca.

O caso tinha tudo para ter sido bastante comentado. Se a imprensa cor-de-rosa tivesse tido acesso a essa informação, não teria perdido a oportunidade de explorar esse lado negro do verde Neca. Contudo, a estação televisiva onde na época trabalhava a Júlia Pinheiro — suponho que a RTP, ou a SIC... talvez a TVI — conseguiu abafar o caso: chegaram à conclusão de que não seria nada bom para a imagem do canal que essa história se tornasse pública. Apesar dos muitos anos decorridos desde o aparecimento da teoria freudiana, o preconceito continuava — e acho que continua — a ser forte.

E como soube eu da história? Contou-ma um tio que trabalha com um irmão do cunhado da filha da vizinha de uma prima do Neca. Não a divulguei antes porque prometi guardar segredo. Estou convencido que, volvidos mais de 10 anos, promessas deste tipo prescrevem. Mas, pelo sim pelo não, peço-lhe encarecidamente, amigo leitor: não comente com ninguém sobre este assunto.

O Neca deve estar agora em torno dos 28 anos de idade. Pouco mais soube sobre ele. Apenas que os avós já morreram e ele ficou a morar com uma vizinha. Uns 20 ou 30 anos mais velha.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Coincidências lá das Caxinas

 Quem é?
 Manuel Salsão.
 Quem?!
 Ontem telefonei...
 Ah, sim, faça favor de entrar!
 Disse-me que era para vir agora.
 Sim, claro, peço desculpa, não liguei ao nome.
 Não tem mal.
 Então você é das Caxinas?
 Sou sim, e com muito orgulho!
 Terra de craques.
 É mesmo... André, Paulinho Santos, Hélder Postiga e agora o maior: Fábio Coentrão!
 É impressionante!
 E muitos outros por lá apareceram, só que nunca tiveram chances.
 Acredito.
 Deve ter a ver com a nortada... ou com o sargaço...
 Quem sabe...
 Por lá já se diz que é uma queca um craque! Se der rapaz, claro.
 Parece mesmo!
 É por isso que aqui venho.
 Disse-me que tem um filho que vai dar craque?
 Tem pormenores que não enganam!
 Vamos lá então ver isso.
 Repare nesta foto!
 Foto antiga?
 Tirada há uns tempos.
 Era novinho...
 Mas querem investir em craques novos, não é mesmo?
 Sim, sim, mas sem exageros!
 Reparou no cabelo?
 Louro... desgrenhado...
 Ora! Está a ver?
 E o que o faz pensar que o seu filho vai dar craque?
 Além do cabelo?
— Sim, detalhes importantes.
 Bom, eu era vizinho do pai do Coentrão e a minha mulher era vizinha da mãe do Coentrão.
 E mais?
 Sabe como se chama o meu filho?
 Não, não disse.
 Fábio... Fábio Salsão!
 Boas coincidências, mas...
 E não ficam por aí!
 Trouxe algum vídeo do rapaz?
 Sim, trouxe um neste CD.
 Vamos lá então ver o seu talento.
 Vamos lá!
 É este o seu filho?!
 Sim, claro, repare num detalhe importante.
 Qual detalhe?
 Veja com que pé ele chuta: esquerdo!
 Mas que idade tem o seu filho?!
 Dois anos.
 É novo demais!
 Meu caro, lá das Caxinas, ou investe agora ou depois os tubarões levam.