quarta-feira, 25 de abril de 2012

Equívocos buarquianos

Numa época em que a realidade não tem andado grande coisa, alguns jornais anexam determinados produtos culturais como forma de atrair os leitores para as más notícias que trazem. Um dos jornais da praça portuguesa lançou recentemente uma coleção de livros e CDs do cantor, compositor e escritor brasileiro Chico Buarque. Não deixa de ser interessante notar que um dos mais militantes esquerdistas da cena cultural brasileira sirva aqui como isca para as más notícias de um mundo iniquamente inquinado à direita.

A complexidade das letras de algumas canções de Chico Buarque tem também proporcionado leituras erradas das mensagens que transportam. Uma das canções (de Chico Buarque em parceria com Ruy Guerra) que tem dado azo a interpretações equivocadas é o Fado Tropical, que no seu refrão contém a frase «ai, esta terra [Brasil] ainda vai cumprir seu ideal, ainda vai tornar-se um imenso Portugal». A interpretação mais frequente é a de que esta letra alude ao desejo de verem no Brasil a ditadura dar lugar à democracia, como teria ocorrido em Portugal com a revolução do 25 de abril de 1974. Os vídeos dessa música mais visualizados no Youtube têm como pano de fundo imagens da revolução dos cravos.

A interpretação faz sentido. Mas apenas se atribuirmos a Chico Buarque e Ruy Guerra capacidade para uma visão premonitória, pois essa canção foi gravada em 1973. A canção foi escrita para a peça Calabar, num tom irónico, pretendendo debochar de uma certa aristocracia brasileira com dificuldade em desligar as suas referências culturais dos padrões do colonizador. O que na interpretação mais corrente é visto como um desejo utópico, não passa, na verdade, de uma crítica a uma certa realidade.

Também eu, em tempos, tive um pequeno equívoco (além da leitura anacrónica, é claro) com a letra dessa canção. A primeira versão que possuí foi gravada numa cassete a partir de um LP que me emprestaram. Num determinado ponto da canção é recitado um belíssimo soneto sobre a essência da alma lusitana:
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo (...)
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora
Entre a primeira e a segunda frase destes versos ficou a minha gravação maculada com o que supus ser um dos frequentes e arreliadores saltos de agulha ao percorrer o vinil. Fiquei com a convicção de que algo mais deveria existir entre essas duas frases. 

Na minha primeira visita ao Brasil, aproveitei para ampliar a minha coleção de músicas de Chico Buarque e, como não podia deixar de ser, regravar uma nova versão do Fado Tropical. Enquanto a agulha do giradiscos rolou sobre o vinil, a conversa também rolou farta. De modo que só em Portugal reparei que no Fado Tropical, exatamente no mesmo ponto da gravação anterior, havia também um arreliador salto. Grande coincidência. Maldita coincidência!

Só anos mais tarde vim a saber que o corte (literal) tinha sido feito na fita da gravação original pela censura brasileira, por não concordar que entre as tais duas frases, tivessem os poetas acrescentado «além da sifilís, é claro». Impurezas da raça não podiam ser postas em evidência. E, por causa desse corte na gravação original, não há até hoje nenhuma versão da canção onde não se note o tal salto. 

quarta-feira, 18 de abril de 2012

O Simon & Garfunkel no Central Park

«Two disappointed believers
Two people playing the game
Negotiations and love songs
Are often mistaken for one and the same»
Paul Simon

Conseguiram viver juntos durante cerca de três anos, o último dos quais com grande desgaste para a relação. Quando ambos sentiram que já estavam a produzir mais ruído e silêncio do que diálogo, num último assomo de sintonia, concordaram pôr cobro à contenda.

Como nenhum dos dois se mostrou disposto a permanecer no apartamento que juntos tinham escolhido para morar, cada um tratou de encontrar o seu novo lugar. Aquele apartamento seria devolvido ao senhorio no domingo seguinte. E, para que pudessem viver a dor da partida sem muita amplificação externa, acertaram um esquema de dias alternados para retirarem os seus pertences do apartamento: ela na segunda, quarta e sexta, ele na terça, quinta e sábado. Pequenas dúvidas seriam esclarecidas por SMS. Preferencialmente.

Na terça, ele enviou-lhe uma SMS:
«Levaste o Simon & Garfunkel no Central Park. Devolve, pf»
Ela respondeu:
«Compra outro»
Comprar outro não era problema. O problema é que aquele tinha sido autografado pelo próprio Art Garfunkel, após um concerto a que tinham ido juntos em Nova Iorque. Ele argumentou:
«Esse está autografado... E tu nem gostavas deles!»
Ao que ela contrapôs:
«Pois agora gosto muito! E lembras-te que fui eu a pagar esse CD?»

Lembrava, de facto. Desafortunadamente, dessa vez tinha sido ela a pagar o CD. Não lhe parecia um argumento de peso, mas também não encontrou nenhum melhor para desequilibrar a disputa a seu favor. Restava-lhe a esperança de que ela enfiasse a mão na consciência e acabasse por mudar de ideias — algo muito pouco provável, pelo que conhecia dela.

Na quinta ele acabou por comprovar o que já era por si esperado: ela não devolveu o Simon & Garfunkel no Central Park. Sentiu o coração destroçado. Duas separações em simultâneo eram carga negativa a mais para o seu pobre coração. 

Durante dois dias não comunicou com ela. No sábado, mandou uma nova SMS:
«Tenho sentido muito a tua falta... Talvez devêssemos dar-nos uma nova oportunidade»
Ela vacilou na resposta:
«Não sei...»

Ainda que ténue, ele sentiu renascer a esperança. Iria investir tudo o que pudesse nessa possibilidade! Talvez ainda conseguisse reaver aquele precioso Simon & Garfunkel no Central Park...

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Processo de chinificação lusitana

«A maior desgraça de uma nação pobre é que, 
em vez de produzir riqueza, produz ricos»
Mia Couto

Matemáticos são, como toda a gente sabe, uma espécie de indivíduos relativamente alucinados. Normalmente sem grande capacidade de interligação com o mundo real. Caricaturando isso há até uma piada — de muito mau gosto, diga-se de passagem — sobre o matemático que, instado a pronunciar-se sobre a sua preferência entre mulher ou amante, confessa preferir a existência de ambas: diz à mulher que vai encontrar-se com a amante, diz à amante que vai encontrar-se com a mulher e aproveita para ir trabalhar na biblioteca.

Eu já fui assim — mas sem ter tido a necessidade de perder tempo a arranjar uma amante, pois a minha mulher rapidamente descobriu que eu estava de caso com a biblioteca e aceitou-me mesmo assim. Contudo, depois que nos últimos tempos começaram a cortar aos 10% e 20% nos meus rendimentos, deu-se um clique em algum botão que ativava o meu sistema de desligamento do mundo real e descobri que andava a trabalhar acima das minhas possibilidades. Resolvi então dedicar algum do tempo que passou a sobrar-me a questões mais quotidianas e a inteirar-me melhor sobre os grandes males que afetam o país.

Descobri, por exemplo, que em Portugal há um governo formado por doze indivíduos. E a julgar pelas principais medidas que esses doze têm implementado — ou tentado implementar — nos últimos tempos, os grandes males que afetam o progresso de Portugal estão, essencialmente, na classe (pouco) trabalhadora: escassez de horas de trabalho, excessivo número de feriados, baixa contribuição em impostos, acesso fácil a saúde e educação, entre outros, eram os defeitos que, na opinião do governo, se tornava urgente corrigir.

Não creio ter o conhecimento do mundo de nenhum dos membros do governo, menos ainda a formação em gestão, economia, finanças e sociologia que eles possuem. Mas juraria que, a enveredar-se por esses caminhos para corrigir os problemas nacionais, as medidas só começarão a surtir efeito quando estivermos com condições de trabalho e remunerações ao nível das da China. E, mesmo admitindo que o modelo chinês é coisa que se recomende, só desconhecendo por completo o povo chinês e o povo português se poderá pensar que, sob as mesmas condições, os resultados virão a ser os mesmos.

Talvez numa ou noutra coisa nos aproximemos. Eu, por exemplo, apesar do muito que tenho tentado resistir a que me transformem em mais um boneco neste processo de chinificação lusitana, devo reconhecer que algumas das medidas tomadas pelos doze magníficos já me deixaram com os olhos em bico!

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Intervenção divina

O casal debatia-se acesamente na cama, numa peleja simultaneamente oral e corporal:
— Jesus!
— Jesuus!
— Jesuuus!
— Jesuuuus!
...

Já oralmente soltavam para cima de uma vintena de u's e corporalmente se contorciam em alfabetos completos, quando um enorme clarão invadiu o quarto. Não fosse tão profunda a compenetração de ambos e nesse momento podiam ter visto materializar-se na frente da cama aquela figura de olho claro, olhar sereno, barba e cabelo comprido, perguntando:
— Chamaram?
Quando se aperceberam da inesperada presença divina, pararam com tudo o que estavam a fazer. Subitamente, o rubor do cansaço deu lugar ao rubor da vergonha. E, não tendo a possibilidade de cumprirem o ritual bíblico de cobrir as zonas mais pecaminosas com folhas de videira, trataram de cobri-las mesmo com o lençol. Ela ainda tentou tapar a cara com as mãos e os seios com os cotovelos. Com cara de incrédulo e voz trémula ele exclamou:
— Jesus?!
— Eu mesmo!
— Apareces assim, enquanto nós...
— Apareço quando me invocam! Não me invocaram?
— Sim, mas...
— Precisam de ajuda?
— Não! Nisto somos autossuficientes...
— Então por que me chamaram?
— Era apenas força de expressão...
— Pois então, da próxima vez, mais cuidado com a força das expressões!
— Nunca nos tinha acontecido.
— Pois não. Mas com a atual crise de fieis resolvemos voltar a ter uma postura mais interventiva.
— Como assim?
— Sempre que possível, iremos aparecer quando nos invocarem.
— Não fazíamos ideia...
— Acabam de ativar o serviço. 
— Serviço? Qual serviço?!
— O serviço de intervenção divina, ora!
— Mas nós não precisamos de intervenção nenhuma!

Jesus nada acrescentou. Sacou de um pequeno bloco de apontamentos de dentro das suas vestes e começou a tirar algumas notas. Dirigiu-se novamente a ele:
— Preciso de saber se são praticantes.
— Praticantes de quê?
— Da fé cristã, naturalmente.
— Ah, sim! Sempre que possível...
— Têm os sacramentos todos em dia?
— Todos. Até o casamento!
— Um com o outro?
— Claro!
— Assim sendo, e dado que não precisam da intervenção, pagam apenas a deslocação.
— Como?!
— São 25 euros.
— Ahn?
— Por pessoa.
— ...
Cash.

 



quarta-feira, 28 de março de 2012

Os romanos dos tempos hodiernos

«Os impérios do futuro são os impérios da mente»
Winston Churchill

Como é sobejamente conhecido, os romanos deram contribuição valiosa para o desenvolvimento deste nosso mundo em muitas áreas relevantes. Entre outras, aprimoraram a Arquitetura, o Direito, a Literatura, os Banquetes, as Orgias, mas, na minha imodesta e pouco isenta opinião, deixaram a Matemática relegada para segundo — ou até menos honroso — plano.

A prova de que os romanos não deram o devido contributo para a Matemática está, desde logo, na forma estranha — e pouco útil — como representavam os números. Não por representá-los através de letras, pois isso até é coisa que qualquer matemático ainda hoje faz  e aprecia  com muita frequência, mas pela lógica subjacente. Ou pela falta dela, para ser mais exato.

Para que se convença da pouca conveniência da numeração romana, pegue numa folha de papel, escreva dois números e tente multiplicá-los recorrendo apenas a esse sistema de numeração. Escolha números grandinhos para não cair na tentação de usar as suas habilidades de cabeça formatada pela numeração decimal. CMXII vezes DXLIV, por exemplo. Eu demorei alguns minutos e não estou absolutamente seguro de que não trapaceei com conhecimento extra do sistema decimal. Nem de que o resultado está certo.

Mas não precisávamos de ir tão longe. Mesmo o simples ato de comparar dois números em numeração romana é muito pouco intuitivo. No sistema de numeração árabe, basta um relance de olhos sobre dois quaisquer números para que rapidamente se tenha a noção de qual deles é maior. Os tais 912 ou 544, por exemplo. Claro, não é? E se eu tivesse escrito CMXII ou DXLIV? Continuaria a ser claro, mas seguramente um pouco mais demorado.

Pois eu sinto que retrocedemos ao tempo dos romanos de todas as vezes que me é dado a saber o que pensam elas.

Dada a importância das visadas, é de todo pertinente que eu abra — e feche — um parágrafo extra só para dizer o que me vai na alma. Infelizmente, hoje em dia são elas que mandam em tudo. Elas tomaram as rédeas do mundo e controlam-nos todos os passos. Mesmo os passos sem coelho. E delas não se espere sentimentos de compaixão, pois regem-se por uma pretensa objetividade que não se compadece com o sofrimento. O alheio, naturalmente.

Refiro-me às agências de notação financeira. De tempos a tempos, brindam-nos com os resultados dos seus aturados e profundos estudos sobre como se encontram determinadas componentes deste nosso mundo — quiçá também do outro, mas sobre isso ainda não tenho dados. Ou talvez, melhor dizendo, estudos sobre como essas agências querem que se encontrem determinadas componentes do mundo. Não foram nada perspicazes a prever descalabros passados, menos ainda detetam os presentes, mas são tidas como verdadeiros oráculos dos políticos atuais — exceção feita a Cavaco Silva (o atual, não o de há um ano) que até diz que nunca foi político — e os seus ditames condicionam-nos inexoravelmente o futuro.

E, para que as componentes do mundo que elas preferem ver no lixo não descubram facilmente o quanto já estão lixadas, inventaram uma notação quase tão pouco intuitiva quanto a numeração romana. Pela Moody's, Portugal está agora classificado com Ba3. Parece que não é lá grande coisa. Para ser sincero, sem estudar melhor a notação, nem sei muito bem o que esperar a seguir. Só espero que, ao contrário do Império Romano, o delas leve pouco tempo para entrar em colapso!

quarta-feira, 21 de março de 2012

Foi bom?

(Texto motivado pelo passatempo promovido por Cristina Torrão no blogue Andanças Medievais, a propósito dos 865 anos da conquista de Santarém aos mouros por D. Afonso Henriques)

Talvez fruto de uma maturidade conferida pelos seus já quase 40 anos de idade, o mesmo Afonso que em tempos tivera o descaramento de lutar contra a sua própria mãe, começava agora a dar mostras de uma sensibilidade — ou insegurança, quem sabe — que anos antes teria sido difícil de se lhe reconhecer.

Depois de conquistado o castelo escalabitano, Afonso tomou para si a moura mais encantadora do imenso grupo de jovens desamparadas e recolheu com ela aos seus improvisados aposentos. Seria natural que, após uma noite na qual saciou a seu bel-prazer as mais profundas necessidades de homem no ativo, Afonso recompusesse as vestes, colocasse a espada à cintura e saísse para reunir as tropas. Os preparativos com vista à grande conquista de Lisboa, já a poucas dezenas de léguas de distância, assim o exigiam.

No entanto, na hora de se afastar do circunstancial leito de conquistas íntimas, Afonso hesitava. Contemplava a bela moura ainda deitada, qual troféu arrebatado pelo lado pessoal deste multifacetado e bem-sucedido conquistador. Mas para Afonso não bastava. Precisava de saciar no íntimo aquela que ultimamente se tornara uma dúvida tão frequente quanto a sua necessidade de satisfação corporal.

Os seus parcos conhecimentos em língua árabe nem por sombras lhe permitiam questionar a jovem moura — e menos ainda entender o que quer que ela lhe pudesse responder. Por gestos, tornava-se ainda mais difícil. Restava-lhe uma única possibilidade. Mandou chamar o entendido em língua árabe e transmitiu-lhe a pergunta que deveria ser feita. De imediato, o tradutor, sem grandes rodeios, inquiriu-a: كان من الجيد؟

Afonso nem precisou de esperar pela tradução da resposta. O afirmativo menear de cabeça da jovem e o generoso sorriso que lhe acompanhou o gesto foram mais do que suficientes para o seu necessário esclarecimento. Afonso sentiu-se mais confiante do que nunca!

(O resultado foi bom!)

quarta-feira, 14 de março de 2012

Pequenos gestos

Tenho um amigo (Renato, nome fictício) que visitou o Japão (nome não fictício). Durante essa visita foi ciceroneado por uma jovem japonesa (Yuki, creio que o nome é fictício) que o acompanhou para todo lado — onde a presença da jovem fosse recomendável. À entrada (ou saída, tanto faz) de um restaurante, o Renato franqueou a porta para que a Yuki passasse. Apesar da cavalheiresca insistência do Renato, a Yuki recusou-se terminantemente a passar antes do cavalheiro. O relativismo cultural é algo muito complicado na vida de um viajante.

*** 

Tenho uma amiga (Marcela, nome fictício) que visitou a França (nome não fictício). À entrada de uma loja, um cavalheiro francês (Maxime, nome provavelmente fictício) franqueou a porta para que a Marcela passasse. A Marcela já tinha avançado alguns metros dentro da loja quando sentiu a mão do Maxime tocar-lhe o ombro. Virou-se. E escutou do Maxime, num tom de simultâneo ensinamento e reprimenda, um claro «merci». Por distração (ou falta de à-vontade para raspar o r na garganta) a Marcela não tinha agradecido a gentileza com o devido «merci». E o pseudo-gentil Maxime fez questão de lembrá-la disso. Noblesse oblige.

 *** 

Eu mesmo (Josué, nome ligeiramente fictício) visitei a Bulgária (nome não fictício) num tempo em que o sistema comunista já definhava. Dada a escassez e baixo preço dos bens, pela primeira vez na vida o pobre Josué poderia ter-se sentido (mas não sentiu) exageradamente endinheirado. Excetuando as belas e elegantes garotas búlgaras, o Josué comprava tudo que lhe agradava. Numa barraca de artesanato, por gestos, tentava fazer com que um ancião entendesse o produto (exposto por detrás de si) que o Josué pretendia comprar. O diálogo gestual não estava fácil. Em dado momento, o ancião soltou uns impropérios (julga o Josué) e encerrou a barraca. Mais tarde o Josué veio a saber que, na Bulgária, em termos de cabeça meneada, «sim» e «não» são gestos opostos aos da Europa Ocidental.

quarta-feira, 7 de março de 2012

O quarto elemento

«Na política, o absurdo não é um handicap»
Napoleão Bonaparte

Pedro entra no gabinete de Gaspar e diz com ar grave:
— Estou muito preocupado.
— Preocupado com o quê?
— Com os indicadores.
Gaspar observa as mãos de Pedro e, calmamente, faz um reparo:
— Não vejo nada de anormal. Que têm os teus indicadores?
— Essas tuas piadas... Não me refiro a esses, obviamente.
— Então referes-te a quais?
— Aos indicadores financeiros.
— Preocupas-te demasiado com coisas que têm solução fácil.
— Tu e as soluções fáceis...
— Se quiseres complicadas também as arranjo.
— O problema não está em as soluções serem fáceis ou complicadas.
— Então onde está o problema?
— Está em não podermos aumentar impostos de todas as vezes que há desvios colossais.
— E quem é que falou em aumentar impostos?
— As tuas soluções têm passado muito por aí.
— Mas não menosprezes a minha capacidade de inovar!
Pedro começa a dar mostras de alguma impaciência com o enrolar da conversa:
— Diz lá rápido que solução tens desta vez.
— Calma, muita calma. Se é para falar rápido não contes comigo.
— Está bem. Eu fico calmo. Mas que solução tens tu?
— Elementar, meu caro Pedro. Conheces os quatro elementos?
— Os quatro elementos?!
— Terra, fogo, água e ar...
— Conheço, claro. Mas de que nos valem os quatro elementos? Alguma solução esotérica?
— Nada disso!
— Então?
— Ora vejamos: já temos impostos sobre a terra.
— Vários: IMI, IMT, portagens...
— Já temos impostos sobre o fogo.
— Sim, sobre os combustíveis. Dos mais altos da Europa.
— Já temos imposto sobre a água.
— E está tão cara que não é prudente aumentar o imposto.
— Falta-nos um imposto sobre o ar!
— Como assim? Queres taxar o ar?!
— Ora, toda a gente respira e ninguém paga imposto por isso.
— Mas isso é viável?
— Claro que é!
— Não estou a ver como. Que fazemos a quem não pagar? Não temos como cortar o serviço.
— Isso não. Mas podemos mandar amordaçar os inadimplentes. Com a vantagem de ficarmos com menos gente para reclamar e ainda darmos um estímulo à produção de mordaças.
— Colossal!

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Brassica napus

Há pouco mais de um ano a crise do açúcar quase comprometeu a qualidade das minhas iguarias natalinas. De tempos a tempos a crise dos cereais compromete o preço do meu pão de cada dia. E atualmente só não estou mais preocupado com a crise da chuva em Portugal porque aqueles que nas últimas décadas desgovernaram o país (alô alô senhor presidente!) resolveram acabar com boa parte da nossa dependência da agricultura nacional. Ele ainda há males que vêm por bem...

Estas vicissitudes agrícolas trazem-me por vezes ao pensamento uma conjunção interessante: uma viagem de carro pela Alemanha e uma canção do Fausto Bordalo Dias. Nessa tal viagem (primaveril) realizada há alguns anos pude constatar como era notório o contraste entre o aproveitamento dos campos alemães e dos baldios portugueses. Relegando questões de soberania, saúde democrática e brio patriótico para segundo plano, arriscaria até afirmar que se o atual tutorado germânico sobre os inimputáveis governantes lusitanos tivesse sido implementado antes mesmo do começo do desmantelamento da nossa agricultura (e pescas, por que não), talvez a pouco enobrecedora supervisão financeira de hoje em dia não impusesse um garrote tão apertado sobre estes desgovernados portugueses. Outro mal que teria vindo por bem...

No meu périplo pela Alemanha foi grande o deslumbramento com o colorido dos campos nessa época do ano, num tom de amarelo vivo, em vasta área do território por mim percorrido. Não sendo eu um grande especialista em assuntos agrícolas, também não sou propriamente aquilo a que se possa chamar de um nabo. E das culturas de grande escala por mim conhecidas, não via nenhuma com o dom de conferir tamanho colorido amarelo à paisagem. A curiosidade foi aguçando o espírito. Aguçou tanto que se tornou insustentável: tive que parar o carro e acercar-me para inspecionar de perto a planta.

Dentre o rol de plantas catalogadas na minha (nem tão reduzida) memória agrícola, a que mais se assemelhava ao que eu acabava de observar era a couve-nabiça. Não pude conter uma interjeição de espanto, pois dos meus (também nem tão reduzidos) conhecimentos em culinária germânica não constava uma especial predileção dos alemães por uma das preciosidades da cozinha portuguesa: os grelos. Se curioso parei o carro, mais curioso arranquei.

Só uns dias mais tarde, já com a ajuda de amigos mais cultos do que eu em agricultura, vim a saber que o que conferia aquele tom de amarelo vivo aos campos alemães era efetivamente uma planta chamada brassica napus, também designada por colza ou couve-nabiça! De acordo com fonte de conhecimento wikipédico, trata-se de «uma planta de cujas sementes se extrai o azeite de colza, utilizado também na produção de biodiesel. As folhas da planta servem também de forragem para o gado (pelo que é cultivada em muitos países) por seu alto conteúdo em lípidos e conteúdo médio em proteínas».

Ah, já me esquecia: a canção do Fausto é aquela onde a dado trecho ele canta «se não há grelos no mercado, há bons nabos no hemiciclo».

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Light my fire

Miro Costa era o nome de um grande artista. Faltava-lhe o CD para a merecida consagração a nível nacional, é certo, mas, como é sabido, nessas coisas os apadrinhamentos nem sempre brindam os mais talentosos. Festas de santos populares, romarias e, principalmente, festas de casamento na região eram os locais onde o Miro Costa, acompanhado dos seus sintetizadores, exibia os dotes vocais e o talento de um músico de eleição. Ao bom estilo do one man show.

O Miro Costa tinha gosto e clarividência suficientes para tocar conforme o baile. E sabia escolher os hits certos para cada ambiente. Chegava a arriscar uma ou outra composição própria, mas era com hits consagrados pelos seus pares internacionais que levava o seu público à loucura. Em casamentos da alta sociedade, quando o álcool já produzia os devidos efeitos, Light my fire, dos Doors, era tiro certo. A apoteose acontecia depois do solo em acordes menores, quando o Miro Costa voltava à carga com a sua potente voz no refrão em tom maior. Era a loucura total.

O Miro Costa nunca soube a mão que efetuara o lançamento, mas num desses momentos chegou a cair-lhe no teclado um sutiã. Talvez tenha sido mesmo esse o momento de sucesso mais explícito para um observador externo, mas vezes sem conta sentia o calor de um público que, além de o apreciar como artista, o desejava pelo seu sex appeal. Os assédios eram frequentes   mais da parte do público feminino  , sendo muito o proveito que daí retirava, por vezes com a terrível missão da escolha   e nem sempre o género era fator decisivo. Em suma: um verdadeiro artista!

Episódio digno de registo aconteceu-lhe num casamento da alta sociedade. Começou precisamente no momento do tal crescendo de menor para maior do Light my Fire. O êxtase dos dançantes na sua frente foi de tal forma generalizado que até a noiva lhe fez um gesto depravado. Com a língua.

No dia seguinte o Miro Costa recebeu um telefonema:
— Miro?
— Sim... eu mesmo.
— Come on baby, light my fire...
 Quem é?
 A Paula.
 Paula?
 A noiva de ontem...
 Ah, sim... então onde está?
— Em casa...
Em casa?! Não viajou em lua-de-mel?
 Não, Miro, já morávamos juntos há anos. O casamento foi só para agradar à família.
 Ah...
 Come on baby, light my fire...
 Vejo que gostou...
 Não, Miro... quer dizer... sim... mas come on baby, light my fire...
 Como?!
 O Roberto saiu e só volta à noite... come on baby, light my fire...
 Não estou a entender!
 Não está mesmo?!
 Quer dizer, estou, mas...
 Ai Miro, Miro, não se deixe inibir pelas convenções da classe média! Alta sociedade é diferente, funciona noutros moldes!

O Miro Costa  ficou calado por uns instantes. Refletiu  a referência a uma particularidade da alta sociedade fez o seu lado de artista entrar em reflexão. Sabendo que o marido estaria ausente até ao final do dia, decidiu comparecer para acender  e apagar, obviamente — o fogo à carente recém casada.

Pouco tempo mediou até ao comparecimento. Já se encontrava de joelhos em frente a ela quando inesperadamente — para o Miro, apenas — irrompeu no quarto o recém casado, com o seu enorme corpo másculo — mas andar e trejeitos de nem tanto — cantando come on baby light my fire. E, num tom de voz ao mesmo tempo seguro e insinuante, afirmou:
— Meu caro, parece-me que só tem uma saída...
E não se referia à porta. Nem à janela.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Um novo santo

O senhor Armindo esperava o padre à saída da sacristia após a missa matinal.
— Senhor Padre, posso dar-lhe uma palavrinha?
— Pode sim, senhor Armindo. Diga lá.
— Hoje Deus falou comigo.
— Muito bem, senhor Armindo. Prestemos sempre atenção à voz de Deus.
— Não, senhor Padre, hoje foi diferente. 
— Como assim, senhor Armindo?
— Deus apareceu-me num sonho.
— Ai sim? E que lhe disse Deus, senhor Armindo?
— Disse-me que eu sou santo.
O padre esboçou um ligeiro sorriso.
— Foi só um sonho, senhor Armindo, não dê muita importância a isso.
— Diga-me uma coisa, senhor Padre: há algum Santo Armindo?
— Assim, de repente, não estou a ver.
— Pois!
— Pois o quê, senhor Armindo?
— Deus já arranjou santos para quase todos os nomes, mas ainda falta o meu.
— Senhor Armindo, a santidade não vem por aí. Vá à sua vida, vá.
Contrafeito, o senhor Armindo lá foi.

No dia seguinte, o senhor Armindo voltou a esperar o padre à saída da sacristia após a missa matinal. Agora acompanhado da mulher.
— Por aqui de novo, senhor Armindo?
— Deus voltou a falar comigo, senhor Padre.
— De novo em sonho?
— Sim, senhor Padre.
— E que lhe disse desta vez?
— O mesmo de ontem: que eu sou santo.
Neste momento, a mulher do senhor Armindo resolve dar o seu testemunho:
— É, senhor Padre, eu acordei com o meu Armindo a falar com Deus.
— E como sabe a senhora que ele estava a falar com Deus? — pergunta o padre.
— O meu Armindo disse-me, senhor Padre. E ele nunca mente.
— Meus caros, não é assim. Para a santidade a Igreja exige um milagre! Vão à vossa vida, vão.
Contrafeitos, o senhor Armindo e a mulher lá foram.

Ao terceiro dia, esperavam o padre o senhor Armindo, a mulher e um grupo de vizinhos da aldeia. O padre entendeu que a coisa estava a ficar séria.
— O senhor Armindo vai-me dizer que Deus voltou a aparecer-lhe num sonho?
— Adivinhou, senhor Padre!
— E voltou a dizer-lhe que o senhor é santo?
— Ora, nem mais!
— Diga-me lá de uma vez por todas: o que pretende com isto, senhor Armindo?
— Pouca coisa, senhor Padre: apenas uma estatuazinha em algum canto da igreja e que passe a dizer o meu nome na ladainha dos santos.
— E uma romaria em honra de Santo Armindo — diz uma voz lá de trás.
— Apoiado! — acrescenta outra voz.
— Valorizemos o santo da terra! — reclama uma terceira voz.
— Amém — dizem todos em coro.
— Caríssimos, vou ter que falar com o bispo — acrescenta o Padre. E prossegue: — Mas fiquem sabendo que não há canonização sem evidência de um milagre.
— É bom que mudem isso, porque o Armindo enjoa — replica uma voz lá de trás.
— Enjoa? — pergunta o padre.
— Sim. E por isso nunca viaja — responde a mesma voz.
— E que tem isso a ver com o caso? — pergunta o padre admirado.
— Santos da casa não fazem milagres...

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Alguma coisa acontece no meu coração

Uma das mais emblemáticas canções dedicadas à cidade de São Paulo foi escrita e composta pelo baiano Caetano Veloso, em finais da década de 70. Intitulada pela forma como carinhosa e abreviadamente é denominada a cidade, Sampa, começa com as palavras «alguma coisa acontece no meu coração, que só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João. É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi, da dura poesia concreta de tuas esquinas, da deselegância discreta de tuas meninas». Pese embora um certo exagero poético — simultaneamente pouco generoso para com muitas paulistanas de elegância indiscreta e lisonjeiro para com muitas outras de deselegância também indiscreta —, Caetano, com estas palavras, descreve aquelas que serão certamente as primeiras impressões de muitos forasteiros que começam a aventurar-se nesta enorme selva de pedra.

Eu já tinha passado duas vezes por São Paulo, ambas de forma muito fugaz. Em nenhuma delas com tempo suficiente para cruzar a tal Ipiranga com a Avenida São João. Agora, com uma estadia de duas semanas, tive finalmente tempo suficiente para calcorrear algumas das avenidas do centro da cidade e avaliar o que acontece no meu coração. Talvez eu também nada tenha entendido sobre este novo Brasil, mas de um país que é apontado como um dos exemplos de sucesso do nosso descompensado mundo, esperava ver no coração da sua maior cidade menos gente a dormir pela manhã num coreto da Praça da República — também cruzada pela tal Ipiranga —, menos gente a viver debaixo de viadutos em pleno centro, menos gente a viver das sobras mendigadas de quem passa.

Sou suficientemente bom conhecedor da realidade brasileira — desde os primeiros anos da década de 90 — e sei que mudar a fisionomia das suas principais cidades leva o seu tempo. Mas também sou suficientemente bom conhecedor de cidades americanas como Chicago, Nova Iorque, São Francisco ou Washington DC para saber que nesse sistema que orienta os passos do Brasil o comboio do desenvolvimento também deixa para trás um enorme contingente de excluídos. Um sistema com excelentes sistemas de saúde e de educação para quem tem dinheiro, mas que deixa muito a desejar ao nível do investimento público nessas áreas. Diria mesmo que é um sistema demasiado darwiniano: muito pouco complacente para com os mais fracos.

Não pude deixar de refletir sobre a realidade portuguesa. Em particular, sobre as recomendações de alguns desgovernados governantes que exortam os portugueses a buscarem este novo eldorado. Não se ignore que a realidade brasileira ainda comporta várias realidades. Trata-se de um país que cresce a nível macroeconómico, onde a classe alta colhe os seus dividendos, mas a classe média continua a ter que fazer muitas contas à vida para conseguir ter um padrão de vida minimamente decente com planos de saúde, escola privada para os filhos, transportes privados para o trabalho e créditos a juros altos para a casa, o carro e o LCD na sala de estar.

No momento que em Portugal tentam impingir-nos como inevitável o desmantelamento do sistema público de saúde, tal como o temos, antes de aceitar essa suposta inevitabilidade, gostaria de ver este autoproclamado governo de corajosos com coragem suficiente para estancar certas parcerias com privados, que à sombra de contratos ruinosos para o estado cavam a sepultura da saúde pública e abrem alas para futuros negócios ainda mais rentáveis. Este primeiro-ministro, que faz alarde de ter ido muito além da troika no que concerne aos cortes salariais da função pública e ajuste das leis laborais, neste particular perde a coragem e deixa-se ficar aquém das recomendações troikianas. E aquém de algumas das suas próprias promessas. Que Caetano me perdoe a deturpada usurpação, mas alguma coisa acontece no meu coração, que só quando cruza as promessas com os atos de algum aldrabão.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O pastel de Belém e a cavaca

Há dias, revia algumas fotos de uma das minhas três visitas de quinze dias à China. Detive-me a olhar uma que tirei a um painel publicitário da KFC, multinacional norte-americana especialista em sobreasas de frango fritas. Curiosamente, no painel publicitário não era apresentada nenhuma imagem desse produto que notabiliza a KFC — a sobreasa de frango frita —, mas, pasme-se!, o pastel de nata — ou de Belém, como preferir.

Inevitavelmente, o meu pensamento foi, de imediato, conduzido até ao Álvaro. Esse que carrega, que nem cruz, uma das pastas ministeriais mais pesadas em tempos de crise: a de Ministro da Economia. Quando Portugal era um país aproximadamente rico, bastava estimular — financeiramente, claro — a produção em série de uns Magalhães ou umas atividades culturais no Allgarve e a coisa fluía. Agora que não temos dinheiro para mandar cantar um cego, exige-se de um Ministro da Economia maior visão, mais rasgo, enfim, melhores ideias. Em particular, ideias que não exijam ao Estado grandes investimentos financeiros.

Na minha atividade profissional como matemático puro — a pureza refere-se à especificidade da Matemática que produzo, não a mim. Longe disso! — conheço muito bem a dificuldade de comunicar uma grande ideia em abstrato. Por isso, ao contrário dos maledicentes que não conseguiram enxergar a grandiosidade da ideia do Álvaro e se quedaram pela malsucedida concretização no pastel de nata, eu tive a generosidade de ir mais longe. O ponto importante não é o exemplo específico com o qual ilustrou a sua brilhante ideia, mas a generalidade: a doçaria portuguesa. Alguém irá negar que temos uma doçaria de fazer água na boca a muito boa gente por esse mundo fora? E se queremos realmente muita gente, não podemos deixar de fora o mercado chinês. E se queremos conquistar o mercado chinês, não podemos querer conquistá-lo com o pastel de Belém, pois a KFC chegou lá antes.

Foi neste ponto que dei por mim a tentar descobrir, dentre os nossos doces, aquele que melhor combinará com essa enorme legião de potenciais consumidores asiáticos. Nas minhas estadias de três quinze dias em território chinês apercebi-me de que eles não são muito chegados a produtos lácteos — estará a KFC a ter sucesso com o pastel de nata? — nem a ovos frescos — os melhores ovos que por lá comi tinham sido deixados a apodrecer durante dois ou três meses. Dessa forma, iguarias como baba de camelo, barrigas de freira, ovos-moles, papos de anjo ou pudim abade de Priscos não são boas apostas. 

Doces nacionais parcos em ovos ou produtos lácteos são muito raros. Mas alguns existem. Um dos primeiros que me veio à ideia foi a cavaca. Já que a KFC nos retirou margem de manobra para o sucesso com a exportação do pastel de Belém para o mercado chinês, que tal apostarmos na exportação da cavaca?

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Relato de um episódio não ocorrido

Não tenho por hábito abordar aqui temas relacionados com as minhas aulas, nem com o comportamento dos meus alunos — nem alunas. Não porque que não surja nada digno de registo, mas porque não pretendo dar azo a que se notem nos meus relatos detalhes que comprometam a reputação de quem quer que seja — especialmente a minha. Não vá o diabo tecê-las!

Não posso relatar nada de verídico sobre o caso de uma aluna que veio ao meu gabinete ver a correção de um exame de Álgebra, pelo simples motivo de que nunca lecionei essa disciplina. Por conseguinte, não me comprometerei se disser o que quer que seja sobre o hipotético comportamento de uma aluna que não veio à minha sala ver a correção do exame de uma disciplina que nunca lecionei. Nem a aluna chegou perguntando:
— Professor, posso ver a correção do meu exame?
Como ela não perguntou, eu também não respondi:
— Pode sim, claro — e nem acrescentei: — qual o seu nome?
Como eu não perguntei, ela também não respondeu:
— Maria do Céu Formosinho.
Nem eu lhe disse:
— Aqui tem o seu exame.
E, neste ponto, ela não comentou:
— Não sei o que se passa comigo. Tento, tento, mas não consigo fazer esta disciplina!
Nem eu respondi:
— Talvez não esteja a tentar do jeito certo.
Não teria dito isto, é óbvio, pois não cometeria a imprudência de deixar ao critério da aluna a possibilidade de uma interpretação maliciosa que me comprometesse a reputação. Como eu não disse, ela também não perguntou:
— De que forma, professor?
Nem eu tive que responder:
— Não há uma forma universal. Reveja bem o seu método de estudo.
Como esta conversa não aconteceu, também não passei depois pelo embaraço de vê-la tomar uma postura mais ousada na minha frente, de saia curta e perna trançada, a lamentar-se:
— Estes grupos e corpos estão a tirar-me do sério!
Nem eu senti necessidade de acrescentar:
— Não esqueça os domínios de integridade.
Não tendo a conversa chegado a este ponto, a aluna não teve também a ousadia de se inclinar ligeiramente sobre a minha mesa, com a generosa dianteira em riste, sussurrando-me em tom de proposta:
— Faço tudo que o professor quiser para resolver isto de uma vez por todas!
Não foi embaraçoso, porque não aconteceu. E nem eu tive que refrear os ímpetos da aluna:
— Não precisa de chegar a tanto. Só com estudo chegará lá!

Nunca será demais recordar que nada disto aconteceu. E se é verdade que o desfecho da história poderia deixar em evidência os meus bons valores éticos e morais, não é menos verdade que poderia também deixar em causa outro tipo de valores. Repito: trata-se do relato de um episódio não ocorrido!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O grissino

Havia já alguns minutos que ambos permaneciam em silêncio naquele restaurante italiano. Ela observava-o atentamente, enquanto ele, com o olhar distante, se entretinha com os aperitivos.

Não foi o facto de ele ter esquecido a data do aniversário de casamento que a fez desconfiar que algo não estava a funcionar bem entre eles. Afinal, ela sabia perfeitamente que os homens esquecem com facilidade datas importantes. Mesmo as datas inesquecíveis.

Não foi o facto de já só muito esporadicamente — cada vez mais esporadicamente — ele lhe dar a possibilidade de sentir o seu vulcão em erupção que a fez desconfiar que algo não estava a  funcionar bem entre eles. Afinal, ela sabia perfeitamente que a caldeira vulcânica masculina por vezes pode perder vapor. Mesmo na presença de uma mulher como ela.

Não foi o facto de ele, ultimamente, ter tido algumas saídas imprevistas e chegadas tardias — relativamente mal explicadas — que a fez desconfiar que algo não estava a funcionar bem entre eles. Afinal, ela confiava cegamente no seu olfato e sabia que, se houvesse encontros com outra mulher, ela sentiria o odor da traição. Mesmo que nesse odor não houvesse perfume de marca com fixador potente.

O que realmente a fez desconfiar — ou talvez mais do que isso — que algo não estava a funcionar bem entre eles foi a forma comprometedora como ele, com o pensamento sabe deus onde e expressão de quem recordava um momento de profundo prazer, acariciou na boca aquele grissino.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Ciúmes retroativos

«Oh ciúme! Tu magnificador de ninharias»
F. Schiller

Mesmo sabendo que a malfadada crise que atinge o país se propagara até à falta de neve na Serra da Estrela, os três casais não deixaram de cumprir a tradição de se deslocarem umas centenas de quilómetros para celebrarem a Passagem de Ano lá no alto da nação. Depois de uma tarde bem passada a deslizar ladeiras abaixo  —  com a força da gravidade, a escassez de neve acaba por ser um mero detalhe  —  em trenozinhos de plástico, foi no hotel da praxe que contaram as badaladas e as passas e perderam a conta às bebidas. Eles já se encontravam razoavelmente ébrios quando elas sugeriram que recolhessem aos aposentos. Era obviamente cedo para eles. Resistiram. Acabaram por subir elas. Eles ficaram a tentar aproveitar até à última gota.

Já não se lembravam muito bem porquê, mas sabiam que o momento era histórico. Quiçá para assinalá-lo de forma inolvidável, começaram a fazer algumas revelações surpreendentes. Primeiro foi o Belmiro:
— Lembram-se daquela professora jovem de francês? Uns anos mais tarde encontrei-a numa festa e beijei-a.
— Tu também?!  —  ripostou o Abílio.
A risada provocada foi interrompida pela revelação do Cardoso que, empolgado, quis ser ainda mais surpreendente:
— E eu beijei a Rosinha!
A Rosinha? A Rosinha é a mulher do Abílio!

O Cardoso nem precisou de ver as expressões do Abílio e do Belmiro para ter ficado com a sensação de que talvez tivesse sido uma idiotice ter feito aquela revelação. O Belmiro teve a certeza de que a revelação do Cardoso foi uma idiotice. E o Abílio, colhido de surpresa, ficou por breves instantes a pensar se fingia não ter ouvido a idiotice do Cardoso ou lhe saltava ao pescoço. Antes que o Abílio tomasse a decisão de saltar ao pescoço do Cardoso, o Belmiro, que sabia do episódio, tentou amenizar:
— Ah, Abílio, eram dois adolescentes. Ciúmes retroativos não fazem sentido!
— É!  —  enfatizou o Cardozo.
Ninguém sabe o que ficou na cabeça do Abílio, mas uns copos a mais ajudaram-nos a contornar a delicada situação.

Na manhã seguinte, a Rosinha estranhou ver o Abílio deitado na cama durante largos minutos com o olhar fixo no teto.
— Que se passa?
— Tu e o Cardoso...
— O que é que tem?
— Já vos beijastes?
— Como?!
— Responde!
— Éramos dois adolescentes...
— Não sabia, podias ter contado.
— Ah, Abílio, ciúmes retroativos não fazem sentido!
O Abílio pareceu concordar: ciúmes retroativos não fazem sentido.

Contudo, pelo sim pelo não, quando desceram para tomar o pequeno-almoço com os outros dois casais, o Abílio fez com que a Rosinha e o Cardoso não se sentassem lado a lado. Nem frente a frente. Na frente do Cardoso sentou-se precisamente o Abílio. E, durante o pequeno-almoço, olhou várias vezes para a Rosinha e para o Cardoso tentando detetar sinais comprometedores. Mas não detetou nada. Tamborilava com os dedos na mesa. E tentava convencer-se de que ciúmes retroativos não fazem sentido.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Alexandre, o grande, e a geleia de abóbora

Escreveu um dia Fernando Pessoa que «para ser grande sê inteiro». E acrescentou — meio em jeito de explicação — que «nada teu exagera ou exclui». É provavelmente para fazer jus a essa sentença pessoana de grandeza que o Alexandre do Pingo Doce não receia mostrar todas as suas facetas: tanto aparece num discurso moralista dizendo, entre outras coisas, «que se tem vindo a perder a noção de ética e do comportamento social responsável» como, poucos meses depois, manda o  «comportamento social responsável» às laranjas e coloca o grupo Jerónimo Martins  — detentor dos supermercados Pingo Doce — com sede fiscal num lugar onde a contribuição social para resolver a crise que nos escalpa será bem menos contributiva.

Perante a traição à pátria perpetrada pelo Alexandre que dirige o Jerónimo Martins  — que por vezes eu confundo com o líder do PCP  —, não tardou a surgir uma onda de indignação em redes sociais e caixas de comentários de blogs e jornais, com juras do tipo «não compro mais no Pingo Doce».  Eu próprio cheguei a pensar aderir a essa onda e boicotar o Pingo Doce. A primera coisa que me freou um pouco o ímpeto foi não ter descortinado nos supermercados que tenho por perto algum — único que seja — que tenha a sede fiscal em Portugal: Froiz (Espanha), Intermarché (França), Jumbo (França), Lidl (Alemanha), Minipreço (França) e Modelo Continente (Holanda), todos com sede fiscal a léguas. E outros não tenho por perto.

Mesmo consciente da falta de alternativas, cheguei a pensar aderir ao boicote. Afinal, há já muito tempo que perdi a ilusão de querer ser sempre justo na minhas escolhas e não seria uma certa dose de falta de critério justo numa mera escolha de supermercado que pioraria muito a já assumida carência de ilusão. Além do mais, a hora é de luta e o grupo do Alexandre é o único que deserta na hora em que os ladrões eleitos, em nome da crise, mais me entram no bolso.

Mas o que realmente me demoveu da intenção de boicotar o Pingo Doce foi uma geleia de abóbora. Sim, lá no Pingo Doce há uma geleia de abóbora — não me lembro da marca, mas mesmo que me lembrasse não diria, pois publicidade aqui só paga — que combina na perfeição com o pão matinal produzido pela minha panificadora doméstica. Enquanto não encontrar noutro supermercado geleia de abóbora tão saborosa como aquela, poderei até prometer não comprar outros produtos no Pingo Doce, mas a geleia de abóbora nunca deixarei de comprar.

E por causa dessa geleia de abóbora não jurei uma postura radical de boicote ao Pingo Doce, em sintonia com um «comportamento social responsável» e interventivo contra traidores da pátria. Admito que ultimamente o meu coeficiente de patriotismo também tem andado um pouco por baixo.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

A panificadora doméstica

O grau de desenvolvimento de uma sociedade é inversamente proporcional à capacidade demonstrada pela sua classe média para contratar uma empregada doméstica: algo muito fácil nos países subdesenvolvidos, mais difícil nos países em vias de desenvolvimento, praticamente impossível nos países desenvolvidos.

Para auxiliar a classe média na execução das tarefas domésticas, nas sociedades mais desenvolvidas foram surgindo em força os abençoados eletrodomésticos. Uns, indubitavelmente, para compensar a falta de capacidade financeira para contratar auxílio humano para a execução dessas tarefas, outros apenas para dar largas a hábitos consumistas: quem nunca comprou um eletrodoméstico que nunca usou? Eu, por exemplo, tenho há alguns anos uma faca elétrica numa prateleira de inutilidades.

Agora que se vota para eleger tudo e mais alguma coisa, já dei por mim a pensar — em momento de pouca capacidade intelectual, é certo — qual seria o resultado de uma votação para eleger o eletrodoméstico mais maravilhoso da atualidade. Talvez o inevitável frigorífico. Restringindo a eleição a aparelhos de auxílio nas tarefas domésticas, acredito que as respostas pudessem andar maioritariamente entre a máquina de lavar louça e a máquina de lavar roupa. Excluo aqui, propositadamente, a aclamada Bimby: primeiro, porque nunca tive qualquer tipo de contacto com esse prodígio da sociedade contemporânea; depois, a julgar pelos relatos entusiasmados de quem a descreve com todo o seu poder multifuncional, tendo a considerá-la não tanto como um eletrodoméstico mas mais como uma empregada doméstica   e longe vão os tempos em que a fraca consciência social permitia olhar uma empregada doméstica como uma mera máquina.

Na mesma prateleira de inutilidades da já citada faca elétrica, tive durante largos meses uma máquina de fazer pão. Mas em boa hora a resgatei dessa prateleira. E hoje nem tenho dúvidas em elegê-la como um dos meus eletrodomésticos favoritos. Acordar pela manhã com o cheiro a pão quente  sempre tive um certo fascínio pelo cheiro das padarias  sem ter que descer para comprá-lo, é algo que só uma máquina superdotada poderia proporcionar-me. Com a programação certa — e abrindo mais ou menos portas entre a cozinha e o quarto — consigo o aroma com a intensidade ideal para me invadir agradavelmente as narinas ao despertar. Invasão essa que, é certo, me conduz a dúvidas pungentes: deixo-me inebriar pelo aroma e durmo mais uns minutos? Ou saio já para barrar a manteiga no pão quente? Ou será que hoje prefiro geleia?

E, convenhamos, haverá forma mais agradável de começar o dia do que com dúvidas como estas? Haver há, mas não muitas.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O jantar de Natal com o Madeira

«Geralmente são os bens que provêm 
do acaso que provocam inveja»
Aristóteles

Ia já para 10 anos que o Madeira jantava com a família Figueiredo na noite de Natal. Depois que enviuvara, passara a ser presença habitual na casa dos Figueiredo nessa noite, mesmo após terem perdido a cumplicidade de vizinhos porta com porta, quando os Figueiredo se mudaram para outra parte da cidade.

Nos últimos anos a família Figueiredo tinha aumentado. Ao senhor Figueiredo, à dona Adozinda, ao filho e à filha juntavam-se agora o genro e a nora. E, na noite de Natal, o Madeira.

No telefonema da praxe para confirmar a presença do Madeira, foi com surpresa que a dona Adozinda notou da parte dele alguma resistência para cumprir aquilo que já podia ser considerado como uma tradição de longa data. Apercebeu-se depois que o Madeira arranjara uma namorada e não se sentia muito à vontade para aparecer com ela. Por certo, pensou a dona Adozinda, cedera à insistência de alguma viuvinha ou solteirona — frequentes assediadoras do Madeira — e sentia-se inibido para aparecer com ela. «Coitado do Madeira, é tão bom», pensou ainda a dona Adozinda. Mas ela conhecia bem o Madeira e sabia que, com alguma insistência, o convenceria a aparecer com a namorada. E assim foi.

Na noite de Natal, enquanto aguardavam a chegada do Madeira, a dona Adozinda contou à família sobre a ligeira resistência do Madeira para aparecer naquele ano. Quando souberam do motivo, todos, sem exceção, soltaram um «coitado do Madeira, é tão bom». E concordaram que o importante era que fosse feliz. Os mais propensos a comentários inoportunos foram advertidos para que contivessem os impulsos. Independentemente de como fosse essa namorada, o Madeira era praticamente da família.

Foi já perto da hora do jantar que apareceu o Madeira acompanhado da sua namorada na casa dos Figueiredo. E foi com indisfarçável surpresa que todos constataram que a suposta «viuvinha ou solteirona» se tratava afinal de uma bela e airosa mulher na flor da idade — aproximadamente da mesma idade da filha e da nora dos Figueiredo — exalando sensualidade. Doutorada em psicologia, de conversa fluente, tornou-se naturalmente o alvo de todas as atenções nessa noite.

Quando o Madeira e a namorada saíram, ficou a família Figueiredo em alvoroço, exibindo sentimentos que denotavam uma clara falta de espírito natalício: eles com inveja do Madeira, elas com inveja das qualidades da namorada do Madeira. Houve discussões entre os casais mais jovens por causa do deslumbramento masculino pela namorada do Madeira. E tentativas — frustradas, naturalmente — das esposas depreciarem as óbvias qualidades da namorada do Madeira. Mesmo o senhor Figueiredo, poucos anos mais velho que o Madeira, foi apanhado a divagar sobre atributos da namorada do Madeira. Naquela noite de Natal a harmonia da família Figueiredo ficou seriamente abalada.

Já mais tarde, na cama, o casal Figueiredo conversou bastante sobre a namorada do Madeira. E a dona Adozinda decidiu que enquanto o Madeira estivesse com aquela mulher não voltaria a ser convidado para o jantar de Natal. Em nome da harmonia familiar. Mas que diabo teria o Madeira para estar com aquela mulher?

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Os Conzet

O seu nome era Conzet. Louis Conzet. Vendo-o ali estendido, com a alma já entregue ao criador e pronto para seguir na viagem eterna, é difícil imaginar a vida de luxo e luxúria pela qual acaba de passar o Conzet. Especialmente nas décadas de 60 e 70, quando o seu estilo marcou uma geração e a sua degeneração marcou um estilo. Houvesse no seu período áureo a quantidade de publicações rosa e rosa choque de hoje em dia e a sua influência no meio dos socialmente relevantes da capital e arredores – ilhas dos Açores e Madeira incluídas – teria atingido ainda maior protagonismo.

Velam o corpo do Conzet menos de uma dúzia de amigos: os poucos que lhe sobraram dentre as várias centenas que já possuiu. Ainda os pais do Mark Zuckerberg não sonhavam ir um com o outro para a cama  – ou lá onde o sujeito foi feito – e já o Conzet preconizava amizades aos centos no bom estilo facebookiano. Com a decadência física e os problemas financeiros, os amigos começaram a escassear. Naturalmente. Comparecem agora, na hora da grande despedida, apenas os autênticos, aqueles que verdadeiramente sentirão falta da sua existência alegre e das suas excentricidades.

Da sua família nunca muito falou. E, em momento algum, entrou em grandes detalhes sobre enredos da sua teia familiar. Apenas uma ou outra referência esporádica a origens na Riviera francesa, mencionando inclusive um ligeiro parentesco à família real — ou dir-se-á principal? — do Mónaco. Tendo em conta a forma esquiva como sempre abordou o tema, várias foram as conjeturas de que a sua ascendência entroncasse em algum galho bastardo da árvore dos Grimaldi. Mesmo assim, algo bem visto no seu meio social, sem dúvida. Mas não a ponto de permitir a alguém com a classe e o orgulho do Conzet conversar aberta e francamente sobre o tema.

Viveu e padeceu de inúmeros amores, mas nunca se casou. Só muito recentemente, e já depois do coração do Conzet ter perdido por completo a capacidade de amar, o Estado português permitiu que o amor sem impedimentos de género pudesse livremente firmar contrato nupcial. Quanto a filhos, o impedimento sempre foi biológico. E continua a vigorar.

A última frase que proferiu foi um surpreendente e revelador «avisem a minha irmã...». E ainda no mesmo fôlego, apontou para o telemóvel sobre a mesa de cabeceira e murmurou, já com visível dificuldade, duas palavras que os presentes entenderam como «Louise Conzet». De imediato, algum deles se aproximou do telefone e tentou, dentre a extensa lista de nomes, descortinar uma tal Louise. Em vão. O nome mais próximo que encontrou foi uma tal de Luiza. Sem grande alternativa, acabou por fazer o telefonema para essa mesma Luiza. E confirmou que efetivamente se tratava da irmã do Conzet. O mistério adensou-se.

Foi com alguma expectativa que cerca de meia dúzia de horas depois receberam na pequena sala do velório a até então desconhecida irmã do Conzet. Aparentava ser uns anos mais velha que o irmão e, surpreendentemente, revelava-se aos amigos do Conzet com um ligeiro acento beirão.
— Faça favor de se sentar — diz algum dos presentes com ar grave.
— Muito obrigada. Agradeço por me terem avisado.
— Ora essa, foi o último pedido do seu irmão.
— Pouco quis saber de mim em vida, pesou-lhe a consciência na hora da morte. Talvez por eu nunca ter gostado dessa farsa dos Conzet.
— Como assim?
— Mas nas horas de aperto dos últimos anos foi sempre a mim que recorreu.
— Farsa dos Conzet? Quer dizer que os Conzet não existem?
O ar pesaroso da sala foi nesse instante interrompido por um leve sorriso da senhora, que explicou:
— Existem sim: Luiz e Luiza, com "z" em vez de "s" — afirma com alguma graça, em parte conferida pelo acento beirão que muito se fez notar ao proferir as letras "z" e "s". E prosseguiu: — A história é simples. Na sua primeira visita ao Porto, o meu pai ficou de tal forma impressionado com a ponte D. Luiz que prometeu prestar-lhe homenagem atribuindo esse nome a um filho. Eu nasci primeiro. Não sabendo se viria filho varão, jogou pelo seguro e despachou-me logo com o nome de Luiza. Luiza com z. Mais tarde nasceu o meu irmão e, aí sim, o meu pai teve oportunidade de cumprir a contento a sua promessa. Anos mais tarde, a história teve novo desenvolvimento quando o Luiz entrou no colégio. Para distingui-lo de um outro Luís que por lá andava, os colegas começaram a apelidá-lo de «Luiz com "z"». E o meu irmão afeiçoou-se ao nome. Afeiçoou-se tanto que nunca mais o largou. Estilizou-o quando veio para Lisboa estudar Direito, mas os estudos deram para o torto. O Luiz rapidamente descobriu mais interesse em alguns colegas da vida boémia da capital do que nos estudos. O resto vocês devem saber melhor do que eu...

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Estudos de equilíbrio

Os estudos são como tudo: valem o que valem (e utilizo aqui um recurso lapalissiano por não ter encontrado maneira mais interessante de começar este texto). Dependendo de quem os realiza, da forma como os realiza ou das conclusões que deles são extraídas, tanto podem surgir para acrescentar informação de valor, como redundar num desastre total.

Para ilustrar o que pretendo dizer com desastre total, podia aqui referir as recentes conclusões de João Duque e seu naipe de ases na sequência de um suposto estudo sobre a RTP. Contudo, aquilo pareceu-me mais um documento produzido com segundas intenções para agradar a terceiros do que um estudo sobre a RTP. Por conseguinte, não merece ser aqui citado, nem na categoria de estudo que redundou num desastre total.

Nessa categoria, prefiro recordar um estudo feito há uns anos — não sei onde, nem por quem, mas talvez até seja melhor assim —, cuja conclusão ditava algo como: «descafeinado faz mal ao coração». O estudo foi divulgado nos media e, como a conclusão era surpreendente, o estudo foi repensado — nem sei até que ponto já tinha sido pensado antes, mas concedo aqui o benefício da dúvida aos seus autores. Repensamento feito, concluiu-se que, afinal, não era bem assim: o que sucedia é que pessoas com problemas do coração — e não me refiro aos mal de amores — tinham já, à partida, uma certa tendência para substituir o café pelo descafeinado. É evidente que uma inversão entre causa e efeito pode desvirtuar um pouco o valor de um estudo.

Exemplos inequívocos — pelo menos para mim — de estudos com valor são regularmente levados a cabo pela CareerCast.com sobre as melhores profissões nos Estados Unidos. Nesses estudos são tidas em conta as características de cada profissão, entrando em consideração fatores como a remuneração, a responsabilidade e o stress. O estudo de 2011 revelou a profissão de matemático como a segunda melhor do ranking, apenas atrás da de engenheiro de software. Surpresa? Só para quem não tem estado a par dos resultados desses estudos, pois a profissão de matemático já tinha ocupado a sexta posição em 2010 e a primeira em 2009!

Trabalho num país muito diferente dos Estados Unidos, onde a valorização profissional não é necessariamente a mesma — em Portugal a coisa funciona mais a sério e não se dá valor por aí além a esses alucinados matemáticos —, mas nos tempos que correm não posso deixar de considerar como excelente um estudo que revela resultado tão animador. E manda o meu manual de equilíbrio psíquico e emocional que encare tal estudo como bem pensado, bem realizado e bem concluído! Mais não seja, para ter o conforto de saber que quando a situação por aqui apertar para valer, ainda há lugares neste belo mundo onde um exílio pode compensar.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O Bolero de Ravel

Se é verdade que a paixão intensa por diferentes clubes de futebol pode transformar alguns machos da espécie humana — claramente, parece-me ser mal que ataca apenas os machos — em autênticos inimigos mortais, não é menos verdade que a paixão por um mesmo clube pode ser fator de saudável convívio e integração social. Que me perdoem as mulheres por tal comparação, mas diria mesmo que o comportamento entre homens por causa da paixão por um clube se encontra nos antípodas do seu comportamento por causa da paixão por uma mulher: sendo a partilha algo muito apreciado no primeiro caso, salvo em eventuais exceções de gosto swingueiro, dificilmente o será no segundo.

Ninguém duvide que foi precisamente essa partilha da paixão por um mesmo clube — de elevado quilate, diga-se em abono da verdade — fator preponderante — e essencialmente único — para que o Gonçalo Luís e o Quim tivessem conseguido manter fortes os laços de amizade que os uniram desde a infância. A vida transformou o Gonçalo Luís num homem de sucesso na alta finança e o Quim em herdeiro natural da modesta mercearia do pai. De comum entre eles sobrou apenas um profundo amor pelo Benfica. Os dribles do Chalana, as arrancadas do Isaías, a geometria do Rui Costa ou a magia do Aimar foram, ao longo dos tempos, interpretados e descritos de forma quase coincidente por esses dois amigos de recursos vocabulares e intelectuais tão distintos.

O Estádio da Luz era o lugar onde melhor se entendiam. E onde, de longa data, iam com muita frequência juntos. Sempre no carro do Gonçalo Luís. Numa dessas deslocações para o estádio o rádio ia sintonizado numa dessas emissoras onde passa regularmente música clássica — acho que só há uma e chama-se Antena 2. Em dado momento começou a tocar o Bolero de Ravel.
— Um filme do caraças — diz o Quim.
O Gonçalo Luís estranhou que pudessem estabelecer conversa através do cinema. Ainda menos tendo como intermediária a música clássica. Mas não deixou de responder:
— Sim, sem dúvida, um grande filme!
— Quantos anos?
— Tínhamos uns 15, não?
— Cena espetacular com esta música!
— É, o final é espetacular.
— Final?!
— Sim, a cena da dança e o grande plano sobre a cidade.
— Cidade? Qual cidade?!
— Paris!
— Paris?!
— Sim, a capital da França.
— Eu sei que Paris é a capital da França, pá!
— Mas a cena não é em Paris?
— Não, é na cama!
— Na cama?!
— Sim. Nunca me esqueci. Foi um dos filmes da minha vida durante cinco dias. E só deixou de ser depois que a cassete encravou no leitor de vídeo.
— Estou intrigado. De que filme estás a falar?
— Daquele... com aquela gaja... a Boa Derek, não te lembras?
— Ah... esse filme: «10 - Uma Mulher de Sonho»!
— Isso!
— Não, eu estava a falar de «Uns e os Outros», do Claude Lelouch.
— Esse não vi... é bom?
— Muito. Mas demasiado longo e com pouca ação para o teu gosto.
— Ah...

Não foi ainda esta vez que o Gonçalo Luís e o Quim encontraram outros pontos de contacto que lhes permitisse reforçar a já longa amizade entre eles. O saudável convívio entre os dois continuaria a ser alimentado exclusivamente pela intensa paixão desportiva em comum.

sábado, 26 de novembro de 2011

Notas da semana

Num texto com este título, seria impossível não me referir à Greve Geral desta semana. Na lavagem dos cestos, o que mais se discute são percentagens, infiltrações e quem deu tareia em quem. Infelizmente sinto que, à distância a que me encontro, não posso dar contribuição de valor para o esclarecimento de nenhuma dessas grandes questões. Assim sendo, prefiro dedicar-me a outra não menos importante e vezes sem conta repetida: «greve para quê se não tem efeito prático?»

Convenhamos, dificilmente uma greve terá outro efeito que não seja o de conferir força à luta dos trabalhadores descontentes. O efeito prático de uma greve é quase sempre indireto, e esta não poderia deixar de fugir à regra. Serviria, especificamente, para aquilatar o grau de descontentamento dos trabalhadores em relação às medidas que estão a ser tomadas pelo governo.

Mas talvez a maioria não esteja ainda muito descontente; ou então, acredite piamente no discurso oficial do caminho inevitável; ou então, esteja sem capacidade de prever os efeitos secundários destas medidas austeritárias; ou então, já não se sinta suficientemente protegida pela fraca democracia que temos hoje para ousar fazer greve.

Acresce que os funcionários públicos estão a ser apontados pelos detentores do poder como o grande problema do país e os seus sacrifícios a nível salarial a tábua de salvação. Sem mais. Claro que, sendo por enquanto um problema essencialmente dos funcionários públicos, os outros ainda assobiam para o lado.

O que não sabem é que lá bem no fundo já é um problema de todos. Tanto à escala europeia, como à escala nacional, a similaridade com a situação retratada no poema de Martin Niemöller (muitas vezes erradamente atribuído a Bertold Brecht) já me parece grande:

«Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei-me,
porque, afinal, eu não era comunista.
Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, 
porque, afinal, eu não era social-democrata. 
Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, 
porque, afinal, eu não era sindicalista. 
Quando levaram os judeus, eu não protestei, 
porque, afinal, eu não era judeu. 
Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse.»

E para que consigamos fazer «da nossa falência uma vitória, uma coisa positiva e erguida, com colunas, majestade e aquiescência espiritual», como bem recomendou o desassossegado Bernardo Soares, nada melhor do que deixar aqui referência para aquelas que me pareceram ser as melhores notas desta semana, através voz desse maravilhoso cantor, músico e poeta dos nossos tempos, de seu nome Leonard Cohen: Show Me The Place. Sim, alguém que nos mostre outro lugar, porque a coisa por estes lados está cada vez mais complicada.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O Beaujolais Novo chegou!

Que os franceses têm uma relação muito especial com o vinho eu já sabia. Não tinha era noção de algumas variantes nas manifestações dessa relação afetuosa. E não se pense que a afetuosidade é dedicada apenas às castas mais nobres, pois até o Beaujolais, vinho produzido numa região com o mesmo nome, situada ao norte de Lyon, em geral sem qualidades que o guindem a patamares muito elevados, tem direito a honrarias. Por ser um vinho que deve ser bebido jovem, tem a seu favor a primazia na chegada às lojas, escassos dois meses após a colheita. E manda a tradição que a sua chegada seja anunciada com a frase «le Beaujolais Noveau est arrivée!». Desconhecendo o ritual em torno do Beaujolais Novo, há dias fui vítima da minha própria ignorância, primeiro metendo os pés pelas mãos e depois tendo que meter a mão no bolso.

Cena 1: os pés pelas mãos.
Quarta-feira, 16 de Novembro.
Passando por um pequeno supermercado próximo da minha residência marselhesa já perto da hora do fecho, noto uma mesa estrategicamente colocada junto à entrada, onde alguém arrumava cuidadosamente sobre essa mesa garrafas de várias marcas de Beaujolais Novo. Notando que se tratava da colheita de 2011, pareceu-me boa ideia levar uma ou duas garrafas para casa. Como a nível de preços não havia muita variedade, deixei-me levar pelo poder de atração de um dos rótulos e peguei (erro 1) uma das garrafas. Prontamente, fui repreendido pelo sujeito que arrumava essas garrafas sobre a mesa: só podia comprar desse vinho no dia seguinte. Saí de lá conjeturando que as garrafas não estavam ainda catalogadas para venda (erro 2). Mais tarde vim a saber que a comercialização do Beaujolais Novo começa religiosamente na terceira quinta-feira de novembro. Que profano tentei ser!

Cena 2: a mão no bolso.
Quinta-feira, 17 de novembro.
Saindo com uns amigos (não franceses) para jantar num restaurante, aprecebemo-nos de um movimento anormal em frente a algumas lojas de vinhos na cidade, com mesas sobre a calçada e taças para degustação. Degustação de quê? Do Beaujolais Novo, bien sûr! Chegando ao restaurante, um folheto sobre cada mesa anunciava a presença do ansiado Beaujolais Novo naquele restaurante. Gerada a expectativa, perante a sugestão do empregado para tomarmos daquele vinho, nem paramos para perguntar o preço (erro 3). Sabendo que o Beaujolais não era normalmente vinho para preços muitos elevados (erro 4), a imprudência não podia ter sido muito grande (erro 5). Felizmente, antes de pedirmos a terceira garrafa alguém teve  a sensatez de perguntar o preço. Devo dizer que após termos sido informados dos 27 euros que custava cada garrafa saboreei com outro respeito um último trago que restava no meu copo. Saímos do restaurante com a conta significativamente afetada pelo preço do vinho, mas com a boa sensação de termos tomado um Beaujolais Novo muito especial. Se há prazeres que não se explicam, este foi provavelmente um deles!

Epílogo.
Sexta-feira, 18 de novembro.
Sabendo que, agora sim, estava autorizado a levar para casa o Beaujolais Novo, no fim do dia passei novamente pelo pequeno supermercado perto de casa. Dada a pouca sofisticação do local, nem por sombras muito otimistas esperava ver lá (erro 6) um Beaujolais Novo tão especial quanto o tomado na véspera (a 27 euros a garrafa, é bom lembrar). Mas, para meu grande espanto (entre outras sensações...), nem precisei de procurar muito para facilmente notar a mesmíssima garrafa do vinho tomado no restaurante, agora pela módica quantia de aproximadamente cinco euros! Considero normal tomar vinho num restaurante a duas ou três vezes o seu custo nas lojas, mas esse Beaujolais Novo foi multiplicado por um fator muito próximo dos 5.5. Levando apenas em conta a valorização entre o supermercado e o restaurante, é seguramente o vinho mais fantástico que alguma vez tomei!