quarta-feira, 13 de junho de 2012

A anatomia do Borges

«O que é um cínico? 
Um homem que sabe o preço de tudo e o valor de nada»
O. Wilde

Houve um tempo na minha juventude em que me vaticinaram um futuro (brilhante, presumo eu...) na medicina. E eu não dizia que não. Até ao momento em que o meu coração começou a puxar-me de forma arrebatadora para a Matemática e eu fiquei sem outra opção que não fosse segui-lo. Apesar de jovem, já desconfiava que o único jeito de buscar a felicidade fosse deixar o coração solto e correr atrás. Daí para a frente o meu futuro na medicina resumiu-se a umas (pouco brilhantes) passagens por consultórios médicos e hospitais. Sempre como paciente, mesmo quando acompanhando alguém, pois a frequência desses lugares exige sempre muita paciência.

Destarte, os meus conhecimentos médicos nunca foram muito além dos básicos para um cidadão comum. Sei, por exemplo, que o corpo humano é composto por vários aparelhos, sendo um deles o aparelho digestivo. Sei também que, na ordem natural das coisas, esse aparelho é composto por um primeiro órgão que se chama boca e um último que se chama ânus. Sei ainda que pelo meio há outros órgãos que por vezes me dão problemas que eu resolvo facilmente com uns chazinhos e fármacos ligeiros de ter por casa. Creio ser este o quadro geral de alguém sem patologias de maior.

Mas há quem sofra de patologias terríveis. Um dos que ultimamente me tem deixado desconfiado é o Borges. E, se aquilo que desconfio se confirmar como verdade, é uma grande pena. Quando a vítima de uma patologia é um irrelevante do ponto de vista financeiro, a gente até ignora facilmente, pois no infortúnio de uma existência pobre há sempre lugar para mais um mal. No entanto, se a vítima é um sujeito da estirpe do Borges, há uma tendência natural para desenvolvermos a compaixão. O Borges não, coitado! Com uma patologia dessas ele não consegue encher a pança — um órgão do aparelho digestivo que ele muito deve prezar — nos lugares que o seu salário justifica. Com uma patologia dessas o Borges não pode ir aos restaurantes que cavalheiros de negócios gostam de partilhar com políticos ilustres — passe a redundância terminológica.

Que fique claro que não passa tudo isto de uma mera desconfiança minha, cidadão com nível básico em conhecimento médico. Agradeço até aos meus leitores que frequentam lugares como o Eleven — ou casa de pasto similar — que me esclareçam (exiladonomundo@gmail.com): já viram o Borges por lá? Se sim, por qual órgão costuma comer? É que, levando em conta as imundícies que ultimamente lhe têm saído pela boca, sou levado a suspeitar que ele sofra de uma terrível inversão nas funções dos órgãos extremos do seu aparelho digestivo.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

O efeito borboleta

Há uns anos houve uma tentativa — relativamente malsucedida, na minha cinéfila opinião — de passar para o cinema esse fenómeno científico denominado «efeito borboleta». Princípio importante na elaboração da Teoria do Caos, assenta na ideia simples de que pequenas alterações numa escolha inicial levam a comportamentos muito distintos na evolução de um sistema. Sem dúvida, um fenómeno facilmente detetável no dia-a-dia.

Essa mesma ideia pareceu-me explorada com maior mestria por Luís Fernando Veríssimo no seu livro «Em Algum Lugar do Paraíso», onde na crónica «Versões»  relata o episódio de um homem que conversa com várias versões de si mesmo que lhe vão aparecendo no bar onde se encontra. Descobre assim quem ele teria sido caso tivesse passado num teste para ser jogador de futebol. Ou, se realmente se tivesse tornado jogador, caso tivesse feito ou não aquele golo. Noutras revelações, o homem depara-se com quem ele teria sido se tivesse passado num concurso público ou se tivesse casado com a Doralice. E assim por diante...

Eu já me sentei muitas vezes em bares, mas (in)felizmente nunca tive a possibilidade de conversar com as versões de mim que optaram pelas escolhas que eu rejeitei. Nem mesmo quando bebi demais. Não significa isso que por vezes não tenha pequenos vislumbres sobre possíveis variações do meu passado caso as minhas escolhas não tivessem sido exatamente as mesmas. Tenho sim. A última vez em que isso me aconteceu foi numa visita recente — a primeira — à Universidade de Warwick.

Dadas as minhas preferências matemáticas na época em que tive que escolher o lugar para realizar o meu doutoramento, Warwick e Rio de Janeiro apresentaram-se como os lugares mais prováveis — que no caso do Rio veio a confirmar-se com 100% de probabilidade — para o meu exílio. Não faço ideia de quem seria eu hoje, caso não tivesse optado pelo Rio. No entanto, depois de conhecer a Universidade de Warwick fiquei convencido de que por lá teria conseguido obter o grau com muito menos sofrimento. E não me refiro à exigência da universidade nem à qualidade da Matemática que por lá se produz. Refiro-me, isso sim, às condições envolventes muito mais favoráveis: uma universidade no meio de campos verdejantes, sem os apelos profanos de bares, praias e garotas num doce balanço a caminho do mar. Ou do bar.

Nada parecido com o bairro de Ipanema, onde fui morar. Para cúmulo, logo ali num ponto onde se cruzam duas ruas tão distintas: a do ônibus com destino ao Instituto de Matemática Pura e Aplicada e a das garotas com destino à praia. Eu nem sou muito de me queixar do passado, mas este é um dos raros momentos em que olho para trás e sinto vontade de fazer um desabafo. Em tom de lamento. Pela dor, pelo sofrimento, pelos quatro anos de conflito interno para optar pela rua certa. E quando razão e tentação entravam em grande conflito, optava por levar uns livros para a praia e ficar por ali mesmo. Livros de Sistemas Dinâmicos e Análise Funcional, que foram as áreas mais estudadas. Bem encadernados, é claro, para disfarçar o conteúdo. É que se os Sistemas Dinâmicos até poderiam dar azo a alguma interpretação favorável, já uma Análise Funcional dificilmente seria motivo para uma interpretação que não me comprometesse.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

É o Zé!

A Mariazinha era frequentemente apontada como exemplo modelar de menina bem comportada. Passou a delicada fase da adolescência sem suscitar qualquer tipo de problema, tornando-se mesmo motivo de orgulho para os seus pais e objeto da inveja dos pais de outras meninas da sua idade. Até que um dia...

Tudo começou com indisposições e vómitos frequentes. Consultado o médico de família, o veredicto abateu-se como maldição sobre o bom nome da família: «a Mariazinha está grávida». O pai vociferou palavras horrendas, a mãe teve um ataque de nervos e ambos sentiram uma enorme necessidade de punir exemplarmente o malvado que teve a desfaçatez de introduzir tamanha impureza na até então tão pura Mariazinha.

«Quem é o pai?» tornou-se uma pergunta insistente à qual a Mariazinha não dava resposta. Na verdade, a Mariazinha não sabia responder. Mas a pergunta foi repetida tão insistentemente que, não tendo resposta para dar, a Mariazinha sentiu-se coagida a inventá-la: «o pai é o Zé!».

A responsabilidade por ato tão ignóbil recaía assim sobre um ajudante de carpinteiro que por aqueles dias trabalhava na remodelação da casa dos pais da Mariazinha. O Zé, inicialmente sem entender o que podia ter feito de tão grave para que sobre ele se abatesse, de forma intensa, a ira dos pais da Mariazinha, logo se apercebeu que só lhe restava uma solução: casar com a Mariazinha. Nada mal para o pobre Zé, que até então nunca lhe tivera passado pela cabeça vir a desposar fruto de tão superior casta.

Os primeiros tempos foram muito difíceis para o jovem casal. Além do desprezo da família da Mariazinha, tiveram que lidar com a discriminação dos conterrâneos. Confrontados com tais adversidades, decidiram mudar-se para uma terra muito distante, tendo que sobreviver apenas com os rendimentos do Zé como carpinteiro.

À medida que o menino (sim, nasceu um menino) crescia, começavam a notar-se no petiz qualidades inigualáveis como grande líder de massas. E não tardou muito para que, fruto de uma excelente capitalização dessas qualidades, o menino (já crescidinho...) e os pais viessem a granjear posição de grande admiração e destaque, primeiro na cidade, depois no país e, finalmente, em todo o mundo. Repito, em todo o mundo!

Moral da história: se uma filha aparecer de esperança, mesmo que de um pobre ajudante de carpinteiro, tenhamos elevação de espírito e tentemos manter firme a esperança, pois, mesmo assim, o futuro da família pode ser divino!

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Cotovelos

Não tenho dúvidas de que os cotovelos são uma das partes mais injustiçadas do corpo humano. Trabalham que se fartam o tempo todo (podendo chegar ao ponto de serem revestidos por uma pele que mais parece de paquiderme), dão trombadas com elevada frequência (que lhes causam dores terríveis) e depois são utilizados numa metáfora para um sentimento tão vil como o da inveja. Ou numa outra para a tagarelice.

Em nome de alguma justiça corporal, os cotovelos mereceriam de todos nós maior consideração (além de lubrificações regulares com creme para diminuir a aspereza da pele). Enaltece-se o aspeto e desempenho de olhos, boca, mãos, pernas e outras partes que nem preciso mencionar, mas que valor se dá aos cotovelos? Eu contra mim escrevo: em toda a minha vida não tive mais do que três momentos de ponderação sobre a importância dessas articulações. E o terceiro deles foi agora mesmo para escrever este texto.

O primeiro momento de consciência sobre o valor dos cotovelos tive-o numa idade compreendida entre a suficiente para já saber o que queria e a insuficiente para ter o que gostaria. Estudava com uma colega relativamente desenvolvida para a idade (e particularmente avantajada quanto a determinado atributo físico). No momento em que ela, do meu lado direito, se debruçou para entender melhor algo que eu escrevera no meu caderno (talvez a solução de uma equação de grau elevado para a época...), o meu cotovelo direito experimentou uma das sensações de contacto interpessoal mais excitantes até essa idade. Não foi muito, mas por vezes é em pequenos detalhes inesperados que residem os maiores prazeres. E este obtive-o através do cotovelo. O direito.

A história anterior não é das melhores, mas enaltece o valor do cotovelo no despertar para as sensações de prazer num adolescente. E já que chegou até este ponto (muito obrigado!) merece ser recompensado com uma história mais edificante. 

O segundo momento em que fui levado a meditar sobre a importância dos cotovelos foi na minha primeira visita ao Brasil. Decorria uma campanha televisiva sobre algo que, julgo eu, andaria em torno da solidariedade. Algumas personalidades apareciam esporadicamente na televisão a contar pequenas histórias que tocassem (sentido figurado!) o telespectador. Uma dessas histórias foi contada por Tom Jobim. Versava sobre um homem que, tendo morrido, antes de seguir a merecida trajetória, foi conduzido (por S. Pedro, suponho) a visitar o inferno e o céu. Chegado ao inferno, viu uma enorme mesa cheia de comida e de bebida, tudo do bom e do melhor, e muita gente à volta da mesa a olhar a comida sem poder tocá-la, apesar do ar faminto de todos eles. Motivo? Todos tinham os cotovelos ao contrário. Um inferno! Posteriormente o homem foi levado ao céu. Aí observou aquela que, num primeiro relance, lhe pareceu ser uma cena igual à do inferno: uma enorme mesa, comida e bebida à farta sobre uma enorme mesa e muita gente ao redor da mesa com os cotovelos ao contrário. Não escondendo o espanto pela semelhança com o que acabara de observar no inferno, foi alertado para um detalhe que lhe escapara: cada um utilizava os seus braços para alimentar o vizinho do lado.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Espírito missionário

O Francisco olhou o bilhete, olhou a inscrição por cima do assento, olhou novamente o bilhete e sentou-se no lugar que lhe estava reservado. Com indisfarçável satisfação. Desta vez tinha-lhe tocado em sorte uma companheira de viagem com excelentes atributos físicos. Ainda antes do comboio ter seguido marcha já o Francisco lhe tinha tirado as medidas, sentido a fragrância e apreciado a tez sedosa e morena.

Enquanto executou — de forma subtil, mas não totalmente discreta — esse rastreamento interpessoal, ela permaneceu imóvel. Com óculos escuros e olhando na direção da janela, pareceu ao Francisco que ela tinha o olhar preso em algum ponto do infinito. Talvez dormisse. Não: entre o aro dos óculos e o rosto dela, o Francisco pôde notar um olho a pestanejar.

A forma ligeiramente descuidada de vestir — que nem por isso a fazia pouco sedutora —, o cabelo mal amanhado, o olhar sempre fixo e distante, pareceram ao Francisco sinais inequívocos de alguma tristeza. Dado que ela mantinha as mãos entrelaçadas no regaço, o Francisco não pôde observar os seus dedos de forma totalmente esclarecedora, mas pareceu-lhe mesmo ver no dedo anelar dela uma marca mais clara de alguma aliança recentemente retirada. A marca de uma separação, pensou ele. Talvez carregue ainda a dor profunda de um namoro mais sério, de um noivado ou até mesmo de um casamento que acaba de romper-se, pensou o Francisco.

O Francisco sentou-se naquele lugar com doses de confiança e de espiritualidade mais do que suficientes para rapidamente entabular uma conversa cativante com a sua ocasional companheira de viagem, mas à medida que foi notando nela sinais de tristeza foi também perdendo o seu elã. Uma hora depois o Francisco abandonou o seu lugar no comboio e desceu para a plataforma sem que ela tivesse removido o olhar do tal ponto algures no infinito nem ele lhe tivesse dirigido uma só palavra.

Censurou-se por não ter sequer tentado dar-lhe algum conforto. Despretensioso, claro está. Num mundo de tanta impessoalidade, de tanta solidão, talvez aquela jovem mulher precisasse de uma palavra reconfortante ou até mesmo de um novo olhar de esperança sobre o futuro, pensou o Francisco. Num mundo onde tanta gente — especialmente idosa — sofre por falta de um mínimo de atenção, louve-se o espírito missionário que nesse momento pareceu despontar no Francisco — esta parte não pensou ele. 

Já na plataforma, ele parou e olhou para trás, na direção da janela da carruagem onde ela tinha permanecido para continuar viagem. Nesse instante, ela levantou ligeiramente a mão e dirigiu o olhar na direção do Francisco. Simultaneamente, soltou uma risada e deu um tchauzinho.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Viciados em palmas


Não sei se proveniente de algum traço específico na carga genética dos portugueses, mas parece-me inquestionável haver na idiossincrasia deste nosso povo algo que nos caracteriza como invulgarmente viciados em palmas. Isso mesmo: clap, clap, clap...

As palmas são, provavelmente, a forma mais universal de demonstrar apreço por uma boa execução em diversas áreas de expressão artística. Muito em particular, na área musical. Mas podem também as palmas ser um excelente instrumento de percussão numa execução musical. No flamenco ou na rumba, por exemplo, são batidas de forma intercalada, no tempo e no contratempo, para conferir maior vivacidade ao ritmo. No samba de roda do recôncavo baiano são batidas de forma sincopada para acrescentar maior complexidade ao ritmo. Em Portugal, surgem frequentemente nas salas de espetáculo para acrescentar monotonia ao ritmo, sendo batidas pelo público no tempo forte de cada compasso, muitas vezes abafando o som dos artistas ou atrapalhando-lhes a execução.

Se dúvidas houver, escute-se a gravação da Deolinda ao vivo no Coliseu do Recreios. Não há por lá uma só música mais ritmada que a plateia — camarotes, balcão e galeria incluídos — não faça acompanhar com as suas inestimáveis e ruidosas palmas. Em alguns temas torna-se difícil descobrir se as palmas surgem para demonstrar apreço pelos executantes ou para os testarem na introdução de variações rítmicas ao longo de uma mesma canção. A gravação é de 2011, o Coliseu é o de Lisboa, mas há vários anos que tenho detetado esse vício também nas salas de espetáculo do Porto. E quase sempre com desagrado.

O vício dos portugueses pelas palmas é de tal forma acentuado que passaram também elas a ser a forma predileta de assinalar o minuto de silêncio — note-se o detalhe irónico da terminologia — nos estádios de futebol por este país fora. Minuto de silêncio esse que, quando muito, dura uns dez segundos. Ao décimo primeiro já todos os presentes no estádio, em pé, rendem a sua estrondosa salva de palmas ao homenageado. Não soubesse eu que os portugueses têm, por natureza, uma certa tendência para o culto da tristeza e acharia que o objetivo de tal ato era transformar em alegre um pretenso minuto de pesar. Mas a verdade é que se trata apenas de vício. Vício por palmas. Não é de admirar que as proíbam no fado.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Magret de pato


Os jantares entre os dois casais iam acontecendo com certa regularidade ao longo dos anos, ora numa casa ora na outra. De todas as vezes, os anfitriões esforçavam-se para que não houvesse repetição do prato principal de algum dos jantares anteriores. Uma mera questão de orgulho e vaidade que, obsessivamente, tinha sido elevada ao patamar de uma questão de honra!

Desta vez tocava ao Faria e à Maria Alice receberem o Basílio e a Sandrinha em casa. Com a colaboração do Faria, a Maria Alice tentava escolher um prato principal — diferente de todos os anteriores, evidentemente — para o jantar do dia seguinte. O Faria, que era bastante metódico e não suportava ver a Maria Alice tensa, tinha passado a apontar as ementas de jantares anteriores num velho bloco de apontamentos. Após alguns pratos excluídos, por constarem da providencial lista de anotações do Faria, a Maria Alice avançou com mais este:
— Magret de pato.
O Faria olhou a lista de cima a baixo e de baixo a cima e sentenciou:
— Esse nunca fizeste para eles!
— Tens a certeza? — questionou a Maria Alice.
Desconfiar da memória do Faria era uma constante na Maria Alice. Mas desconfiar daquilo que o Faria tinha acabado de ler — ou de não ler, para ser mais exato —, também já era demais!
— Certeza absoluta! — respondeu o Faria.
— Vê bem — ripostou a Maria Alice.
— Já vi e revi: não consta da lista! — contrapôs o Faria com irritação.
Se o Faria era metódico, a Maria Alice era, por método, desconfiada. E a combinação de um com o outro nem sempre resultava num ambiente de saudável harmonia conjugal.

Quando, no dia seguinte, a Maria Alice colocou em cima da mesa de jantar a travessa com o magret de pato acabado de confecionar, o Basílio e a Sandrinha — imediatamente e em simultâneo — proferiram um expressivo «hum, que delícia!». A Maria Alice olhou-os e disse:
— Espero que gosteis de magret de pato.
— Muito — afirmou a Sandrinha.
— E esse que tu fazes é uma delícia! — complementou o Basílio.
O complemento do Basílio caiu sobre a Maria Alice como balde de água fria.
— Já fiz este prato para vós? — perguntou a Maria Alice visivelmente desagradada.
— Sim — respondeu a Sandrinha.
— E estava maravilhoso! — acrescentou o Basílio.
O elogio ao prato da Maria Alice, que numa situação normal teria servido para deixá-la agradada, serviu, em vez disso, para deixá-la bastante agastada. De imediato, a Maria Alice lançou um olhar fulminante sobre o Faria e abanou a cabeça num jeito de quem diz «seu inútil, nem para isso serves». O Faria apenas encolheu os ombros. Sabia que esta história não iria ficar por aqui!

O resto do jantar decorreu com indisfarçável desconforto para os da casa: a Maria Alice sem esconder a frustração pelo prato principal repetido e o Faria sem entender como tinha esquecido de apontar esse prato na sua lista. Enquanto isso, o Basílio e a Sandrinha, alheios ao mau ambiente entre os anfitriões, deliciavam-se com o magret de pato excelentemente confecionado — e as ótimas sobremesas que lhe sucederam. A Maria Alice era, inquestionavelmente, uma cozinheira de eleição!

Logo que entraram no elevador, a Sandrinha beijou o Basílio com satisfação. E exclamou:
— O nosso plano saiu perfeito!
— Acreditaram mesmo que estavam a repetir o prato — acrescentou o Basílio.
— Vais ver: da próxima vez que a Maria Alice for jantar em nossa casa, vai chegar com o nariz menos empinado — rematou a Sandrinha.
Beijaram-se mais uma vez. Celebravam dessa forma a execução irrepreensível de um plano muito bem gizado.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Equívocos buarquianos

Numa época em que a realidade não tem andado grande coisa, alguns jornais anexam determinados produtos culturais como forma de atrair os leitores para as más notícias que trazem. Um dos jornais da praça portuguesa lançou recentemente uma coleção de livros e CDs do cantor, compositor e escritor brasileiro Chico Buarque. Não deixa de ser interessante notar que um dos mais militantes esquerdistas da cena cultural brasileira sirva aqui como isca para as más notícias de um mundo iniquamente inquinado à direita.

A complexidade das letras de algumas canções de Chico Buarque tem também proporcionado leituras erradas das mensagens que transportam. Uma das canções (de Chico Buarque em parceria com Ruy Guerra) que tem dado azo a interpretações equivocadas é o Fado Tropical, que no seu refrão contém a frase «ai, esta terra [Brasil] ainda vai cumprir seu ideal, ainda vai tornar-se um imenso Portugal». A interpretação mais frequente é a de que esta letra alude ao desejo de verem no Brasil a ditadura dar lugar à democracia, como teria ocorrido em Portugal com a revolução do 25 de abril de 1974. Os vídeos dessa música mais visualizados no Youtube têm como pano de fundo imagens da revolução dos cravos.

A interpretação faz sentido. Mas apenas se atribuirmos a Chico Buarque e Ruy Guerra capacidade para uma visão premonitória, pois essa canção foi gravada em 1973. A canção foi escrita para a peça Calabar, num tom irónico, pretendendo debochar de uma certa aristocracia brasileira com dificuldade em desligar as suas referências culturais dos padrões do colonizador. O que na interpretação mais corrente é visto como um desejo utópico, não passa, na verdade, de uma crítica a uma certa realidade.

Também eu, em tempos, tive um pequeno equívoco (além da leitura anacrónica, é claro) com a letra dessa canção. A primeira versão que possuí foi gravada numa cassete a partir de um LP que me emprestaram. Num determinado ponto da canção é recitado um belíssimo soneto sobre a essência da alma lusitana:
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo (...)
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora
Entre a primeira e a segunda frase destes versos ficou a minha gravação maculada com o que supus ser um dos frequentes e arreliadores saltos de agulha ao percorrer o vinil. Fiquei com a convicção de que algo mais deveria existir entre essas duas frases. 

Na minha primeira visita ao Brasil, aproveitei para ampliar a minha coleção de músicas de Chico Buarque e, como não podia deixar de ser, regravar uma nova versão do Fado Tropical. Enquanto a agulha do giradiscos rolou sobre o vinil, a conversa também rolou farta. De modo que só em Portugal reparei que no Fado Tropical, exatamente no mesmo ponto da gravação anterior, havia também um arreliador salto. Grande coincidência. Maldita coincidência!

Só anos mais tarde vim a saber que o corte (literal) tinha sido feito na fita da gravação original pela censura brasileira, por não concordar que entre as tais duas frases, tivessem os poetas acrescentado «além da sifilís, é claro». Impurezas da raça não podiam ser postas em evidência. E, por causa desse corte na gravação original, não há até hoje nenhuma versão da canção onde não se note o tal salto. 

quarta-feira, 18 de abril de 2012

O Simon & Garfunkel no Central Park

«Two disappointed believers
Two people playing the game
Negotiations and love songs
Are often mistaken for one and the same»
Paul Simon

Conseguiram viver juntos durante cerca de três anos, o último dos quais com grande desgaste para a relação. Quando ambos sentiram que já estavam a produzir mais ruído e silêncio do que diálogo, num último assomo de sintonia, concordaram pôr cobro à contenda.

Como nenhum dos dois se mostrou disposto a permanecer no apartamento que juntos tinham escolhido para morar, cada um tratou de encontrar o seu novo lugar. Aquele apartamento seria devolvido ao senhorio no domingo seguinte. E, para que pudessem viver a dor da partida sem muita amplificação externa, acertaram um esquema de dias alternados para retirarem os seus pertences do apartamento: ela na segunda, quarta e sexta, ele na terça, quinta e sábado. Pequenas dúvidas seriam esclarecidas por SMS. Preferencialmente.

Na terça, ele enviou-lhe uma SMS:
«Levaste o Simon & Garfunkel no Central Park. Devolve, pf»
Ela respondeu:
«Compra outro»
Comprar outro não era problema. O problema é que aquele tinha sido autografado pelo próprio Art Garfunkel, após um concerto a que tinham ido juntos em Nova Iorque. Ele argumentou:
«Esse está autografado... E tu nem gostavas deles!»
Ao que ela contrapôs:
«Pois agora gosto muito! E lembras-te que fui eu a pagar esse CD?»

Lembrava, de facto. Desafortunadamente, dessa vez tinha sido ela a pagar o CD. Não lhe parecia um argumento de peso, mas também não encontrou nenhum melhor para desequilibrar a disputa a seu favor. Restava-lhe a esperança de que ela enfiasse a mão na consciência e acabasse por mudar de ideias — algo muito pouco provável, pelo que conhecia dela.

Na quinta ele acabou por comprovar o que já era por si esperado: ela não devolveu o Simon & Garfunkel no Central Park. Sentiu o coração destroçado. Duas separações em simultâneo eram carga negativa a mais para o seu pobre coração. 

Durante dois dias não comunicou com ela. No sábado, mandou uma nova SMS:
«Tenho sentido muito a tua falta... Talvez devêssemos dar-nos uma nova oportunidade»
Ela vacilou na resposta:
«Não sei...»

Ainda que ténue, ele sentiu renascer a esperança. Iria investir tudo o que pudesse nessa possibilidade! Talvez ainda conseguisse reaver aquele precioso Simon & Garfunkel no Central Park...

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Processo de chinificação lusitana

«A maior desgraça de uma nação pobre é que, 
em vez de produzir riqueza, produz ricos»
Mia Couto

Matemáticos são, como toda a gente sabe, uma espécie de indivíduos relativamente alucinados. Normalmente sem grande capacidade de interligação com o mundo real. Caricaturando isso há até uma piada — de muito mau gosto, diga-se de passagem — sobre o matemático que, instado a pronunciar-se sobre a sua preferência entre mulher ou amante, confessa preferir a existência de ambas: diz à mulher que vai encontrar-se com a amante, diz à amante que vai encontrar-se com a mulher e aproveita para ir trabalhar na biblioteca.

Eu já fui assim — mas sem ter tido a necessidade de perder tempo a arranjar uma amante, pois a minha mulher rapidamente descobriu que eu estava de caso com a biblioteca e aceitou-me mesmo assim. Contudo, depois que nos últimos tempos começaram a cortar aos 10% e 20% nos meus rendimentos, deu-se um clique em algum botão que ativava o meu sistema de desligamento do mundo real e descobri que andava a trabalhar acima das minhas possibilidades. Resolvi então dedicar algum do tempo que passou a sobrar-me a questões mais quotidianas e a inteirar-me melhor sobre os grandes males que afetam o país.

Descobri, por exemplo, que em Portugal há um governo formado por doze indivíduos. E a julgar pelas principais medidas que esses doze têm implementado — ou tentado implementar — nos últimos tempos, os grandes males que afetam o progresso de Portugal estão, essencialmente, na classe (pouco) trabalhadora: escassez de horas de trabalho, excessivo número de feriados, baixa contribuição em impostos, acesso fácil a saúde e educação, entre outros, eram os defeitos que, na opinião do governo, se tornava urgente corrigir.

Não creio ter o conhecimento do mundo de nenhum dos membros do governo, menos ainda a formação em gestão, economia, finanças e sociologia que eles possuem. Mas juraria que, a enveredar-se por esses caminhos para corrigir os problemas nacionais, as medidas só começarão a surtir efeito quando estivermos com condições de trabalho e remunerações ao nível das da China. E, mesmo admitindo que o modelo chinês é coisa que se recomende, só desconhecendo por completo o povo chinês e o povo português se poderá pensar que, sob as mesmas condições, os resultados virão a ser os mesmos.

Talvez numa ou noutra coisa nos aproximemos. Eu, por exemplo, apesar do muito que tenho tentado resistir a que me transformem em mais um boneco neste processo de chinificação lusitana, devo reconhecer que algumas das medidas tomadas pelos doze magníficos já me deixaram com os olhos em bico!

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Intervenção divina

O casal debatia-se acesamente na cama, numa peleja simultaneamente oral e corporal:
— Jesus!
— Jesuus!
— Jesuuus!
— Jesuuuus!
...

Já oralmente soltavam para cima de uma vintena de u's e corporalmente se contorciam em alfabetos completos, quando um enorme clarão invadiu o quarto. Não fosse tão profunda a compenetração de ambos e nesse momento podiam ter visto materializar-se na frente da cama aquela figura de olho claro, olhar sereno, barba e cabelo comprido, perguntando:
— Chamaram?
Quando se aperceberam da inesperada presença divina, pararam com tudo o que estavam a fazer. Subitamente, o rubor do cansaço deu lugar ao rubor da vergonha. E, não tendo a possibilidade de cumprirem o ritual bíblico de cobrir as zonas mais pecaminosas com folhas de videira, trataram de cobri-las mesmo com o lençol. Ela ainda tentou tapar a cara com as mãos e os seios com os cotovelos. Com cara de incrédulo e voz trémula ele exclamou:
— Jesus?!
— Eu mesmo!
— Apareces assim, enquanto nós...
— Apareço quando me invocam! Não me invocaram?
— Sim, mas...
— Precisam de ajuda?
— Não! Nisto somos autossuficientes...
— Então por que me chamaram?
— Era apenas força de expressão...
— Pois então, da próxima vez, mais cuidado com a força das expressões!
— Nunca nos tinha acontecido.
— Pois não. Mas com a atual crise de fieis resolvemos voltar a ter uma postura mais interventiva.
— Como assim?
— Sempre que possível, iremos aparecer quando nos invocarem.
— Não fazíamos ideia...
— Acabam de ativar o serviço. 
— Serviço? Qual serviço?!
— O serviço de intervenção divina, ora!
— Mas nós não precisamos de intervenção nenhuma!

Jesus nada acrescentou. Sacou de um pequeno bloco de apontamentos de dentro das suas vestes e começou a tirar algumas notas. Dirigiu-se novamente a ele:
— Preciso de saber se são praticantes.
— Praticantes de quê?
— Da fé cristã, naturalmente.
— Ah, sim! Sempre que possível...
— Têm os sacramentos todos em dia?
— Todos. Até o casamento!
— Um com o outro?
— Claro!
— Assim sendo, e dado que não precisam da intervenção, pagam apenas a deslocação.
— Como?!
— São 25 euros.
— Ahn?
— Por pessoa.
— ...
Cash.

 



quarta-feira, 28 de março de 2012

Os romanos dos tempos hodiernos

«Os impérios do futuro são os impérios da mente»
Winston Churchill

Como é sobejamente conhecido, os romanos deram contribuição valiosa para o desenvolvimento deste nosso mundo em muitas áreas relevantes. Entre outras, aprimoraram a Arquitetura, o Direito, a Literatura, os Banquetes, as Orgias, mas, na minha imodesta e pouco isenta opinião, deixaram a Matemática relegada para segundo — ou até menos honroso — plano.

A prova de que os romanos não deram o devido contributo para a Matemática está, desde logo, na forma estranha — e pouco útil — como representavam os números. Não por representá-los através de letras, pois isso até é coisa que qualquer matemático ainda hoje faz  e aprecia  com muita frequência, mas pela lógica subjacente. Ou pela falta dela, para ser mais exato.

Para que se convença da pouca conveniência da numeração romana, pegue numa folha de papel, escreva dois números e tente multiplicá-los recorrendo apenas a esse sistema de numeração. Escolha números grandinhos para não cair na tentação de usar as suas habilidades de cabeça formatada pela numeração decimal. CMXII vezes DXLIV, por exemplo. Eu demorei alguns minutos e não estou absolutamente seguro de que não trapaceei com conhecimento extra do sistema decimal. Nem de que o resultado está certo.

Mas não precisávamos de ir tão longe. Mesmo o simples ato de comparar dois números em numeração romana é muito pouco intuitivo. No sistema de numeração árabe, basta um relance de olhos sobre dois quaisquer números para que rapidamente se tenha a noção de qual deles é maior. Os tais 912 ou 544, por exemplo. Claro, não é? E se eu tivesse escrito CMXII ou DXLIV? Continuaria a ser claro, mas seguramente um pouco mais demorado.

Pois eu sinto que retrocedemos ao tempo dos romanos de todas as vezes que me é dado a saber o que pensam elas.

Dada a importância das visadas, é de todo pertinente que eu abra — e feche — um parágrafo extra só para dizer o que me vai na alma. Infelizmente, hoje em dia são elas que mandam em tudo. Elas tomaram as rédeas do mundo e controlam-nos todos os passos. Mesmo os passos sem coelho. E delas não se espere sentimentos de compaixão, pois regem-se por uma pretensa objetividade que não se compadece com o sofrimento. O alheio, naturalmente.

Refiro-me às agências de notação financeira. De tempos a tempos, brindam-nos com os resultados dos seus aturados e profundos estudos sobre como se encontram determinadas componentes deste nosso mundo — quiçá também do outro, mas sobre isso ainda não tenho dados. Ou talvez, melhor dizendo, estudos sobre como essas agências querem que se encontrem determinadas componentes do mundo. Não foram nada perspicazes a prever descalabros passados, menos ainda detetam os presentes, mas são tidas como verdadeiros oráculos dos políticos atuais — exceção feita a Cavaco Silva (o atual, não o de há um ano) que até diz que nunca foi político — e os seus ditames condicionam-nos inexoravelmente o futuro.

E, para que as componentes do mundo que elas preferem ver no lixo não descubram facilmente o quanto já estão lixadas, inventaram uma notação quase tão pouco intuitiva quanto a numeração romana. Pela Moody's, Portugal está agora classificado com Ba3. Parece que não é lá grande coisa. Para ser sincero, sem estudar melhor a notação, nem sei muito bem o que esperar a seguir. Só espero que, ao contrário do Império Romano, o delas leve pouco tempo para entrar em colapso!

quarta-feira, 21 de março de 2012

Foi bom?

(Texto motivado pelo passatempo promovido por Cristina Torrão no blogue Andanças Medievais, a propósito dos 865 anos da conquista de Santarém aos mouros por D. Afonso Henriques)

Talvez fruto de uma maturidade conferida pelos seus já quase 40 anos de idade, o mesmo Afonso que em tempos tivera o descaramento de lutar contra a sua própria mãe, começava agora a dar mostras de uma sensibilidade — ou insegurança, quem sabe — que anos antes teria sido difícil de se lhe reconhecer.

Depois de conquistado o castelo escalabitano, Afonso tomou para si a moura mais encantadora do imenso grupo de jovens desamparadas e recolheu com ela aos seus improvisados aposentos. Seria natural que, após uma noite na qual saciou a seu bel-prazer as mais profundas necessidades de homem no ativo, Afonso recompusesse as vestes, colocasse a espada à cintura e saísse para reunir as tropas. Os preparativos com vista à grande conquista de Lisboa, já a poucas dezenas de léguas de distância, assim o exigiam.

No entanto, na hora de se afastar do circunstancial leito de conquistas íntimas, Afonso hesitava. Contemplava a bela moura ainda deitada, qual troféu arrebatado pelo lado pessoal deste multifacetado e bem-sucedido conquistador. Mas para Afonso não bastava. Precisava de saciar no íntimo aquela que ultimamente se tornara uma dúvida tão frequente quanto a sua necessidade de satisfação corporal.

Os seus parcos conhecimentos em língua árabe nem por sombras lhe permitiam questionar a jovem moura — e menos ainda entender o que quer que ela lhe pudesse responder. Por gestos, tornava-se ainda mais difícil. Restava-lhe uma única possibilidade. Mandou chamar o entendido em língua árabe e transmitiu-lhe a pergunta que deveria ser feita. De imediato, o tradutor, sem grandes rodeios, inquiriu-a: كان من الجيد؟

Afonso nem precisou de esperar pela tradução da resposta. O afirmativo menear de cabeça da jovem e o generoso sorriso que lhe acompanhou o gesto foram mais do que suficientes para o seu necessário esclarecimento. Afonso sentiu-se mais confiante do que nunca!

(O resultado foi bom!)

quarta-feira, 14 de março de 2012

Pequenos gestos

Tenho um amigo (Renato, nome fictício) que visitou o Japão (nome não fictício). Durante essa visita foi ciceroneado por uma jovem japonesa (Yuki, creio que o nome é fictício) que o acompanhou para todo lado — onde a presença da jovem fosse recomendável. À entrada (ou saída, tanto faz) de um restaurante, o Renato franqueou a porta para que a Yuki passasse. Apesar da cavalheiresca insistência do Renato, a Yuki recusou-se terminantemente a passar antes do cavalheiro. O relativismo cultural é algo muito complicado na vida de um viajante.

*** 

Tenho uma amiga (Marcela, nome fictício) que visitou a França (nome não fictício). À entrada de uma loja, um cavalheiro francês (Maxime, nome provavelmente fictício) franqueou a porta para que a Marcela passasse. A Marcela já tinha avançado alguns metros dentro da loja quando sentiu a mão do Maxime tocar-lhe o ombro. Virou-se. E escutou do Maxime, num tom de simultâneo ensinamento e reprimenda, um claro «merci». Por distração (ou falta de à-vontade para raspar o r na garganta) a Marcela não tinha agradecido a gentileza com o devido «merci». E o pseudo-gentil Maxime fez questão de lembrá-la disso. Noblesse oblige.

 *** 

Eu mesmo (Josué, nome ligeiramente fictício) visitei a Bulgária (nome não fictício) num tempo em que o sistema comunista já definhava. Dada a escassez e baixo preço dos bens, pela primeira vez na vida o pobre Josué poderia ter-se sentido (mas não sentiu) exageradamente endinheirado. Excetuando as belas e elegantes garotas búlgaras, o Josué comprava tudo que lhe agradava. Numa barraca de artesanato, por gestos, tentava fazer com que um ancião entendesse o produto (exposto por detrás de si) que o Josué pretendia comprar. O diálogo gestual não estava fácil. Em dado momento, o ancião soltou uns impropérios (julga o Josué) e encerrou a barraca. Mais tarde o Josué veio a saber que, na Bulgária, em termos de cabeça meneada, «sim» e «não» são gestos opostos aos da Europa Ocidental.

quarta-feira, 7 de março de 2012

O quarto elemento

«Na política, o absurdo não é um handicap»
Napoleão Bonaparte

Pedro entra no gabinete de Gaspar e diz com ar grave:
— Estou muito preocupado.
— Preocupado com o quê?
— Com os indicadores.
Gaspar observa as mãos de Pedro e, calmamente, faz um reparo:
— Não vejo nada de anormal. Que têm os teus indicadores?
— Essas tuas piadas... Não me refiro a esses, obviamente.
— Então referes-te a quais?
— Aos indicadores financeiros.
— Preocupas-te demasiado com coisas que têm solução fácil.
— Tu e as soluções fáceis...
— Se quiseres complicadas também as arranjo.
— O problema não está em as soluções serem fáceis ou complicadas.
— Então onde está o problema?
— Está em não podermos aumentar impostos de todas as vezes que há desvios colossais.
— E quem é que falou em aumentar impostos?
— As tuas soluções têm passado muito por aí.
— Mas não menosprezes a minha capacidade de inovar!
Pedro começa a dar mostras de alguma impaciência com o enrolar da conversa:
— Diz lá rápido que solução tens desta vez.
— Calma, muita calma. Se é para falar rápido não contes comigo.
— Está bem. Eu fico calmo. Mas que solução tens tu?
— Elementar, meu caro Pedro. Conheces os quatro elementos?
— Os quatro elementos?!
— Terra, fogo, água e ar...
— Conheço, claro. Mas de que nos valem os quatro elementos? Alguma solução esotérica?
— Nada disso!
— Então?
— Ora vejamos: já temos impostos sobre a terra.
— Vários: IMI, IMT, portagens...
— Já temos impostos sobre o fogo.
— Sim, sobre os combustíveis. Dos mais altos da Europa.
— Já temos imposto sobre a água.
— E está tão cara que não é prudente aumentar o imposto.
— Falta-nos um imposto sobre o ar!
— Como assim? Queres taxar o ar?!
— Ora, toda a gente respira e ninguém paga imposto por isso.
— Mas isso é viável?
— Claro que é!
— Não estou a ver como. Que fazemos a quem não pagar? Não temos como cortar o serviço.
— Isso não. Mas podemos mandar amordaçar os inadimplentes. Com a vantagem de ficarmos com menos gente para reclamar e ainda darmos um estímulo à produção de mordaças.
— Colossal!

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Brassica napus

Há pouco mais de um ano a crise do açúcar quase comprometeu a qualidade das minhas iguarias natalinas. De tempos a tempos a crise dos cereais compromete o preço do meu pão de cada dia. E atualmente só não estou mais preocupado com a crise da chuva em Portugal porque aqueles que nas últimas décadas desgovernaram o país (alô alô senhor presidente!) resolveram acabar com boa parte da nossa dependência da agricultura nacional. Ele ainda há males que vêm por bem...

Estas vicissitudes agrícolas trazem-me por vezes ao pensamento uma conjunção interessante: uma viagem de carro pela Alemanha e uma canção do Fausto Bordalo Dias. Nessa tal viagem (primaveril) realizada há alguns anos pude constatar como era notório o contraste entre o aproveitamento dos campos alemães e dos baldios portugueses. Relegando questões de soberania, saúde democrática e brio patriótico para segundo plano, arriscaria até afirmar que se o atual tutorado germânico sobre os inimputáveis governantes lusitanos tivesse sido implementado antes mesmo do começo do desmantelamento da nossa agricultura (e pescas, por que não), talvez a pouco enobrecedora supervisão financeira de hoje em dia não impusesse um garrote tão apertado sobre estes desgovernados portugueses. Outro mal que teria vindo por bem...

No meu périplo pela Alemanha foi grande o deslumbramento com o colorido dos campos nessa época do ano, num tom de amarelo vivo, em vasta área do território por mim percorrido. Não sendo eu um grande especialista em assuntos agrícolas, também não sou propriamente aquilo a que se possa chamar de um nabo. E das culturas de grande escala por mim conhecidas, não via nenhuma com o dom de conferir tamanho colorido amarelo à paisagem. A curiosidade foi aguçando o espírito. Aguçou tanto que se tornou insustentável: tive que parar o carro e acercar-me para inspecionar de perto a planta.

Dentre o rol de plantas catalogadas na minha (nem tão reduzida) memória agrícola, a que mais se assemelhava ao que eu acabava de observar era a couve-nabiça. Não pude conter uma interjeição de espanto, pois dos meus (também nem tão reduzidos) conhecimentos em culinária germânica não constava uma especial predileção dos alemães por uma das preciosidades da cozinha portuguesa: os grelos. Se curioso parei o carro, mais curioso arranquei.

Só uns dias mais tarde, já com a ajuda de amigos mais cultos do que eu em agricultura, vim a saber que o que conferia aquele tom de amarelo vivo aos campos alemães era efetivamente uma planta chamada brassica napus, também designada por colza ou couve-nabiça! De acordo com fonte de conhecimento wikipédico, trata-se de «uma planta de cujas sementes se extrai o azeite de colza, utilizado também na produção de biodiesel. As folhas da planta servem também de forragem para o gado (pelo que é cultivada em muitos países) por seu alto conteúdo em lípidos e conteúdo médio em proteínas».

Ah, já me esquecia: a canção do Fausto é aquela onde a dado trecho ele canta «se não há grelos no mercado, há bons nabos no hemiciclo».

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Light my fire

Miro Costa era o nome de um grande artista. Faltava-lhe o CD para a merecida consagração a nível nacional, é certo, mas, como é sabido, nessas coisas os apadrinhamentos nem sempre brindam os mais talentosos. Festas de santos populares, romarias e, principalmente, festas de casamento na região eram os locais onde o Miro Costa, acompanhado dos seus sintetizadores, exibia os dotes vocais e o talento de um músico de eleição. Ao bom estilo do one man show.

O Miro Costa tinha gosto e clarividência suficientes para tocar conforme o baile. E sabia escolher os hits certos para cada ambiente. Chegava a arriscar uma ou outra composição própria, mas era com hits consagrados pelos seus pares internacionais que levava o seu público à loucura. Em casamentos da alta sociedade, quando o álcool já produzia os devidos efeitos, Light my fire, dos Doors, era tiro certo. A apoteose acontecia depois do solo em acordes menores, quando o Miro Costa voltava à carga com a sua potente voz no refrão em tom maior. Era a loucura total.

O Miro Costa nunca soube a mão que efetuara o lançamento, mas num desses momentos chegou a cair-lhe no teclado um sutiã. Talvez tenha sido mesmo esse o momento de sucesso mais explícito para um observador externo, mas vezes sem conta sentia o calor de um público que, além de o apreciar como artista, o desejava pelo seu sex appeal. Os assédios eram frequentes   mais da parte do público feminino  , sendo muito o proveito que daí retirava, por vezes com a terrível missão da escolha   e nem sempre o género era fator decisivo. Em suma: um verdadeiro artista!

Episódio digno de registo aconteceu-lhe num casamento da alta sociedade. Começou precisamente no momento do tal crescendo de menor para maior do Light my Fire. O êxtase dos dançantes na sua frente foi de tal forma generalizado que até a noiva lhe fez um gesto depravado. Com a língua.

No dia seguinte o Miro Costa recebeu um telefonema:
— Miro?
— Sim... eu mesmo.
— Come on baby, light my fire...
 Quem é?
 A Paula.
 Paula?
 A noiva de ontem...
 Ah, sim... então onde está?
— Em casa...
Em casa?! Não viajou em lua-de-mel?
 Não, Miro, já morávamos juntos há anos. O casamento foi só para agradar à família.
 Ah...
 Come on baby, light my fire...
 Vejo que gostou...
 Não, Miro... quer dizer... sim... mas come on baby, light my fire...
 Como?!
 O Roberto saiu e só volta à noite... come on baby, light my fire...
 Não estou a entender!
 Não está mesmo?!
 Quer dizer, estou, mas...
 Ai Miro, Miro, não se deixe inibir pelas convenções da classe média! Alta sociedade é diferente, funciona noutros moldes!

O Miro Costa  ficou calado por uns instantes. Refletiu  a referência a uma particularidade da alta sociedade fez o seu lado de artista entrar em reflexão. Sabendo que o marido estaria ausente até ao final do dia, decidiu comparecer para acender  e apagar, obviamente — o fogo à carente recém casada.

Pouco tempo mediou até ao comparecimento. Já se encontrava de joelhos em frente a ela quando inesperadamente — para o Miro, apenas — irrompeu no quarto o recém casado, com o seu enorme corpo másculo — mas andar e trejeitos de nem tanto — cantando come on baby light my fire. E, num tom de voz ao mesmo tempo seguro e insinuante, afirmou:
— Meu caro, parece-me que só tem uma saída...
E não se referia à porta. Nem à janela.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Um novo santo

O senhor Armindo esperava o padre à saída da sacristia após a missa matinal.
— Senhor Padre, posso dar-lhe uma palavrinha?
— Pode sim, senhor Armindo. Diga lá.
— Hoje Deus falou comigo.
— Muito bem, senhor Armindo. Prestemos sempre atenção à voz de Deus.
— Não, senhor Padre, hoje foi diferente. 
— Como assim, senhor Armindo?
— Deus apareceu-me num sonho.
— Ai sim? E que lhe disse Deus, senhor Armindo?
— Disse-me que eu sou santo.
O padre esboçou um ligeiro sorriso.
— Foi só um sonho, senhor Armindo, não dê muita importância a isso.
— Diga-me uma coisa, senhor Padre: há algum Santo Armindo?
— Assim, de repente, não estou a ver.
— Pois!
— Pois o quê, senhor Armindo?
— Deus já arranjou santos para quase todos os nomes, mas ainda falta o meu.
— Senhor Armindo, a santidade não vem por aí. Vá à sua vida, vá.
Contrafeito, o senhor Armindo lá foi.

No dia seguinte, o senhor Armindo voltou a esperar o padre à saída da sacristia após a missa matinal. Agora acompanhado da mulher.
— Por aqui de novo, senhor Armindo?
— Deus voltou a falar comigo, senhor Padre.
— De novo em sonho?
— Sim, senhor Padre.
— E que lhe disse desta vez?
— O mesmo de ontem: que eu sou santo.
Neste momento, a mulher do senhor Armindo resolve dar o seu testemunho:
— É, senhor Padre, eu acordei com o meu Armindo a falar com Deus.
— E como sabe a senhora que ele estava a falar com Deus? — pergunta o padre.
— O meu Armindo disse-me, senhor Padre. E ele nunca mente.
— Meus caros, não é assim. Para a santidade a Igreja exige um milagre! Vão à vossa vida, vão.
Contrafeitos, o senhor Armindo e a mulher lá foram.

Ao terceiro dia, esperavam o padre o senhor Armindo, a mulher e um grupo de vizinhos da aldeia. O padre entendeu que a coisa estava a ficar séria.
— O senhor Armindo vai-me dizer que Deus voltou a aparecer-lhe num sonho?
— Adivinhou, senhor Padre!
— E voltou a dizer-lhe que o senhor é santo?
— Ora, nem mais!
— Diga-me lá de uma vez por todas: o que pretende com isto, senhor Armindo?
— Pouca coisa, senhor Padre: apenas uma estatuazinha em algum canto da igreja e que passe a dizer o meu nome na ladainha dos santos.
— E uma romaria em honra de Santo Armindo — diz uma voz lá de trás.
— Apoiado! — acrescenta outra voz.
— Valorizemos o santo da terra! — reclama uma terceira voz.
— Amém — dizem todos em coro.
— Caríssimos, vou ter que falar com o bispo — acrescenta o Padre. E prossegue: — Mas fiquem sabendo que não há canonização sem evidência de um milagre.
— É bom que mudem isso, porque o Armindo enjoa — replica uma voz lá de trás.
— Enjoa? — pergunta o padre.
— Sim. E por isso nunca viaja — responde a mesma voz.
— E que tem isso a ver com o caso? — pergunta o padre admirado.
— Santos da casa não fazem milagres...

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Alguma coisa acontece no meu coração

Uma das mais emblemáticas canções dedicadas à cidade de São Paulo foi escrita e composta pelo baiano Caetano Veloso, em finais da década de 70. Intitulada pela forma como carinhosa e abreviadamente é denominada a cidade, Sampa, começa com as palavras «alguma coisa acontece no meu coração, que só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João. É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi, da dura poesia concreta de tuas esquinas, da deselegância discreta de tuas meninas». Pese embora um certo exagero poético — simultaneamente pouco generoso para com muitas paulistanas de elegância indiscreta e lisonjeiro para com muitas outras de deselegância também indiscreta —, Caetano, com estas palavras, descreve aquelas que serão certamente as primeiras impressões de muitos forasteiros que começam a aventurar-se nesta enorme selva de pedra.

Eu já tinha passado duas vezes por São Paulo, ambas de forma muito fugaz. Em nenhuma delas com tempo suficiente para cruzar a tal Ipiranga com a Avenida São João. Agora, com uma estadia de duas semanas, tive finalmente tempo suficiente para calcorrear algumas das avenidas do centro da cidade e avaliar o que acontece no meu coração. Talvez eu também nada tenha entendido sobre este novo Brasil, mas de um país que é apontado como um dos exemplos de sucesso do nosso descompensado mundo, esperava ver no coração da sua maior cidade menos gente a dormir pela manhã num coreto da Praça da República — também cruzada pela tal Ipiranga —, menos gente a viver debaixo de viadutos em pleno centro, menos gente a viver das sobras mendigadas de quem passa.

Sou suficientemente bom conhecedor da realidade brasileira — desde os primeiros anos da década de 90 — e sei que mudar a fisionomia das suas principais cidades leva o seu tempo. Mas também sou suficientemente bom conhecedor de cidades americanas como Chicago, Nova Iorque, São Francisco ou Washington DC para saber que nesse sistema que orienta os passos do Brasil o comboio do desenvolvimento também deixa para trás um enorme contingente de excluídos. Um sistema com excelentes sistemas de saúde e de educação para quem tem dinheiro, mas que deixa muito a desejar ao nível do investimento público nessas áreas. Diria mesmo que é um sistema demasiado darwiniano: muito pouco complacente para com os mais fracos.

Não pude deixar de refletir sobre a realidade portuguesa. Em particular, sobre as recomendações de alguns desgovernados governantes que exortam os portugueses a buscarem este novo eldorado. Não se ignore que a realidade brasileira ainda comporta várias realidades. Trata-se de um país que cresce a nível macroeconómico, onde a classe alta colhe os seus dividendos, mas a classe média continua a ter que fazer muitas contas à vida para conseguir ter um padrão de vida minimamente decente com planos de saúde, escola privada para os filhos, transportes privados para o trabalho e créditos a juros altos para a casa, o carro e o LCD na sala de estar.

No momento que em Portugal tentam impingir-nos como inevitável o desmantelamento do sistema público de saúde, tal como o temos, antes de aceitar essa suposta inevitabilidade, gostaria de ver este autoproclamado governo de corajosos com coragem suficiente para estancar certas parcerias com privados, que à sombra de contratos ruinosos para o estado cavam a sepultura da saúde pública e abrem alas para futuros negócios ainda mais rentáveis. Este primeiro-ministro, que faz alarde de ter ido muito além da troika no que concerne aos cortes salariais da função pública e ajuste das leis laborais, neste particular perde a coragem e deixa-se ficar aquém das recomendações troikianas. E aquém de algumas das suas próprias promessas. Que Caetano me perdoe a deturpada usurpação, mas alguma coisa acontece no meu coração, que só quando cruza as promessas com os atos de algum aldrabão.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O pastel de Belém e a cavaca

Há dias, revia algumas fotos de uma das minhas três visitas de quinze dias à China. Detive-me a olhar uma que tirei a um painel publicitário da KFC, multinacional norte-americana especialista em sobreasas de frango fritas. Curiosamente, no painel publicitário não era apresentada nenhuma imagem desse produto que notabiliza a KFC — a sobreasa de frango frita —, mas, pasme-se!, o pastel de nata — ou de Belém, como preferir.

Inevitavelmente, o meu pensamento foi, de imediato, conduzido até ao Álvaro. Esse que carrega, que nem cruz, uma das pastas ministeriais mais pesadas em tempos de crise: a de Ministro da Economia. Quando Portugal era um país aproximadamente rico, bastava estimular — financeiramente, claro — a produção em série de uns Magalhães ou umas atividades culturais no Allgarve e a coisa fluía. Agora que não temos dinheiro para mandar cantar um cego, exige-se de um Ministro da Economia maior visão, mais rasgo, enfim, melhores ideias. Em particular, ideias que não exijam ao Estado grandes investimentos financeiros.

Na minha atividade profissional como matemático puro — a pureza refere-se à especificidade da Matemática que produzo, não a mim. Longe disso! — conheço muito bem a dificuldade de comunicar uma grande ideia em abstrato. Por isso, ao contrário dos maledicentes que não conseguiram enxergar a grandiosidade da ideia do Álvaro e se quedaram pela malsucedida concretização no pastel de nata, eu tive a generosidade de ir mais longe. O ponto importante não é o exemplo específico com o qual ilustrou a sua brilhante ideia, mas a generalidade: a doçaria portuguesa. Alguém irá negar que temos uma doçaria de fazer água na boca a muito boa gente por esse mundo fora? E se queremos realmente muita gente, não podemos deixar de fora o mercado chinês. E se queremos conquistar o mercado chinês, não podemos querer conquistá-lo com o pastel de Belém, pois a KFC chegou lá antes.

Foi neste ponto que dei por mim a tentar descobrir, dentre os nossos doces, aquele que melhor combinará com essa enorme legião de potenciais consumidores asiáticos. Nas minhas estadias de três quinze dias em território chinês apercebi-me de que eles não são muito chegados a produtos lácteos — estará a KFC a ter sucesso com o pastel de nata? — nem a ovos frescos — os melhores ovos que por lá comi tinham sido deixados a apodrecer durante dois ou três meses. Dessa forma, iguarias como baba de camelo, barrigas de freira, ovos-moles, papos de anjo ou pudim abade de Priscos não são boas apostas. 

Doces nacionais parcos em ovos ou produtos lácteos são muito raros. Mas alguns existem. Um dos primeiros que me veio à ideia foi a cavaca. Já que a KFC nos retirou margem de manobra para o sucesso com a exportação do pastel de Belém para o mercado chinês, que tal apostarmos na exportação da cavaca?