É certo, sabido e quase universalmente aceite que o sofisticado sistema de desconfiança feminino não necessita de muitos indícios — por vezes nem de indícios necessita — para lançar os seus primeiros sinais de alerta. No caso da Laurinda, bastaram duas perdizes depenadas. Viu-as nas mãos do Rolando, chegando de mais um fim de semana de caça no Alentejo, que lhe disse enquanto as exibia:
— Não é nada do que você está a pensar!
(Convém aqui assinalar que o Rolando e a Laurinda formavam um desses casais requintados da capital que se tratam por você). Nem a Laurinda sabia ainda ao certo o que estava a pensar e já o seu sistema de desconfiança dava um primeiro sinal de alerta.
Todavia, o Rolando tinha uma explicação para as perdizes que daquela vez apareciam já depenadas: a dona Ilda, proprietária da casa onde costumavam pernoitar ele e o Pina — eterno companheiro dos fins de semana de caça —, prontificara-se para depenar as perdizes que ambos tinham caçado, e eles, por cortesia, aceitaram. Com esta explicação o índice de desconfiança da Laurinda baixou um pouco, mas nem por isso voltou ao desejável nível zero. Obviamente.
Tempos depois sugiram novos indícios: espetadas nas perdizes — que nunca mais voltaram a chegar com penas em casa — a Laurinda detetou as chapinhas metálicas de algum controlo de qualidade. Sem ter reparado nesse detalhe — e, por conseguinte, sem ter pensado numa explicação —, e antes que a Laurinda pensasse coisas, o Rolando mais uma vez se adiantou:
— Não é nada do que você está a pensar!
— Que explicação tem para isto? — questionou a Laurinda em evidente tom de desagrado.
O Rolando hesitou por breves instantes e, ainda que de forma insegura, avançou com uma possível explicação:
— Isso deve ser coisa dos ecologistas!
— Dos ecologistas?!
— Sim! Não andam por aí a catalogar tudo que é animal selvagem?
— E a dona Ilda?
— A dona Ilda o quê?
— Não tirou as chapinhas?
— Se calhar teve receio de desrespeitar a catalogação ecológica.
— Rolando, Rolando, não tente enganar-me!
— Não tento enganar nada, estou apenas a tentar encontrar uma explicação.
No fim-de-semana seguinte a Laurinda agiu. Quando na sexta-feira, ao fim do dia, o Rolando saía da garagem do prédio onde moravam, ausentado-se para mais um fim de semana de caça, a Laurinda entrava num táxi que já a esperava em frente à porta principal do prédio, e pedia ao taxista para seguir o carro do seu marido. O sentido de orientação nunca foi um ponto forte da Laurinda, mas ela jurava que se o destino era o Alentejo, no nó de Sacavém deviam tomar a direção da ponte Vasco da Gama, nunca a direção oposta!
Cerca de meia hora depois o Rolando parava o seu carro em frente à casa de praia do Pina, na Ericeira. E o táxi que transportara a Laurinda parava umas dezenas de metros atrás. Depois que o Rolando entrou na casa, a Laurinda saiu do táxi.
Finalmente tudo ficara claro para a Laurinda: era aqui, na casa de praia do Pina, que o Rolando passava os fins-de-semana; era aqui, na casa de praia do Pina, que certamente se davam encontros íntimos de elevado grau, sabe deus com que espécie de mulheres! A Laurinda devia ter desconfiado — o sistema de desconfiança feminino é sofisticado, mas não é infalível — que, depois de divorciado, o Pina podia tornar-se uma má influência para o Rolando.
A Laurinda conhecia bem aquela casa dos tempos em que ela e o Rolando passavam fins de semana com o Pina e a sua ex-mulher. Entrou no jardim e foi, pelas traseiras, espreitar à janela da cozinha. Lá viu, de costas, uma mulher com longos cabelos loiros e sapatos de tacão alto. E junto a essa mulher, em clara situação de comprometedora proximidade íntima, o Rolando. A Laurinda respirou fundo e entrou na cozinha. Ao aperceber-se da inesperada aparição da mulher, o Rolando imediatamente disse:
— Não é nada do que você está a pensar!
E não era, de facto. Só uns segundos depois a Laurinda se apercebeu que debaixo dos longos cabelos loiros e em cima dos sapatos de tacão alto se encontrava o Pina.
Um olhar crítico sobre a realidade, assente numa visão relativamente tendenciosa e numa mente algo imaginativa
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
Português de férias
As férias foram ótimas. Tivemos um ligeiro atraso no voo da ida, mas o lounge da companhia aérea era muito bom — é por essas e por outras que evito viajar em charter ou low cost. Isto de ter o frequent flyer na categoria silver — quem sabe um dia chego a gold! — também tem as suas vantagens. Além do acesso ao lounge, o check-in é muito mais rápido e nunca se tem problemas com overbooking.
Compramos viagens, hotel e carro tudo num pack. Agora há sites com links para todas essas coisas. Quando chegamos lá foi só apresentar na rent-a-car o voucher que me foi enviado por email, pegar o carro no parking e sair. Nem precisámos de utilizar o serviço de transfer do shuttle para o hotel. Por sorte, fizeram-nos upgrade para um carro com GPS, bluetooth, cruise control e entrada USB para o iPod! Carro diesel.
Compramos viagens, hotel e carro tudo num pack. Agora há sites com links para todas essas coisas. Quando chegamos lá foi só apresentar na rent-a-car o voucher que me foi enviado por email, pegar o carro no parking e sair. Nem precisámos de utilizar o serviço de transfer do shuttle para o hotel. Por sorte, fizeram-nos upgrade para um carro com GPS, bluetooth, cruise control e entrada USB para o iPod! Carro diesel.
Tivemos um pequeno contratempo no primeiro hotel. A culpa foi minha, pois por engano reservei quarto single em vez de double. Mas logo me deram a escolher entre uma suite ou um quarto com camas twin e o problema ficou resolvido. Procedimento standard.
Por lá vimos vários shows, alguns em festivais alive. Quando não eram free íamos à net e comprávamos tickets online com o cartão de crédito. Numa das vezes tive problemas no checkout para o pagamento e liguei para o call center. Disseram-me que provavelmente era falta de crédito no cartão. Entrei no moblie banking e constatei que era mesmo. Resolvi facilmente o problema aumentando o plafond do cartão.
Conhecemos restaurantes fantásticos. Alguns gourmet, outros muito in com bastante glamour, mas por vezes até apetecia coisa mais light. Uns snacks e pronto. Não somos preconceituosos com a fast food. Quando andávamos mais de carro, passávamos nalgum drive-in e levávamos comida para o hostel. Nesses dias não exigimos nada de muito chique, um bed & breakfast está OK. Claro que em dias de descanso não dispensamos um bom resort. De preferência com bungalows.
Por lá vimos vários shows, alguns em festivais alive. Quando não eram free íamos à net e comprávamos tickets online com o cartão de crédito. Numa das vezes tive problemas no checkout para o pagamento e liguei para o call center. Disseram-me que provavelmente era falta de crédito no cartão. Entrei no moblie banking e constatei que era mesmo. Resolvi facilmente o problema aumentando o plafond do cartão.
Só ficámos em hotéis com wifi, é claro. Fomos fazendo upload de fotos e vídeos para o Facebook e o Google+ através do smartphone ou do tablet — muito mais práticos do que laptops ou notebooks. Fiz download da app de um VOIP que permitia fazer voice calls para a família praticamente free, mas muitas vezes ficávamos só no chat do messenger. Nada de roaming.
Conhecemos restaurantes fantásticos. Alguns gourmet, outros muito in com bastante glamour, mas por vezes até apetecia coisa mais light. Uns snacks e pronto. Não somos preconceituosos com a fast food. Quando andávamos mais de carro, passávamos nalgum drive-in e levávamos comida para o hostel. Nesses dias não exigimos nada de muito chique, um bed & breakfast está OK. Claro que em dias de descanso não dispensamos um bom resort. De preferência com bungalows.
Quanto a roupas, praticamente só bermudas, shorts, T-shirts e polos. Blazers ou pullovers não combinavam com o clima informal e quente. Antes de viajar comprámos peças a ótimos preços no stock-off de um outlet numa megastore do shopping center perto de casa.
Desligamos de tudo isto por cá. Nada de jornais online nem TV — a dependência do router e da box é uma coisa terrível. Não quisemos saber de troikas, rentreés políticas nem jobs for the boys. Ou girls. Em suma, esquecemos o rating da nação e aproveitámos a vida!
Aqui em off: estamos a pensar vender o nosso velho jeep e comprar um carro igual ao da rent-a-car. Em leasing. Tem um design fantástico. Especialmente o tabelier e o capot. Já passamos no stand da marca e vimos um bordeaux no showroom lindo. Nem precisamos do test drive. Claro que queremos o kit com todos os extras!
Desligamos de tudo isto por cá. Nada de jornais online nem TV — a dependência do router e da box é uma coisa terrível. Não quisemos saber de troikas, rentreés políticas nem jobs for the boys. Ou girls. Em suma, esquecemos o rating da nação e aproveitámos a vida!
Aqui em off: estamos a pensar vender o nosso velho jeep e comprar um carro igual ao da rent-a-car. Em leasing. Tem um design fantástico. Especialmente o tabelier e o capot. Já passamos no stand da marca e vimos um bordeaux no showroom lindo. Nem precisamos do test drive. Claro que queremos o kit com todos os extras!
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
Velocidade relativa
Há dias fiz uma viagem de carro do Porto a Lisboa e vice-versa. Durante o percurso lembrei-me de uma pergunta — em jeito de anedota — que ouvi há uns anos: quais os dois países da Europa cujas autoestradas não têm limite de velocidade? Sendo a resposta — também em jeito de anedota — a Alemanha e Portugal. A Alemanha, porque efetivamente em grande parte das suas autoestradas não há lei que estabeleça limites para a velocidade; Portugal, porque praticamente ninguém cumpre os limites estabelecidos por lei.
Sobre o que a anedota contém de verdade em relação aos restantes países da Europa nada posso atestar, pois não conheço os hábitos de cada povo nas autoestradas de todos os países europeus. No que toca aos portugueses, ninguém duvide que a anedota é puro reflexo da nossa realidade: na tal viagem do Porto a Lisboa e vice-versa coloquei o cruise control do meu carro no limite de 120km/h e não exagero muito se disser que, nos cerca de 600km percorridos, ultrapassei uma meia dúzia de veículos pesados — não eram muitos, pois tratava-se de um fim de semana — e fui ultrapassado por um sem número de veículos ligeiros. Muito ligeiros. Poderia até jurar que alguns deles passaram por mim a uma velocidade — relativa à minha, obviamente — muito próxima dos 120km/h!
Numa primeira tentativa de explicar o fenómeno, poderia avançar com a teoria de que os portugueses correm apressados para tirar o país da crise. Infelizmente, tal não me parece verdade, pois os automobilistas portugueses já conduziam assim quando Portugal era um país próspero. Ou então, que os portugueses, quais parisienses ou novaiorquinos, vivem num frenesim constante. Teoria respeitável, mas, feliz ou infelizmente — ainda não me decidi —, facilmente refutável. Para tal, basta colocar os pés numa escada ou tapete rolante de um qualquer aeroporto ou shopping center. Esse mesmo povo que circula a altíssima velocidade nas autoestradas, chega a uma escada ou tapete rolante e estaca. Mais do que isso, bloqueia a passagem de quem necessita de caminhar mais apressado ou quer aproveitar para se deleitar por breves instantes com passadas de gigante. O que deveria servir para aumentar a velocidade, transforma-se assim num veículo de culto à pasmaceira.
Acima de tudo, fica evidente que o gosto dos portugueses pela velocidade é muito relativo. Bipolar. Oscila entre o ronceiro que se deixa levar à velocidade natural das escadas e tapetes rolantes e o apressado que circula nas autoestradas no limite de velocidade do seu próprio carro. Quiçá o problema do excesso de velocidade nas autoestradas nem seja culpa dos condutores, mas sim um capricho congénito dos veículos. É que, apesar de agora estarmos na pindaíba, grande parte dos carros que circulam nas estradas portuguesas ainda é de alta cilindrada e de origem alemã. Esperemos pelo previsível ajuste no parque automóvel para ver no que isto dá.
Sobre o que a anedota contém de verdade em relação aos restantes países da Europa nada posso atestar, pois não conheço os hábitos de cada povo nas autoestradas de todos os países europeus. No que toca aos portugueses, ninguém duvide que a anedota é puro reflexo da nossa realidade: na tal viagem do Porto a Lisboa e vice-versa coloquei o cruise control do meu carro no limite de 120km/h e não exagero muito se disser que, nos cerca de 600km percorridos, ultrapassei uma meia dúzia de veículos pesados — não eram muitos, pois tratava-se de um fim de semana — e fui ultrapassado por um sem número de veículos ligeiros. Muito ligeiros. Poderia até jurar que alguns deles passaram por mim a uma velocidade — relativa à minha, obviamente — muito próxima dos 120km/h!
Numa primeira tentativa de explicar o fenómeno, poderia avançar com a teoria de que os portugueses correm apressados para tirar o país da crise. Infelizmente, tal não me parece verdade, pois os automobilistas portugueses já conduziam assim quando Portugal era um país próspero. Ou então, que os portugueses, quais parisienses ou novaiorquinos, vivem num frenesim constante. Teoria respeitável, mas, feliz ou infelizmente — ainda não me decidi —, facilmente refutável. Para tal, basta colocar os pés numa escada ou tapete rolante de um qualquer aeroporto ou shopping center. Esse mesmo povo que circula a altíssima velocidade nas autoestradas, chega a uma escada ou tapete rolante e estaca. Mais do que isso, bloqueia a passagem de quem necessita de caminhar mais apressado ou quer aproveitar para se deleitar por breves instantes com passadas de gigante. O que deveria servir para aumentar a velocidade, transforma-se assim num veículo de culto à pasmaceira.
Acima de tudo, fica evidente que o gosto dos portugueses pela velocidade é muito relativo. Bipolar. Oscila entre o ronceiro que se deixa levar à velocidade natural das escadas e tapetes rolantes e o apressado que circula nas autoestradas no limite de velocidade do seu próprio carro. Quiçá o problema do excesso de velocidade nas autoestradas nem seja culpa dos condutores, mas sim um capricho congénito dos veículos. É que, apesar de agora estarmos na pindaíba, grande parte dos carros que circulam nas estradas portuguesas ainda é de alta cilindrada e de origem alemã. Esperemos pelo previsível ajuste no parque automóvel para ver no que isto dá.
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
O Juvenal está mal
O Juvenal é um típico português de classe média. Típico de um certo tipo de típica classe média, numa idade já algo acima da média.
Casou-se cedo, para ajudar a Adelina a libertar-se das amarras de um pai tirano. É certo que o salário da Adelina como professora primária também ajudou o Juvenal a libertar-se de alguns apertos financeiros, mas não mais do que as vezes em que o azar ao jogo ou algum mau investimento o deixaram de mãos a abanar. Em geral, o Juvenal ganhava o suficiente para as suas despesas. Mas tinha uma atividade de alto risco: era negociante.
Tratou sempre bem a Adelina. Em mais de trinta anos de casados nunca lhe levantou a mão. Nem o pé. Mesmo a voz, não a levantava mais do que uma ou duas vezes por semana. E quanto à falta de levantamentos ficamos aqui, pois nunca a Adelina se queixou da falta de quaisquer levantamentos, apesar de uma certa escassez de tempo, decorrente da atividade profissional do Juvenal: era negociante.
Colaborava nas tarefas domésticas. Descia com certa frequência mensal para despejar o lixo e, enquanto a Adelina não tirou a carta de condução, apanhava-a com as compras na porta do supermercado. Não tinha tempo para outras tarefas: era negociante.
Preocupava-se com a saúde da família. Apesar de nunca ter tido tempo para acompanhar ninguém a consultas médicas. O tempo que se perdia em consultórios não era compatível com a sua atividade profissional: era negociante.
Participou ativamente na criação dos três filhos. Chegou ao ponto de ir a uma reunião de encarregados de educação por causa de um deles. Para ajudá-los nos trabalhos de casa recomendava a Adelina: era professora.
O Juvenal afundava no velho sofá em frente à televisão, onde passara parte significativa do seu tempo em casa — que obviamente nunca fora muito: era negociante —, enquanto afogava as mágoas num copo de verde branco e revia em pensamento estes e outros aspetos da sua vida conjugal. Não conseguia entender. Como podia a Adelina querer a separação após trinta anos de um casamento onde lhe parecia que tinham sido tão felizes? O Juvenal está mal. E invade-o um dúvida cruel: terá ele direito a pensão de alimentos?
Casou-se cedo, para ajudar a Adelina a libertar-se das amarras de um pai tirano. É certo que o salário da Adelina como professora primária também ajudou o Juvenal a libertar-se de alguns apertos financeiros, mas não mais do que as vezes em que o azar ao jogo ou algum mau investimento o deixaram de mãos a abanar. Em geral, o Juvenal ganhava o suficiente para as suas despesas. Mas tinha uma atividade de alto risco: era negociante.
Tratou sempre bem a Adelina. Em mais de trinta anos de casados nunca lhe levantou a mão. Nem o pé. Mesmo a voz, não a levantava mais do que uma ou duas vezes por semana. E quanto à falta de levantamentos ficamos aqui, pois nunca a Adelina se queixou da falta de quaisquer levantamentos, apesar de uma certa escassez de tempo, decorrente da atividade profissional do Juvenal: era negociante.
Colaborava nas tarefas domésticas. Descia com certa frequência mensal para despejar o lixo e, enquanto a Adelina não tirou a carta de condução, apanhava-a com as compras na porta do supermercado. Não tinha tempo para outras tarefas: era negociante.
Preocupava-se com a saúde da família. Apesar de nunca ter tido tempo para acompanhar ninguém a consultas médicas. O tempo que se perdia em consultórios não era compatível com a sua atividade profissional: era negociante.
Participou ativamente na criação dos três filhos. Chegou ao ponto de ir a uma reunião de encarregados de educação por causa de um deles. Para ajudá-los nos trabalhos de casa recomendava a Adelina: era professora.
O Juvenal afundava no velho sofá em frente à televisão, onde passara parte significativa do seu tempo em casa — que obviamente nunca fora muito: era negociante —, enquanto afogava as mágoas num copo de verde branco e revia em pensamento estes e outros aspetos da sua vida conjugal. Não conseguia entender. Como podia a Adelina querer a separação após trinta anos de um casamento onde lhe parecia que tinham sido tão felizes? O Juvenal está mal. E invade-o um dúvida cruel: terá ele direito a pensão de alimentos?
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
O último trago
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| Chavela Vargas |
Posteriormente, tive a oportunidade de vê-la participar no filme Frida, onde, numa aparição fugaz, interpreta de forma magistral La Llorona. Deixou assim a sua marca num filme arrebatador, onde convergem de forma deliciosa diversas formas de expressão artística, a uni-las a vida e a arte da intensa Frida Kahlo.
À medida que fui explorando o seu enorme talento como intérprete musical, fui também ficando apaixonado pela sua forma de cantar dramática e visceral. Quanta alma! Eu, que até cresci musicalmente acostumado à intensidade e ao dramatismo do fado, não exagero se disser que por diversas vezes me deixei arrebatar pela sua forma de cantar.
As suas canções passaram a fazer parte da trilha sonora de vários momentos da minha vida. Dentro do iPod que nos últimos anos transporto quase religiosamente nas minhas viagens, sejam elas a pé de casa até ao trabalho, de carro pela Europa ou de avião até ao Brasil ou China, muitas das suas músicas tornaram-se presença indispensável.
Morre agora o meu sonho de poder vê-la espalhar ao vivo o seu talento e arte sobre algum palco deste mundo. Tomou o último trago de uma vida longa e palpitante, mas deixou a uma enorme legião de fãs inúmeros tragos daquela que foi um dia chamada a voz áspera da ternura.
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Aquilo
Em 1977, a vida quotidiana dos portugueses era muito distinta da que temos hoje em dia. Por vezes é difícil acreditar que determinadas coisas que agora acontecem naturalmente, há 35 anos aconteciam ainda de forma bastante condicionada. É certo que Portugal já emergia do longo período de trevas, mas as restrições eram ainda de tal ordem que só no dia do casamento — no final de Julho do referido ano — tanto ele como ela puderam pela primeira vez experimentar aquilo. Estranharam um pouco no começo — ela mais do que ele —, mas rapidamente entranharam. Depois não queriam outra coisa. O calor do verão deixava-os bastante predispostos para aquilo. De manhã, de tarde, de noite, queriam tanto aquilo que já nem conseguiam dormir direito. Chegaram a um estado tal, que só com intervenção médica conseguiram libertar-se da dependência.
Assim como este casal, muitas pessoas em todo o mundo desenvolveram verdadeira dependência por aquilo, apesar de nem sempre terem uma boa experiência inicial. Eu, por exemplo, tive a minha primeira experiência por volta dos 10 anos de idade e devo confessar que na primeira vez não achei aquilo lá grande coisa. Depois, aos poucos, fui-me acostumando e hoje em dia até aprecio bastante. Mas sem exageros. Nunca com dependência.
O que provavelmente os mais jovens não sabem é que aquilo começou a ser desfrutado em Portugal com várias décadas de atraso em relação a muitos outros países. Após uma tentativa frustrada de trazer aquilo para Portugal no final dos anos 20, só em Julho de 1977 começou a entrar no hábito regular dos portugueses. Na tal tentativa frustrada chegou a haver uma campanha publicitária com o slogan concebido por Fernando Pessoa «primeiro estranha-se, depois entranha-se». A proibição surgiu na sequência dessa campanha com base no seguinte raciocínio: se se entranha, tem características de estupefaciente, e portanto aquilo não pode ser permitido em Portugal; se não se entranha, a campanha é enganosa, e portanto aquilo não pode ser permitido em Portugal. Raciocínio do ponto de vista lógico — não mais do que esse, parece-me — perfeitamente inatacável!
Adenda: por manifesta falta de tempo para negociar um contrato publicitário — férias são férias! —, deixei todas as referências àquilo como «aquilo». Se ainda não descobriu do que se trata, pergunte-me em privado (exiladonomundo@gmail.com) que eu terei muito gosto em esclarecer. Apesar da tal falta de tempo, não deixarei nenhuma mensagem sem resposta. Em princípio.
Assim como este casal, muitas pessoas em todo o mundo desenvolveram verdadeira dependência por aquilo, apesar de nem sempre terem uma boa experiência inicial. Eu, por exemplo, tive a minha primeira experiência por volta dos 10 anos de idade e devo confessar que na primeira vez não achei aquilo lá grande coisa. Depois, aos poucos, fui-me acostumando e hoje em dia até aprecio bastante. Mas sem exageros. Nunca com dependência.
O que provavelmente os mais jovens não sabem é que aquilo começou a ser desfrutado em Portugal com várias décadas de atraso em relação a muitos outros países. Após uma tentativa frustrada de trazer aquilo para Portugal no final dos anos 20, só em Julho de 1977 começou a entrar no hábito regular dos portugueses. Na tal tentativa frustrada chegou a haver uma campanha publicitária com o slogan concebido por Fernando Pessoa «primeiro estranha-se, depois entranha-se». A proibição surgiu na sequência dessa campanha com base no seguinte raciocínio: se se entranha, tem características de estupefaciente, e portanto aquilo não pode ser permitido em Portugal; se não se entranha, a campanha é enganosa, e portanto aquilo não pode ser permitido em Portugal. Raciocínio do ponto de vista lógico — não mais do que esse, parece-me — perfeitamente inatacável!
Adenda: por manifesta falta de tempo para negociar um contrato publicitário — férias são férias! —, deixei todas as referências àquilo como «aquilo». Se ainda não descobriu do que se trata, pergunte-me em privado (exiladonomundo@gmail.com) que eu terei muito gosto em esclarecer. Apesar da tal falta de tempo, não deixarei nenhuma mensagem sem resposta. Em princípio.
quarta-feira, 25 de julho de 2012
Doutor sem U
Há quase duas décadas, no meu primeiro exílio brasileiro, tive um dos grandes choques culturais precisamente quando observava o descaramento de muitos atores políticos nas mais altas instâncias do Brasil. Chegava eu de um país onde era primeiro-ministro um homem que cultuava a imagem de sério, bem preparado e íntegro e que, imaginava eu, se fazia rodear por gente do mais elevado quilate moral e intelectual. A imagem que me passava(m) era de tal forma extraordinária a esses níveis que, ao deparar-me com a degradada realidade política brasileira, não conseguia entender como era possível aqueles sujeitos exercerem essa atividade regularmente supervisionada pelo povo sem que se regessem por padrões morais no mínimo semelhantes aos da realidade portuguesa. Realidade essa que era até ao momento essencialmente a única que eu conhecia bem. Bem mal, para ser mais exato.
No Brasil, com um parlamento mais numeroso — em termos absolutos, não relativamente ao número de habitantes — e com parlamentares provenientes de alguns estados com um nível sócio-económico-cultural muito baixo, por vezes surgem personagens muito ricos em vários capítulos, exceto naquele específico para o qual foram eleitos. Atentos à grande diversidade da proveniência e, por vezes, à falta de condições para uma boa formação académica, no Brasil tornou-se corrente titular o sujeito pelo seu relevo na sociedade: doutor — ou dotô, para ser foneticamente mais preciso — é qualquer cidadão que atinge patamar elevado na sociedade, seja por via do bom desempenho económico, do bom desempenho político ou da arte de bem roubar — frequentemente em pelo menos duas das três vias em simultâneo, tanto lá como cá.
Claro que isso tem um reverso da medalha. Especialmente nos meios mais eruditos, onde conseguem fazer a distinção entre um dotô e um verdadeiro doutor, a generalização por vezes pode dar azo a alguma ambiguidade. Eu tive a felicidade de ter estado na origem de uma interessante adenda de esclarecimento. Por razões do foro sentimental, há uns anos circulei com alguma regularidade no meio jurídico — um meio onde geralmente conseguem fazer a tal distinção — de uma grande cidade do nordeste brasileiro e, numa das vezes em que me apresentaram, resolveram fazê-lo com a alusão ao meu grau académico. Doutor com U, esclareceu quase de imediato quem me apresentou, para que não restassem dúvidas.
Atendendo ao valor que a questão ganhou em Portugal, acho que está na hora de introduzirmos também por cá o grau de dotô. E ao senhor Relvas atribua-se desde logo o título — talvez por equivalência aos mais descarados políticos brasileiros— de dotô honoris causa!
quarta-feira, 18 de julho de 2012
Questões de saúde
O Jacinto e o Veiga encontravam-se confortavelmente instalados numa esplanada a bebericar no final de mais um dia de trabalho. Enquanto isso — não sei como ainda há quem diga que os homens não conseguem fazer duas coisas ao mesmo tempo! —, apreciavam o constante fluxo de carros. O Jacinto, mais propenso a meditar sobre questões de alguma — ainda que ténue — índole científica, observa:
— Praí 90% dos carros com casais são conduzidos pelo homem.
— Tudo isso?!
— Ou mais!
— Sociedade muito machista...
— Machista? Pode não ser.
— Não?
— Não! A minha mulher nunca conduz comigo ao lado e não é por uma questão de machismo.
— Então por que é?
— Ela não quer.
— Mas nunca conduziu contigo ao lado?
— Só um pouco no começo.
— E depois?
— Depois não quis mais.
— Aposto que fazias o género de copiloto insuportável.
— Ó pá, tinha que lhe dar instruções.
— Tinhas mesmo?
— Era uma questão de saúde pública!
Por vezes o cinismo de um homem atinge níveis tão elevados que só encontra antídoto no cinismo de outro homem. Diz o Veiga:
— Cá comigo já é diferente: conduzimos a meias.
— A meias?
— Equitativo.
— Não acredito.
— Verdade!
— E qual o critério?
— Praticamente só saímos juntos para restaurantes. Eu levo o carro até ao restaurante, ela trá-lo de volta para casa.
— Ah, está bem... e o machista sou eu!
— Eu seria machista porquê?
— Tu podes beber à vontade e ela não.
— Bom... tu preocupas-te com a saúde pública, eu preocupo-me com a saúde da minha mulher!
— Praí 90% dos carros com casais são conduzidos pelo homem.
— Tudo isso?!
— Ou mais!
— Sociedade muito machista...
— Machista? Pode não ser.
— Não?
— Não! A minha mulher nunca conduz comigo ao lado e não é por uma questão de machismo.
— Então por que é?
— Ela não quer.
— Mas nunca conduziu contigo ao lado?
— Só um pouco no começo.
— E depois?
— Depois não quis mais.
— Aposto que fazias o género de copiloto insuportável.
— Ó pá, tinha que lhe dar instruções.
— Tinhas mesmo?
— Era uma questão de saúde pública!
Por vezes o cinismo de um homem atinge níveis tão elevados que só encontra antídoto no cinismo de outro homem. Diz o Veiga:
— Cá comigo já é diferente: conduzimos a meias.
— A meias?
— Equitativo.
— Não acredito.
— Verdade!
— E qual o critério?
— Praticamente só saímos juntos para restaurantes. Eu levo o carro até ao restaurante, ela trá-lo de volta para casa.
— Ah, está bem... e o machista sou eu!
— Eu seria machista porquê?
— Tu podes beber à vontade e ela não.
— Bom... tu preocupas-te com a saúde pública, eu preocupo-me com a saúde da minha mulher!
quarta-feira, 11 de julho de 2012
O bosão de Higgs
«In physics, you don't have to go around
making trouble for yourself — nature does it for you»
Frank Wilczek
Nos últimos dias a Física tem vindo a receber atenção redobrada por causa da provável (ou talvez mais do isso) descoberta do bosão de Higgs. Que o mundo lhe dê o devido crédito e rejubile pela descoberta eu até entendo, não entendo é que em Portugal se dê tanto destaque a um fenómeno que por aqui já era sobejamente conhecido. E digo mais: quanto a fenómenos físicos raros temos muitas outras coisas que o resto do mundo ainda nem sequer desconfia.
De acordo com a teoria, o bosão de Higgs tem a capacidade de fornecer massa às outras partículas. Mas onde é que está a novidade? Em Portugal temos, de longa data, alguns milhões de bosões a fornecer massa para umas quantas instituições particulares. E temos mais. Temos algo que físico nenhum ainda conjeturou: o antibosão. Enquanto que o bosão fornece a massa, o antibosão tem a capacidade de fazê-la desaparecer. Não temos tantos antibosões como bosões — o antibosão vem de uma casta mais privilegiada —, mas sempre vamos tendo alguns notáveis. Dias Loureiro, Oliveira e Costa e João Rendeiro são alguns dos últimos a ser descobertos.
E as novidades não se ficam por aqui. Na Física existe o princípio da incerteza de Heisenberg. É bom conhecê-lo, é bom saber reconhecê-lo, mas não deixa de ser um princípio que atesta uma certa incapacidade. Não seria melhor um princípio que funcionasse pela positiva? Pois nós temos. E há anos que nos rege. Primeiro como primeiro-ministro, agora como presidente da república, Cavaco pauta toda a sua ação com base no princípio da certeza de Silva: eu nunca me engano e raramente tenho dúvidas.
Na Física aceita-se o princípio da conservação da energia. Como o próprio nome indica, trata-se de um princípio bastante conservador. Nós temos um princípio mais expansionista. Talvez fruto de um passado de grandes conquistas, por cá criam-se constantemente condições favoráveis para o princípio da expansão da Energia de Portugal. Começou como uma mera companhia elétrica de um país periférico da Europa, mas com base na mera exploração (até ao tutano) de um mercado relativamente pequeno já tem participações importantes em países como o Brasil ou os Estados Unidos. Expandiu tanto que até os chineses já a acham apetecível.
A última novidade deste país foi a introdução de um buraco negro na cena nacional. Quando historiadores daqui a uns anos se debruçarem sobre a história portuguesa neste período descobrirão algo muito surpreendente: uma constituição que, com maiores ou menores atropelos, vigorou até 2011 e voltará a vigorar apenas em 2013. Em 2012 tem um buraco negro. E não é um qualquer buraquito desprezível, pois tem o tamanho de dois salários para os funcionários públicos!
Os fenómenos físicos da realidade portuguesa são muitos e por demais evidentes, mas para não me tornar demasiado massudo — é suposto que bosões como eu forneçam massa, mas não macem muito — assinalo apenas mais um. Na Física as partículas subatómicas dividem-se em neutrões, protões e eletrões. Nós temos uma extra: o centrão. De lá emanam as forças partidárias que estão no cerne das tramoias que nos enredam todos os dias!
quarta-feira, 4 de julho de 2012
A origem
Talvez para tentar cumprir recomendações pedagógicas que apelam a um ensino mais centrado no aluno, a professora resolveu começar por perguntar aos seus alunos que ideia tinham sobre a origem da espécie humana. O primeiro a intervir foi o Pedro Afonso:
— O meu pai disse-me que descendemos do macaco.
— Fala pela tua família! — contrapôs imediatamente o Carlitos.
— A tua não?! Se calhar descendem das galinhas... — ripostou o Pedro Afonso.
Perante isto, a professora sentiu necessidade de intervir:
— Parem, meninos! — e dirigiu-se novamente à turma: — Alguém concorda com o Pedro Afonso?
— Se calhar são só as pessoas mais peludas... — observou a Tânia.
— É... só os homens... — interveio novamente o Carlitos, em tom de escárnio.
— Os homens e as mulheres! — acrescentou o Pedro Afonso.
— As mulheres?! — perguntou admirada a Tânia.
— Sim, as mulheres depilam-se! — esclareceu o Pedro Afonso.
— Pois pois... mas é só em certas partes... — acrescentou o Carlitos.
Temendo que a conversa entrasse em maiores detalhes sobre temas pouco recomendáveis, a professora resolveu pôr cobro ao diálogo:
— Está bom, já basta desta conversa!
A professora preparava-se para falar-lhes sobre o darwinismo quando reparou que ao fundo da sala se encontrava a Verinha com o braço no ar.
— Fala, Verinha.
— A bíblia diz que descendemos de Adão e Eva.
A professora sabia que esta teoria iria surgir — achou até estranho que não tivesse surgido antes —, e tentou avançar com uma explicação para a verdade dogmática incutida na aluna:
— Trata-se apenas de uma imagem para o poder de Deus sobre a espécie humana.
— Mas não é assim que diz a bíblia!
— Eu sei, Verinha. Mas a bíblia não é para ser interpretada à letra.
— Então é para ser interpretada como?
Pressentindo que não iria ser fácil levar a Verinha a uma leitura menos estrita da bíblia, a professora tentou então convencê-la através da inconsistência:
— Vê bem, Verinha: Adão e Eva tiveram dois filhos.
— Sim.
— Dois meninos.
— Caim e Abel.
— E depois?
— Depois o quê, professora?
— Meninos não casavam com meninos...
— Pois não.
— Então como tiveram filhos?
— Ah... se calhar casavam com macacas!
quarta-feira, 27 de junho de 2012
Tudo termina em pizza
A expressão surgiu no Brasil, nos anos 60, após uma acirrada disputa pelo poder no clube mais representativo da comunidade italiana em São Paulo: o Palmeiras. Ao que consta, a disputa terminou de forma surpreendente, através de um acordo entre as duas partes litigantes, com direito a comemoração numa pizzaria. No dia seguinte um jornal noticiou que tudo terminou em pizza.
Hoje em dia a expressão é de uso corrente no Brasil, em especial para designar a forma como terminam as acusações de falcatruas entre a classe política que, quase invariavelmente, também terminam em pizza.
A pizza é um dos símbolos culinários da cidade de São Paulo, segundo alguns paulistas o lugar onde se come as melhores pizzas do mundo. Pode ser. Mas duvido. Não duvido que seja fácil encontrar-se por esse mundo fora excelentes intérpretes da cozinha italiana, mas nos restaurantes da Itália há sempre qualquer coisa a mais. Refiro-me àqueles detalhes que entram pelas vistas, narinas e orelhas e que nos fazem sentir aquele gostinho muito especial.
Começa pelo cardápio, que é quase sempre extenso até no número de categorias. É difícil encontrar restaurante italiano — na Itália! — que não tenha muitas ofertas em antepastos, primeiros pratos, segundos pratos, contornos, saladas, doces e, no caso do restaurante ter pizzaiolo, pizzas. As saladas são um prato com identidade própria, não sendo consideradas um mero acompanhamento, ao passo que o prato principal normalmente necessita de ser acompanhado por algum contorno.
Devo admitir que nas minhas primeiras visitas à Itália me sentia relativamente perdido perante tanta e tão variada oferta. Como conjugá-las e, principalmente, como conseguir manter a minha linha esbelta eram os grandes dramas. Para simplificar, a minha escolha quase sempre terminava em pizza.
Nos tempos que correm já consigo obter bons resultados nas escolhas, mesmo quando invisto nas outras componentes do cardápio. No entanto, as pizzas continuam a ser o meu alvo predileto. Encontram-se normalmente catalogadas numa extensa lista com variados sabores e ingredientes, mas sem os exageros do Brasil, onde ingredientes como a carne seca, o frango, a banana, o chocolate ou a goiabada terminam em pizza, ou a tradição estadunidense disseminada pelo mundo, onde até o ketchup termina em pizza.
Julgava eu que a Itália ainda era o último reduto dos bons costumes na tradição pizzeira, mas nesta minha última estadia fiquei com sérias dúvidas quanto a isso. E não surge a minha desconfiança com base em alguma avaliação fortuita de uma pizzaria de inspiração americana, pois dessas por cá ainda não há. Surge com base em alguns restaurantes tradicionais de pequenas cidades da região de Friuli-Venezia Giulia — desconfio que o fenómeno possa ser mais geral —, onde já por diversas vezes me deparei com pizzas de... imagine-se... batata frita! Não só as confecionam, como ainda as anunciam com destaque e honra de entrada do restaurante. É mesmo caso para dizer que tudo termina em pizza. Até a batata frita!
Hoje em dia a expressão é de uso corrente no Brasil, em especial para designar a forma como terminam as acusações de falcatruas entre a classe política que, quase invariavelmente, também terminam em pizza.
A pizza é um dos símbolos culinários da cidade de São Paulo, segundo alguns paulistas o lugar onde se come as melhores pizzas do mundo. Pode ser. Mas duvido. Não duvido que seja fácil encontrar-se por esse mundo fora excelentes intérpretes da cozinha italiana, mas nos restaurantes da Itália há sempre qualquer coisa a mais. Refiro-me àqueles detalhes que entram pelas vistas, narinas e orelhas e que nos fazem sentir aquele gostinho muito especial.
Começa pelo cardápio, que é quase sempre extenso até no número de categorias. É difícil encontrar restaurante italiano — na Itália! — que não tenha muitas ofertas em antepastos, primeiros pratos, segundos pratos, contornos, saladas, doces e, no caso do restaurante ter pizzaiolo, pizzas. As saladas são um prato com identidade própria, não sendo consideradas um mero acompanhamento, ao passo que o prato principal normalmente necessita de ser acompanhado por algum contorno.
Devo admitir que nas minhas primeiras visitas à Itália me sentia relativamente perdido perante tanta e tão variada oferta. Como conjugá-las e, principalmente, como conseguir manter a minha linha esbelta eram os grandes dramas. Para simplificar, a minha escolha quase sempre terminava em pizza.
Nos tempos que correm já consigo obter bons resultados nas escolhas, mesmo quando invisto nas outras componentes do cardápio. No entanto, as pizzas continuam a ser o meu alvo predileto. Encontram-se normalmente catalogadas numa extensa lista com variados sabores e ingredientes, mas sem os exageros do Brasil, onde ingredientes como a carne seca, o frango, a banana, o chocolate ou a goiabada terminam em pizza, ou a tradição estadunidense disseminada pelo mundo, onde até o ketchup termina em pizza.
Julgava eu que a Itália ainda era o último reduto dos bons costumes na tradição pizzeira, mas nesta minha última estadia fiquei com sérias dúvidas quanto a isso. E não surge a minha desconfiança com base em alguma avaliação fortuita de uma pizzaria de inspiração americana, pois dessas por cá ainda não há. Surge com base em alguns restaurantes tradicionais de pequenas cidades da região de Friuli-Venezia Giulia — desconfio que o fenómeno possa ser mais geral —, onde já por diversas vezes me deparei com pizzas de... imagine-se... batata frita! Não só as confecionam, como ainda as anunciam com destaque e honra de entrada do restaurante. É mesmo caso para dizer que tudo termina em pizza. Até a batata frita!
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Hoje é o dia...
Hoje é o dia em que milhares de portugueses começam a sentir nos seus rendimentos o roubo legitimado por um governo eleito com base numa campanha eleitoral mentirosa, liderado por um aldrabão que, três meses antes de ser eleito, qualificou como um disparate aquilo que uns dias após a eleição adotou como medida imprescindível.
Hoje é o dia em que o orçamento familiar de muitos portugueses sente a amputação imposta por um governo liderado por um sujeito que apregoa o esforço, mas ascendeu na vida com base no compadrio e na capacidade de colar cartazes, terminando a sua licenciatura aos 37 anos de idade.
Hoje é o dia em que o estado português trai a confiança de muitas pessoas que se esforçaram desde cedo, estudaram com afinco, foram além das suas obrigações, deram aquele passo que só os mais capazes e esforçados conseguem dar, chegaram mais alto com base no mérito, passaram em concursos não padecendo das mesmas moléstias que assolam os apadrinhados pelo poder.
Hoje é o dia em que os corruptos à solta ainda se banqueteiam com a elite política, alheios aos malefícios de uma crise que toca a todos menos a alguns, doa a quem doer exceto a quem nunca dói.
Hoje é o dia em que o país fica efetivamente mais pobre, porque pune muitos dos mais competentes, sem demonstrar a mesma eficiência na eliminação dos parasitas!
terça-feira, 19 de junho de 2012
A comunhão solene do rapaz
Fez-se silêncio no velho café do Tónio da Bininha. A euforia que tinha percorrido as expressões daqueles homens desde a vitória na meia-final do torneio inter-freguesias dava agora lugar à preocupação. Grande preocupação.
Se fosse outro qualquer, ainda se arranjava subsitituto, mas o Miguel Prodome? O Prodome era insubstituível! Era ele o garante da inviolabilidade das redes, a pedra angular, a base sobre a qual assentava toda a estratégia daquela equipa que tão boa conta de si tinha dado no imaculado percurso até à final.
Do lado de lá do balcão, o Tónio da Bininha — beneficiário maior das celebrações vitoriosas da equipa da freguesia — ainda ousou perguntar:
«Tens mesmo que ir?»
Ao que o Miguel Prodome prontamente respondeu:
«Tenho... tenho... Já tive que aturar a Guida por ter faltado a algumas missas!»
«Então lá terá que ser...» — disse aparentemente resignado o Tónio da Bininha.
No dia da comunhão solene, de manhã bem cedo, a Guida recebeu um telefonema. A comunhão iria ter que ser adiada, pois o padre não estava bem de saúde: passara a noite com as calças na mão por causa de um desarranjo intestinal. Pelos vistos, caiu-lhe mal uma francesinha que comeu de véspera no café da Bininha.
O Miguel Prodome estava liberado para a grande final! Deus escreve direito por linhas tortas, pensaram alguns dos seus companheiros de equipa. Mas sem muita convicção da intervenção divina.
quarta-feira, 13 de junho de 2012
A anatomia do Borges
«O que é um cínico?
Um homem que sabe o preço de tudo e o valor de nada»
Um homem que sabe o preço de tudo e o valor de nada»
O. Wilde
Houve um tempo na minha juventude em que me vaticinaram um futuro (brilhante, presumo eu...) na medicina. E eu não dizia que não. Até ao momento em que o meu coração começou a puxar-me de forma arrebatadora para a Matemática e eu fiquei sem outra opção que não fosse segui-lo. Apesar de jovem, já desconfiava que o único jeito de buscar a felicidade fosse deixar o coração solto e correr atrás. Daí para a frente o meu futuro na medicina resumiu-se a umas (pouco brilhantes) passagens por consultórios médicos e hospitais. Sempre como paciente, mesmo quando acompanhando alguém, pois a frequência desses lugares exige sempre muita paciência.
Destarte, os meus conhecimentos médicos nunca foram muito além dos básicos para um cidadão comum. Sei, por exemplo, que o corpo humano é composto por vários aparelhos, sendo um deles o aparelho digestivo. Sei também que, na ordem natural das coisas, esse aparelho é composto por um primeiro órgão que se chama boca e um último que se chama ânus. Sei ainda que pelo meio há outros órgãos que por vezes me dão problemas que eu resolvo facilmente com uns chazinhos e fármacos ligeiros de ter por casa. Creio ser este o quadro geral de alguém sem patologias de maior.
Mas há quem sofra de patologias terríveis. Um dos que ultimamente me tem deixado desconfiado é o Borges. E, se aquilo que desconfio se confirmar como verdade, é uma grande pena. Quando a vítima de uma patologia é um irrelevante do ponto de vista financeiro, a gente até ignora facilmente, pois no infortúnio de uma existência pobre há sempre lugar para mais um mal. No entanto, se a vítima é um sujeito da estirpe do Borges, há uma tendência natural para desenvolvermos a compaixão. O Borges não, coitado! Com uma patologia dessas ele não consegue encher a pança — um órgão do aparelho digestivo que ele muito deve prezar — nos lugares que o seu salário justifica. Com uma patologia dessas o Borges não pode ir aos restaurantes que cavalheiros de negócios gostam de partilhar com políticos ilustres — passe a redundância terminológica.
Que fique claro que não passa tudo isto de uma mera desconfiança minha, cidadão com nível básico em conhecimento médico. Agradeço até aos meus leitores que frequentam lugares como o Eleven — ou casa de pasto similar — que me esclareçam (exiladonomundo@gmail.com): já viram o Borges por lá? Se sim, por qual órgão costuma comer? É que, levando em conta as imundícies que ultimamente lhe têm saído pela boca, sou levado a suspeitar que ele sofra de uma terrível inversão nas funções dos órgãos extremos do seu aparelho digestivo.
quarta-feira, 6 de junho de 2012
O efeito borboleta
Essa mesma ideia pareceu-me explorada com maior mestria por Luís Fernando Veríssimo no seu livro «Em Algum Lugar do Paraíso», onde na crónica «Versões» relata o episódio de um homem que conversa com várias versões de si mesmo que lhe vão aparecendo no bar onde se encontra. Descobre assim quem ele teria sido caso tivesse passado num teste para ser jogador de futebol. Ou, se realmente se tivesse tornado jogador, caso tivesse feito ou não aquele golo. Noutras revelações, o homem depara-se com quem ele teria sido se tivesse passado num concurso público ou se tivesse casado com a Doralice. E assim por diante...
Eu já me sentei muitas vezes em bares, mas (in)felizmente nunca tive a possibilidade de conversar com as versões de mim que optaram pelas escolhas que eu rejeitei. Nem mesmo quando bebi demais. Não significa isso que por vezes não tenha pequenos vislumbres sobre possíveis variações do meu passado caso as minhas escolhas não tivessem sido exatamente as mesmas. Tenho sim. A última vez em que isso me aconteceu foi numa visita recente — a primeira — à Universidade de Warwick.
Dadas as minhas preferências matemáticas na época em que tive que escolher o lugar para realizar o meu doutoramento, Warwick e Rio de Janeiro apresentaram-se como os lugares mais prováveis — que no caso do Rio veio a confirmar-se com 100% de probabilidade — para o meu exílio. Não faço ideia de quem seria eu hoje, caso não tivesse optado pelo Rio. No entanto, depois de conhecer a Universidade de Warwick fiquei convencido de que por lá teria conseguido obter o grau com muito menos sofrimento. E não me refiro à exigência da universidade nem à qualidade da Matemática que por lá se produz. Refiro-me, isso sim, às condições envolventes muito mais favoráveis: uma universidade no meio de campos verdejantes, sem os apelos profanos de bares, praias e garotas num doce balanço a caminho do mar. Ou do bar.
Nada parecido com o bairro de Ipanema, onde fui morar. Para cúmulo, logo ali num ponto onde se cruzam duas ruas tão distintas: a do ônibus com destino ao Instituto de Matemática Pura e Aplicada e a das garotas com destino à praia. Eu nem sou muito de me queixar do passado, mas este é um dos raros momentos em que olho para trás e sinto vontade de fazer um desabafo. Em tom de lamento. Pela dor, pelo sofrimento, pelos quatro anos de conflito interno para optar pela rua certa. E quando razão e tentação entravam em grande conflito, optava por levar uns livros para a praia e ficar por ali mesmo. Livros de Sistemas Dinâmicos e Análise Funcional, que foram as áreas mais estudadas. Bem encadernados, é claro, para disfarçar o conteúdo. É que se os Sistemas Dinâmicos até poderiam dar azo a alguma interpretação favorável, já uma Análise Funcional dificilmente seria motivo para uma interpretação que não me comprometesse.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
É o Zé!
Tudo começou com indisposições e vómitos frequentes. Consultado o médico de família, o veredicto abateu-se como maldição sobre o bom nome da família: «a Mariazinha está grávida». O pai vociferou palavras horrendas, a mãe teve um ataque de nervos e ambos sentiram uma enorme necessidade de punir exemplarmente o malvado que teve a desfaçatez de introduzir tamanha impureza na até então tão pura Mariazinha.
«Quem é o pai?» tornou-se uma pergunta insistente à qual a Mariazinha não dava resposta. Na verdade, a Mariazinha não sabia responder. Mas a pergunta foi repetida tão insistentemente que, não tendo resposta para dar, a Mariazinha sentiu-se coagida a inventá-la: «o pai é o Zé!».
A responsabilidade por ato tão ignóbil recaía assim sobre um ajudante de carpinteiro que por aqueles dias trabalhava na remodelação da casa dos pais da Mariazinha. O Zé, inicialmente sem entender o que podia ter feito de tão grave para que sobre ele se abatesse, de forma intensa, a ira dos pais da Mariazinha, logo se apercebeu que só lhe restava uma solução: casar com a Mariazinha. Nada mal para o pobre Zé, que até então nunca lhe tivera passado pela cabeça vir a desposar fruto de tão superior casta.
Os primeiros tempos foram muito difíceis para o jovem casal. Além do desprezo da família da Mariazinha, tiveram que lidar com a discriminação dos conterrâneos. Confrontados com tais adversidades, decidiram mudar-se para uma terra muito distante, tendo que sobreviver apenas com os rendimentos do Zé como carpinteiro.
À medida que o menino (sim, nasceu um menino) crescia, começavam a notar-se no petiz qualidades inigualáveis como grande líder de massas. E não tardou muito para que, fruto de uma excelente capitalização dessas qualidades, o menino (já crescidinho...) e os pais viessem a granjear posição de grande admiração e destaque, primeiro na cidade, depois no país e, finalmente, em todo o mundo. Repito, em todo o mundo!
Moral da história: se uma filha aparecer de esperança, mesmo que de um pobre ajudante de carpinteiro, tenhamos elevação de espírito e tentemos manter firme a esperança, pois, mesmo assim, o futuro da família pode ser divino!
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Cotovelos
Em nome de alguma justiça corporal, os cotovelos mereceriam de todos nós maior consideração (além de lubrificações regulares com creme para diminuir a aspereza da pele). Enaltece-se o aspeto e desempenho de olhos, boca, mãos, pernas e outras partes que nem preciso mencionar, mas que valor se dá aos cotovelos? Eu contra mim escrevo: em toda a minha vida não tive mais do que três momentos de ponderação sobre a importância dessas articulações. E o terceiro deles foi agora mesmo para escrever este texto.
O primeiro momento de consciência sobre o valor dos cotovelos tive-o numa idade compreendida entre a suficiente para já saber o que queria e a insuficiente para ter o que gostaria. Estudava com uma colega relativamente desenvolvida para a idade (e particularmente avantajada quanto a determinado atributo físico). No momento em que ela, do meu lado direito, se debruçou para entender melhor algo que eu escrevera no meu caderno (talvez a solução de uma equação de grau elevado para a época...), o meu cotovelo direito experimentou uma das sensações de contacto interpessoal mais excitantes até essa idade. Não foi muito, mas por vezes é em pequenos detalhes inesperados que residem os maiores prazeres. E este obtive-o através do cotovelo. O direito.
A história anterior não é das melhores, mas enaltece o valor do cotovelo no despertar para as sensações de prazer num adolescente. E já que chegou até este ponto (muito obrigado!) merece ser recompensado com uma história mais edificante.
O segundo momento em que fui levado a meditar sobre a importância dos cotovelos foi na minha primeira visita ao Brasil. Decorria uma campanha televisiva sobre algo que, julgo eu, andaria em torno da solidariedade. Algumas personalidades apareciam esporadicamente na televisão a contar pequenas histórias que tocassem (sentido figurado!) o telespectador. Uma dessas histórias foi contada por Tom Jobim. Versava sobre um homem que, tendo morrido, antes de seguir a merecida trajetória, foi conduzido (por S. Pedro, suponho) a visitar o inferno e o céu. Chegado ao inferno, viu uma enorme mesa cheia de comida e de bebida, tudo do bom e do melhor, e muita gente à volta da mesa a olhar a comida sem poder tocá-la, apesar do ar faminto de todos eles. Motivo? Todos tinham os cotovelos ao contrário. Um inferno! Posteriormente o homem foi levado ao céu. Aí observou aquela que, num primeiro relance, lhe pareceu ser uma cena igual à do inferno: uma enorme mesa, comida e bebida à farta sobre uma enorme mesa e muita gente ao redor da mesa com os cotovelos ao contrário. Não escondendo o espanto pela semelhança com o que acabara de observar no inferno, foi alertado para um detalhe que lhe escapara: cada um utilizava os seus braços para alimentar o vizinho do lado.
quarta-feira, 16 de maio de 2012
Espírito missionário
O Francisco olhou o bilhete, olhou a inscrição por cima do assento, olhou novamente o bilhete e sentou-se no lugar que lhe estava reservado. Com indisfarçável satisfação. Desta vez tinha-lhe tocado em sorte uma companheira de viagem com excelentes atributos físicos. Ainda antes do comboio ter seguido marcha já o Francisco lhe tinha tirado as medidas, sentido a fragrância e apreciado a tez sedosa e morena.
Enquanto executou — de forma subtil, mas não totalmente discreta — esse rastreamento interpessoal, ela permaneceu imóvel. Com óculos escuros e olhando na direção da janela, pareceu ao Francisco que ela tinha o olhar preso em algum ponto do infinito. Talvez dormisse. Não: entre o aro dos óculos e o rosto dela, o Francisco pôde notar um olho a pestanejar.
A forma ligeiramente descuidada de vestir — que nem por isso a fazia pouco sedutora —, o cabelo mal amanhado, o olhar sempre fixo e distante, pareceram ao Francisco sinais inequívocos de alguma tristeza. Dado que ela mantinha as mãos entrelaçadas no regaço, o Francisco não pôde observar os seus dedos de forma totalmente esclarecedora, mas pareceu-lhe mesmo ver no dedo anelar dela uma marca mais clara de alguma aliança recentemente retirada. A marca de uma separação, pensou ele. Talvez carregue ainda a dor profunda de um namoro mais sério, de um noivado ou até mesmo de um casamento que acaba de romper-se, pensou o Francisco.
O Francisco sentou-se naquele lugar com doses de confiança e de espiritualidade mais do que suficientes para rapidamente entabular uma conversa cativante com a sua ocasional companheira de viagem, mas à medida que foi notando nela sinais de tristeza foi também perdendo o seu elã. Uma hora depois o Francisco abandonou o seu lugar no comboio e desceu para a plataforma sem que ela tivesse removido o olhar do tal ponto algures no infinito nem ele lhe tivesse dirigido uma só palavra.
Censurou-se por não ter sequer tentado dar-lhe algum conforto. Despretensioso, claro está. Num mundo de tanta impessoalidade, de tanta solidão, talvez aquela jovem mulher precisasse de uma palavra reconfortante ou até mesmo de um novo olhar de esperança sobre o futuro, pensou o Francisco. Num mundo onde tanta gente — especialmente idosa — sofre por falta de um mínimo de atenção, louve-se o espírito missionário que nesse momento pareceu despontar no Francisco — esta parte não pensou ele.
Enquanto executou — de forma subtil, mas não totalmente discreta — esse rastreamento interpessoal, ela permaneceu imóvel. Com óculos escuros e olhando na direção da janela, pareceu ao Francisco que ela tinha o olhar preso em algum ponto do infinito. Talvez dormisse. Não: entre o aro dos óculos e o rosto dela, o Francisco pôde notar um olho a pestanejar.
A forma ligeiramente descuidada de vestir — que nem por isso a fazia pouco sedutora —, o cabelo mal amanhado, o olhar sempre fixo e distante, pareceram ao Francisco sinais inequívocos de alguma tristeza. Dado que ela mantinha as mãos entrelaçadas no regaço, o Francisco não pôde observar os seus dedos de forma totalmente esclarecedora, mas pareceu-lhe mesmo ver no dedo anelar dela uma marca mais clara de alguma aliança recentemente retirada. A marca de uma separação, pensou ele. Talvez carregue ainda a dor profunda de um namoro mais sério, de um noivado ou até mesmo de um casamento que acaba de romper-se, pensou o Francisco.
O Francisco sentou-se naquele lugar com doses de confiança e de espiritualidade mais do que suficientes para rapidamente entabular uma conversa cativante com a sua ocasional companheira de viagem, mas à medida que foi notando nela sinais de tristeza foi também perdendo o seu elã. Uma hora depois o Francisco abandonou o seu lugar no comboio e desceu para a plataforma sem que ela tivesse removido o olhar do tal ponto algures no infinito nem ele lhe tivesse dirigido uma só palavra.
Censurou-se por não ter sequer tentado dar-lhe algum conforto. Despretensioso, claro está. Num mundo de tanta impessoalidade, de tanta solidão, talvez aquela jovem mulher precisasse de uma palavra reconfortante ou até mesmo de um novo olhar de esperança sobre o futuro, pensou o Francisco. Num mundo onde tanta gente — especialmente idosa — sofre por falta de um mínimo de atenção, louve-se o espírito missionário que nesse momento pareceu despontar no Francisco — esta parte não pensou ele.
Já na plataforma, ele parou e olhou para trás, na direção da janela da carruagem onde ela tinha permanecido para continuar viagem. Nesse instante, ela levantou ligeiramente a mão e dirigiu o olhar na direção do Francisco. Simultaneamente, soltou uma risada e deu um tchauzinho.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Viciados em palmas

Não sei se proveniente de algum traço específico na carga genética dos portugueses, mas parece-me inquestionável haver na idiossincrasia deste nosso povo algo que nos caracteriza como invulgarmente viciados em palmas. Isso mesmo: clap, clap, clap...
As palmas
são, provavelmente, a forma mais universal de demonstrar apreço por uma boa execução em diversas áreas de expressão artística. Muito em particular, na área musical. Mas
podem também as palmas ser um excelente instrumento de percussão numa execução musical.
No flamenco ou na rumba, por exemplo, são batidas de forma intercalada, no tempo
e no contratempo, para conferir maior vivacidade ao ritmo. No samba de roda do
recôncavo baiano são batidas de forma sincopada para acrescentar
maior complexidade ao ritmo. Em Portugal, surgem frequentemente nas salas de espetáculo para acrescentar monotonia ao ritmo, sendo batidas pelo público no tempo forte de cada compasso, muitas vezes abafando o som dos artistas ou atrapalhando-lhes a execução.
Se
dúvidas houver, escute-se a gravação da Deolinda ao
vivo no Coliseu do Recreios. Não há por lá uma só música mais ritmada que a
plateia — camarotes, balcão e galeria incluídos
— não faça acompanhar com as
suas inestimáveis e ruidosas palmas. Em
alguns temas torna-se difícil descobrir se as palmas
surgem para demonstrar apreço pelos executantes ou para os testarem na introdução de variações rítmicas ao
longo de uma mesma canção. A gravação é de 2011, o Coliseu é o de Lisboa, mas há vários anos que tenho detetado esse vício também nas salas de
espetáculo do Porto. E quase sempre com desagrado.
O vício dos portugueses pelas palmas é de tal forma acentuado que passaram também elas a ser a forma predileta de assinalar o minuto de silêncio — note-se o detalhe irónico
da terminologia — nos estádios
de futebol por este país fora. Minuto
de silêncio esse que, quando muito, dura uns dez segundos. Ao décimo primeiro já todos os presentes no estádio, em pé, rendem a sua estrondosa salva de palmas ao homenageado. Não soubesse eu que os
portugueses têm, por natureza, uma certa tendência para o culto da tristeza e acharia que o
objetivo de tal ato era transformar em alegre um pretenso minuto de pesar. Mas
a verdade é que se trata apenas de vício. Vício por palmas. Não é de admirar
que as proíbam no fado.
quarta-feira, 2 de maio de 2012
Magret de pato

Os jantares entre os dois casais iam acontecendo com certa regularidade ao longo dos anos, ora numa casa ora na outra. De todas as vezes, os anfitriões esforçavam-se para que não houvesse repetição do prato principal de algum dos jantares anteriores. Uma mera questão de orgulho e vaidade que, obsessivamente, tinha sido elevada ao patamar de uma questão de honra!
Desta vez tocava ao Faria e à Maria Alice receberem o Basílio e a Sandrinha em casa. Com a colaboração do Faria, a Maria Alice tentava escolher um prato principal — diferente de todos os anteriores, evidentemente — para o jantar do dia seguinte. O Faria, que era bastante metódico e não suportava ver a Maria Alice tensa, tinha passado a apontar as ementas de jantares anteriores num velho bloco de apontamentos. Após alguns pratos excluídos, por constarem da providencial lista de anotações do Faria, a Maria Alice avançou com mais este:
— Magret de pato.
O Faria olhou a lista de cima a baixo e de baixo a cima e sentenciou:
— Esse nunca fizeste para eles!
— Tens a certeza? — questionou a Maria Alice.
Desconfiar da memória do Faria era uma constante na Maria Alice. Mas desconfiar daquilo que o Faria tinha acabado de ler — ou de não ler, para ser mais exato —, também já era demais!
— Certeza absoluta! — respondeu o Faria.
— Vê bem — ripostou a Maria Alice.
— Já vi e revi: não consta da lista! — contrapôs o Faria com irritação.
Se o Faria era metódico, a Maria Alice era, por método, desconfiada. E a combinação de um com o outro nem sempre resultava num ambiente de saudável harmonia conjugal.
Quando, no dia seguinte, a Maria Alice colocou em cima da mesa de jantar a travessa com o magret de pato acabado de confecionar, o Basílio e a Sandrinha — imediatamente e em simultâneo — proferiram um expressivo «hum, que delícia!». A Maria Alice olhou-os e disse:
— Espero que gosteis de magret de pato.
— Muito — afirmou a Sandrinha.
— E esse que tu fazes é uma delícia! — complementou o Basílio.
O complemento do Basílio caiu sobre a Maria Alice como balde de água fria.
— Já fiz este prato para vós? — perguntou a Maria Alice visivelmente desagradada.
— Sim — respondeu a Sandrinha.
— E estava maravilhoso! — acrescentou o Basílio.
O elogio ao prato da Maria Alice, que numa situação normal teria servido para deixá-la agradada, serviu, em vez disso, para deixá-la bastante agastada. De imediato, a Maria Alice lançou um olhar fulminante sobre o Faria e abanou a cabeça num jeito de quem diz «seu inútil, nem para isso serves». O Faria apenas encolheu os ombros. Sabia que esta história não iria ficar por aqui!
O resto do jantar decorreu com indisfarçável desconforto para os da casa: a Maria Alice sem esconder a frustração pelo prato principal repetido e o Faria sem entender como tinha esquecido de apontar esse prato na sua lista. Enquanto isso, o Basílio e a Sandrinha, alheios ao mau ambiente entre os anfitriões, deliciavam-se com o magret de pato excelentemente confecionado — e as ótimas sobremesas que lhe sucederam. A Maria Alice era, inquestionavelmente, uma cozinheira de eleição!
Logo que entraram no elevador, a Sandrinha beijou o Basílio com satisfação. E exclamou:
— O nosso plano saiu perfeito!
— Acreditaram mesmo que estavam a repetir o prato — acrescentou o Basílio.
— Vais ver: da próxima vez que a Maria Alice for jantar em nossa casa, vai chegar com o nariz menos empinado — rematou a Sandrinha.
Beijaram-se mais uma vez. Celebravam dessa forma a execução irrepreensível de um plano muito bem gizado.
quarta-feira, 25 de abril de 2012
Equívocos buarquianos
Numa época em que a realidade não tem andado grande coisa, alguns jornais anexam determinados produtos culturais como forma de atrair os leitores para as más notícias que trazem. Um dos jornais da praça portuguesa lançou recentemente uma coleção de livros e CDs do cantor, compositor e escritor brasileiro Chico Buarque. Não deixa de ser interessante notar que um dos mais militantes esquerdistas da cena cultural brasileira sirva aqui como isca para as más notícias de um mundo iniquamente inquinado à direita.
A complexidade das letras de algumas canções de Chico Buarque tem também proporcionado leituras erradas das mensagens que transportam. Uma das canções (de Chico Buarque em parceria com Ruy Guerra) que tem dado azo a interpretações equivocadas é o Fado Tropical, que no seu refrão contém a frase «ai, esta terra [Brasil] ainda vai cumprir seu ideal, ainda vai tornar-se um imenso Portugal». A interpretação mais frequente é a de que esta letra alude ao desejo de verem no Brasil a ditadura dar lugar à democracia, como teria ocorrido em Portugal com a revolução do 25 de abril de 1974. Os vídeos dessa música mais visualizados no Youtube têm como pano de fundo imagens da revolução dos cravos.
A complexidade das letras de algumas canções de Chico Buarque tem também proporcionado leituras erradas das mensagens que transportam. Uma das canções (de Chico Buarque em parceria com Ruy Guerra) que tem dado azo a interpretações equivocadas é o Fado Tropical, que no seu refrão contém a frase «ai, esta terra [Brasil] ainda vai cumprir seu ideal, ainda vai tornar-se um imenso Portugal». A interpretação mais frequente é a de que esta letra alude ao desejo de verem no Brasil a ditadura dar lugar à democracia, como teria ocorrido em Portugal com a revolução do 25 de abril de 1974. Os vídeos dessa música mais visualizados no Youtube têm como pano de fundo imagens da revolução dos cravos.
A interpretação faz sentido. Mas apenas se atribuirmos a Chico Buarque e Ruy Guerra capacidade para uma visão premonitória, pois essa canção foi gravada em 1973. A canção foi escrita para a peça Calabar, num tom irónico, pretendendo debochar de uma certa aristocracia brasileira com dificuldade em desligar as suas referências culturais dos padrões do colonizador. O que na interpretação mais corrente é visto como um desejo utópico, não passa, na verdade, de uma crítica a uma certa realidade.
Também eu, em tempos, tive um pequeno equívoco (além da leitura anacrónica, é claro) com a letra dessa canção. A primeira versão que possuí foi gravada numa cassete a partir de um LP que me emprestaram. Num determinado ponto da canção é recitado um belíssimo soneto sobre a essência da alma lusitana:
Também eu, em tempos, tive um pequeno equívoco (além da leitura anacrónica, é claro) com a letra dessa canção. A primeira versão que possuí foi gravada numa cassete a partir de um LP que me emprestaram. Num determinado ponto da canção é recitado um belíssimo soneto sobre a essência da alma lusitana:
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo (...)Entre a primeira e a segunda frase destes versos ficou a minha gravação maculada com o que supus ser um dos frequentes e arreliadores saltos de agulha ao percorrer o vinil. Fiquei com a convicção de que algo mais deveria existir entre essas duas frases.
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora
Na minha primeira visita ao Brasil, aproveitei para ampliar a minha coleção de músicas de Chico Buarque e, como não podia deixar de ser, regravar uma nova versão do Fado Tropical. Enquanto a agulha do giradiscos rolou sobre o vinil, a conversa também rolou farta. De modo que só em Portugal reparei que no Fado Tropical, exatamente no mesmo ponto da gravação anterior, havia também um arreliador salto. Grande coincidência. Maldita coincidência!
Só anos mais tarde vim a saber que o corte (literal) tinha sido feito na fita da gravação original pela censura brasileira, por não concordar que entre as tais duas frases, tivessem os poetas acrescentado «além da sifilís, é claro». Impurezas da raça não podiam ser postas em evidência. E, por causa desse corte na gravação original, não há até hoje nenhuma versão da canção onde não se note o tal salto.
quarta-feira, 18 de abril de 2012
O Simon & Garfunkel no Central Park
Two people playing the game
Negotiations and love songs
Are often mistaken for one and the same»
Paul Simon
Conseguiram viver juntos durante cerca de três anos, o último dos quais com grande desgaste para a relação. Quando ambos sentiram que já estavam a produzir mais ruído e silêncio do que diálogo, num último assomo de sintonia, concordaram pôr cobro à contenda.
Como nenhum dos dois se mostrou disposto a permanecer no apartamento que juntos tinham escolhido para morar, cada um tratou de encontrar o seu novo lugar. Aquele apartamento seria devolvido ao senhorio no domingo seguinte. E, para que pudessem viver a dor da partida sem muita amplificação externa, acertaram um esquema de dias alternados para retirarem os seus pertences do apartamento: ela na segunda, quarta e sexta, ele na terça, quinta e sábado. Pequenas dúvidas seriam esclarecidas por SMS. Preferencialmente.
Na terça, ele enviou-lhe uma SMS:
«Levaste o Simon & Garfunkel no Central Park. Devolve, pf»
Ela respondeu:
«Compra outro»
Comprar outro não era problema. O problema é que aquele tinha sido autografado pelo próprio Art Garfunkel, após um concerto a que tinham ido juntos em Nova Iorque. Ele argumentou:
«Esse está autografado... E tu nem gostavas deles!»
Ao que ela contrapôs:
«Pois agora gosto muito! E lembras-te que fui eu a pagar esse CD?»
Lembrava, de facto. Desafortunadamente, dessa vez tinha sido ela a pagar o CD. Não lhe parecia um argumento de peso, mas também não encontrou nenhum melhor para desequilibrar a disputa a seu favor. Restava-lhe a esperança de que ela enfiasse a mão na consciência e acabasse por mudar de ideias — algo muito pouco provável, pelo que conhecia dela.
Na quinta ele acabou por comprovar o que já era por si esperado: ela não devolveu o Simon & Garfunkel no Central Park. Sentiu o coração destroçado. Duas separações em simultâneo eram carga negativa a mais para o seu pobre coração.
Durante dois dias não comunicou com ela. No sábado, mandou uma nova SMS:
«Tenho sentido muito a tua falta... Talvez devêssemos dar-nos uma nova oportunidade»
Ela vacilou na resposta:
«Não sei...»
Ainda que ténue, ele sentiu renascer a esperança. Iria investir tudo o que pudesse nessa possibilidade! Talvez ainda conseguisse reaver aquele precioso Simon & Garfunkel no Central Park...
quarta-feira, 11 de abril de 2012
Processo de chinificação lusitana
«A maior desgraça de uma nação pobre é que,
em vez de produzir riqueza, produz ricos»
Mia Couto
Matemáticos são, como toda a gente sabe, uma espécie de indivíduos relativamente alucinados. Normalmente sem grande capacidade de interligação com o mundo real. Caricaturando isso há até uma piada — de muito mau gosto, diga-se de passagem — sobre o matemático que, instado a pronunciar-se sobre a sua preferência entre mulher ou amante, confessa preferir a existência de ambas: diz à mulher que vai encontrar-se com a amante, diz à amante que vai encontrar-se com a mulher e aproveita para ir trabalhar na biblioteca.
Eu já fui assim — mas sem ter tido a necessidade de perder tempo a arranjar uma amante, pois a minha mulher rapidamente descobriu que eu estava de caso com a biblioteca e aceitou-me mesmo assim. Contudo, depois que nos últimos tempos começaram a cortar aos 10% e 20% nos meus rendimentos, deu-se um clique em algum botão que ativava o meu sistema de desligamento do mundo real e descobri que andava a trabalhar acima das minhas possibilidades. Resolvi então dedicar algum do tempo que passou a sobrar-me a questões mais quotidianas e a inteirar-me melhor sobre os grandes males que afetam o país.
Descobri, por exemplo, que em Portugal há um governo formado por doze indivíduos. E a julgar pelas principais medidas que esses doze têm implementado — ou tentado implementar — nos últimos tempos, os grandes males que afetam o progresso de Portugal estão, essencialmente, na classe (pouco) trabalhadora: escassez de horas de trabalho, excessivo número de feriados, baixa contribuição em impostos, acesso fácil a saúde e educação, entre outros, eram os defeitos que, na opinião do governo, se tornava urgente corrigir.
Não creio ter o conhecimento do mundo de nenhum dos membros do governo, menos ainda a formação em gestão, economia, finanças e sociologia que eles possuem. Mas juraria que, a enveredar-se por esses caminhos para corrigir os problemas nacionais, as medidas só começarão a surtir efeito quando estivermos com condições de trabalho e remunerações ao nível das da China. E, mesmo admitindo que o modelo chinês é coisa que se recomende, só desconhecendo por completo o povo chinês e o povo português se poderá pensar que, sob as mesmas condições, os resultados virão a ser os mesmos.
Talvez numa ou noutra coisa nos aproximemos. Eu, por exemplo, apesar do muito que tenho tentado resistir a que me transformem em mais um boneco neste processo de chinificação lusitana, devo reconhecer que algumas das medidas tomadas pelos doze magníficos já me deixaram com os olhos em bico!
quarta-feira, 4 de abril de 2012
Intervenção divina
— Jesus!
— Jesuus!
— Jesuuus!
— Jesuuuus!
...
Já oralmente soltavam para cima de uma vintena de u's e corporalmente se contorciam em alfabetos completos, quando um enorme clarão invadiu o quarto. Não fosse tão profunda a compenetração de ambos e nesse momento podiam ter visto materializar-se na frente da cama aquela figura de olho claro, olhar sereno, barba e cabelo comprido, perguntando:
— Chamaram?
Quando se aperceberam da inesperada presença divina, pararam com tudo o que estavam a fazer. Subitamente, o rubor do cansaço deu lugar ao rubor da vergonha. E, não tendo a possibilidade de cumprirem o ritual bíblico de cobrir as zonas mais pecaminosas com folhas de videira, trataram de cobri-las mesmo com o lençol. Ela ainda tentou tapar a cara com as mãos e os seios com os cotovelos. Com cara de incrédulo e voz trémula ele exclamou:
— Jesus?!
— Eu mesmo!
— Apareces assim, enquanto nós...
— Apareço quando me invocam! Não me invocaram?
Quando se aperceberam da inesperada presença divina, pararam com tudo o que estavam a fazer. Subitamente, o rubor do cansaço deu lugar ao rubor da vergonha. E, não tendo a possibilidade de cumprirem o ritual bíblico de cobrir as zonas mais pecaminosas com folhas de videira, trataram de cobri-las mesmo com o lençol. Ela ainda tentou tapar a cara com as mãos e os seios com os cotovelos. Com cara de incrédulo e voz trémula ele exclamou:
— Jesus?!
— Eu mesmo!
— Apareces assim, enquanto nós...
— Apareço quando me invocam! Não me invocaram?
— Sim, mas...
— Precisam de ajuda?
— Não! Nisto somos autossuficientes...
— Então por que me chamaram?
— Era apenas força de expressão...
— Era apenas força de expressão...
— Pois então, da próxima vez, mais cuidado com a força das expressões!
— Nunca nos tinha acontecido.
— Pois não. Mas com a atual crise de fieis resolvemos voltar a ter uma postura mais interventiva.
— Como assim?
— Sempre que possível, iremos aparecer quando nos invocarem.
— Não fazíamos ideia...
— Acabam de ativar o serviço.
— Serviço? Qual serviço?!
— O serviço de intervenção divina, ora!
— Mas nós não precisamos de intervenção nenhuma!
Jesus nada acrescentou. Sacou de um pequeno bloco de apontamentos de dentro das suas vestes e começou a tirar algumas notas. Dirigiu-se novamente a ele:
— Preciso de saber se são praticantes.
— Praticantes de quê?
— Da fé cristã, naturalmente.
— Ah, sim! Sempre que possível...
— Têm os sacramentos todos em dia?
— Todos. Até o casamento!
— Um com o outro?
— Claro!
Jesus nada acrescentou. Sacou de um pequeno bloco de apontamentos de dentro das suas vestes e começou a tirar algumas notas. Dirigiu-se novamente a ele:
— Preciso de saber se são praticantes.
— Praticantes de quê?
— Da fé cristã, naturalmente.
— Ah, sim! Sempre que possível...
— Têm os sacramentos todos em dia?
— Todos. Até o casamento!
— Um com o outro?
— Claro!
— Assim sendo, e dado que não precisam da intervenção, pagam apenas a deslocação.
— Como?!
— São 25 euros.
— Ahn?
— Ahn?
— Por pessoa.
— ...
— Cash.
quarta-feira, 28 de março de 2012
Os romanos dos tempos hodiernos
«Os impérios do futuro são os impérios da mente»
Winston Churchill
Como é sobejamente conhecido, os romanos deram contribuição valiosa para o desenvolvimento deste nosso mundo em muitas áreas relevantes. Entre outras, aprimoraram a Arquitetura, o Direito, a Literatura, os Banquetes, as Orgias, mas, na minha imodesta e pouco isenta opinião, deixaram a Matemática relegada para segundo — ou até menos honroso — plano.
A prova de que os romanos não deram o devido contributo para a Matemática está, desde logo, na forma estranha — e pouco útil — como representavam os números. Não por representá-los através de letras, pois isso até é coisa que qualquer matemático ainda hoje faz — e aprecia — com muita frequência, mas pela lógica subjacente. Ou pela falta dela, para ser mais exato.
Para que se convença da pouca conveniência da numeração romana, pegue numa folha de papel, escreva dois números e tente multiplicá-los recorrendo apenas a esse sistema de numeração. Escolha números grandinhos para não cair na tentação de usar as suas habilidades de cabeça formatada pela numeração decimal. CMXII vezes DXLIV, por exemplo. Eu demorei alguns minutos e não estou absolutamente seguro de que não trapaceei com conhecimento extra do sistema decimal. Nem de que o resultado está certo.
Mas não precisávamos de ir tão longe. Mesmo o simples ato de comparar dois números em numeração romana é muito pouco intuitivo. No sistema de numeração árabe, basta um relance de olhos sobre dois quaisquer números para que rapidamente se tenha a noção de qual deles é maior. Os tais 912 ou 544, por exemplo. Claro, não é? E se eu tivesse escrito CMXII ou DXLIV? Continuaria a ser claro, mas seguramente um pouco mais demorado.
Pois eu sinto que retrocedemos ao tempo dos romanos de todas as vezes que me é dado a saber o que pensam elas.
Dada a importância das visadas, é de todo pertinente que eu abra — e feche — um parágrafo extra só para dizer o que me vai na alma. Infelizmente, hoje em dia são elas que mandam em tudo. Elas tomaram as rédeas do mundo e controlam-nos todos os passos. Mesmo os passos sem coelho. E delas não se espere sentimentos de compaixão, pois regem-se por uma pretensa objetividade que não se compadece com o sofrimento. O alheio, naturalmente.
Refiro-me às agências de notação financeira. De tempos a tempos, brindam-nos com os resultados dos seus aturados e profundos estudos sobre como se encontram determinadas componentes deste nosso mundo — quiçá também do outro, mas sobre isso ainda não tenho dados. Ou talvez, melhor dizendo, estudos sobre como essas agências querem que se encontrem determinadas componentes do mundo. Não foram nada perspicazes a prever descalabros passados, menos ainda detetam os presentes, mas são tidas como verdadeiros oráculos dos políticos atuais — exceção feita a Cavaco Silva (o atual, não o de há um ano) que até diz que nunca foi político — e os seus ditames condicionam-nos inexoravelmente o futuro.
E, para que as componentes do mundo que elas preferem ver no lixo não descubram facilmente o quanto já estão lixadas, inventaram uma notação quase tão pouco intuitiva quanto a numeração romana. Pela Moody's, Portugal está agora classificado com Ba3. Parece que não é lá grande coisa. Para ser sincero, sem estudar melhor a notação, nem sei muito bem o que esperar a seguir. Só espero que, ao contrário do Império Romano, o delas leve pouco tempo para entrar em colapso!
quarta-feira, 21 de março de 2012
Foi bom?
Talvez fruto de uma maturidade conferida pelos seus já quase 40 anos de idade, o mesmo Afonso que em tempos tivera o descaramento de lutar contra a sua própria mãe, começava agora a dar mostras de uma sensibilidade — ou insegurança, quem sabe — que anos antes teria sido difícil de se lhe reconhecer.
Depois de conquistado o castelo escalabitano, Afonso tomou para si a moura mais encantadora do imenso grupo de jovens desamparadas e recolheu com ela aos seus improvisados aposentos. Seria natural que, após uma noite na qual saciou a seu bel-prazer as mais profundas necessidades de homem no ativo, Afonso recompusesse as vestes, colocasse a espada à cintura e saísse para reunir as tropas. Os preparativos com vista à grande conquista de Lisboa, já a poucas dezenas de léguas de distância, assim o exigiam.
No entanto, na hora de se afastar do circunstancial leito de conquistas íntimas, Afonso hesitava. Contemplava a bela moura ainda deitada, qual troféu arrebatado pelo lado pessoal deste multifacetado e bem-sucedido conquistador. Mas para Afonso não bastava. Precisava de saciar no íntimo aquela que ultimamente se tornara uma dúvida tão frequente quanto a sua necessidade de satisfação corporal.
Os seus parcos conhecimentos em língua árabe nem por sombras lhe permitiam questionar a jovem moura — e menos ainda entender o que quer que ela lhe pudesse responder. Por gestos, tornava-se ainda mais difícil. Restava-lhe uma única possibilidade. Mandou chamar o entendido em língua árabe e transmitiu-lhe a pergunta que deveria ser feita. De imediato, o tradutor, sem grandes rodeios, inquiriu-a: كان من الجيد؟
Afonso nem precisou de esperar pela tradução da resposta. O afirmativo menear de cabeça da jovem e o generoso sorriso que lhe acompanhou o gesto foram mais do que suficientes para o seu necessário esclarecimento. Afonso sentiu-se mais confiante do que nunca!
(O resultado foi bom!)
quarta-feira, 14 de março de 2012
Pequenos gestos
Tenho um amigo (Renato, nome fictício) que visitou o Japão (nome não fictício). Durante essa visita foi ciceroneado por uma jovem japonesa (Yuki, creio que o nome é fictício) que o acompanhou para todo lado — onde a presença da jovem fosse recomendável. À entrada (ou saída, tanto faz) de um restaurante, o Renato franqueou a porta para que a Yuki passasse. Apesar da cavalheiresca insistência do Renato, a Yuki recusou-se terminantemente a passar antes do cavalheiro. O relativismo cultural é algo muito complicado na vida de um viajante.
Tenho uma amiga (Marcela, nome fictício) que visitou a França (nome não fictício). À entrada de uma loja, um cavalheiro francês (Maxime, nome provavelmente fictício) franqueou a porta para que a Marcela passasse. A Marcela já tinha avançado alguns metros dentro da loja quando sentiu a mão do Maxime tocar-lhe o ombro. Virou-se. E escutou do Maxime, num tom de simultâneo ensinamento e reprimenda, um claro «merci». Por distração (ou falta de à-vontade para raspar o r na garganta) a Marcela não tinha agradecido a gentileza com o devido «merci». E o pseudo-gentil Maxime fez questão de lembrá-la disso. Noblesse oblige.
Eu mesmo (Josué, nome ligeiramente fictício) visitei a Bulgária (nome não fictício) num tempo em que o sistema comunista já definhava. Dada a escassez e baixo preço dos bens, pela primeira vez na vida o pobre Josué poderia ter-se sentido (mas não sentiu) exageradamente endinheirado. Excetuando as belas e elegantes garotas búlgaras, o Josué comprava tudo que lhe agradava. Numa barraca de artesanato, por gestos, tentava fazer com que um ancião entendesse o produto (exposto por detrás de si) que o Josué pretendia comprar. O diálogo gestual não estava fácil. Em dado momento, o ancião soltou uns impropérios (julga o Josué) e encerrou a barraca. Mais tarde o Josué veio a saber que, na Bulgária, em termos de cabeça meneada, «sim» e «não» são gestos opostos aos da Europa Ocidental.
***
Tenho uma amiga (Marcela, nome fictício) que visitou a França (nome não fictício). À entrada de uma loja, um cavalheiro francês (Maxime, nome provavelmente fictício) franqueou a porta para que a Marcela passasse. A Marcela já tinha avançado alguns metros dentro da loja quando sentiu a mão do Maxime tocar-lhe o ombro. Virou-se. E escutou do Maxime, num tom de simultâneo ensinamento e reprimenda, um claro «merci». Por distração (ou falta de à-vontade para raspar o r na garganta) a Marcela não tinha agradecido a gentileza com o devido «merci». E o pseudo-gentil Maxime fez questão de lembrá-la disso. Noblesse oblige.
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Eu mesmo (Josué, nome ligeiramente fictício) visitei a Bulgária (nome não fictício) num tempo em que o sistema comunista já definhava. Dada a escassez e baixo preço dos bens, pela primeira vez na vida o pobre Josué poderia ter-se sentido (mas não sentiu) exageradamente endinheirado. Excetuando as belas e elegantes garotas búlgaras, o Josué comprava tudo que lhe agradava. Numa barraca de artesanato, por gestos, tentava fazer com que um ancião entendesse o produto (exposto por detrás de si) que o Josué pretendia comprar. O diálogo gestual não estava fácil. Em dado momento, o ancião soltou uns impropérios (julga o Josué) e encerrou a barraca. Mais tarde o Josué veio a saber que, na Bulgária, em termos de cabeça meneada, «sim» e «não» são gestos opostos aos da Europa Ocidental.
quarta-feira, 7 de março de 2012
O quarto elemento
Napoleão Bonaparte
Pedro entra no gabinete de Gaspar e diz com ar grave:
— Estou muito preocupado.
— Preocupado com o quê?
— Com os indicadores.
Gaspar observa as mãos de Pedro e, calmamente, faz um reparo:
— Não vejo nada de anormal. Que têm os teus indicadores?
— Essas tuas piadas... Não me refiro a esses, obviamente.
— Então referes-te a quais?
— Aos indicadores financeiros.
— Preocupas-te demasiado com coisas que têm solução fácil.
— Tu e as soluções fáceis...
— Se quiseres complicadas também as arranjo.
— O problema não está em as soluções serem fáceis ou complicadas.
— Então onde está o problema?
— Está em não podermos aumentar impostos de todas as vezes que há desvios colossais.
— E quem é que falou em aumentar impostos?
— As tuas soluções têm passado muito por aí.
— Mas não menosprezes a minha capacidade de inovar!
Pedro começa a dar mostras de alguma impaciência com o enrolar da conversa:
— Diz lá rápido que solução tens desta vez.
— Calma, muita calma. Se é para falar rápido não contes comigo.
— Está bem. Eu fico calmo. Mas que solução tens tu?
— Elementar, meu caro Pedro. Conheces os quatro elementos?
— Os quatro elementos?!
— Terra, fogo, água e ar...
— Conheço, claro. Mas de que nos valem os quatro elementos? Alguma solução esotérica?
— Nada disso!
— Então?
— Ora vejamos: já temos impostos sobre a terra.
— Vários: IMI, IMT, portagens...
— Já temos impostos sobre o fogo.
— Sim, sobre os combustíveis. Dos mais altos da Europa.
— Já temos imposto sobre a água.
— E está tão cara que não é prudente aumentar o imposto.
— Falta-nos um imposto sobre o ar!
— Como assim? Queres taxar o ar?!
— Ora, toda a gente respira e ninguém paga imposto por isso.
— Mas isso é viável?
— Claro que é!
— Não estou a ver como. Que fazemos a quem não pagar? Não temos como cortar o serviço.
— Isso não. Mas podemos mandar amordaçar os inadimplentes. Com a vantagem de ficarmos com menos gente para reclamar e ainda darmos um estímulo à produção de mordaças.
— Colossal!
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Brassica napus
Estas vicissitudes agrícolas trazem-me por vezes ao pensamento uma conjunção interessante: uma viagem de carro pela Alemanha e uma canção do Fausto Bordalo Dias. Nessa tal viagem (primaveril) realizada há alguns anos pude constatar como era notório o contraste entre o aproveitamento dos campos alemães e dos baldios portugueses. Relegando questões de soberania, saúde democrática e brio patriótico para segundo plano, arriscaria até afirmar que se o atual tutorado germânico sobre os inimputáveis governantes lusitanos tivesse sido implementado antes mesmo do começo do desmantelamento da nossa agricultura (e pescas, por que não), talvez a pouco enobrecedora supervisão financeira de hoje em dia não impusesse um garrote tão apertado sobre estes desgovernados portugueses. Outro mal que teria vindo por bem...
No meu périplo pela Alemanha foi grande o deslumbramento com o colorido dos campos nessa época do ano, num tom de amarelo vivo, em vasta área do território por mim percorrido. Não sendo eu um grande especialista em assuntos agrícolas, também não sou propriamente aquilo a que se possa chamar de um nabo. E das culturas de grande escala por mim conhecidas, não via nenhuma com o dom de conferir tamanho colorido amarelo à paisagem. A curiosidade foi aguçando o espírito. Aguçou tanto que se tornou insustentável: tive que parar o carro e acercar-me para inspecionar de perto a planta.
Dentre o rol de plantas catalogadas na minha (nem tão reduzida) memória agrícola, a que mais se assemelhava ao que eu acabava de observar era a couve-nabiça. Não pude conter uma interjeição de espanto, pois dos meus (também nem tão reduzidos) conhecimentos em culinária germânica não constava uma especial predileção dos alemães por uma das preciosidades da cozinha portuguesa: os grelos. Se curioso parei o carro, mais curioso arranquei.
Só uns dias mais tarde, já com a ajuda de amigos mais cultos do que eu em agricultura, vim a saber que o que conferia aquele tom de amarelo vivo aos campos alemães era efetivamente uma planta chamada brassica napus, também designada por colza ou couve-nabiça! De acordo com fonte de conhecimento wikipédico, trata-se de «uma planta de cujas sementes se extrai o azeite de colza, utilizado também na produção de biodiesel. As folhas da planta servem também de forragem para o gado (pelo que é cultivada em muitos países) por seu alto conteúdo em lípidos e conteúdo médio em proteínas».
Ah, já me esquecia: a canção do Fausto é aquela onde a dado trecho ele canta «se não há grelos no mercado, há bons nabos no hemiciclo».
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