quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O catalisador

Dois amigos conversam sobre o impasse na vida sentimental de um deles.
— Estamos em ponto morno.
— Em ponto morno?
— Sim. Não aquece nem arrefece.
— Tu e a Nini já namorais há demasiado tempo!
— Pois, desde a adolescência...
— Precisais de um catalisador.
— De um quê?!
— De um catalisador. Algo que provoque reação. Um ingrediente extra.
— Talvez... Mas o quê?
— Deixa ver... A Nini é ciumenta?
— Já foi. Agora nem isso para aquecer!
— Então há que provocá-la.
— Mas como?
— Há diversas possibilidades. Vamos pela mais simples: convives com amigas da Nini?
— Várias.
— Alguma especialmente interessante?
— A Odete!
— Como é essa Odete?
— Um espetáculo! Bonita, inteligente, carinhosa...
— Namora?
— Há tempo que não.
— Então vai ser ela o catalizador.
— Como?
— Faz-lhe uns elogios à frente da Nini. Mostra-te deferente com a Odete. Enaltece-a. Se ela retribuir um pouco, melhor ainda!
— Achas que isso resulta?
— Não sabes como são as mulheres!

Passadas algumas semanas.
— Então, resultou?
— Nada!
— Porquê?
— Vê o meu azar: logo depois que conversei contigo, fui encontrar-me com a Nini. Imagina a primeira coisa que ela me disse.
— O que foi?
— Que a Odete começou a namorar!
— E daí?
— Desde então a Odete nunca mais esteve connosco; não pude catalisar ciúme nenhum!
— Catalisavas com outra, pá! Não convives com outras amigas da Nini?
— Conviver convivo, mas com nenhuma como a Odete! A Odete é realmente muito especial. Vê-la e ouvi-la é deleitar os sentidos! E as formas? E a forma como se expressa? Tão harmoniosa e perfeita como um noturno de Chopin num quadro de Renoir. Ando triste só de pensar que caiu nos braços de um fulano!

O amigo não disse mais nada. Ficou a pensar. Sentindo-se, ele mesmo, um catalisador.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Considerações em abstrato

«A única desculpa para se fazer uma coisa inútil 
é admirá-la imensamente. Toda a arte é inútil»
Oscar Wilde

Havia já alguns anos que não vendia — apesar de me pagarem cada vez menos, ainda sou pago — aulas a alunos do primeiro ano de uma licenciatura. Talvez fruto de um mundo assustadoramente imediatista, noto esses alunos cada vez mais vocacionados para a aquisição de rotinas na resolução de exercícios e pouco recetivos para aquilo que a Matemática lhes pode transmitir de melhor: a arte de (bem) pensar. Não se tratando, obviamente, de uma característica exclusiva da área, é inegável que a Matemática é especialmente apetrechada para fazer desenvolver nos alunos a capacidade de pensar em abstrato e aprimorar o pensamento lógico-dedutivo. E, sejamos objetivos, por muito que se tenha apego a grandes números, gráficos ou fórmulas aplicadas, ainda é com base no pensamento humano que se dão os maiores avanços no conhecimento.

Excetuando raras e honrosas exceções, por maior que seja o gosto e o contacto com a Matemática no ensino secundário, é apenas na universidade que os alunos se deparam pela primeira vez com aquilo a que verdadeiramente se poderá chamar de uma prova matemática. Parece-me ser esse um aspeto que não pode nunca ser descurado na formação de um aluno nesta fase. A mudança de paradigma quanto à forma como deve ser encarada a Matemática exige também dos professores uma certa perseverança, especialmente quando se trata de alunos já com o pensamento formatado em moldes que menorizam o pensamento abstrato. Não se tratando de alunos de uma licenciatura em Matemática, maior é a renitência para a aceitação de aspetos teóricos ou conceitos mais abstratos da Matemática.

Utilidades e necessidades à parte, por mais fantástico que seja um resultado em si, reside frequentemente na explanação das ideias em torno da sua prova uma beleza que muitas vezes só encontra paralelo na arte.

Longe de mim querer comparar o meu sorriso ao da Julia Roberts — e perdoem-me se vislumbram em mim tal heresia! —, mas ocorre-me a propósito destas considerações uma associação com o filme «O Sorriso de Mona Lisa», no qual Julia Roberts desempenha o papel de uma professora de arte numa universidade americana nos anos 50 do século passado. Não sendo eu um especialista em cinema que possa basear as minhas opiniões em padrões de grande erudição cinematográfica, os filmes quase sempre me fascinam por pequenos detalhes. Um diálogo, uma sequência de imagens, uma trilha sonora ou um bom desempenho verbal ou corporal — especialmente feminino — são os aspetos que frequentemente me fazem reter um filme na lembrança. 

No caso específico de «O Sorriso de Mona Lisa», há vários pontos de interesse: os questionamentos sobre o que se pode considerar ou não arte, sobre o que é ou não boa arte ou até mesmo sobre o sentido da formação universitária na vida de uma mulher naquela época. Marcou-me especialmente um pequeno diálogo entre a professora e as suas alunas, quando estas foram apresentadas a uma enorme tela de Jackson Pollock:
— Por favor, não me diga que temos que escrever uma redação sobre isto, — diz com desdém uma das alunas, transmitindo o que parecia ser uma opinião generalizada. Ao que a professora contrapõe:
— Façam-me um favor. Aliás, façam um favor a vocês mesmas: parem de falar e olhem! Não é exigido que escrevam uma redação. Nem tão pouco é exigido que gostem dele. O que é exigido é que o considerem!

Aí mesmo reside um dos pontos importantes de tudo isto. Independentemente do gosto, da necessidade ou da utilidade que possam ter, há certas coisas que, em algum momento da nossa formação, deveríamos ser levados a considerar.

Eu mesmo, só muito tardiamente fui levado a considerar as pinturas de Jackson Pollock. Tardei, mas felizmente cheguei a um dos pintores que hoje em dia mais me apraz. A tal ponto de, na minha última visita a Nova Iorque, ter gasto parte significativa das minhas quatro ou cinco horas no MoMA a considerar várias telas de Pollock. E cheguei até ele por linhas muito travessas: através do trabalho de Richard Taylor, um físico australiano, no qual é estudado a evolução da dimensão fractal das pinturas na fase gotejada de Pollock, deixando em evidência a crescente complexidade no emaranhado dos seus traços. Grandes reflexões surgiram na época sobre a intencionalidade dessa crescente complexidade. Em particular, uma associação com a Teoria do Caos, que na época debutava como teoria matemática, levou a revista Time a publicar uma matéria sobre o trabalho de Pollock intitulada «Chaos, damn it!». Curiosamente, esse mesmo Caos que hoje em dia é frequentemente utilizado como chamariz para diversas exposições matemáticas, foi na época utilizado de forma bastante pejorativa. Ao ponto de Pollock ter publicado na mesma revista uma resposta sob o título «No Chaos, damn it!».

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Imaginação e sensibilidade


«Nas mulheres, a imaginação e 
a sensibilidade sobrelevam a lógica»
Marie de Vichy-Chambord

Diálogo entre duas amigas num fim de tarde em frente ao mar:
— que bom estar aqui
— e ter um homem em casa
— que vai buscar as crianças ao infantário
— e dá-lhes banho
— e a sopinha
— e deita-as para dormir
— e prepara um bom jantar
— e um banho de sais com espuma
— e dá-me banho
— e comemos
— e volta a dar-me banho

«Outro banho?!», pensa a amiga com ar de intrigada. Diz «ah, sim!» e prossegue:
— e jantamos
— e arruma a cozinha
— e chama-me para dançar Cheek to Cheek
— e recita a Elegia XIX de John Donne
— e massageia-me antes de dormir
— e acorda mais cedo
— e prepara o pequeno-almoço
— com crepes caseiros e sumo de laranja espremida
— e leva o pequeno-almoço à cama
— e acorda-me com um beijo
— e desperta as crianças
— e dá-lhes banho
— e o pequeno-almoço
— e leva-as para a escola

Ficam alguns segundos em silêncio.
— o teu homem é assim?
— não, e o teu?
— também não
— achas que há algum homem assim?
— acho que não
— pois...
— está na hora de irmos buscar as crianças!

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O amor à porta

A interdição de fumar em bares e restaurantes foi interpretada pelo Matias, que fuma, como uma excelente oportunidade para as suas investidas de homem faminto. Por força das circunstâncias, rapidamente descobriu que a porta de alguns bares e restaurantes tinha passado a ser o local mais apropriado para a prospeção de comida.

Foi assim que conheceu a Lurdinhas. Antes ainda do Matias se ter levantado para ir à porta fumar — depois que a viu a Lurdinhas fazer o mesmo —, já os olhares deles se tinham cruzado dentro do restaurante. Inevitavelmente, também as palavras se cruzaram à porta do restaurante. Fluíram de tal forma que o Matias e a Lurdinhas acabaram por fumar vários cigarros de uma assentada antes de retornarem às respetivas mesas. E no telemóvel de cada um veio já registado o contacto telefónico do outro e fotos tiradas para anexarem aos contactos.

Além do vício comum pelo tabaco, nessa mesma noite começaram a desenvolver o vício um pelo outro. Três dias depois — praticamente dois, se levarmos em conta que as primeiras palavras foram trocadas à porta do restaurante já perto da meia-noite— já estavam a morar juntos. A química da nicotina fez disparar a química do amor. Um caso flagrante de amor à primeira vista — ignorando o detalhe dos olhares do Matias e da Lurdinhas já se terem cruzado no interior do restaurante, claro está.

Nove meses depois nasceram gémeos. Um menino e uma menina. Nicolau e Albertina. Nico e Tina, mais carinhosamente. Asseguram que os nomes surgiram de forma natural — tão natural como o amor instantâneo que os uniu — como consequência de gostos surpreendentemente coincidentes, mas há quem note nas escolhas implícita homenagem à substância viciante que os aproximou.

Um mínimo de respeito pelo Nico e pela Tina fez com que, após os nascimento, o Matias e a Lurdinhas tivessem deixado de fumar dentro de casa. Passaram a fumar à porta do prédio. Ou, quando achavam que ouvir os impropérios do vizinho de cima era menos incómodo do que ter que descer até à porta do prédio, fumavam à janela.

Moral da história: esta história não tem moral nenhuma! Chega a ser um péssimo exemplo para os mais jovens, pois deixa em evidência vantagens sentimentais provenientes do vício do tabaco, menciona — ainda que ao de leve — caso de dependência humana e, como se isso não bastasse, ainda descreve — sem qualquer tipo de censura — situação comportamental que dá origem a má convivência entre vizinhos!

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Oportunidades oportunísticas

O atual primeiro-ministro português disse há uns meses que o desemprego podia constituir uma excelente oportunidade para mudar de vida. E pode. Só não deixou claro se considerava a oportunidade excelente para aqueles que caíam no desemprego. Desconfio que não.

O facto não é novo. Os abutres, por exemplo, vêem numa carcaça uma excelente oportunidade para algo tão básico como a sua própria sobrevivência. Também os trágicos acontecimentos do 11 de setembro de 2001 constituíram uma excelente oportunidade para as entidades responsáveis pela gestão de aeroportos aumentarem de forma absurda as taxas aeroportuárias. Supostamente, por causa dos encargos inerentes a regras de segurança mais apertada.

Teoricamente aceitável. Quanto à prática, talvez eu não esteja a ver bem o problema — é até bastante provável que tenha uma mente demasiado maquiavélica—, mas sempre que transito em aeroportos fico com a sensação de que as tais regras de segurança mais apertadas são muito incómodas — e onerosas — para passageiros inofensivos e continuam a ser facilmente contornáveis por sujeitos mal intencionados.

Ora vejamos. Após o 11 de setembro ficou interditado o transporte na bagagem de mão de objetos que possam constituir ameaça à integridade física da tripulação. Em particular, canivetes, tesouras, corta-unhas e limas estão liminarmente proibidos. Contudo, apesar de uma garrafa de vidro bem quebrada e segura pelo gargalo poder constituir uma arma mais eficiente do qualquer uma das armas brancas que eu acabei de citar, elas continuam a ser vendidas em qualquer aeroporto que se preze. Sim, eu sei que o negócio das bebidas e perfumes em aeroportos é muito rentável e não deve ser afetado. Deve-se zelar pela segurança, mas sem prejudicar a atividade económica!

Nestas questões de controle aeroportuário, assim como em qualquer sistema de regras muito restritivas, dependendo da rigidez de quem controla, podem facilmente surgir situações absurdas. Uma das que presenciei foi no aeroporto de Lisboa, no rastreio da bagagem de mão para um embarque rumo ao Porto. Passou-se em meados da década passada, portanto, já uns anos depois do traumático — especialmente para os noviorquinos — 11 de setembro. Uns metros à minha frente, uma senhora mostrava-se indignada com um segurança totalmente inflexível: a senhora não podia embarcar com um pequeno pote — talvez acima dos 100ml permitidos para líquidos — de creme das mãos. Não bastava à senhora que aquilo fosse considerado líquido perigoso como, dizia ela, «venho de Nova Iorque e lá ninguém implicou com isto!»

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

P C de A a Z

Aldrabão
Batoteiro
Covarde
Demagogo
Enganador
Falso
Galãzinho
Hipócrita
Incompetente
Jotinha
Logro
Mentiroso
Néscio
Oportunista
Pérfido
Quadradinho
Rasca
Sonso
Teimoso
Usurpador
Vaidoso
Xacoco
Zero

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Três príncipes tristes

Durante a semana passada estive na província espanhola que dá nome ao título do príncipe herdeiro da coroa real — as Astúrias. Apesar de lá, como cá, a crise e as medidas de austeridade estarem na ordem do dia, grande destaque noticioso nos média espanhóis estava a ser dado ao nosso príncipe. Não, não estou aqui como português em estado de orfandade monárquica ansiando por uma coroa, num assomo de patriotismo transibérico, a referir-me ao Príncipe das Astúrias. Refiro-me, isso sim, ao Príncipe de Madrid, aquele que vende os pontapés que dá numa bola a peso de ouro e anda triste. Serviu a tristeza do Príncipe de Madrid para que amigos espanhóis, num momento de alguma erudição literária e bom humor, me tivessem dado a conhecer (parte de) um poema de Rubén Darío:
«La princesa está triste..., ¿qué tendrá la princesa?
Los suspiros se escapan de su boca de fresa,
Que ha perdido la risa, que ha perdido el color.
La princesa está pálida en su silla de oro».
Na viagem de volta ao Porto, já em território nacional, tive a oportunidade de seguir, via rádio, o discurso de outro príncipe português: o de Massamá. Esse discurso — horas mais tarde complementado com umas notas tristes na sua página do Facebook — provocou-me também uma associação literária: «O Príncipe Sapo», dos irmãos Grimm. Não duvido nada que, volvido pouco mais de um ano sobre a eleição do aperaltado e bem-falante Príncipe de Massamá, muitos dos seus eleitores o vejam agora como uma espécie de personagem dos irmãos Grimm, mas evoluindo ao contrário: se no famoso conto de fadas é o sapo que se transforma príncipe, neste nosso triste conto de fadas — ou de fados, quem sabe, talvez até com as vogais trocadas — é o Príncipe de Massamá que se transforma em sapo.

Num pequeno aparte, o meu pedido de desculpas a todos os sapos por esta infame associação, pois não vi até hoje na literatura científica nenhum relato sobre a existência de sapo aldrabão, prepotente ou cínico.

Voltando ao conto dos irmãos Grimm. Tanto quanto sei, a versão atual está um pouco polida em relação à original. Na versão original o sapo não se transformava em príncipe quando a princesa lhe dava um beijo, mas sim quando o atirava contra uma parede. Penso que no caso do Príncipe de Massamá, e para que se dê sequência ao triste conto de fadas ao contrário, é chegada a hora dos seus eleitores o atirarem contra alguma parede para que ele encarne na sua condição de sapo. E, para que de futuro não tenhamos que engolir muitos sapos, que se guarde como lição deste conto de fadas ao contrário, que por debaixo de um príncipe de falas mansas, sorrisos simpáticos e cabelos bem pinteados pode estar um tremendo sapo.

Nestas minhas alusões a príncipes, ilusões e tristezas do Portugal contemporâneo, não podia deixar de fazer uma breve referência ao Príncipe de Paris. Aquele que, após seis anos nos quais nos enredou em complexas teias de engenharia civil e financeira, resolveu recolher-se para estudos filosóficos em Paris. Tem estado adormecido, mas imagino que também esteja triste. E já que o momento é de associações literárias, o que me ocorre quando penso no Príncipe de Paris é «A Bela Adormecida Vai à Escola», de Torrente Ballester.


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Não é nada do que você está a pensar!

É certo, sabido e quase universalmente aceite que o sofisticado sistema de desconfiança feminino não necessita de muitos indícios — por vezes nem de indícios necessita — para lançar os seus primeiros sinais de alerta. No caso da Laurinda, bastaram duas perdizes depenadas. Viu-as nas mãos do Rolando, chegando de mais um fim de semana de caça no Alentejo, que lhe disse enquanto as exibia:
— Não é nada do que você está a pensar!
(Convém aqui assinalar que o Rolando e a Laurinda formavam um desses casais requintados da capital que se tratam por você). Nem a Laurinda sabia ainda ao certo o que estava a pensar e já o seu sistema de desconfiança dava um primeiro sinal de alerta.

Todavia, o Rolando tinha uma explicação para as perdizes que daquela vez apareciam já depenadas: a dona Ilda, proprietária da casa onde costumavam pernoitar ele e o Pina — eterno companheiro dos fins de semana de caça —, prontificara-se para depenar as perdizes que ambos tinham caçado, e eles, por cortesia, aceitaram. Com esta explicação o índice de desconfiança da Laurinda baixou um pouco, mas nem por isso voltou ao desejável nível zero. Obviamente.

Tempos depois sugiram novos indícios: espetadas nas perdizes — que nunca mais voltaram a chegar com penas em casa — a Laurinda detetou as chapinhas metálicas de algum controlo de qualidade. Sem ter reparado nesse detalhe — e, por conseguinte, sem ter pensado numa explicação —, e antes que a Laurinda pensasse coisas, o Rolando mais uma vez se adiantou:
— Não é nada do que você está a pensar!
— Que explicação tem para isto? — questionou a Laurinda em evidente tom de desagrado.
O Rolando hesitou por breves instantes e, ainda que de forma insegura, avançou com uma possível explicação:
— Isso deve ser coisa dos ecologistas!
— Dos ecologistas?!
— Sim! Não andam por aí a catalogar tudo que é animal selvagem?
— E a dona Ilda?
— A dona Ilda o quê?
— Não tirou as chapinhas?
— Se calhar teve receio de desrespeitar a catalogação ecológica.
— Rolando, Rolando, não tente enganar-me!
— Não tento enganar nada, estou apenas a tentar encontrar uma explicação.

No fim-de-semana seguinte a Laurinda agiu. Quando na sexta-feira, ao fim do dia, o Rolando saía da garagem do prédio onde moravam, ausentado-se para mais um fim de semana de caça, a Laurinda entrava num táxi que já a esperava em frente à porta principal do prédio, e pedia ao taxista para seguir o carro do seu marido. O sentido de orientação nunca foi um ponto forte da Laurinda, mas ela jurava que se o destino era o Alentejo, no nó de Sacavém deviam tomar a direção da ponte Vasco da Gama, nunca a direção oposta!

Cerca de meia hora depois o Rolando parava o seu carro em frente à casa de praia do Pina, na Ericeira. E o táxi que transportara a Laurinda parava umas dezenas de metros atrás. Depois que o Rolando entrou na casa, a Laurinda saiu do táxi.

Finalmente tudo ficara claro para a Laurinda: era aqui, na casa de praia do Pina, que o Rolando passava os fins-de-semana; era aqui, na casa de praia do Pina, que certamente se davam encontros íntimos de elevado grau, sabe deus com que espécie de mulheres! A Laurinda devia ter desconfiado — o sistema de desconfiança feminino é sofisticado, mas não é infalível — que, depois de divorciado, o Pina podia tornar-se uma má influência para o Rolando.

A Laurinda conhecia bem aquela casa dos tempos em que ela e o Rolando passavam fins de semana com o Pina e a sua ex-mulher. Entrou no jardim e foi, pelas traseiras, espreitar à janela da cozinha. Lá viu, de costas, uma mulher com longos cabelos loiros e sapatos de tacão alto. E junto a essa mulher, em clara situação de comprometedora proximidade íntima, o Rolando. A Laurinda respirou fundo e entrou na cozinha. Ao aperceber-se da inesperada aparição da mulher, o Rolando imediatamente disse:
— Não é nada do que você está a pensar!
E não era, de facto. Só uns segundos depois a Laurinda se apercebeu que debaixo dos longos cabelos loiros e em cima dos sapatos de tacão alto se encontrava o Pina.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Português de férias

As férias foram ótimas. Tivemos um ligeiro atraso no voo da ida, mas o lounge da companhia aérea era muito bom — é por essas e por outras que evito viajar em charter ou low cost. Isto de ter o frequent flyer na categoria silver — quem sabe um dia chego a gold! — também tem as suas vantagens. Além do acesso ao lounge, o check-in é muito mais rápido e nunca se tem problemas com overbooking.

Compramos viagens, hotel e carro tudo num pack. Agora há sites com links para todas essas coisas. Quando chegamos lá foi só apresentar na rent-a-car o voucher que me foi enviado por email, pegar o carro no parking e sair. Nem precisámos de utilizar o serviço de transfer do shuttle para o hotel. Por sorte, fizeram-nos upgrade para um carro com GPS, bluetooth, cruise control e entrada USB para o iPod! Carro diesel.

Tivemos um pequeno contratempo no primeiro hotel. A culpa foi minha, pois por engano reservei quarto single em vez de double. Mas logo me deram a escolher entre uma suite ou um quarto com camas twin e o problema ficou resolvido. Procedimento standard.

Por lá vimos vários shows, alguns em festivais alive. Quando não eram free íamos à net e comprávamos tickets online com o cartão de crédito. Numa das vezes tive problemas no checkout para o pagamento e liguei para o call center. Disseram-me que provavelmente era falta de crédito no cartão. Entrei no moblie banking e constatei que era mesmo. Resolvi facilmente o problema aumentando o plafond do cartão.

Só ficámos em hotéis com wifi, é claro. Fomos fazendo upload de fotos e vídeos para o Facebook e o Google+ através do smartphone ou do tablet — muito mais práticos do que laptops ou notebooks. Fiz download da app de um VOIP que permitia fazer voice calls para a família praticamente free, mas muitas vezes ficávamos só no chat do messenger. Nada de roaming. 

Conhecemos restaurantes fantásticos. Alguns gourmet, outros muito in com bastante glamour, mas por vezes até apetecia coisa mais light. Uns snacks e pronto. Não somos preconceituosos com a fast food. Quando andávamos mais de carro, passávamos nalgum drive-in e levávamos comida para o hostel. Nesses dias não exigimos nada de muito chique, um bed & breakfast está OK. Claro que em dias de descanso não dispensamos um bom resort. De preferência com bungalows.

Quanto a roupas, praticamente só bermudas, shorts, T-shirts e polos. Blazers ou pullovers não combinavam com o clima informal e quente. Antes de viajar comprámos peças a ótimos preços no stock-off de um outlet numa megastore do shopping center perto de casa.

Desligamos de tudo isto por cá. Nada de jornais online nem TV — a dependência do router e da box é uma coisa terrível. Não quisemos saber de troikas, rentreés políticas nem jobs for the boys. Ou girls. Em suma, esquecemos o rating da nação e aproveitámos a vida!

Aqui em off: estamos a pensar vender o nosso velho jeep e comprar um carro igual ao da rent-a-car. Em leasing. Tem um design fantástico. Especialmente o tabelier e o capot.  Já passamos no stand da marca e vimos um bordeaux no showroom lindo. Nem precisamos do test drive. Claro que queremos o kit com todos os extras!

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Velocidade relativa

Há dias fiz uma viagem de carro do Porto a Lisboa e vice-versa. Durante o percurso lembrei-me de uma pergunta — em jeito de anedota — que ouvi há uns anos: quais os dois países da Europa cujas autoestradas não têm limite de velocidade? Sendo a resposta — também em jeito de anedota — a Alemanha e Portugal. A Alemanha, porque efetivamente em grande parte das suas autoestradas não há lei que estabeleça limites para a velocidade; Portugal, porque praticamente ninguém cumpre os limites estabelecidos por lei.

Sobre o que a anedota contém de verdade em relação aos restantes países da Europa nada posso atestar, pois não conheço os hábitos de cada povo nas autoestradas de todos os países europeus. No que toca aos portugueses, ninguém duvide que a anedota é puro reflexo da nossa realidade: na tal viagem do Porto a Lisboa e vice-versa coloquei o cruise control do meu carro no limite de 120km/h e não exagero muito se disser que, nos cerca de 600km percorridos, ultrapassei uma meia dúzia de veículos pesados — não eram muitos, pois tratava-se de um fim de semana — e fui ultrapassado por um sem número de veículos ligeiros. Muito ligeiros. Poderia até jurar que alguns deles passaram por mim a uma velocidade — relativa à minha, obviamente — muito próxima dos 120km/h!

Numa primeira tentativa de explicar o fenómeno, poderia avançar com a teoria de que os portugueses correm apressados para tirar o país da crise. Infelizmente, tal não me parece verdade, pois os automobilistas portugueses já conduziam assim quando Portugal era um país próspero. Ou então, que os portugueses, quais parisienses ou novaiorquinos, vivem num frenesim constante. Teoria respeitável, mas, feliz ou infelizmente — ainda não me decidi —, facilmente refutável. Para tal, basta colocar os pés numa escada ou tapete rolante de um qualquer aeroporto ou shopping center. Esse mesmo povo que circula a altíssima velocidade nas autoestradas, chega a uma escada ou tapete rolante e estaca. Mais do que isso, bloqueia a passagem de quem necessita de caminhar mais apressado ou quer aproveitar para se deleitar por breves instantes com passadas de gigante. O que deveria servir para aumentar a velocidade, transforma-se assim num veículo de culto à pasmaceira.

Acima de tudo, fica evidente que o gosto dos portugueses pela velocidade é muito relativo. Bipolar. Oscila entre o ronceiro que se deixa levar à velocidade natural das escadas e tapetes rolantes e o apressado que circula nas autoestradas no limite de velocidade do seu próprio carro. Quiçá o problema do excesso de velocidade nas autoestradas nem seja culpa dos condutores, mas sim um capricho congénito dos veículos. É que, apesar de agora estarmos na pindaíba, grande parte dos carros que circulam nas estradas portuguesas ainda é de alta cilindrada e de origem alemã. Esperemos pelo previsível ajuste no parque automóvel para ver no que isto dá.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O Juvenal está mal

O Juvenal é um típico português de classe média. Típico de um certo tipo de típica classe média, numa idade já algo acima da média.

Casou-se cedo, para ajudar a Adelina a libertar-se das amarras de um pai tirano. É certo que o salário da Adelina como professora primária também ajudou o Juvenal a libertar-se de alguns apertos financeiros, mas não mais do que as vezes em que o azar ao jogo ou algum mau investimento o deixaram de mãos a abanar. Em geral, o Juvenal ganhava o suficiente para as suas despesas. Mas tinha uma atividade de alto risco: era negociante.

Tratou sempre bem a Adelina. Em mais de trinta anos de casados nunca lhe levantou a mão. Nem o pé. Mesmo a voz, não a levantava mais do que uma ou duas vezes por semana. E quanto à falta de levantamentos ficamos aqui, pois nunca a Adelina se queixou da falta de quaisquer levantamentos, apesar de uma certa escassez de tempo, decorrente da atividade profissional do Juvenal: era negociante.

Colaborava nas tarefas domésticas. Descia com certa frequência mensal para despejar o lixo e, enquanto a Adelina não tirou a carta de condução, apanhava-a com as compras na porta do supermercado. Não tinha tempo para outras tarefas: era negociante.

Preocupava-se com a saúde da família. Apesar de nunca ter tido tempo para acompanhar ninguém a consultas médicas. O tempo que se perdia em consultórios não era compatível com a sua atividade profissional: era negociante.

Participou ativamente na criação dos três filhos. Chegou ao ponto de ir a uma reunião de encarregados de educação por causa de um deles. Para ajudá-los nos trabalhos de casa recomendava a Adelina: era professora.

O Juvenal afundava no velho sofá em frente à televisão, onde passara parte significativa do seu tempo em casa — que obviamente nunca fora muito: era negociante —, enquanto afogava as mágoas num copo de verde branco e revia em pensamento estes e outros aspetos da sua vida conjugal. Não conseguia entender. Como podia a Adelina querer a separação após trinta anos de um casamento onde lhe parecia que tinham sido tão felizes? O Juvenal está mal. E invade-o um dúvida cruel: terá ele direito a pensão de alimentos?

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O último trago

Chavela Vargas
Há cerca de uma dúzia de anos tive a oportunidade de descobrir o seu canto sublime num disco do Sabina, através do dueto Noches de Boda com seu amigo Joaquinito.

Posteriormente, tive a oportunidade de vê-la participar no filme Frida, onde, numa aparição fugaz, interpreta de forma magistral La Llorona. Deixou assim a sua marca num filme arrebatador, onde convergem de forma deliciosa diversas formas de expressão artística, a uni-las a vida e a arte da intensa Frida Kahlo.

À medida que fui explorando o seu enorme talento como intérprete musical, fui também ficando apaixonado pela sua forma de cantar dramática e visceral. Quanta alma! Eu, que até cresci musicalmente acostumado à intensidade e ao dramatismo do fado, não exagero se disser que por diversas vezes me deixei arrebatar pela sua forma de cantar.

As suas canções passaram a fazer parte da trilha sonora de vários momentos da minha vida. Dentro do iPod que nos últimos anos transporto quase religiosamente nas minhas viagens, sejam elas a pé de casa até ao trabalho, de carro pela Europa ou de avião até ao Brasil ou China, muitas das suas músicas tornaram-se presença indispensável.

Morre agora o meu sonho de poder vê-la espalhar ao vivo o seu talento e arte sobre algum palco deste mundo. Tomou o último trago de uma vida longa e palpitante, mas deixou a uma enorme legião de fãs inúmeros tragos daquela que foi um dia chamada a voz áspera da ternura.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Aquilo

Em 1977, a vida quotidiana dos portugueses era muito distinta da que temos hoje em dia. Por vezes é difícil acreditar que determinadas coisas que agora acontecem naturalmente, há 35 anos aconteciam ainda de forma bastante condicionada. É certo que Portugal já emergia do longo período de trevas, mas as restrições eram ainda de tal ordem que só no dia do casamento — no final de Julho do referido ano — tanto ele como ela puderam pela primeira vez experimentar aquilo. Estranharam um pouco no começo — ela mais do que ele —, mas rapidamente entranharam. Depois não queriam outra coisa. O calor do verão deixava-os bastante predispostos para aquilo. De manhã, de tarde, de noite, queriam tanto aquilo que já nem conseguiam dormir direito. Chegaram a um estado tal, que só com intervenção médica conseguiram libertar-se da dependência.

Assim como este casal, muitas pessoas em todo o mundo desenvolveram verdadeira dependência por aquilo, apesar de nem sempre terem uma boa experiência inicial. Eu, por exemplo, tive a minha primeira experiência por volta dos 10 anos de idade e devo confessar que na primeira vez não achei aquilo lá grande coisa. Depois, aos poucos, fui-me acostumando e hoje em dia até aprecio bastante. Mas sem exageros. Nunca com dependência.

O que provavelmente os mais jovens não sabem é que aquilo começou a ser desfrutado em Portugal com várias décadas de atraso em relação a muitos outros países. Após uma tentativa frustrada de trazer aquilo para Portugal no final dos anos 20, só em Julho de 1977 começou a entrar no hábito regular dos portugueses. Na tal tentativa frustrada chegou a haver uma campanha publicitária com o slogan concebido por Fernando Pessoa «primeiro estranha-se, depois entranha-se». A proibição surgiu na sequência dessa campanha com base no seguinte raciocínio: se se entranha, tem características de estupefaciente, e portanto aquilo não pode ser permitido em Portugal; se não se entranha, a campanha é enganosa, e portanto aquilo não pode ser permitido em Portugal. Raciocínio do ponto de vista lógico — não mais do que esse, parece-me — perfeitamente inatacável!

Adenda: por manifesta falta de tempo para negociar um contrato publicitário — férias são férias! —, deixei todas as referências àquilo como «aquilo». Se ainda não descobriu do que se trata, pergunte-me em privado (exiladonomundo@gmail.com) que eu terei muito gosto em esclarecer. Apesar da tal falta de tempo, não deixarei nenhuma mensagem sem resposta. Em princípio.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Doutor sem U

Não tenhamos ilusões. Com maior ou menor intensidade, aqueles que exercem a atividade política no planeta que habitamos — refiro-me ao planeta Terra, caros leitores marcianos — praticam o descaramento de forma tão generalizada que não acredito que haja região que se possa considerar imune a essa prática. Isso é o que penso claramente agora, depois de exílios em lugares tão distintos como as Américas do Sul e Norte, Europas do Sul e Norte e Ásia — só do Sul — e, consequentemente, depois de perdidas todas as minhas ilusões quanto à natureza do ser humano nesse aspeto. Mas nem sempre pensei desta forma.

Há quase duas décadas, no meu primeiro exílio brasileiro, tive um dos grandes choques culturais precisamente quando observava o descaramento de muitos atores políticos nas mais altas instâncias do Brasil. Chegava eu de um país onde era primeiro-ministro um homem que cultuava a imagem de sério, bem preparado e íntegro e que, imaginava eu, se fazia rodear por gente do mais elevado quilate moral e intelectual. A imagem que me passava(m) era de tal forma extraordinária a esses níveis que, ao deparar-me com a degradada realidade política brasileira, não conseguia entender como era possível aqueles sujeitos exercerem essa atividade regularmente supervisionada pelo povo sem que se regessem por padrões morais no mínimo semelhantes aos da realidade portuguesa. Realidade essa que era até ao momento essencialmente a única que eu conhecia bem. Bem mal, para ser mais exato.

No Brasil, com um parlamento mais numeroso — em termos absolutos, não relativamente ao número de habitantes — e com parlamentares provenientes de alguns estados com um nível sócio-económico-cultural muito baixo, por vezes surgem personagens muito ricos em vários capítulos, exceto naquele específico para o qual foram eleitos. Atentos à grande diversidade da proveniência e, por vezes, à falta de condições para uma boa formação académica, no Brasil tornou-se corrente titular o sujeito pelo seu relevo na sociedade: doutor — ou dotô, para ser foneticamente mais preciso — é qualquer cidadão que atinge patamar elevado na sociedade, seja por via do bom desempenho económico, do bom desempenho político ou da arte de bem roubar — frequentemente em pelo menos duas das três vias em simultâneo, tanto lá como cá.

Claro que isso tem um reverso da medalha. Especialmente nos meios mais eruditos, onde conseguem fazer a distinção entre um dotô e um verdadeiro doutor, a generalização por vezes pode dar azo a alguma ambiguidade. Eu tive a felicidade de ter estado na origem de uma interessante adenda de esclarecimento. Por razões do foro sentimental, há uns anos circulei com alguma regularidade no meio jurídico — um meio onde geralmente conseguem fazer a tal distinção — de uma grande cidade do nordeste brasileiro e, numa das vezes em que me apresentaram, resolveram fazê-lo com a alusão ao meu grau académico. Doutor com U, esclareceu quase de imediato quem me apresentou, para que não restassem dúvidas.

Atendendo ao valor que a questão ganhou em Portugal, acho que está na hora de introduzirmos também por cá o grau de dotô. E ao senhor Relvas atribua-se desde logo o título — talvez por equivalência aos mais descarados políticos brasileiros— de dotô honoris causa!




quarta-feira, 18 de julho de 2012

Questões de saúde

O Jacinto e o Veiga encontravam-se confortavelmente instalados numa esplanada a bebericar no final de mais um dia de trabalho. Enquanto isso — não sei como ainda há quem diga que os homens não conseguem fazer duas coisas ao mesmo tempo! —, apreciavam o constante fluxo de carros. O Jacinto, mais propenso a meditar sobre questões de alguma — ainda que ténue — índole científica, observa:
— Praí 90% dos carros com casais são conduzidos pelo homem.
— Tudo isso?!
— Ou mais!
— Sociedade muito machista...
— Machista? Pode não ser.
— Não?
— Não! A minha mulher nunca conduz comigo ao lado e não é por uma questão de machismo.
— Então por que é?
— Ela não quer.
— Mas nunca conduziu contigo ao lado?
— Só um pouco no começo.
— E depois?
— Depois não quis mais.
— Aposto que fazias o género de copiloto insuportável.
— Ó pá, tinha que lhe dar instruções.
— Tinhas mesmo?
— Era uma questão de saúde pública!

Por vezes o cinismo de um homem atinge níveis tão elevados que só encontra antídoto no cinismo de outro homem. Diz o Veiga:
— Cá comigo já é diferente: conduzimos a meias.
— A meias?
— Equitativo.
— Não acredito.
— Verdade!
— E qual o critério?
— Praticamente só saímos juntos para restaurantes. Eu levo o carro até ao restaurante, ela trá-lo de volta para casa.
— Ah, está bem... e o machista sou eu!
— Eu seria machista porquê?
— Tu podes beber à vontade e ela não.
— Bom... tu preocupas-te com a saúde pública, eu preocupo-me com a saúde da minha mulher!

quarta-feira, 11 de julho de 2012

O bosão de Higgs



«In physics, you don't have to go around 
making trouble for yourself — nature does it for you» 
Frank Wilczek

Nos últimos dias a Física tem vindo a receber atenção redobrada por causa da provável (ou talvez mais do isso) descoberta do bosão de Higgs. Que o mundo lhe dê o devido crédito e rejubile pela descoberta eu até entendo, não entendo é que em Portugal se dê tanto destaque a um fenómeno que por aqui já era sobejamente conhecido. E digo mais: quanto a fenómenos físicos raros temos muitas outras coisas que o resto do mundo ainda nem sequer desconfia.

De acordo com a teoria, o bosão de Higgs tem a capacidade de fornecer massa às outras partículas. Mas onde é que está a novidade? Em Portugal temos, de longa data, alguns milhões de bosões a fornecer massa para umas quantas instituições particulares. E temos mais. Temos algo que físico nenhum ainda conjeturou: o antibosão. Enquanto que o bosão fornece a massa, o antibosão tem a capacidade de fazê-la desaparecer. Não temos tantos antibosões como bosões — o antibosão vem de uma casta mais privilegiada —, mas sempre vamos tendo alguns notáveis. Dias Loureiro, Oliveira e Costa e João Rendeiro são alguns dos últimos a ser descobertos.

E as novidades não se ficam por aqui. Na Física existe o princípio da incerteza de Heisenberg. É bom conhecê-lo, é bom saber reconhecê-lo, mas não deixa de ser um princípio que atesta uma certa incapacidade. Não seria melhor um princípio que funcionasse pela positiva? Pois nós temos. E há anos que nos rege. Primeiro como primeiro-ministro, agora como presidente da república, Cavaco pauta toda a sua ação com base no princípio da certeza de Silva: eu nunca me engano e raramente tenho dúvidas.

Na Física aceita-se o princípio da conservação da energia. Como o próprio nome indica, trata-se de um princípio bastante conservador. Nós temos um princípio mais expansionista. Talvez fruto de um passado de grandes conquistas, por cá criam-se constantemente condições favoráveis para o princípio da expansão da Energia de Portugal. Começou como uma mera companhia elétrica de um país periférico da Europa, mas com base na mera exploração (até ao tutano) de um mercado relativamente pequeno já tem participações importantes em países como o Brasil ou os Estados Unidos. Expandiu tanto que até os chineses já a acham apetecível.

A última novidade deste país foi a introdução de um buraco negro na cena nacional. Quando historiadores daqui a uns anos se debruçarem sobre a história portuguesa neste período descobrirão algo muito surpreendente: uma constituição que, com maiores ou menores atropelos, vigorou até 2011 e voltará a vigorar apenas em 2013. Em 2012 tem um buraco negro. E não é um qualquer buraquito desprezível, pois tem o tamanho de dois salários para os funcionários públicos!

Os fenómenos físicos da realidade portuguesa são muitos e por demais evidentes, mas para não me tornar demasiado massudo — é suposto que bosões como eu forneçam massa, mas não macem muito — assinalo apenas mais um. Na Física as partículas subatómicas dividem-se em neutrões, protões e eletrões. Nós temos uma extra: o centrão. De lá emanam as forças partidárias que estão no cerne das tramoias que nos enredam todos os dias!

quarta-feira, 4 de julho de 2012

A origem


Talvez para tentar cumprir recomendações pedagógicas que apelam a um ensino mais centrado no aluno, a professora resolveu começar por perguntar aos seus alunos que ideia tinham sobre a origem da espécie humana. O primeiro a intervir foi o Pedro Afonso:
— O meu pai disse-me que descendemos do macaco.
— Fala pela tua família! — contrapôs imediatamente o Carlitos.
— A tua não?! Se calhar descendem das galinhas... — ripostou o Pedro Afonso.
Perante isto, a professora sentiu necessidade de intervir:
— Parem, meninos! — e dirigiu-se novamente à turma: — Alguém concorda com o Pedro Afonso?
— Se calhar são só as pessoas mais peludas... — observou a Tânia.
— É... só os homens... — interveio novamente o Carlitos, em tom de escárnio.
— Os homens e as mulheres! — acrescentou o Pedro Afonso.
— As mulheres?! — perguntou admirada a Tânia.
— Sim, as mulheres depilam-se! — esclareceu o Pedro Afonso.
— Pois pois... mas é só em certas partes... — acrescentou o Carlitos.
Temendo que a conversa entrasse em maiores detalhes sobre temas pouco recomendáveis, a professora resolveu pôr cobro ao diálogo:
— Está bom, já basta desta conversa!
A professora preparava-se para falar-lhes sobre o darwinismo quando reparou que ao fundo da sala se encontrava a Verinha com o braço no ar.
— Fala, Verinha.
— A bíblia diz que descendemos de Adão e Eva.
A professora sabia que esta teoria iria surgir — achou até estranho que não tivesse surgido antes —, e tentou avançar com uma explicação para a verdade dogmática incutida na aluna:
— Trata-se apenas de uma imagem para o poder de Deus sobre a espécie humana.
— Mas não é assim que diz a bíblia!
— Eu sei, Verinha. Mas a bíblia não é para ser interpretada à letra.
— Então é para ser interpretada como?
Pressentindo que não iria ser fácil levar a Verinha a uma leitura menos estrita da bíblia, a professora tentou então convencê-la através da inconsistência:
— Vê bem, Verinha: Adão e Eva tiveram dois filhos.
— Sim.
— Dois meninos.
— Caim e Abel.
— E depois?
— Depois o quê, professora?
— Meninos não casavam com meninos...
— Pois não.
— Então como tiveram filhos?
— Ah... se calhar casavam com macacas!

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Tudo termina em pizza

A expressão surgiu no Brasil, nos anos 60, após uma acirrada disputa pelo poder no clube mais representativo da comunidade italiana em São Paulo: o Palmeiras. Ao que consta, a disputa terminou de forma surpreendente, através de um acordo entre as duas partes litigantes, com direito a comemoração numa pizzaria. No dia seguinte um jornal noticiou que tudo terminou em pizza.

Hoje em dia a expressão é de uso corrente no Brasil, em especial para designar a forma como terminam as acusações de falcatruas entre a classe política que, quase invariavelmente, também terminam em pizza.

A pizza é um dos símbolos culinários da cidade de São Paulo, segundo alguns paulistas o lugar onde se come as melhores pizzas do mundo. Pode ser. Mas duvido. Não duvido que seja fácil encontrar-se por esse mundo fora excelentes intérpretes da cozinha italiana, mas nos restaurantes da Itália há sempre qualquer coisa a mais. Refiro-me àqueles detalhes que entram pelas vistas, narinas e orelhas e que nos fazem sentir aquele gostinho muito especial.

Começa pelo cardápio, que é quase sempre extenso até no número de categorias. É difícil encontrar restaurante italiano — na Itália! — que não tenha muitas ofertas em antepastos, primeiros pratos, segundos pratos, contornos, saladas, doces e, no caso do restaurante ter pizzaiolo, pizzas. As saladas são um prato com identidade própria, não sendo consideradas um mero acompanhamento, ao passo que o prato principal normalmente necessita de ser acompanhado por algum contorno.

Devo admitir que nas minhas primeiras visitas à Itália me sentia relativamente perdido perante tanta e tão variada oferta. Como conjugá-las e, principalmente, como conseguir manter a minha linha esbelta eram os grandes dramas. Para simplificar, a minha escolha quase sempre terminava em pizza.

Nos tempos que correm já consigo obter bons resultados nas escolhas, mesmo quando invisto nas outras componentes do cardápio. No entanto, as pizzas continuam a ser o meu alvo predileto. Encontram-se normalmente catalogadas numa extensa lista com variados sabores e ingredientes, mas sem os exageros do Brasil, onde ingredientes como a carne seca, o frango, a banana, o chocolate ou a goiabada terminam em pizza, ou a tradição estadunidense disseminada pelo mundo, onde até o ketchup termina em pizza.

Julgava eu que a Itália ainda era o último reduto dos bons costumes na tradição pizzeira, mas nesta minha última estadia fiquei com sérias dúvidas quanto a isso. E não surge a minha desconfiança com base em alguma avaliação fortuita de uma pizzaria de inspiração americana, pois dessas por cá ainda não há. Surge com base em alguns restaurantes tradicionais de pequenas cidades da região de Friuli-Venezia Giulia — desconfio que o fenómeno possa ser mais geral —, onde já por diversas vezes me deparei com pizzas de... imagine-se... batata frita! Não só as confecionam, como ainda as anunciam com destaque e honra de entrada do restaurante. É mesmo caso para dizer que tudo termina em pizza. Até a batata frita!

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Hoje é o dia...


Hoje é o dia em que milhares de portugueses começam a sentir nos seus rendimentos o roubo legitimado por um governo eleito com base numa campanha eleitoral mentirosa, liderado por um aldrabão que, três meses antes de ser eleito, qualificou como um disparate aquilo que uns dias após a eleição adotou como medida imprescindível.

Hoje é o dia em que o orçamento familiar de muitos portugueses sente a amputação imposta por um governo liderado por um sujeito que apregoa o esforço, mas ascendeu na vida com base no compadrio e na capacidade de colar cartazes, terminando a sua licenciatura aos 37 anos de idade.

Hoje é o dia em que o estado português trai a confiança de muitas pessoas que se esforçaram desde cedo, estudaram com afinco, foram além das suas obrigações, deram aquele passo que só os mais capazes e esforçados conseguem dar, chegaram mais alto com base no mérito, passaram em concursos não padecendo das mesmas moléstias que assolam os apadrinhados pelo poder.

Hoje é o dia em que os corruptos à solta ainda se banqueteiam com a elite política, alheios aos malefícios de uma crise que toca a todos menos a alguns, doa a quem doer exceto a quem nunca dói.

Hoje é o dia em que o país fica efetivamente mais pobre, porque pune muitos dos mais competentes, sem demonstrar a mesma eficiência na eliminação dos parasitas!

terça-feira, 19 de junho de 2012

A comunhão solene do rapaz

Inesperadamente, o Miguel Prodome bateu com a mão na testa e exclamou: «A comunhão do rapaz!». Os seus companheiros dirigiram-lhe imediatamente olhares apreensivos. Então o Miguel Prodome expressou-se de forma mais clara: «Não vou poder jogar no domingo de manhã por causa da comunhão solene do meu rapaz!»

Fez-se silêncio no velho café do Tónio da Bininha. A euforia que tinha percorrido as expressões daqueles homens desde a vitória na meia-final do torneio inter-freguesias dava agora lugar à preocupação. Grande preocupação.

Se fosse outro qualquer, ainda se arranjava subsitituto, mas o Miguel Prodome? O Prodome era insubstituível! Era ele o garante da inviolabilidade das redes, a pedra angular, a base sobre a qual assentava toda a estratégia daquela equipa que tão boa conta de si tinha dado no imaculado percurso até à final.

Do lado de lá do balcão, o Tónio da Bininha — beneficiário maior das celebrações vitoriosas da equipa da freguesia — ainda ousou perguntar:
«Tens mesmo que ir?»
Ao que o Miguel Prodome prontamente respondeu:
«Tenho... tenho... Já tive que aturar a Guida por ter faltado a algumas missas!»
«Então lá terá que ser...» — disse aparentemente resignado o Tónio da Bininha.

No dia da comunhão solene, de manhã bem cedo, a Guida recebeu um telefonema. A comunhão iria ter que ser adiada, pois o padre não estava bem de saúde: passara a noite com as calças na mão por causa de um desarranjo intestinal. Pelos vistos, caiu-lhe mal uma francesinha que comeu de véspera no café da Bininha.

O Miguel Prodome estava liberado para a grande final! Deus escreve direito por linhas tortas, pensaram alguns dos seus companheiros de equipa. Mas sem muita convicção da intervenção divina.