quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Tamanhos

Os benefícios em termos psíquicos decorrentes da prática de qualquer atividade artística são sobejamente conhecidos e cientificamente reconhecidos, podendo esses benefícios ser obtidos de modo direto, através da libertação psíquica do indivíduo no processo de criação, ou de modo indireto, aproveitando a criação artística como veículo para o autor desabafar sobre os seus vícios/prazeres menos confessáveis, sem que daí advenha grande comprometimento para si.

Na arte da escrita, o aproveitamento de forma indireta é bastante frequente. Um dos subterfúgios mais utilizados nessa arte ficcionada — por vezes só aparentemente — consiste na criação de personagens: querendo o autor abordar um tema delicado sem qualquer tipo de comprometimento para a sua postura, inventa um personagem para dar o corpo ao manifesto e manchar o seu — do personagem — bom nome com posições menos recomendáveis — que, no fundo, são as do autor.

Não me parecendo verdade que os textos que aqui tenho vindo a publicar possam ser considerados arte, também não me parece menos verdade que se tratam de escrita. E mesmo sem arte, os efeitos psicoterapêuticos têm sido evidentes. Sinto-os.

É isso que aqui farei mais uma vez, com variante de que desta vez o confesso.

Avancemos então com um nome para o nosso personagem: Amâncio. Para começo de conversa, coloquemos o Amâncio a meditar sobre um dos seus maiores vícios/prazeres. E dêmos um indício sobre o rumo que a exposição pode levar, deixando o nosso personagem a recordar uma velha máxima brasileira que assegura que «tamanho não é documento». E talvez nem seja.

Mesmo sem acesso a dados estatísticos que o confirmem, o Amâncio sabe que em Portugal sempre houve grande moderação quanto à preferência pelo tamanho. E, pese embora, desde tempos imemoriais as grandes andarem por aí, tem sido nas de tamanho médio que tem recaído a massiva preferência nacional.

O Amâncio, homem muito dado a experimentar dessas coisas pelo mundo fora, recorda-se que parecido com Portugal lhe pareceu ser o Chile — embora com ligeira preferência pelas grandes, especialmente quando partilhadas entre a população estudantil. Mas é bom ressalvar que o Amâncio não teve no Chile uma experiência tão vasta quanto isso para poder tirar grandes conclusões sobre esse país.

Experiência vasta e grandemente prazerosa teve o Amâncio no Brasil, onde em média elas são maiores do que em Portugal — sem, no entanto, chegarem a ser tão grandes quanto as maiores portuguesas.

O que ultimamente tem deixado o Amâncio bastante apreensivo é a constatação de que, tanto no Brasil como em Portugal, há uma acentuada tendência para a proliferação das de tamanho reduzido. Se ainda fosse como na Bélgica, onde as mais pequenas são normalmente compensadas com maior potência e qualidade, ainda menos mal. Mas não, tanto em Portugal como no Brasil, reduzem-lhes o tamanho sem nada lhes acrescentarem em compensação.

Abaixo as minis! Defende o Amâncio, obviamente.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

O absurdo mora ao lado

O Pereira já fez parte do imenso — talvez nem tanto — contingente de homens com tendência para brincar com o fogo (emanante das mulheres alheias). Uma vez levou a brincadeira longe de mais e fugiu de casa, tendo deixado ao abandono a mulher e os filhos. Como nem tudo que reluz é ouro, não tardou muito para que o fogo da mulher alheia se apagasse e, consequentemente, despertasse no Pereira uma profunda, sentida e merecida dose de arrependimento. A mulher do Pereira, que tinha vocação para a santidade, dessa vez perdoou-o.

Perante essa lição de vida, o Pereira transferiu-se para o imenso — agora sim — contingente de homens que não pretende mais do que levar uma vida sossegada em função da mulher e dos filhos. Mas o episódio da fuga e arrependimento deixou as suas marcas no Pereira. A experiência ensinou-lhe — e ele jamais esqueceu — que, ao menor deslize, paixões fortuitas entram de mansinho, destroem felicidades conjugais e depois passam.

Daí em diante, não só o Pereira abandonou certas palavras e atos relativamente às mulheres alheias, como passou também a tentar mantê-las afastadas até dos seus pensamentos. Custasse o que custasse. Esse o grande erro do Pereira: quis levar longe demais o seu esforço. É sabido que em matérias do pensamento a radicalização facilmente gera descompensação. O absurdo mora ao lado.

No escritório onde trabalhava o Pereira todos — elas, principalmente — sabiam da sua conversão ao mundo dos homens que não pretendem mais do que levar uma vida sossegada em função da mulher e dos filhos. E ele parecia feliz nessa nova postura de vida. Até que, aos poucos, começaram a sentir o Pereira padecer dum certo tipo de estranheza — sobejamente conhecida — que consiste em ficar introspetivo o tempo todo.

O Augusto, que tinha uma relação de maior proximidade com o Pereira, foi incumbido de ter uma conversinha com ele. Vai que o Pereira precisava de se abrir. Saíram juntos para o almoço e à primeira palavra de provocação o Pereira abriu-se num lamento:
— Acho que estou apaixonado!
— Como?!
— Uma paixão impossível...
O Augusto deduziu que o Pereira não se referia à madame Pereira.
— Invade-me o pensamento nas situações quotidianas mais simples.
— Relaxa, deve ser coisa passageira.
— De há uns tempos para cá, não há vez em que lave os dentes ou coma um bife que não pense nela!
— Ela quem?
— A Isabel Jonet!

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Exercício especulativo sobre a ociosidade divina


Na minha modesta e pouco fundamentada opinião, a grande riqueza bíblica não reside propriamente nas belas histórias que o texto sagrado conta, mas sim na parte dessas histórias que o texto não conta. Portento de provocação à inteligência humana, as suas inúmeras lacunas são um manancial de pretextos para os amigos da sabedoria especulativa.

Exemplifiquemos.

Parece-me de todo razoável especular que Deus, com a omnipotência que o caracteriza, na sua conceção de mundo tenha gizado um plano bastante diferente daquele que é costume ser contado na transmissão do pensamento religioso — vulgo fé. E faço esta afirmação sem qualquer tipo de contradição com o texto sagrado, obviamente. Faço-o entre as lacunas do texto.

O plano inicial de Deus não teria sido propriamente trabalhar seis dias e descansar ao sétimo — repetindo-se daí em diante o ciclo com periodicidade semanal —, mas sim trabalhar seis dias e descansar para todo o sempre. Ao sétimo, ao oitavo, ao nono... Deus todo-poderoso e perfeito teria pensado, para a infindável sequência dos dias, em algo muito melhor do que a eterna azáfama de ter que voltar ao trabalho a cada segunda-feira. No pior dos casos, teria reservado os dias a partir do sétimo para a atividade que mais frutos colhe da ociosidade: a arte.

O problema de Deus foi ter criado um animal chamado Homem — por vezes com h minúsculo. Não só criou um macho manhoso, como ainda lhe arranjou uma companheira que trouxe — ao Homem e a Deus — problemas constantes. Esse o grande erro. Daí em diante tudo foi consequência desse passo mal medido que obrigou Deus a voltar ao trabalho na segunda-feira seguinte para tentar consertar o erro. Milhares de milhões de anos depois ainda tenta consertá-lo sem jamais conseguir. Descansa apenas um dia por semana e quando dá.

É sabido que Deus está em todo lado. Onde houver multiplicação humana, aparece Deus a tentar consertar. Mas em alguns lugares a sua presença é mais visível do que noutros — não nos esqueçamos que Deus, como ser perfeito que é, tem bom gosto e, por conseguinte, prefere frequentar os melhores lugares.

Despertou em mim a ideia de um Deus com vocação ociosa quando há uns anos morei em Salvador da Bahia. Ali, onde o tempo flui mais devagar e os sabores são mais intensos. Ocorreu-me esta conceção divina num momento — felizmente não único — em que, deitado numa rede, saboreava a brisa marinha e observava uma linda morena — ou talvez ao contrário, já não me lembro. Nesse preciso momento, pela primeira vez na vida senti-me impelido a especular que um Deus que deixou espalhados pelo mundo verdadeiros hinos à ociosidade, só pode ter uma profunda inspiração ociosa.

Outra vez em que voltei, de forma mais intensa que o normal, à atividade especulativa sobre a inspiração ociosa de Deus — veja-se a coincidência — foi numa visita ao Alentejo — a Bahia lusitana. Também aí, onde o tempo flui mais devagar e os sabores são mais intensos, constatei com clareza uma maior presença de Deus. Mais concretamente em Arronches, depois de me lambuzar nuns maravilhosos pezinhos de coentrada, regados com um excelente tinto da terra, excelentemente rematados por uma sericaia. Depois desse manjar divino, recostei-me numa árvore e entrei em profunda atividade especulativa sobre a natureza ociosa de Deus. Já mais do que especulação: praticamente com a certeza de que é em lugares como esse que Deus mais tempo passa! Para dar largas ao seu desejo oculto de ociosidade, obviamente.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

O linguista

Disse Millôr Fernandes que um escritor só é realmente famoso quando os seus erros de linguagem passam a ser considerados regras gramaticais. Não me ocorrem estas palavras a propósito de um escritor, dado que sobre o personagem que aqui vou considerar não tenho informação de quaisquer registos escritos, mas sim sobre esse orador — cuja máxima de Millôr Fernandes também se aplicará, acredito — que dá pelo nome de Passos Coelho e que, num dos seus últimos discursos, avançou com uma ousada proposta de "refundação" do memorando com a troika — ou do estado português... ou lá que diabo queria ele refundar...

Perante a imprecisão — ou vacuidade? — da proposta, muitos foram os comentadores e analistas que se debruçaram sobre as enigmáticas palavras de Passos Coelho, especificamente sobre a palavra "refundação" — que o meu corretor ortográfico continua a sublinhar a vermelho.

Imbuído do rigor matemático que me caracteriza, antes de tentar descobrir o que Passos Coelho queria dizer com a palavra, fui tentar descobrir o que a palavra queria dizer. Consultado o dicionário online da Priberam, cheguei à conclusão de que a palavra "refundação" não existia e "refundar" tinha um significado que, no contexto, não combinava nada com o que me parecem ser as ideias políticas de Passos Coelho. Mais tarde consultei o meu velho dicionário da Porto Editora e cheguei essencialmente às mesmas conclusões. Ousei até postar um comentário no Facebook:
De acordo com o que me parecem ser elementares regras da língua portuguesa, presumo que "refundação" será o ato ou efeito de "refundar". E diz o meu dicionário que "refundar" tem o significado de "tornar mais fundo, profundar, afundar". Será que Passos Coelho, finalmente, começou a falar verdade ao país? Ou será que Passos Coelho, simplesmente, não sabe o que diz?
Tive até um amigo que gostou! Qual não foi o meu espanto quando, poucos dias depois, um outro amigo me alertou para o conteúdo deste meu comentário, observando que tinha consultado o dicionário online da Priberam e, surpresa das surpresas:
refundação
s. f.
Ato ou efeito de refundar. 
refundar
v. tr.
1. Tornar mais fundo. = AFUNDAR, APROFUNDAR, PROFUNDAR
2. Tornar a criar, a estabelecer algo; fundar novamente.
No espaço de alguns dias, não só a palavra "refundação" ganhava vida própria, como "refundar" adquiria um novo significado. Confesso que se não houvesse aqui e ali outros comentários com o mesmo teor do meu comentário facebookiano, eu ia começar a desconfiar da minha própria capacidade de leitura — ou até da minha sanidade mental, quem sabe. Desta forma, vou apenas achar que a erudição linguística de Passos Coelho tem esse dom de nos enriquecer a língua. Se outra riqueza não consegue criar para o país, pelo menos essa ele consegue. 

Julgo ser da mais elementar sensatez que de futuro eu passe a prestar atenção redobrada às palavras de Passos Coelho. E digo mais: quando tiver tempo vou tentar reinterpretar todos os seus discursos passados. Agradeço desde já à Priberam que inclua no seu dicionário significados ocultos de palavras como "já", "ouvi", "dizer", "que", "nós", "queremos", "acabar", "com", "o", "décimo", "terceiro", "mês", "mas", "nós", "nunca", "falamos", "disso", "e", "isso", "é", "um", "disparate", entre muitas outras. Não acredito que Passos Coelho tivesse utilizado estas palavras com os seus significados mais óbvios. Na minha conceção, o Passos Coelho linguarudo dá lugar ao linguista!

E para que não volte a cair em más interpretações, numa próxima campanha eleitoral só ouvirei Passos Coelho com dicionário na mão. Dicionário da Priberam, claro!

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O futuro das coisas

A Clotilde, a Maria Teresa e a Rosa Manuela conheceram-se há cerca de uma dúzia de anos, quando os seus filhos começaram a frequentar a mesma escola. A forte amizade que logo no primeiro ano nasceu entre os meninos estendeu-se com alguma naturalidade às respetivas mães. Jantares, lanches — muitos lanches — e incontáveis telefonemas selaram a amizade de tal forma que, mesmo agora, com os rapazes já crescidos e seguindo caminhos distintos, as três mães continuam a encontrar-se com alguma regularidade. Os telefonemas já escasseiam, para os jantares não há muito tempo, mas pelo menos um lanche, no começo de cada ano letivo, mantêm como hábito sagrado.

Desde cedo, o filho da Clotilde começou a revelar excelentes aptidões para as Ciências Exatas, o filho da Maria Teresa para as Humanidades e o filho da Rosa Manuela... bem, o filho da Rosa Manuela foi ficando para atrás e tardava em revelar aptidões para o que quer que fosse. Na falta de alguma aptidão especial, foi repetindo anos, com o intuito de tentar melhor descobrir a sua vocação. Assim dizia a Rosa Manuela.

Com os filhos da Clotilde e da Maria Teresa acabadinhos de entrar na universidade, no lanche deste ano conversaram naturalmente sobre as opções recentes e as perspectivas de futuro dos filhos.

— O meu filho entrou para Matemática, em Ciências — disse a Clotilde.
— E como são as perspectivas de emprego? — perguntou a Maria Teresa.
— Já foram muito melhores, mas esperemos que as coisas mudem — respondeu a Clotilde.
— Pois é, esperemos que as coisas mudem — concordou a Maria Teresa.
— As coisas?... Quais coisas?! — perguntou a Rosa Manuela.
— A conjuntura, a situação... — esclareceu a Maria Teresa.
— Ah! — apenas disse a Rosa Manuela.

Após um breve silêncio, a Clotilde dirigiu-se à Maria Teresa:
— E para que curso entrou o teu filho?
— Para Filosofia, em Letras — respondeu a Maria Teresa.
— Complicado, em termos de emprego — afirmou a Clotilde.
— Sempre foi, imagina agora! — acrescentou a Maria Teresa com ar de preocupação.
— Bom, esperemos que as coisas mudem! — concluiu a Clotilde.

Após mais um período — um pouco menos breve que o anterior — de silêncio, a Rosa Manuela interveio:
— É para ver como são as coisas: o meu filho ainda não terminou o secundário, mas eu não estou nada preocupada.
— Nada? — perguntaram admiradas a Clotilde e a Maria Teresa.
— Nada! — reafirmou a Rosa Manuela.
— E o que fará ele sem um curso? — perguntou a Clotilde.
— O que fará eu não sei, mas para lhe garantir um bom futuro o pai já o inscreveu na JS e na JSD! — respondeu a Rosa Manuela. E acrescentou: — E esperamos que as coisas não mudem!

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Bem-vindo ao Faroeste


No domingo passado ouvi o Professor Marcelo propor a realização de um filme, dirigido à opinião pública alemã, sobre os enormes sacrifícios que estão a ser exigidos aos portugueses — abaixo o eufemismo mediático dos «sacrifícios pedidos aos portugueses», pois a mim ninguém me pediu nada!

Suponho que o objetivo de um tal filme é provocar nos alemães a compaixão por este desafortunado povo no extremo mais ocidental da Europa. A ideia não é original e já teve uma primeira tentativa — não sei se muito bem sucedida — com um pequeno filme, contendo alguns chavões e imprecisões históricas, dirigido ao distante povo finlandês. Se é para enveredar novamente por esse caminho, desta vez faça-se a coisa bem feita: lance-se um repto a Brancos, Canijos, Oliveiras, Vasconcelos — e a sua inefável amiga dos peitos — e outros cineastas renomados deste país e realize-se um filme como deve ser! Julgo que a tragicomédia será o género que melhor se adequará ao objetivo, pois terá o mérito de conseguir despertar a atenção dos alemães para os nossos problemas e, simultaneamente, deixá-los bem dispostos — algo recomendável...

Nessa linha, um filme que pode ser levado em conta como inspiração para a obra cinematográfica de resgate da imagem do povo português é a comédia francesa de 2008, Bienvenue Chez les Ch'tis — Bem-vindo ao Norte, em Portugal —, realizada por Dany Boon. Trata-se de um filme que lida muito bem com a questão do deslumbramento do francês típico em relação o sul e o simultâneo preconceito com o norte. Norte e sul de França, no caso. Como seria de esperar, o desdém do personagem principal — e dos espectadores, acredito — pelo norte vai, ao longo do filme, dando lugar a um certo encanto e no final... bom, não quer que lhe conte o final, pois não?

Só a título de curiosidade, refira-se que o filme se tornou a produção francesa com maior sucesso de bilheteira e o segundo filme de sempre mais visto em França. O primeiro continua a ser o Titanic, mas nem queria mencioná-lo neste texto — longe de mim qualquer acusação de mau presságio sobre a realidade portuguesa!

Bienvenue Chez les Ch'tis inspirou já a versão italiana Benvenutti al Sud (Bem-vindo ao Sul). Na Itália, por comparação com a França, há uma generalizada simetria de opiniões quanto a norte e sul. Penso que no caso do nosso filme para os alemães, será fundamental que nos demarquemos da típica imagem de sul da Europa boémia e gastadora. Como também é verdade que geograficamente nos encontramos no extremo mais ocidental da Europa, «Bem-vindo ao Faroeste» será um título que assenta que nem uma luva!

Que alemão poderia sentir compaixão de nós se lhes mostrássemos como imagem portuguesa um Algarve cheio de sol, praia, campos de golfe, mariscadas e boa vida noturna? Praticamente nenhum. Que me perdoem as gentes trabalhadoras do Algarve, mas proponho até que no filme incluamos um algarvio no papel de vilão da história. Por exemplo, um sujeito com aura de político sério, mas que, eleito primeiro ministro, esbanje recursos europeus sem grande critério, dizime a agricultura e as pescas e se rodeie de um bando de amigos banqueiros que lhe deem grandes retornos financeiros e criem um monstro bancário capaz de deixar o país atolado. Para acentuar o tom de tragicomédia da película — e ilustrar a má sorte dos portugueses —, pode-se até fazer com que tal personagem algarvio ascenda ao lugar de figura maior do estado português.

Demasiado ficcionado? Talvez. Mas não esqueçamos que o objetivo de um tal roteiro cinematográfico é tentar convencer os alemães que somos um povo trabalhador, apenas muito mal governado. Como num passado não muito distante eles elegeram presidente um tal de Adolf Hitler, não será difícil aceitarem essa nossa história mirabolante e desafortunada como verosímil.


quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O catalisador

Dois amigos conversam sobre o impasse na vida sentimental de um deles.
— Estamos em ponto morno.
— Em ponto morno?
— Sim. Não aquece nem arrefece.
— Tu e a Nini já namorais há demasiado tempo!
— Pois, desde a adolescência...
— Precisais de um catalisador.
— De um quê?!
— De um catalisador. Algo que provoque reação. Um ingrediente extra.
— Talvez... Mas o quê?
— Deixa ver... A Nini é ciumenta?
— Já foi. Agora nem isso para aquecer!
— Então há que provocá-la.
— Mas como?
— Há diversas possibilidades. Vamos pela mais simples: convives com amigas da Nini?
— Várias.
— Alguma especialmente interessante?
— A Odete!
— Como é essa Odete?
— Um espetáculo! Bonita, inteligente, carinhosa...
— Namora?
— Há tempo que não.
— Então vai ser ela o catalizador.
— Como?
— Faz-lhe uns elogios à frente da Nini. Mostra-te deferente com a Odete. Enaltece-a. Se ela retribuir um pouco, melhor ainda!
— Achas que isso resulta?
— Não sabes como são as mulheres!

Passadas algumas semanas.
— Então, resultou?
— Nada!
— Porquê?
— Vê o meu azar: logo depois que conversei contigo, fui encontrar-me com a Nini. Imagina a primeira coisa que ela me disse.
— O que foi?
— Que a Odete começou a namorar!
— E daí?
— Desde então a Odete nunca mais esteve connosco; não pude catalisar ciúme nenhum!
— Catalisavas com outra, pá! Não convives com outras amigas da Nini?
— Conviver convivo, mas com nenhuma como a Odete! A Odete é realmente muito especial. Vê-la e ouvi-la é deleitar os sentidos! E as formas? E a forma como se expressa? Tão harmoniosa e perfeita como um noturno de Chopin num quadro de Renoir. Ando triste só de pensar que caiu nos braços de um fulano!

O amigo não disse mais nada. Ficou a pensar. Sentindo-se, ele mesmo, um catalisador.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Considerações em abstrato

«A única desculpa para se fazer uma coisa inútil 
é admirá-la imensamente. Toda a arte é inútil»
Oscar Wilde

Havia já alguns anos que não vendia — apesar de me pagarem cada vez menos, ainda sou pago — aulas a alunos do primeiro ano de uma licenciatura. Talvez fruto de um mundo assustadoramente imediatista, noto esses alunos cada vez mais vocacionados para a aquisição de rotinas na resolução de exercícios e pouco recetivos para aquilo que a Matemática lhes pode transmitir de melhor: a arte de (bem) pensar. Não se tratando, obviamente, de uma característica exclusiva da área, é inegável que a Matemática é especialmente apetrechada para fazer desenvolver nos alunos a capacidade de pensar em abstrato e aprimorar o pensamento lógico-dedutivo. E, sejamos objetivos, por muito que se tenha apego a grandes números, gráficos ou fórmulas aplicadas, ainda é com base no pensamento humano que se dão os maiores avanços no conhecimento.

Excetuando raras e honrosas exceções, por maior que seja o gosto e o contacto com a Matemática no ensino secundário, é apenas na universidade que os alunos se deparam pela primeira vez com aquilo a que verdadeiramente se poderá chamar de uma prova matemática. Parece-me ser esse um aspeto que não pode nunca ser descurado na formação de um aluno nesta fase. A mudança de paradigma quanto à forma como deve ser encarada a Matemática exige também dos professores uma certa perseverança, especialmente quando se trata de alunos já com o pensamento formatado em moldes que menorizam o pensamento abstrato. Não se tratando de alunos de uma licenciatura em Matemática, maior é a renitência para a aceitação de aspetos teóricos ou conceitos mais abstratos da Matemática.

Utilidades e necessidades à parte, por mais fantástico que seja um resultado em si, reside frequentemente na explanação das ideias em torno da sua prova uma beleza que muitas vezes só encontra paralelo na arte.

Longe de mim querer comparar o meu sorriso ao da Julia Roberts — e perdoem-me se vislumbram em mim tal heresia! —, mas ocorre-me a propósito destas considerações uma associação com o filme «O Sorriso de Mona Lisa», no qual Julia Roberts desempenha o papel de uma professora de arte numa universidade americana nos anos 50 do século passado. Não sendo eu um especialista em cinema que possa basear as minhas opiniões em padrões de grande erudição cinematográfica, os filmes quase sempre me fascinam por pequenos detalhes. Um diálogo, uma sequência de imagens, uma trilha sonora ou um bom desempenho verbal ou corporal — especialmente feminino — são os aspetos que frequentemente me fazem reter um filme na lembrança. 

No caso específico de «O Sorriso de Mona Lisa», há vários pontos de interesse: os questionamentos sobre o que se pode considerar ou não arte, sobre o que é ou não boa arte ou até mesmo sobre o sentido da formação universitária na vida de uma mulher naquela época. Marcou-me especialmente um pequeno diálogo entre a professora e as suas alunas, quando estas foram apresentadas a uma enorme tela de Jackson Pollock:
— Por favor, não me diga que temos que escrever uma redação sobre isto, — diz com desdém uma das alunas, transmitindo o que parecia ser uma opinião generalizada. Ao que a professora contrapõe:
— Façam-me um favor. Aliás, façam um favor a vocês mesmas: parem de falar e olhem! Não é exigido que escrevam uma redação. Nem tão pouco é exigido que gostem dele. O que é exigido é que o considerem!

Aí mesmo reside um dos pontos importantes de tudo isto. Independentemente do gosto, da necessidade ou da utilidade que possam ter, há certas coisas que, em algum momento da nossa formação, deveríamos ser levados a considerar.

Eu mesmo, só muito tardiamente fui levado a considerar as pinturas de Jackson Pollock. Tardei, mas felizmente cheguei a um dos pintores que hoje em dia mais me apraz. A tal ponto de, na minha última visita a Nova Iorque, ter gasto parte significativa das minhas quatro ou cinco horas no MoMA a considerar várias telas de Pollock. E cheguei até ele por linhas muito travessas: através do trabalho de Richard Taylor, um físico australiano, no qual é estudado a evolução da dimensão fractal das pinturas na fase gotejada de Pollock, deixando em evidência a crescente complexidade no emaranhado dos seus traços. Grandes reflexões surgiram na época sobre a intencionalidade dessa crescente complexidade. Em particular, uma associação com a Teoria do Caos, que na época debutava como teoria matemática, levou a revista Time a publicar uma matéria sobre o trabalho de Pollock intitulada «Chaos, damn it!». Curiosamente, esse mesmo Caos que hoje em dia é frequentemente utilizado como chamariz para diversas exposições matemáticas, foi na época utilizado de forma bastante pejorativa. Ao ponto de Pollock ter publicado na mesma revista uma resposta sob o título «No Chaos, damn it!».

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Imaginação e sensibilidade


«Nas mulheres, a imaginação e 
a sensibilidade sobrelevam a lógica»
Marie de Vichy-Chambord

Diálogo entre duas amigas num fim de tarde em frente ao mar:
— que bom estar aqui
— e ter um homem em casa
— que vai buscar as crianças ao infantário
— e dá-lhes banho
— e a sopinha
— e deita-as para dormir
— e prepara um bom jantar
— e um banho de sais com espuma
— e dá-me banho
— e comemos
— e volta a dar-me banho

«Outro banho?!», pensa a amiga com ar de intrigada. Diz «ah, sim!» e prossegue:
— e jantamos
— e arruma a cozinha
— e chama-me para dançar Cheek to Cheek
— e recita a Elegia XIX de John Donne
— e massageia-me antes de dormir
— e acorda mais cedo
— e prepara o pequeno-almoço
— com crepes caseiros e sumo de laranja espremida
— e leva o pequeno-almoço à cama
— e acorda-me com um beijo
— e desperta as crianças
— e dá-lhes banho
— e o pequeno-almoço
— e leva-as para a escola

Ficam alguns segundos em silêncio.
— o teu homem é assim?
— não, e o teu?
— também não
— achas que há algum homem assim?
— acho que não
— pois...
— está na hora de irmos buscar as crianças!

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O amor à porta

A interdição de fumar em bares e restaurantes foi interpretada pelo Matias, que fuma, como uma excelente oportunidade para as suas investidas de homem faminto. Por força das circunstâncias, rapidamente descobriu que a porta de alguns bares e restaurantes tinha passado a ser o local mais apropriado para a prospeção de comida.

Foi assim que conheceu a Lurdinhas. Antes ainda do Matias se ter levantado para ir à porta fumar — depois que a viu a Lurdinhas fazer o mesmo —, já os olhares deles se tinham cruzado dentro do restaurante. Inevitavelmente, também as palavras se cruzaram à porta do restaurante. Fluíram de tal forma que o Matias e a Lurdinhas acabaram por fumar vários cigarros de uma assentada antes de retornarem às respetivas mesas. E no telemóvel de cada um veio já registado o contacto telefónico do outro e fotos tiradas para anexarem aos contactos.

Além do vício comum pelo tabaco, nessa mesma noite começaram a desenvolver o vício um pelo outro. Três dias depois — praticamente dois, se levarmos em conta que as primeiras palavras foram trocadas à porta do restaurante já perto da meia-noite— já estavam a morar juntos. A química da nicotina fez disparar a química do amor. Um caso flagrante de amor à primeira vista — ignorando o detalhe dos olhares do Matias e da Lurdinhas já se terem cruzado no interior do restaurante, claro está.

Nove meses depois nasceram gémeos. Um menino e uma menina. Nicolau e Albertina. Nico e Tina, mais carinhosamente. Asseguram que os nomes surgiram de forma natural — tão natural como o amor instantâneo que os uniu — como consequência de gostos surpreendentemente coincidentes, mas há quem note nas escolhas implícita homenagem à substância viciante que os aproximou.

Um mínimo de respeito pelo Nico e pela Tina fez com que, após os nascimento, o Matias e a Lurdinhas tivessem deixado de fumar dentro de casa. Passaram a fumar à porta do prédio. Ou, quando achavam que ouvir os impropérios do vizinho de cima era menos incómodo do que ter que descer até à porta do prédio, fumavam à janela.

Moral da história: esta história não tem moral nenhuma! Chega a ser um péssimo exemplo para os mais jovens, pois deixa em evidência vantagens sentimentais provenientes do vício do tabaco, menciona — ainda que ao de leve — caso de dependência humana e, como se isso não bastasse, ainda descreve — sem qualquer tipo de censura — situação comportamental que dá origem a má convivência entre vizinhos!

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Oportunidades oportunísticas

O atual primeiro-ministro português disse há uns meses que o desemprego podia constituir uma excelente oportunidade para mudar de vida. E pode. Só não deixou claro se considerava a oportunidade excelente para aqueles que caíam no desemprego. Desconfio que não.

O facto não é novo. Os abutres, por exemplo, vêem numa carcaça uma excelente oportunidade para algo tão básico como a sua própria sobrevivência. Também os trágicos acontecimentos do 11 de setembro de 2001 constituíram uma excelente oportunidade para as entidades responsáveis pela gestão de aeroportos aumentarem de forma absurda as taxas aeroportuárias. Supostamente, por causa dos encargos inerentes a regras de segurança mais apertada.

Teoricamente aceitável. Quanto à prática, talvez eu não esteja a ver bem o problema — é até bastante provável que tenha uma mente demasiado maquiavélica—, mas sempre que transito em aeroportos fico com a sensação de que as tais regras de segurança mais apertadas são muito incómodas — e onerosas — para passageiros inofensivos e continuam a ser facilmente contornáveis por sujeitos mal intencionados.

Ora vejamos. Após o 11 de setembro ficou interditado o transporte na bagagem de mão de objetos que possam constituir ameaça à integridade física da tripulação. Em particular, canivetes, tesouras, corta-unhas e limas estão liminarmente proibidos. Contudo, apesar de uma garrafa de vidro bem quebrada e segura pelo gargalo poder constituir uma arma mais eficiente do qualquer uma das armas brancas que eu acabei de citar, elas continuam a ser vendidas em qualquer aeroporto que se preze. Sim, eu sei que o negócio das bebidas e perfumes em aeroportos é muito rentável e não deve ser afetado. Deve-se zelar pela segurança, mas sem prejudicar a atividade económica!

Nestas questões de controle aeroportuário, assim como em qualquer sistema de regras muito restritivas, dependendo da rigidez de quem controla, podem facilmente surgir situações absurdas. Uma das que presenciei foi no aeroporto de Lisboa, no rastreio da bagagem de mão para um embarque rumo ao Porto. Passou-se em meados da década passada, portanto, já uns anos depois do traumático — especialmente para os noviorquinos — 11 de setembro. Uns metros à minha frente, uma senhora mostrava-se indignada com um segurança totalmente inflexível: a senhora não podia embarcar com um pequeno pote — talvez acima dos 100ml permitidos para líquidos — de creme das mãos. Não bastava à senhora que aquilo fosse considerado líquido perigoso como, dizia ela, «venho de Nova Iorque e lá ninguém implicou com isto!»

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

P C de A a Z

Aldrabão
Batoteiro
Covarde
Demagogo
Enganador
Falso
Galãzinho
Hipócrita
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quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Três príncipes tristes

Durante a semana passada estive na província espanhola que dá nome ao título do príncipe herdeiro da coroa real — as Astúrias. Apesar de lá, como cá, a crise e as medidas de austeridade estarem na ordem do dia, grande destaque noticioso nos média espanhóis estava a ser dado ao nosso príncipe. Não, não estou aqui como português em estado de orfandade monárquica ansiando por uma coroa, num assomo de patriotismo transibérico, a referir-me ao Príncipe das Astúrias. Refiro-me, isso sim, ao Príncipe de Madrid, aquele que vende os pontapés que dá numa bola a peso de ouro e anda triste. Serviu a tristeza do Príncipe de Madrid para que amigos espanhóis, num momento de alguma erudição literária e bom humor, me tivessem dado a conhecer (parte de) um poema de Rubén Darío:
«La princesa está triste..., ¿qué tendrá la princesa?
Los suspiros se escapan de su boca de fresa,
Que ha perdido la risa, que ha perdido el color.
La princesa está pálida en su silla de oro».
Na viagem de volta ao Porto, já em território nacional, tive a oportunidade de seguir, via rádio, o discurso de outro príncipe português: o de Massamá. Esse discurso — horas mais tarde complementado com umas notas tristes na sua página do Facebook — provocou-me também uma associação literária: «O Príncipe Sapo», dos irmãos Grimm. Não duvido nada que, volvido pouco mais de um ano sobre a eleição do aperaltado e bem-falante Príncipe de Massamá, muitos dos seus eleitores o vejam agora como uma espécie de personagem dos irmãos Grimm, mas evoluindo ao contrário: se no famoso conto de fadas é o sapo que se transforma príncipe, neste nosso triste conto de fadas — ou de fados, quem sabe, talvez até com as vogais trocadas — é o Príncipe de Massamá que se transforma em sapo.

Num pequeno aparte, o meu pedido de desculpas a todos os sapos por esta infame associação, pois não vi até hoje na literatura científica nenhum relato sobre a existência de sapo aldrabão, prepotente ou cínico.

Voltando ao conto dos irmãos Grimm. Tanto quanto sei, a versão atual está um pouco polida em relação à original. Na versão original o sapo não se transformava em príncipe quando a princesa lhe dava um beijo, mas sim quando o atirava contra uma parede. Penso que no caso do Príncipe de Massamá, e para que se dê sequência ao triste conto de fadas ao contrário, é chegada a hora dos seus eleitores o atirarem contra alguma parede para que ele encarne na sua condição de sapo. E, para que de futuro não tenhamos que engolir muitos sapos, que se guarde como lição deste conto de fadas ao contrário, que por debaixo de um príncipe de falas mansas, sorrisos simpáticos e cabelos bem pinteados pode estar um tremendo sapo.

Nestas minhas alusões a príncipes, ilusões e tristezas do Portugal contemporâneo, não podia deixar de fazer uma breve referência ao Príncipe de Paris. Aquele que, após seis anos nos quais nos enredou em complexas teias de engenharia civil e financeira, resolveu recolher-se para estudos filosóficos em Paris. Tem estado adormecido, mas imagino que também esteja triste. E já que o momento é de associações literárias, o que me ocorre quando penso no Príncipe de Paris é «A Bela Adormecida Vai à Escola», de Torrente Ballester.


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Não é nada do que você está a pensar!

É certo, sabido e quase universalmente aceite que o sofisticado sistema de desconfiança feminino não necessita de muitos indícios — por vezes nem de indícios necessita — para lançar os seus primeiros sinais de alerta. No caso da Laurinda, bastaram duas perdizes depenadas. Viu-as nas mãos do Rolando, chegando de mais um fim de semana de caça no Alentejo, que lhe disse enquanto as exibia:
— Não é nada do que você está a pensar!
(Convém aqui assinalar que o Rolando e a Laurinda formavam um desses casais requintados da capital que se tratam por você). Nem a Laurinda sabia ainda ao certo o que estava a pensar e já o seu sistema de desconfiança dava um primeiro sinal de alerta.

Todavia, o Rolando tinha uma explicação para as perdizes que daquela vez apareciam já depenadas: a dona Ilda, proprietária da casa onde costumavam pernoitar ele e o Pina — eterno companheiro dos fins de semana de caça —, prontificara-se para depenar as perdizes que ambos tinham caçado, e eles, por cortesia, aceitaram. Com esta explicação o índice de desconfiança da Laurinda baixou um pouco, mas nem por isso voltou ao desejável nível zero. Obviamente.

Tempos depois sugiram novos indícios: espetadas nas perdizes — que nunca mais voltaram a chegar com penas em casa — a Laurinda detetou as chapinhas metálicas de algum controlo de qualidade. Sem ter reparado nesse detalhe — e, por conseguinte, sem ter pensado numa explicação —, e antes que a Laurinda pensasse coisas, o Rolando mais uma vez se adiantou:
— Não é nada do que você está a pensar!
— Que explicação tem para isto? — questionou a Laurinda em evidente tom de desagrado.
O Rolando hesitou por breves instantes e, ainda que de forma insegura, avançou com uma possível explicação:
— Isso deve ser coisa dos ecologistas!
— Dos ecologistas?!
— Sim! Não andam por aí a catalogar tudo que é animal selvagem?
— E a dona Ilda?
— A dona Ilda o quê?
— Não tirou as chapinhas?
— Se calhar teve receio de desrespeitar a catalogação ecológica.
— Rolando, Rolando, não tente enganar-me!
— Não tento enganar nada, estou apenas a tentar encontrar uma explicação.

No fim-de-semana seguinte a Laurinda agiu. Quando na sexta-feira, ao fim do dia, o Rolando saía da garagem do prédio onde moravam, ausentado-se para mais um fim de semana de caça, a Laurinda entrava num táxi que já a esperava em frente à porta principal do prédio, e pedia ao taxista para seguir o carro do seu marido. O sentido de orientação nunca foi um ponto forte da Laurinda, mas ela jurava que se o destino era o Alentejo, no nó de Sacavém deviam tomar a direção da ponte Vasco da Gama, nunca a direção oposta!

Cerca de meia hora depois o Rolando parava o seu carro em frente à casa de praia do Pina, na Ericeira. E o táxi que transportara a Laurinda parava umas dezenas de metros atrás. Depois que o Rolando entrou na casa, a Laurinda saiu do táxi.

Finalmente tudo ficara claro para a Laurinda: era aqui, na casa de praia do Pina, que o Rolando passava os fins-de-semana; era aqui, na casa de praia do Pina, que certamente se davam encontros íntimos de elevado grau, sabe deus com que espécie de mulheres! A Laurinda devia ter desconfiado — o sistema de desconfiança feminino é sofisticado, mas não é infalível — que, depois de divorciado, o Pina podia tornar-se uma má influência para o Rolando.

A Laurinda conhecia bem aquela casa dos tempos em que ela e o Rolando passavam fins de semana com o Pina e a sua ex-mulher. Entrou no jardim e foi, pelas traseiras, espreitar à janela da cozinha. Lá viu, de costas, uma mulher com longos cabelos loiros e sapatos de tacão alto. E junto a essa mulher, em clara situação de comprometedora proximidade íntima, o Rolando. A Laurinda respirou fundo e entrou na cozinha. Ao aperceber-se da inesperada aparição da mulher, o Rolando imediatamente disse:
— Não é nada do que você está a pensar!
E não era, de facto. Só uns segundos depois a Laurinda se apercebeu que debaixo dos longos cabelos loiros e em cima dos sapatos de tacão alto se encontrava o Pina.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Português de férias

As férias foram ótimas. Tivemos um ligeiro atraso no voo da ida, mas o lounge da companhia aérea era muito bom — é por essas e por outras que evito viajar em charter ou low cost. Isto de ter o frequent flyer na categoria silver — quem sabe um dia chego a gold! — também tem as suas vantagens. Além do acesso ao lounge, o check-in é muito mais rápido e nunca se tem problemas com overbooking.

Compramos viagens, hotel e carro tudo num pack. Agora há sites com links para todas essas coisas. Quando chegamos lá foi só apresentar na rent-a-car o voucher que me foi enviado por email, pegar o carro no parking e sair. Nem precisámos de utilizar o serviço de transfer do shuttle para o hotel. Por sorte, fizeram-nos upgrade para um carro com GPS, bluetooth, cruise control e entrada USB para o iPod! Carro diesel.

Tivemos um pequeno contratempo no primeiro hotel. A culpa foi minha, pois por engano reservei quarto single em vez de double. Mas logo me deram a escolher entre uma suite ou um quarto com camas twin e o problema ficou resolvido. Procedimento standard.

Por lá vimos vários shows, alguns em festivais alive. Quando não eram free íamos à net e comprávamos tickets online com o cartão de crédito. Numa das vezes tive problemas no checkout para o pagamento e liguei para o call center. Disseram-me que provavelmente era falta de crédito no cartão. Entrei no moblie banking e constatei que era mesmo. Resolvi facilmente o problema aumentando o plafond do cartão.

Só ficámos em hotéis com wifi, é claro. Fomos fazendo upload de fotos e vídeos para o Facebook e o Google+ através do smartphone ou do tablet — muito mais práticos do que laptops ou notebooks. Fiz download da app de um VOIP que permitia fazer voice calls para a família praticamente free, mas muitas vezes ficávamos só no chat do messenger. Nada de roaming. 

Conhecemos restaurantes fantásticos. Alguns gourmet, outros muito in com bastante glamour, mas por vezes até apetecia coisa mais light. Uns snacks e pronto. Não somos preconceituosos com a fast food. Quando andávamos mais de carro, passávamos nalgum drive-in e levávamos comida para o hostel. Nesses dias não exigimos nada de muito chique, um bed & breakfast está OK. Claro que em dias de descanso não dispensamos um bom resort. De preferência com bungalows.

Quanto a roupas, praticamente só bermudas, shorts, T-shirts e polos. Blazers ou pullovers não combinavam com o clima informal e quente. Antes de viajar comprámos peças a ótimos preços no stock-off de um outlet numa megastore do shopping center perto de casa.

Desligamos de tudo isto por cá. Nada de jornais online nem TV — a dependência do router e da box é uma coisa terrível. Não quisemos saber de troikas, rentreés políticas nem jobs for the boys. Ou girls. Em suma, esquecemos o rating da nação e aproveitámos a vida!

Aqui em off: estamos a pensar vender o nosso velho jeep e comprar um carro igual ao da rent-a-car. Em leasing. Tem um design fantástico. Especialmente o tabelier e o capot.  Já passamos no stand da marca e vimos um bordeaux no showroom lindo. Nem precisamos do test drive. Claro que queremos o kit com todos os extras!

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Velocidade relativa

Há dias fiz uma viagem de carro do Porto a Lisboa e vice-versa. Durante o percurso lembrei-me de uma pergunta — em jeito de anedota — que ouvi há uns anos: quais os dois países da Europa cujas autoestradas não têm limite de velocidade? Sendo a resposta — também em jeito de anedota — a Alemanha e Portugal. A Alemanha, porque efetivamente em grande parte das suas autoestradas não há lei que estabeleça limites para a velocidade; Portugal, porque praticamente ninguém cumpre os limites estabelecidos por lei.

Sobre o que a anedota contém de verdade em relação aos restantes países da Europa nada posso atestar, pois não conheço os hábitos de cada povo nas autoestradas de todos os países europeus. No que toca aos portugueses, ninguém duvide que a anedota é puro reflexo da nossa realidade: na tal viagem do Porto a Lisboa e vice-versa coloquei o cruise control do meu carro no limite de 120km/h e não exagero muito se disser que, nos cerca de 600km percorridos, ultrapassei uma meia dúzia de veículos pesados — não eram muitos, pois tratava-se de um fim de semana — e fui ultrapassado por um sem número de veículos ligeiros. Muito ligeiros. Poderia até jurar que alguns deles passaram por mim a uma velocidade — relativa à minha, obviamente — muito próxima dos 120km/h!

Numa primeira tentativa de explicar o fenómeno, poderia avançar com a teoria de que os portugueses correm apressados para tirar o país da crise. Infelizmente, tal não me parece verdade, pois os automobilistas portugueses já conduziam assim quando Portugal era um país próspero. Ou então, que os portugueses, quais parisienses ou novaiorquinos, vivem num frenesim constante. Teoria respeitável, mas, feliz ou infelizmente — ainda não me decidi —, facilmente refutável. Para tal, basta colocar os pés numa escada ou tapete rolante de um qualquer aeroporto ou shopping center. Esse mesmo povo que circula a altíssima velocidade nas autoestradas, chega a uma escada ou tapete rolante e estaca. Mais do que isso, bloqueia a passagem de quem necessita de caminhar mais apressado ou quer aproveitar para se deleitar por breves instantes com passadas de gigante. O que deveria servir para aumentar a velocidade, transforma-se assim num veículo de culto à pasmaceira.

Acima de tudo, fica evidente que o gosto dos portugueses pela velocidade é muito relativo. Bipolar. Oscila entre o ronceiro que se deixa levar à velocidade natural das escadas e tapetes rolantes e o apressado que circula nas autoestradas no limite de velocidade do seu próprio carro. Quiçá o problema do excesso de velocidade nas autoestradas nem seja culpa dos condutores, mas sim um capricho congénito dos veículos. É que, apesar de agora estarmos na pindaíba, grande parte dos carros que circulam nas estradas portuguesas ainda é de alta cilindrada e de origem alemã. Esperemos pelo previsível ajuste no parque automóvel para ver no que isto dá.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O Juvenal está mal

O Juvenal é um típico português de classe média. Típico de um certo tipo de típica classe média, numa idade já algo acima da média.

Casou-se cedo, para ajudar a Adelina a libertar-se das amarras de um pai tirano. É certo que o salário da Adelina como professora primária também ajudou o Juvenal a libertar-se de alguns apertos financeiros, mas não mais do que as vezes em que o azar ao jogo ou algum mau investimento o deixaram de mãos a abanar. Em geral, o Juvenal ganhava o suficiente para as suas despesas. Mas tinha uma atividade de alto risco: era negociante.

Tratou sempre bem a Adelina. Em mais de trinta anos de casados nunca lhe levantou a mão. Nem o pé. Mesmo a voz, não a levantava mais do que uma ou duas vezes por semana. E quanto à falta de levantamentos ficamos aqui, pois nunca a Adelina se queixou da falta de quaisquer levantamentos, apesar de uma certa escassez de tempo, decorrente da atividade profissional do Juvenal: era negociante.

Colaborava nas tarefas domésticas. Descia com certa frequência mensal para despejar o lixo e, enquanto a Adelina não tirou a carta de condução, apanhava-a com as compras na porta do supermercado. Não tinha tempo para outras tarefas: era negociante.

Preocupava-se com a saúde da família. Apesar de nunca ter tido tempo para acompanhar ninguém a consultas médicas. O tempo que se perdia em consultórios não era compatível com a sua atividade profissional: era negociante.

Participou ativamente na criação dos três filhos. Chegou ao ponto de ir a uma reunião de encarregados de educação por causa de um deles. Para ajudá-los nos trabalhos de casa recomendava a Adelina: era professora.

O Juvenal afundava no velho sofá em frente à televisão, onde passara parte significativa do seu tempo em casa — que obviamente nunca fora muito: era negociante —, enquanto afogava as mágoas num copo de verde branco e revia em pensamento estes e outros aspetos da sua vida conjugal. Não conseguia entender. Como podia a Adelina querer a separação após trinta anos de um casamento onde lhe parecia que tinham sido tão felizes? O Juvenal está mal. E invade-o um dúvida cruel: terá ele direito a pensão de alimentos?

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O último trago

Chavela Vargas
Há cerca de uma dúzia de anos tive a oportunidade de descobrir o seu canto sublime num disco do Sabina, através do dueto Noches de Boda com seu amigo Joaquinito.

Posteriormente, tive a oportunidade de vê-la participar no filme Frida, onde, numa aparição fugaz, interpreta de forma magistral La Llorona. Deixou assim a sua marca num filme arrebatador, onde convergem de forma deliciosa diversas formas de expressão artística, a uni-las a vida e a arte da intensa Frida Kahlo.

À medida que fui explorando o seu enorme talento como intérprete musical, fui também ficando apaixonado pela sua forma de cantar dramática e visceral. Quanta alma! Eu, que até cresci musicalmente acostumado à intensidade e ao dramatismo do fado, não exagero se disser que por diversas vezes me deixei arrebatar pela sua forma de cantar.

As suas canções passaram a fazer parte da trilha sonora de vários momentos da minha vida. Dentro do iPod que nos últimos anos transporto quase religiosamente nas minhas viagens, sejam elas a pé de casa até ao trabalho, de carro pela Europa ou de avião até ao Brasil ou China, muitas das suas músicas tornaram-se presença indispensável.

Morre agora o meu sonho de poder vê-la espalhar ao vivo o seu talento e arte sobre algum palco deste mundo. Tomou o último trago de uma vida longa e palpitante, mas deixou a uma enorme legião de fãs inúmeros tragos daquela que foi um dia chamada a voz áspera da ternura.